sábado, 23 de abril de 2022

Guerra justa é só a guerra defensiva? A opinião de São Gregório de Tours!

 

Clóvis, rei franco, teve suas guerras ofensivas celebradas por São Gregório de Tours



Diante da operação especial da Rússia na Ucrânia - classificada por inúmeros "analistas" como guerra ofensiva - a consciência católica se pergunta se tal empresa é justa ou não, afinal, via de regra, prevalece a posição de Santo Agostinho que concebe apenas a guerra defensiva como moralmente válida. 


O primeiro ponto a que devemos nos ater é que o conceito de defesa não é tão restrito como alguns imaginam: em certas ocasiões é preciso atacar para não ser atacado, aquilo que, na doutrina militar, chamamos de "ataque preventivo". A operação especial da Rússia na Ucrânia - lembro que não houve uma declaração oficial de guerra - pode ser classificada como ataque preventivo contra a expansão da Otan e a probabilidade de instalação de bases nucleares norte americanas na Ucrânia, colocando a Rússia, e o mundo, em severo risco o que justificaria a medida tomada pelo Kremlin. 


O segundo ponto é que santos como Gregório de Tours, autor da famosa "História dos Francos", chegou a justificar a guerra ofensiva. E aqui precisamos focalizar a biografia que Gregório faz da vida de Clóvis que uniu a tribo dos Francos e se aliou a Igreja, sendo o primeiro rei do Estado Franco. Ao suceder seu pai, Childerico, Clóvis herda o controle de Reims e Tournai. Percebam que Clóvis não se limitou a manter as terras herdadas mas ampliou seus domínios vencendo os turíngios e conquistando Soissons. A tomada de Soissons por Clóvis foi consagrada pelo Bispo local. Depois que Clóvis se converte a fé cristã ele acumula vitórias em guerras ofensivas contra os alamanos e burgúndios, povos bárbaros ainda pagãos. Quando de sua guerra contra os visigodos vai invocar a proteção de São Martinho na Basílica de Tours. Clóvis termina vencedor e é declarado augusto e cônsul. Gregório de Tours vai definir Clóvis como fiel cumpridor da vontade de Deus e que a recompensa pela sua fidelidade era a vitória nas batalhas expansionistas. Gregório usa as seguintes palavras:

"dia a dia Deus entregava seus inimigos em sua mão e aumentava seu reino pois Clóvis caminhava com Deus com coração reto e fazia o que era agradável aos seus olhos".

Percebam que Gregório faz vista grossa sobre a inteira falta de escrúpulos de Clóvis em aumentar seus domínios quanto em executar os seus adversários, inclusive familiares. Sabe-se que Clóvis, para unificar os francos, matou inclusive seus parentes fazendo o sangue jorrar em profusão. Apesar disso Gregório entende que Clóvis não era merecedor de censura pois fez isto tudo para maior glória de Deus já que a expansão de seu reino era, por tabela, a expansão da cristandade católica tanto que depois de sua morte ele é enterrado na Basílica dos Santos Apóstolos e celebrado como um Novo Constantino. 


Logo quando um rei ou chefe é protegido de Deus e faz guerras ofensivas para espalhar o estado sob Deus o ímpeto conquistador parece justificado. Neste caso haveria uma exceção à regra geral de que a guerra defensiva é a única legítima dum ponto de vista cristão. Um caso que nos ajuda a iluminar tal questão é o das Cruzadas: embora ele tenha iniciado sob a justificativa da agressão turca aos cristãos de Jerusalém, ela foi além do objetivo pontual de libertar os locais sagrados da infâmia dos turcos expandindo o domínio cristão sobre toda a Palestina com o Reino Latino de Jerusalém cujos domínios iam de Edessa, passando por Antioquia, Trípoli, Acre e Ascalão. 


Bibliografia

Brown, Peter. El primer milenio de la cristiandad ocidental. Barcelona, Crítica. 

Fletcher, E. The Barbarian Conversion. New York: Henri Holt. 

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A Rússia de Putin é uma ameaça aos católicos?

 







Há muitos católicos temerosos dum neo-expansionismo russo . A alegação é que Putin poderia trazer de volta a práxis político da URSS marcada pela perseguição à religião que foi intensa e, num primeiro momento, atingiu todas as Igrejas: desde católicos a cismáticos “ortodoxos”, passando por protestantes batistas. Em 2008, quando apresentamos nossa monografia no curso de História da UERJ, mostramos como essa estratégia se desenvolveu e evoluiu até ao ponto que Stálin, percebendo a impossibilidade de destruir o sentimento religioso, resolveu favorecer a Igreja Ortodoxa Russa que historicamente vem sendo a religião predominante dos russos. Naquele período a “Ortodoxia” obteve um status de religião tolerada ficando sob forte controle do Politburo. Quando o regime soviético caiu a religião voltou a ter liberdade mas o número de católicos romanos era muito baixo, cerca de quinhentos mil quase todos ligados a minorias étnicas. A queda da URSS trouxe nos países que foram seus satélites, tensões entre o Patriarcado de Moscou e as Igrejas Católicas de Rito Oriental tanto na Criméia, quanto na Ucrânia e Romênia, acusadas pelos cismáticos “ortodoxos” russos de roubar templos e de influenciar cismáticos de outros patriarcados a reconhecer o papa como líder espiritual, coisa que o Patriarcado de Moscou não admite.



Sabemos que desde a ascensão de Putin o Estado e a Igreja Russa vem se aproximando de modo que o Patriarcado de Moscou hoje exibe um status privilegiado dentro do país. Na Rússia atual até os membros do partido comunista – que segue existindo sob a chefia de Zyuganov – se reconciliaram com a religião “ortodoxa”. Zyuganov já disse ao Patriarca de Moscou que o “maior erro dos meus predecessores foi que eles abandonaram a Igreja”. Logo, podemos ver um reencontro de Estado – Igreja mas sob a forma do cisma de 1054. Essa é a razão pela qual certos católicos imaginam que um crescente poder russo pode trazer problemas para a Igreja de Roma. Inclusive, na época da tomada da Criméia por Putin, houve padres romanos que relataram perseguições tais como o cura Iavorski, que foi sequestrado; acontece que ele era capelão das forças armadas e da polícia e sabemos que em uma guerra os alvos prioritários são os oficiais e soldados.



Portanto o uso desse fato para justificar um temor de perseguições russas generalizadas ao catolicismo, na era Putin, é, ao meu ver, exagerada e usada para fins de legitimação do ocidente entre católicos. A questão, apesar de pertinente, deve ser pesada sob três aspectos:



1- A nova constituição russa dá voz a religião na vida pública e reconhece como religiões do povo o “budismo, o islamismo e a ortodoxia”, estando o catolicismo excluído. Lembro que a Rússia é um país multiétnico que tem populações de origem mongol na Sibéria – onde o budismo se faz presente – e de origem tártara que corresponde a catorze por cento da população e que é adepta do islão. Mesmo assim a religião católica tem a proteção da lei e segue viva entre as minorias étnicas (polacos, armênios, alemães) na Rússia.



2- No ocidente laico a religião – seja qual for – está excluída da vida púbica e cada vez mais ameaçada pela pauta lgbt que se vale da “homofobia” - expressão imprecisa, lata e que abre brecha para qualquer coisa ser tipificada como tal, até a simples lembrança por parte dum padre católico ou “pastor” protestante de que a única prática sexual aceitável ante Deus é a entre homem e mulher casados  – para criminalizar tacitamente todas as religiões monoteístas.



3- Um império russo sobre a Europa talvez trouxesse dificuldades para os católicos romanos de países do leste europeu – caso a Rússia conquistasse essas regiões - onde eles são minoria frente aos cismáticos – Caso da Sérvia, Macedônia, da Bulgária, etc – dada a relação íntima Estado e Patriarcado no Regime de Putin mas também haveria choques com os patriarcados 'ortodoxos' locais, independentes de Moscou e que, dificilmente iriam ceder a um status de submissão; por isso mesmo é difícil apostar que um tal Império pudesse se estabelecer sem um acerto prático com o Vaticano e com a maioria católica na Polônia e da Hungria que nem mesmo o totalitarismo comunista pode eliminar – isso, é claro, na improvável hipótese duma expansão desse quilate.




Isto posto, pesadas as vantagens e desvantagens duma possível expansão russa é preciso dizer que:




1- As desvantagens seriam maiores em regiões onde a Igreja já enfrenta dificuldades – países de maioria cismática – e menores em países onde ela é maioria – isso se pensarmos na possibilidade remota duma restauração do Império Romano sob Putin em que ele governasse de Paris a Moscou.




2- O mais provável é que a Rússia busque apenas uma retomada do antigo espaço territorial da URSS, e isso só será possível se Putin tiver sucesso na Ucrânia. As vantagens dessa expansão – pensando em termos duma improvável conquista da Europa – seria o colapso do regime liberal que, pouco a pouco, vai criminalizando qualquer religião que defenda a lei natural. Num quadro desses Putin teria que se apresentar como defensor dos direitos tradicionais da religião em geral e mesmo que desse status privilegiado ao Patriarcado de Moscou teria que reconhecer os direitos dos católicos romanos e de outras Igrejas a fim de ter base para governar como o novo Augusto.




3- Putin pode não ser um novo “Carlos Magno” do qual a catolicidade precisa mas ajuda a frear o liberalismo ocidental e a manter de pé a lei natural. Já tivemos no Ocidente, mais precisamente nos EUA, agentes de cartório sendo presos por se recusarem, por conta de sua fé, a celebrar casamentos lgbt. Impensável tal coisa num mundo sob Putin que, aliás, sempre manteve a linha de diálogo aberta com Roma desde sua visita a Bento 16 em 2007. .

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Lista de heresias públicas, notórias e pertinazes de Olavo de Carvalho, morto na impiedade




Lista de heresias públicas, notórias e pertinazes de Olavo de Carvalho, morto na impiedade:


- Negação da Graça;

A inteligência pode, por si mesma, elevar-se a esfera do infinito e absoluto...Somente o cultivo do intelecto abre o homem para a dimensão do espírito, colocando-o acima de si mesmo / 05-04-2017

- Identidade substancial entre Deus e o homem;

"Deus não é "exterior" à consciência: é o seu núcleo mais íntimo e pessoal" "Todo ser humano possui esse núcleo". "Descoberto sob a dupla aparência de consciência e de presença, é o mesmo Logos, a mesma Inteligência que se manifesta dentro e em torno de nós, que dialoga comigo sempre que um homem vê uma pedra e a pedra é mostrada ao homem"(Olavo de Carvalho, artigo Lux in Tenebris", in Jornal da Tarde, 25- XII- 1997).

- Deus impossível de ser conhecido pela razão;

" Se há um Deus onipotente, onisciente e onipresente, é óbvio que não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele." - Deus dos Palpiteiros, artigo de 2009.

- Teologia não é superior à Filosofia

"a diferença entre teologia e filosofia não é a diferença existente entre duas ciências ( uma superior e outra inferior e subordinada) mas, sim, a mesma diferença que há entre fatos e teoria." - http://catolicidadetradit.blogspot.com.br/.../olavo-de...)

- A mente individual deve examinar o dogma (heresia modernista que visa ressaltar a necessidade de estudar o dogma a luz de sua evolução a fim de concluir que dogmas não caem do céu mas são interpretações da mente humana em face de um problema religioso)

"ninguém tem o direito de proibir que a mente individual, no empenho de compreender o sentido do dogma proclamado, siga mais ou menos os mesmos passos da discussão, detendo-se em cada dificuldade pelo tempo necessário, mesmo conhecendo de antemão o resultado a que deva chegar. Afinal, uma conclusão só faz sentido como resposta à dificuldade que a suscitou".

- Cristianismo é esoterismo

"Quando fui para a Tariqa não estava atrás de religião mas dum conhecimento mais profundo da vida espiritual, independente de preferências confessionais... Foi só quando conheci Schuon que entendi que o Cristianismo era uma ciência, a Ciência das Ciências". 15 de Março de 2014

- O magistério é incapaz de assegurar a fé;

" o processo do conhecimento - incluído aí o conhecimento da fé - não pode ser transmitido por uma autoridade coletiva - quer dizer por um magistério público como o magistério da Igreja - mas tão só por indivíduos que tenham elaborado a "verdade fática" do cristianismo interiormente para dar a ela forma teórica. A um outro indivíduo que recebesse a teorização da fé em forma de dogma caberia fazer o processo de ligação entre a teoria e os fatos que são a essência mesma da fé; ou seja, não basta para cada fiel receber as fórmulas dogmáticas para terem acesso a fé: eles devem obrigatoriamente reconstituir a "verdade fática" originária em seu interior. Só aí o legítimo entendimento do dogma seria possível...o dogma não garante a verdade doutrinal, assim sendo os ensinamentos solenes do magistério nada resolvem, pois toda fórmula, pelo caráter simbólico que tem, pode deslindar para a heresia já que sempre permitiria diversas interpretações."- Março de 2014

- Maçonaria é compatível com Catolicismo;

""Conheço muito católico que está na maçonaria que é bom católico...esses que lutam pela pacificação da maçonaria com a Igreja Católica...eles estão certos" - Ouçam o áudio aqui: http://imperiya.by/.../Olavo-de-Carvalho...)

- EUA maior nação cristã da História;

"Maçonaria fez muita merda na história mas criou os EUA que são a maior nação cristã da terra...então é um meio a meio...a maior nação cristã do mundo foram os maçons que construíram" de 00:20 a 01:00 minuto no áudio acima.

- Maçonaria não é anticristã;

"há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica...no sentido de um anti cristianismo"- Olavo de Carvalho na p. 237 do Jardim dos Aflições.

- Separação entre fé e autoridade da Igreja;

"Fé não é crer no que a autoridade diz mas permanecer fiel a uma verdade conhecida" - 26/01/2018.

- Anticlericalismo;

"O filhinho de Georges Bernanos quando via uma comissão de padres para visitar o pai anunciava:
Pai, os idiotas vem aí." - 26/01/2018

- Dogmas são produtos da interpretação da mente e não verdades caídas do céu;

"Um só dogma pode ter mil transposições filosóficas diferentes"- 25/01/2018.

- Salvação só por "fé" sem obras;

"Se só a fé salva mas a fé sem obras é morta devemos fazer o bem para dar a Deus um pretexto elegante para nos salvar" - 21/12/2016

- Preservar pessoas de contato com o demoníaco é um erro;

"A falta de contato com o reino do demoníaco impede o acesso a vida religiosa profunda, às profundezas da filosofia e às profundezas das artes e ciências

Israel Azevedo: Professor, quando o senhor fala de contato com o demoníaco, o que quer dizer?

Olavo: todo o reino do ocultismo" - 18/01/2018.

- Legitimação do Juros e da Usura ( Artigo http://www.olavodecarvalho.org/.../capitalismoecristianis...)

- Condenação da Doutrina Social da Igreja e legitimação do liberalismo ( Artigo http://www.olavodecarvalho.org/.../capitalismoecristianis...)

-O homem não precisa da revelação para chegar a Deus;

"a Filosofia no sentido mais puro", buscando "a unidade do conhecimento" encontra Deus no mais fundo da consciência humana " (Cfr. Olavo de Carvalho, Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, bloco 8, junho de 1998, p. 15).

Provérbios 10, 7: A memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrecerá. 
Caio César, Bruno Menezes e outras 5 pessoas

sábado, 22 de janeiro de 2022

A mídia mente sobre Bento 16 e Pedofilia: entenda por quê!


 




    A mídia internacional deu destaque a uma manchete que aponta Bento 16 como culpado por abusos sexuais de padres contra crianças. No Brasil a Gazeta do Povo, aqui: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/breves/papa-emerito-bento-xvi-sabia-de-casos-de-abuso-de-criancas-na-alemanha-diz-relatorio/, traz uma matéria sobre isso. A tática da grande mídia, quando se trata da Igreja Católica, é velha e já foi delineada lá no século 18 por Voltaire que mandava “esmagar a infame” se referindo ao Catolicismo. É a estratégia do “Calunie sem cessar. Algo fica”. Isto posto é preciso lembrar como Bento 16 lutou, quando Papa, contra a pedofilia no Clero criando mecanismos mais eficazes de combate à mesma.


    Cabe lembrar como Bento 16 posicionou o cardeal Bertone como secretário de Estado e que foi ele quem segurou as decisões nada simpáticas do então Papa contra o Cardeal Mahony de Los Angeles que acobertou crimes de pedofilia de seus padres. Bento 16 criou instrumentos para punir bispos omissos nos casos de pedofilia e isso desagradou imensos setores do episcopado que se voltaram contra Bertone, dando começo a crise que levaria a renúncia de Ratzinger, que era quem sustinha, como Secretário de Estado, estas medidas. Importa entender que o Papa não pode demitir um Bispo que acobertou pedófilos; o código de Direito Canônico só considera esta possibilidade em casos que atentem contra a verdade de fé. A pedofilia é ato gravíssimo mas não é contra a fé. No entanto Bento 16, como possuidor de poder pleno e supremo para julgar e legislar na Igreja, criou mecanismos que levam um bispo a pedir demissão. Mas agora tudo isso passa ao largo da cobertura midiática: o que importa é difamar a Igreja. Notem que a matéria acima elenca que a investigação chegou a conclusão que quando Bispo de Munique, foi informado de padre abusadores mas não agiu para afastar os suspeitos. 

    Cabe lembrar que uma mera denúncia, sem indícios veementes, não é suficiente para afastar um padre de seu ofício. Exigir que sanções fossem tomadas pelo simples fato de ter sido “informado” beira o absurdo. A matéria não esclarece se uma investigação foi instaurada e a suspeita afastada. 

    Bento 16 já teve a oportunidade de abordar o problema: o ex-papa aduz que a culpa disso é da revolução sexual. Nesse gráfico https://www.bishop-accountability.org/reports/2004_02_27_JohnJay_original/cleric3.pdf podemos ver que a década que produziu o maior número de abusadores sexuais foi, de fato, a década de 1960. 

    Por que a mídia, que exalta a revolução sexual, não põe na sua conta a culpa pela pedofilia no clero? Aliás outra pergunta que não quer calar é por que os órgãos de informação não abordam os fatos trazidos à baila pelo trabalho de Michael Rose ( que vocês podem ler aqui https://catolicidadetradit.blogspot.com/2013/02/como-o-movimento-gay-penetrou-na-igreja.html) sobre a penetração de homossexuais nos seminários católicos, por obra do movimento LGBT, e como isso impactou na pedofilia dentro do clero?

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

15 de Novembro e a necessidade dum Novo Estado Novo!

Precisamos duma Nova Elite Nacional capaz de nos livrar da velha elite fisiológica e coronelista cujos interesses privados se sobrepõem ao Brasil. 

 






Platão transcendeu o debate Monarquia x República no seu diálogo "As Leis" quando mostrou que, mais importante que a forma de governo, são as Leis que dão um conteúdo a esse governo: entre uma monarquia liberal e uma república aristocrática ficamos com a segunda embora concordemos que, teoricamente, a Monarquia seja, no aspecto da forma, pelas razões expostas por Santo Tomás de Aquino no “De Regno”, superior a República.


 Todavia, na prática, o sucesso da monarquia vai depender dum bom rei, o que nem sempre é fácil de encontrar ou produzir, óbice este inexistente nas repúblicas já que dependentes mais de boas instituições que de um chefe qualificado.


 Especificamente quanto a História do Brasil a queda da Monarquia não se deu por uma decadência da mesma mas justamente no momento em que ela começava a fazer as necessárias reformas das instituições, colocando o país na rota do progresso sem perder de vista nossa essência. Os que deram o golpe de 15 de Novembro instauraram, ao contrário, um regime que, tendo se tornado uma República de Fazendeiros e Coronéis que representava o mais feroz localismo, exprimindo a ideologia dos Luzias do Império (Liberais avessos a uma Elite Nacional calcada na ideologia do Estado como motor do desenvolvimento pátrio) e um americanismo indisfarçável (Como nos apresenta Eduardo Prado em sua obra de leitura obrigatória chamada “A Ilusão Americana”) acabou ganhando caráter reacionário e anacrônico pois desatento ao clamor do movimento abolicionista e dos ex escravos recém libertos assim como das camadas mais pobres e das camadas médias mais participativas da sociedade civil. 


A velha República, criada em 15 de Novembro,  em vez de ir na direção duma reparação histórica da escravidão por meio dum projeto de reforma agrária que seria posto em prática pela Princesa Isabel, uma vez Rainha do Brasil, e da implementação duma mais ampla cidadania, acabou brecando, por 40 anos, o progresso político e social do Brasil graças a adoção dum modelo estadunidense de república que privilegiou oligarquias, modelo no qual a Revolta de Canudos, uma insurgência de pobres sertanejos massacrados pelos coronéis que eram a elite política daquele regime atrasado e decadente, assume caráter de símbolo mais expressivo dessas múltiplas demandas nacionais esquecidas pela elite da Velha República.


É bem verdade que com Vargas a República no Brasil ganha, finalmente, ares nacionais e populares mas sem jamais perder esse fundo oligárquico perverso que nos impede de avançar e que vez ou outra se reapresenta e que agora se manifesta na forma de Centrão.


Portanto o 15 de Novembro deve ser, para todo nacionalista, uma data de reflexão que nos leve à pensar a construção duma República Nacional, oposta a esta que, tendo sido criada em 1988, após o trauma da ditadura, acabou nos legando uma constituição social-democrática fraca e defeituosa pois incoerente com nossas necessidades além de incapaz de dar voz ao povo, constituição que empodera indivíduos e minorias enquanto desempodera a Nação e o Estado frente aos poderes estrangeiros e financeiros impedindo a nascimento daquela Elite Nacional sonhada na era do Império pelos Saquaremas, que seria capaz de guiar a Nação, por meio da ação Soberana do Estado, à Grandeza, Prosperidade e Justiça.


Por um Novo Estado Novo que termine a obra redentora de Getúlio Vargas!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Sobre a suposta iniciação do Padre Paulo Ricardo na Tariqa de Fritjot Schuon






Sobre uma suposta iniciação do Padre Paulo Ricardo na Tariqa Perenialista/Multiconfessional e de inspiração Islâmica de Fritjot Schuon e sua articulação com um esquema de penetração esotérica na Igreja é o seguinte:

1- Nos anos 1980, Paulo Ricardo cursou seu ensino médio em Michigan, na Fruitport High School. Indiana é um estado que fica do lado de Michigan. Da Escola em que Paulo Ricardo estudava (Na área do Pomona Park) para Blommington, Indiana, são 4 horas de carro, 5 de ônibus.
2- Exatamente a partir de 1982, Schuon foi desenvolver sua atividade nos USA, nessa mesma cidade, Blommington, ano em que Paulo Ricardo vira estudante na Fruitport. Nos Estados Unidos, onde viveu em uma chácara em meio à natureza, no estado de Indiana, Schuon escreveu seus últimos livros.
3- Foi nessa mesma época que Olavo de Carvalho ingressou na organização de Schuon.
4- Vinte anos depois - 2006 - quando já era professor de seminário e mestre em Direito Canônico com certa fama no meio eclesiástico nacional, inclusive tendo virado um referência dentro da RCC, através da Canção Nova, comunidade onde aparecia com frequência como sumidade em doutrina, o referido Padre aparece indicando Olavo de Carvalho como um filósofo a ser seguido. Pura coincidência ou fruto dum esquema que teria sido acertado nos EUA nos anos 80?
5-Tudo isso poderia ser apenas uma coincidência porém o Padre Paulo Ricardo é adepto da tese do Padre Arintero (Em seu site há uma referência a esse padre dominicano https://padrepauloricardo.org/.../50-anos-do-concilio...) que hoje já sabemos ter se tratado dum perenialista que defendia uma nova noção de santidade, acessível a todos, pois não mais através da via ascética e mística mas da filosófica; ora "santidade" via filosofia é o que os perenialistas preconizam.
6- O CDB, que é um organismo a serviço de Olavo de Carvalho, vende o livro Evolução Mística, do Padre Arintero, onde o mesmo defende a heresia da santidade acessível via metafísica.
7- Nos anos 2000 Olavo já tinha sido defenestrado como astrólogo, gnóstico e herege por Fedeli. Foi justamente a intervenção do Padre Paulo Ricardo, alegando que Olavo havia se convertido a fé católica, que fez uma multidão de católicos a tomarem o velho como um mestre em todo tipo de assunto. Um dos fatos que o Padre em tela usou para enganar o público foi sua visita a Olavo de Carvalho nos idos de 2006, quando declarou que o velho estava se casando no religioso com Roxane na Virgínia e que, portanto, sua ida aos EUA era especificamente para participar do Casamento que provaria sua conversão. Na ocasião a fotografia acima foi divulgada. Pouco depois, o suposto casamento, que justificou a viagem intercontinental do Pe. Paulo Ricardo, sofreu um rebaixamento passando a simples cerimônia civil que, para justificar a presença do sacerdote, coincidiu com as Bodas de Prata do casal que na verdade havia se unido em 1986.
8- Nesse mesmo ano - 2006 - foi que um ex amigo nosso nos indicou Olavo como um guia para os católicos dizendo-me, "olha, o velho se converteu, agora ele é católico, vamos tomá-lo como referência, etc". Eu já conhecia Olavo desde os anos 1990 quando lia a revista Planeta, uma publicação de cunho esotérico onde ele costumava escrever, lia vez ou outra alguma coisa dele que saía no Globo, e sabia que era um esotérico de quatro costados mas confiei em Padre Paulo Ricardo que divulgava essa conversão insólita de Carvalho.
9- Foi confiando no relato de Padre Paulo que me matriculei no COF e vi com meus olhos que nada havia mudado: Olavo continuava indicando Guenon e Schuon além do curso de Cosmologia e Astrologia do Filho, o Gugu. Fedeli é quem tinha razão: aquela conversão era mentirosa, Olavo seguia tendo a mesma doutrina. Por que Padre Paulo, mesmo sabendo disso, nunca deixou de recomendar Olavo?

Teria sido ele realmente iniciado ou tudo não passaria duma grande coincidência?

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

A Tradição da TFP não é Católica mas Liberal: o testemunho dum Carlista

TFP: Tradição Liberal, Família Burguesa, Propriedade de estilo capitalista. 







Tomamos nota e reproduzimos aqui, logo abaixo, a relevante fala dum conhecido chileno, vinculado ao movimento política do tradicionalismo carlista sobre a TFP que consideramos útil para desmascarar a farsa que essa associação representa e o risco em que coloca os católicos incautos: 


" Tive um debate com um TFP sobre o capitalismo liberal. Concluo que não tenho palavras suficientes para expressar como a TFP me carrega, Tradição (? ), Família (burguesa) e propriedade, acima de tudo isso. É do pior do catolicismo pseudo tradicional. É uma insuportável síntese burguesa e fusionista de catolicismo pseudo tradicional com liberalismo conservador anglo-saxónico, o pior do capitalismo liberal laissez faire do século XIX com o catolicismo mais ortodoxo e tradicional, a TFP dá razão aos ortodoxos orientais quando nos acusam de ser instrumentais ao liberalismo ocidental.

São burgueses, totalmente burgueses, reclamam com razão, da terrível degeneração do mundo contemporâneo mas defendem as mesmas forças que promovem essa degeneração total, as do capitalismo e o liberalismo atlantista, não as de uma inexistente URSS. Dão-lhe mais poder do que tem à esquerda neomarxista ou pós-marxista, ignorando como esta é marionete de poderes financeiros internacionais, que eles defendem por ser ′′o bom capitalismo". Repetem tudo isso de marxismo cultural, marxismo culturais e defendem esses paleo libertários com quem tem muito em comum. Na verdade eles são libertários em economia e isso é nojento. Reduzem ao mínimo a doutrina social da Igreja quase como deveres de caridade e excluem toda a crítica ao capitalismo riscando-a de socialismo. Misturam tudo isso com uma estética estética pseudo tradicional tão cortesã, versallesca, vitoriana, que não é senão oligárquica, das castas altas, são as ′′ gentes de ordem ′′ que o padre Osvaldo Lira criticava, por burgueses. Se lessem os Pais da Igreja condenarem os ricos dos proprietários acusá-los-iam de "socialismo ". É-me particularmente incomoda essa mistura de ortodoxia católica e liberalismo anglo-saxónico pelo farisaica que é, tanto que falam da Tradição e são meros marionetes do capitalismo, o mesmo que pisoteia dia e noite tudo que é sagrado. É cripto calvinista no final, todo esse culto ao capitalismo que tem a TFP, à ′′ propriedade privada absoluta ′′ mais perto de Locke do que de São Tomás, torna-os mais calvinistas do que católicos no final.

Opõem-se duramente ao carlismo, à Ação Francesa, a regimes como o de Oliveira Salazar, acusando-os de ′′ socialismo ", mas defendem, em vez disso, monarquias liberais como a dos Isabelinos na Espanha, idolatram a Rainha Victoria e Inglaterra liberal vitoriana, que dizimou meio mundo com seu imperialismo liberal. São atlantistas anglo-americanos em política e em geopolítica são pró EUA e radicalmente anti Rússia, sendo que a Rússia é a única potência que defende valores tradicionais mas esses burros imaginam que a Rússia atual ainda é ′′ comunismo ", reproduzindo Livretos de Guerra Fria de Reagan. Eles colocam um pouco de estética vitoriana e já acham que isso é a Tradição.

Plinio Correa de Oliveira tinha bons escritos e livros como Revolução e Contra-Revolução, mas não desenvolveu um pensamento tão profundamente antiliberal e teve demasiadas contradições e coisas turvas que foram denunciadas dele.

Se eu tiver algum contato TFP, que rejeita o capitalismo liberal e o poder hegemônico dos EUA e da Inglaterra, é antiliberal de verdade, de todo o coração os chamo a sair da TFP"

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Afinal, o PT se vendeu às forças Neoliberais ou continua Socialista? Uma análise à luz da nota recente da NR





A NR lançou uma nota recente - escrita pelo Sr. André Luiz, como podemos ver aqui: https://www.facebook.com/novaresistenciabrasil/posts/1931681497009241 - alegando que Lula é Liberal, Reacionário e Amigo dos Banqueiros. Sobre a última acusação nada a opor. Sobre a primeira e a segunda nós discordarmos, embora devamos conceder que boa parte da política econômica da era Lula foi neoliberal. 

Quanto a ser reacionário isso não faz o mínimo sentido dentro da própria argumentação desenvolvida na nota da NR porque se Lula é um Liberal-Progressista não pode ser reacionário por uma questão de coerência lógica apesar dessa conceituação fazer algum sentido dentro do método de análise da QTP  que dá ênfase ao povo, categoria por excelência da teorização política de Dugin. Partindo deste postulado o Sr. André extrai a conclusão de que é Bolsonaro quem evoca melhor o sentimento de Brasil Profundo, ainda que de maneira falsa, compreendido, desde o ponto de vista da NR, dentro da noção do "povo contra as elites", através do apelo a religiosidade moralista, da pauta de armas e de enfrentamento do congresso. Não discordo mas é impossível não admitir que Lula também evoca, de certo modo, o Brasil Profundo quando fala de emprego, comida e saúde pública (Conservadorismo Brasileiro é Saquarema, ou seja, Estado dando Proteção, Estado Paternalista) e por isso a tendência é os dois polarizarem em 2022. 

Por outro lado há uma tendência de uma extrema esquerda - com quem o discurso da NR conecta em certa medida - de ver Lula como traidor da esquerda e do trabalhador. Na prática foi isso que o que PT fez: traiu as expectativas. Mas não se iludam: o horizonte do PT não é Neoliberal mas sim o de um Socialismo Democrático que mistura socialização do poder com controle público dos meios de produção, que é o ficou claro no seu terceiro congresso em 2007. O partido sabe que o Brasil tem um contexto mais complexo que o de Venezuela e Bolívia, onde Chavez e Morales tentaram emplacar esse Socialismo do Século 21, e sabe que aqui, dada essa complexidade, se esticar demais a corda antes de ter um forte controle institucional, perde o poder. Por isso o PT é mais democrático-legalista em sua metodologia de ação que o Chavismo: em vez de rupturas ou de reformas constitucionais prefere desencadear uma evolução natural das instituições para chegar a uma democracia social radical sob sua direção hegemônica. Por isso aceita jogar o jogo neoliberal e de contemporizar até ter condições de mudar o jogo. O problema é que quando alguém se envolve demais com o jogo acaba gostando dele e por isso o PT teve dificuldades de construir sua hegemonia muito por que também se beneficiou bastante do rio de dinheiro que abastecia o partido durante as eleições: em suma, em nome do projeto de poder - que dependia dessa complacência dos poderes financeiros -  o projeto de socialismo do século 21 foi sendo adiado. Esta realidade fica clara novamente agora: se em 2018 o PT era avesso a teto fiscal, agora passou a ser a favor dele como podemos ver aqui: https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/09/13/ha-consenso-no-pt-sobre-nova-regra-fiscal.ghtml. 

Embora o PT postule uma regra mais flexível que a atual, se chegar ao poder vai jogar, de novo, o jogo de sempre como a diferença de que vai amenizar o ajuste neoliberal mas sem sair dele indicando seus limites enquanto partido que tenta um compromisso entre o Socialismo e o Neoliberalismo.  

A questão é que precisamos romper já com esse modelo antes que não sobre nada do país. Os quadros do PT não conseguem ver isso seja por excesso de pragmatismo, seja por falta dum plano consistente de ruptura, seja por compromisso com o establishment. Lula não oferece horizontes novos e é disso que precisamos. Além do mais o PT não consegue ir ao fundo dos problemas do Brasil porque, para o PT as questões nacionais tem lugar secundário face às causas sociais, que não podem ser solucionadas sem políticas nacionais mas que eles pretendem resolver com base na solidariedade internacionalista de esquerda que desconsidera que o pólo de luta agora é entre o Nacional x Global e não, primariamente, do Capital x Social. 



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Refutando a tese sedevacante de que Paulo VI quis exercer Magistério

 

Recentemente um sedevacante alegou que o Breve de Paulo VI In Spiritu Sancto, era uma prova a favor da sé vacante pois significava a vontade expressa do Papa em impor o Vaticano II a todo o orbe católico. Mas não é bem assim.

O referido Breve é um mero decreto de encerramento do CVII, faltando nele os costumeiros anátemas dos quais a autoridade se vale quando está a ensinar dogmas.

Vejamos bem: para que o ensinamento do Romano Pontífice seja infalível ele tem de ter a intenção de impô-lo de modo definitivo e irreformável, fundando-se em sua autoridade recebida imediatamente de Cristo. Para isso o Papa deve se valer de fórmulas e anátemas. Sem isto o ato não tem nota de infalibilidade extraordinária. Mas teria nota de infalibilidade ordinária? Também não pois os Papas Conciliares não consideram a si mesmos voz de Cristo mas voz de todo o corpo místico de Cristo. O caso da Carta Ordinatio Sacerdotalis de João Paulo II deixa isto patente ao tratar da não ordenação das mulheres em que a questão não foi apresentada em razão da autoridade pontifícia mas como expressão da voz do povo de Deus - in persona populi Dei. Essa mudança de atitude foi solenemente declarada na Ecclesiam Suam de Paulo VI de 1964, anterior ao Breve de encerramento, e é a base hermenêutica para entendê-lo, ou seja, você inverte a ordem das coisas e parte dum documento cuja luz é mero reflexo da ES que diz :

"a Igreja deve entabular diálogo com o mundo...A Igreja torna-se palavra...mensagem...colóquio...o diálogo deve marcar nosso ministério apostólico (n. 59-62). Ainda: "A DIALÈTICA deste exercício nos fará descobrir ELEMENTOS DE VERDADE NAS OPINIÕES ALHEIAS"(N.77).

Para estruturar o diálogo Paulo VI criou instituições novas para exprimir essa novidade como é o caso da Comissão Teológica Internacional (CTI), que passou a reunir teólogos de tendências opostas, sendo representativa do pluralismo teológico, e que teve sua missão definida por Paulo VI, na sua Alocução de 6 outubro de 1969, nos seguintes termos: "aos teólogos cabe não apenas comentar os ensinamentos do Magistério, como supunha o esquema clássico de PIO 12, mas o de colaborar com o Magistério"(AAS, 61 1969, 713). Isto posto citar a In Spiritu Sancto sem antes referi-la a Ecclesiam Suam é um erro crasso de leitura.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Por que Stálin não deturpou o marxismo nem foi nacionalista?

 




É bastante comum que nichos trotkistas acusem Stálin de ter deturpado o marxismo; os que compram essa narrativa apostam na noção farsesca dum Stálin nacionalista que teria deixado o aspecto mais fundamental do marxismo, qual seja o internacionalismo – incorporado pelos trotkistas, que seriam, por isso, os verdadeiros marxistas.


Apesar da alegação ser usada como acusação pelos trotkistas, há neo-stalinistas de linha QTP ou nacional bolcheviques russos que tomam essa noção em sentido positivo como prova de que Stálin, mais que marxista, teria sido um nacionalista russo. O debate não é sem importância pois envolve duas estratégias:


1- Limpar a barra do marxismo face às brutalidades cometidas por Josef Stálin indicando que as crueldades do totalitarismo soviético foram decorrentes dum desvio da proposta originária.


2-Preparar os espíritos para um Nacionalismo de Esquerda que tende a ver a questão nacional só sob ângulo econômico.


Sobre o ponto 1 gostaríamos de deixar claro que não é o caso de desconhecermos que a história se escreve com sangue: a própria trajetória do povo eleito por Deus foi feita de modo a que povos pagãos fossem vencidos e eliminados para dar lugar a uma forma superior de organização social, política e religiosa. O problema aqui é de finalidade e escala: a violência é legítima desde tenha por fim o restabelecimento da ordem ou a elevação de povos a uma ordem superior; depois ela só deve ser usada como último recurso e de forma racional, contra aqueles que representam um risco a ordem. Por ordem entendemos um conjunto de valores e princípios que envolvem desde instituições avançadas de justiça e governo como uma moral que coloque a pessoa humana no centro da organização social e política e que tenha por eixo a idéia dum Ser Absoluto, fonte dos princípios religiosos, filosóficos e éticos garantidores duma civilização onde prevaleça o bem comum, a dignidade da pessoa e uma ordenação que favoreça a perfectibilidade da personalidade espiritual do homem, cujo fim último é Deus.


Ora, o socialismo marxista nega a existência dum padrão objetivo de justiça fazendo tudo decorrer do interesse de classe, preconizando uma vingança da classe proletária contra a classe burguesa e uma sua eliminação completa (em vez duma violência racional que exigiria, apenas, a eliminação dos elementos burgueses mais atrozes e prejudiciais ao bem comum) assim como o extermínio de quaisquer segmentos sociais que não estejam a altura do novo modelo de sociedade socialista preconizada, que reduz tudo a aspectos materiais bloqueando o acesso do homem a seu fim último e o desenvolvimento duma civilização que dê forma a instituições que reflitam a transcendência da personalidade humana.


Logo, a violência stalinista além de brutal e colossal – pois responsável por cerca de 20 milhões de mortes por fuzilamento, fome, deportação ou prisão em campos de trabalho forçado – foi desordenada pois envolvia criar um sistema materialista onde o espírito humano ficasse a mercê das forças econômicas por sua vez sob a direção dum Estado Moloque, um verdadeiro moedor de carne humana, e não pode ser justificada de forma nenhuma.


Sobre o Ponto 2, primeiro cabe dizer que Está no Manifesto Comunista de Marx na página 44 e seguintes que:

"O proletariado vai usar seu predomínio político para retirar, aos poucos, todo o capital da burguesia, para concentrar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado – quer dizer, do proletariado organizado como classe dominante".


Logo não é possível dizer que "Marx não teorizou uma coletivizacão via Estado" para alegar que Stálin, ao fazê-la sob direção dele em vez de colocá-la sob auspício do proletariado, desviou-se de Marx.


O filósofo alemão pai do comunismo chamava os socialistas reformistas de "utópicos" justamente por que não tinham uma teoria da História, qual seja, o Materialismo Histórico que é a Base Teórica do Marxismo. Logo havia teorização em Marx o que envolvia a conceituação das etapas a serem seguidas de acordo com as leis da dialética histórica. O que nunca houve foi descrição dessas etapas pois isso envolvia aspectos concretos só passíveis de serem estabelecidas no processo da práxis revolucionária. E por que dizemos isso? Justamente por que há quem alegue que Stálin teria ossificado o marxismo dentro dum modelo teórico fechado como se o Marxismo fosse pura práxis sem teoria. Isto é falso.

No tocante ao Nacionalismo de Stálin cabe lembrar que ele, em 1913, escreveu um artigo cujo título é “marxismo e o problema nacional” onde enfoca a questão sob o seguinte prisma:


1- As nações são realidades históricas mutáveis dotadas duma língua, psicologia, mas que são resultado das condições materiais de produção. Em suma: a idéia dum espírito nacional, da essência dum povo inexiste na concepção de Stálin.


2- Há nações postergadas que lutam contra as classes dominantes das nações poderosas e, neste sentido, é preciso apoiar o movimento nacional pois, neste caso, ele vira instrumento da revolução proletária. Por esta razão Marx apoiou as pretensões de independência nacional da Polônia Russa. Disto se depreende que a questão nacional, para Stálin e os marxistas em geral, pode ser incorporada desde que em relação com as condições históricas, enfocadas no seu desenvolvimento. Aqui se trata, portanto, dum nacionalismo puramente como meio e não como fim.


A Guerra Patriótica de Stálin prova o que dissemos acima pois ela assumiu caráter de luta pela libertação da humanidade do Imperialismo, forma superior do Capitalismo no dizer de Lênin. Todo o processo de descolonização Afro-Asiática pós segunda guerra mundial seria inexplicável sem o apoio soviético, que era fundamentada numa dialética de embate dos povos conquistados (as nações postergadas) x imperialismo capitalista.


Ainda: se Stálin ossificou o marxismo em formas dogmáticas como ele conseguiu ressignificar o patriotismo, que era qualificado, em linhas gerais, como mistificação burguesa por Marx, no bojo da práxis revolucionária soviética? Se o marxismo não é dogmático então a questão da pátria pode ser ressignificada no processo dialético da revolução. Foi o que Stálin fez. No processo da práxis revolucionária assumiu a luta patriótica como etapa da luta pela libertação da humanidade em direção ao comunismo.


Logo ou o marxismo é só teoria sem práxis e Stálin deixou de ser um marxista ao assumir o conceito de Patriótico, ou ele é práxis e teoria e, Stálin, ao assumir tal conceito, transformando dialeticamente a práxis da revolução, foi fiel ao Marxismo enquanto Trotski não por ter se fixado numa forma teórica.

Ainda há que se diga que Stálin, no plano da organização estatal, fez o que Marx teorizou: Coletivizacão dos meios de produção. Marx já no Manifesto falava duma elite intelectual que iria liderar o Operariado com base nas leis do Materialismo Histórico o que nos leva até a Ditadura do Proletariado de Lênin. A leitura de Rosa Luxemburgo e dos críticos de Stalin é um atentado ao que Marx realmente defendeu. O "Nacionalismo" de Stalin era uma mera cola para juntar aquelas repúblicas todas, é a revisão da teoria à luz da práxis da revolução de modo que Trotski estava certo no plano teórico mas não no prático. Trotski era um fanático do internacionalismo, imaginando que só a revolução permanente daria base para a existência da URSS.


Em suma: Stálin reviu a teoria a luz da práxis. Nesse sentido ele foi mais fiel a Marx pois entendia o primado da práxis face a teoria, enquanto Trotski dava primazia a teoria ante a práxis.


Dito isto, podemos concluir duas coisas:


1- Stálin não deturpou o marxismo tendo sido, antes de tudo, mais fiel a inteireza do pensamento de Marx do que Trotski;


2- Ele não foi nacionalista a rigor mas se valeu do sentimento nacional russo – deformado e degenerado na forma de bolchevismo - apenas como ferramenta para espalhar a revolução;


3- Tendo sido Stálin o mais fiel dos marxistas, seu regime pode e deve ser caracterizado como inteiramente marxiano e os crimes dele como decorrência direta do Manifesto Comunista e não como um desvio.