terça-feira, 17 de novembro de 2020

Refutação da difamação de Dom Lefebvre pelo site "Catequista"


 

Nos 50 anos de fundação da FSSPX, obra criada por Dom Marcel Lefebvre para preservar a missa de sempre e o ensino imutável da Igreja contra as novidades instauradas no seio dela pelas reformas do Vaticano II, era de se esperar que setores progressistas e neoconservadores fizessem uma campanha de difamação do seu legado e figura. Neste sentido o site “O Catequista” que tem como marca uma “nova evangelização”, através duma linguagem irreverente – exemplo disso são artigos que exibem os seguintes títulos: “Periquita, se eu não der, vou encalhar?” - publicou um artigo injurioso afirmando que Dom Marcel foi um “rebelde insolente, tal qual Lutero”, escrito pela pena de Daniel Fernandes, sujeito que se define como um alto intelectual o que nos deixa deveras espantados pois não é do feitio de intelectuais associar-se a uma choldra que trata as coisas sagradas com um linguajar de bordel.


No mais além do site em tela, o canal “Santa Carona”, que se vale da mesma barafunda do “Catequista”, fez a divulgação do artigo o que aponta para uma articulação nos bastidores. Lembramos que nos últimos dias um novo escândalo envolvendo a figura de João Paulo II - tido como exemplo por estes nichos conservadores que o enxergam como o Papa que uniu a tradição com a novidade, a síntese do impossível já condenada na Pascendi de São Pio X com o nome de modernismo que consiste na heresia de reinterpretar os dogmas da fé com base nas inovações modernas no campo do pensamento teológico e filosófico - veio a tona mostrando que ele promoveu McCarrick a arcebispo de Washinton D.C. mesmo sabendo de sua má conduta sexual. Isto põe em xeque sua canonização feita a toque de caixa para viabilizar o projeto de um novo modelo de Igreja sob os auspícios do Vaticano II e da abertura ao mundo – que o site “Catequista” sabe encarnar bem ao usar a mixórdia do mundanismo para tratar de coisas divinas que só podem ser comunicadas corretamente com uma linguagem grave e solene. Evidente que interessa a tais grupos desviar a atenção do público católico de mais um grave escândalo que põe em questão os pontificados pós Vaticano II levando-os a crer que o problema está nos lefebvristas que sempre se levantaram para denunciar o arruinamento da fé e dos costumes por obra dos clérigos que deviam defendê-la.


Vamos ao artigo e a sua refutação. Em tempo é preciso lembrar que o seu articulista é formado em história mas, desconsiderando a metodologia comezinha para qualquer historiador, passou por cima dos fatos, não consultou as fontes e preferiu montar uma narrativa fantasiosa que não encontra estofo nos documentos primários.


1- Em primeiro lugar o artigo admite que Santo Atanásio pode ter sido excomungado injustamente mas não concede, ao caso da excomunhão de Dom Lefebvre, o mesmo direito a admiti-lo. Em havendo um caso na história por que não poderia haver outro? Ademais a retirada da excomunhão dos 4 bispos ordenados em Ecône por Dom Marcel em 1988, por ordem de Bento 16, prova que podemos estar perante um caso de excomunhão injusta similar a que atingiu, hipoteticamente, Santo Atanásio.


2- O artigo assevera que Lefebvre se recusou a rezar a missa nova dando a entender que isto era um ato de rebeldia contra a autoridade mas vejamos:


- A Bula Quo Primum Tempore, do Papa São Pio V, canonizou o rito gregoriano – dita missa tridentina porque confirmada pelo Concílio de Trento mas que vem da era dos apóstolos tendo ganho forma definitiva na sua parte essencial na época do Papa Gregório Magno – nestes termos:


Ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre não seja cantada nem rezada de modo diferente do que está conforme este missal por nós publicado...em virtude de nossa Autoridade Apostólica...concedemos e damos o indulto seguinte: Doravante em qualquer Igreja se possa sem restrição seguir este missal com permissão de usá-lo livre e licitamente sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura e isto para sempre...não sejam obrigados ( Bispos e Padres ) a celebrar a missa doutro modo...a presente Bula não poderá JAMAIS, EM TEMPO ALGUM, ser revogada nem modificada mas permanecerá sempre firme e válida.


Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições saiba que incorrerá na indignação de Deus todo poderoso e de seus bem-aventurados apóstolos São Pedro e São Paulo”


Ora foi justamente nesta Bula que Dom Marcel se baseou para recusar a missa nova e foi justamente indo contra ela que Paulo VI ab-rogou a missa de sempre cometendo um ato ilegítimo pois o que um Papa liga na terra é ligado no céu e nenhum papa posterior pode desligar quando for da vontade do papa anterior a perpetuidade daquela decisão (é o caso da Bula Quo Primum Tempore). Portanto quem agiu como Lutero que se insurgiu contra a autoridade não foi Marcel mas o Papa Montini.


3- O artigo alega que Lefebvre afirmou que Roma tinha se tornado sede do Anticristo. Isto é falso pois Dom Marcel, para dizer isto, precisaria afirmar que o Papa havia apostatado da fé, colocando o trono pontifício nas mãos dum negador de Jesus Cristo. Mas não é o caso pois em 1977, 78, 79 e 82 Dom Marcel reafirmou reiteradas vezes que a situação da crise da Igreja era incerta e que, portanto, não era possível afirmar categoricamente a apostasia do Papa; vejamos:


18/03/77:


"Se o Papa fosse apóstata, herege ou cismático, conforme a opinião provável de alguns teólogos (se fosse verdadeira), o Papa não seria Papa e, por conseguinte, estaríamos na situação de Sede Vacante. Essa é uma opinião. Não digo que não possa ter alguns argumentos a seu favor... Porém, por ora creio que seria um erro seguir essa hipótese".


16/01/79:


Enquanto não tenha a evidência de que o Papa não é Papa, tenho a presunção a favor dele. Não digo que não haja argumentos que possam pôr uma certa dúvida. Porém, é necessário ter a evidência: não é suficiente uma dúvida, inclusive se é válida. Se o argumento é duvidoso, não há direito de tirar conclusões que têm conseqüências imensas. Não se pode partir de um princípio duvidoso. Prefiro partir do principio de que há que defender nossa fé.”



29/06/1982:


"Também nós nos sentimos tentados de dizer: ‘Não é Papa, não pode ser Papa, se faz o que ele faz'. Ou senão, em troca, como outros que divinizariam a Igreja ao ponto de que tudo seria perfeito nEla, poderíamos dizer: 'Não é questão de fazer algo que se oponha ao que vem de Roma, porque tudo é divino em Roma e devemos aceitar tudo o que venha dali'. Quem assim diz procede como aqueles que diziam que Nosso Senhor era de tal maneira Deus que não lhe era possível sofrer, mas que todo aquilo era aparência de sofrimento, que na realidade não sofria, que na realidade seu Sangue não escorria, que não eram senão aparências que impressionavam os olhos de quem o rodeavam, porém não é uma realidade. O mesmo sucede hoje em dia com alguns que continuam dizendo: 'Não, nada pode ser humano na Igreja, nada pode ser imperfeito na Igreja'. Também esses se equivocam. Não admitem a realidade das coisas. Até onde pode chegar a imperfeição da Igreja, até onde pode chegar - diria eu - o pecado na Igreja, o pecado na inteligência, o pecado na alma, o pecado não coração e na vontade? Os fatos no-lo mostram”.


Por outro lado o artigo retira do devido contexto a fala de Dom Lefebvre na carta dirigida aos futuros Bispos escrita em 1987, conjuntura esta que é bem explicada por Dom Lourenço, conforme vai abaixo:


Estando a Cadeira de Pedro e os postos de autoridade de Roma ocupados por anticristos, a destruição do Reino de Nosso Senhor alastra rapidamente no seio de seu Corpo Místico nesta terra, especialmente pela corrupção da Santa Missa, expressão magnífica do triunfo de Nosso Senhor pela Cruz – “Regnavit a ligno Deus” – e fonte de extensão do seu Reinado nas almas e nas sociedades.” - Carta de Mgr. Lefebvre aos futuros bispos [Nota de D. Lourenço: A expressão é forte, mas deve ser entendida sem preconceitos: Mgr. Lefebvre não diz que tal ou tal pessoa é o Anti-Cristo, e sim que os postos do Vaticano estão ocupados por anti-cristos, ou seja, autoridades que trabalham para a destruição da Igreja, e não para sua edificação. Nesse sentido lemos na 1ª Ep. de São João: "todo o espírito que divide Jesus não é de Deus; mas este é um Anticristo."]



Portanto Dom Marcel entendia que o papa pode se cercar de maus colaboradores e favorecer a ruína da Igreja sem comprometer sua infalibilidade pois há uma dimensão humana na Igreja. Uns dizem que a Igreja sendo tão divina não podemos ter um papa que favoreça a ruína então ou ele não é papa – como pensam os sedevacantes – ou ele é e devemos aceitar a ruína como verdade de fé – como pensam os conservadores. Não era desta forma que Dom Lefebvre pensava.


4- O artigo aduz que Lefebvre, ao fazer as consagrações de Ecône,pecou por desesperança” na promessa duma autorização de Roma para ordenar um bispo da FSSPX a fim de dar sequência ao seu trabalho. Essa é outra falsidade pois:


- Dom Marcel clamou, por 20 anos, às autoridades romanas uma solução para a crise da fé sem sucesso. Alguém que pede, clama, suplica ao Papa, ao Cardeal Villot da congregação para a doutrina da fé, etc, medidas para resolver a crise pode ser apontado como alguém desesperançado nas autoridades? Dom Marcel foi, antes de tudo, paciente demais mesmo com os sinais de má vontade que vinham continuamente de Roma como as perseguiões a missa de sempre promovida pelo Bispo de Versalhes e de Bourges contra o Padre Lecareux, tirania perante as quais Roma não moveu um dedo.


- Quanto a carta de Ratzinger datada de 1987, esta impunha um cardeal visitador a FSSPX a fim de encontrar uma forma jurídica para a mesma, forma esta que seria baseada no código de direito canônico de 1983. O cardeal ficaria responsável por ordenar os futuros padres formados no seminário da FSSPX. Isso tiraria certa autonomia de Dom Marcel que, apesar disso, aceitou a proposta mostrando sua boa vontade. A carta estipulava que a FSSPX teria o direito de formar seus padres em seu “carisma” como se o trabalho da Fraternidade não se tratasse não da defesa da fé mas dum modelo arcaico de Igreja defendido por costume arraigado. Esse cardeal, além do mais, seria o garantidor da ortodoxia no seminário da FSSPX. Apesar de todas estas limitações Dom Lefebvre aceitou conversar para chegar a um termo. O Cardeal Gagnon foi recebido festivamente na Fraternidade em 1987 e ficou a esperança de que fosse ele o visitador. Isto levou a assinatura do protocolo de acordo em 05/05/88 onde ficava acertada a ordenação do bispo o que levou Dom Marcel a entregar a terna ( três nomes para Bispo). Logo após a assinatura Lefebvre passou a cobrar uma data para a definição do bispo. Mas Roma recusou apresentar o nome em 30 de junho, recusou entre 15 de julho e 15 de setembro alegando ser período de férias, recusou definição para início de novembro e para o Natal! Foi então que Dom Marcel percebeu ter sido enganado. Isso levou-o a decidir pelas consagrações. Lefebvre seguiu apostando paciente numa solução de Roma mas acabou traído apesar de sua boa vontade. Para quem ainda duvida que a hierarquia desejava enganar Dom Marcel basta lembrar do caso do Mosteiro do Barroux no qual o prior recebeu a oferta do Vaticano para que traísse Lefebvre e assinasse o protocolo no lugar dele ainda em 1988. Foi o que foi feito. Todavia o Barroux, que virou Fraternidade São Pedro, nunca recebeu o direito de ter um bispo e acabou vendo Dom Gerard, seu líder, celebrando a Missa de Paulo VI por exigência de Roma; na época do acordo as autoridades romanas davam a entender a Gerard que eles não precisariam reconhecer o Vaticano II e que tudo seguiria como antes mas não foi o que se deu. Quem estava movido de má vontade eram as autoridades romanas e não Dom Marcel.


Isto posto fica provado que Dom Marcel nem foi desobediente, nem rebelde nem desesperado mas fiel, leal e esperançoso. É frustra a acusação do catequista!




terça-feira, 10 de novembro de 2020

Trump não é o anti-sistema: a luta pelo rumo da globalização entre democratas e republicanos!




Trump anti-sistema é a falácia da hora. Vamos ver como ele apenas defende uma realocação dentro do sistema nascido em 1945 para fortalecer o império combalido pela perda de espaço em razão do processo de globalização e não uma refundação das bases que estruturam o mundo desde então. 


1- O sistema que emergiu da vitória aliada na 2GM foi o do Padrão Dólar. Há dois modos de dominar um povo: pelas armas e pelos meios financeiros. Na medida em que o dólar virou o lastro de todas as moedas os USA passaram a governar o mundo de modo sutil mas real. 


2- Deste sistema emergiram instituições como ONU/FMI/BID/CFR/OMC/OIT/OCDE etc. Eles tinham por fim assegurar os direitos humanos - cujo principal fiador era e é os USA via ONU cujo grosso do financiamento vem de Washington -  além do padrão dólar que instituiu mecanismos para um mercado global onde os USA teriam a hegemonia financeira mas abrindo espaço para uma co-hegemonia com Alemanha, França, Reino Unido, Japão e, a partir dos anos 70, China. 


3- Neste desenho a elite americana, europeia, chinesa e japonesa dividiriam o mundo entre si. Só que o pedaço do bolo foi ficando cada vez menor para os USA. Apesar disso Clinton, Bush e Obama não se mexeram por que o capitalismo americano - cada vez mais financeirizado e terceirizado quanto a produção -  parecia ainda bem robusto. Foi a crise de 2008 que acendeu o alerta pois quem forneceu boa parte dos recursos financeiros para os bancos americanos se recuperarem foi a China, detentora de grande parte dos títulos públicos americanos. A China passou a cobrir os défices orçamentários dos EUA. O BC chinês não comprou títulos do Tesouro americano visando a auferir juros. Ele comprou dólares apenas para manter o valor do dólar apreciado em relação ao yuan, para que os americanos pudessem comprar mais produtos dos exportadores chineses. E então utilizou esses dólares para comprar títulos do Tesouro americano.


4- Trump percebendo isso busca virar o jogo e não acabar com ele.  Ele desvaloriza o dólar para enfraquecer a China, aumenta tarifas para cobrir défice comercial, repatriando capital. Só da Apple, Trump repatriou mais de 800 bilhões de dólares. Para que repatriar capital? Simples: para que seja o fluxo de dinheiro no mercado interno e a obtenção de dólares via exportação quem garanta o financiamento do orçamento dos USA que, com isso, reduziria sua dependência da China. 


5- O que dissemos no início? Que se domina um povo pelas armas ou pelas finanças.  A China, ao se tornar a grande financiadora dos USA, passou a pautar, em parte, a política econômica dos EUA. Por outro lado isto era interessante às mega corporações americanas que pagam menos imposto na China (Nos EUA, antes de Trump, pagavam 35 por cento) e menos pela força de trabalho. Donald, então, fez uma reforma tributária para as grandes corporações ( Trump quer manter a hegemonia delas, não é um revolucionário anti-sistema coisa alguma) voltarem a exportar dos EUA em vez de fazerem isso da China. Para isto reduziu as garantias trabalhistas, reduziu impostos sobre bancos e grandes companhias para 21% ( menor taxa dos últimos anos) aumentando a concentração de renda. Isso reforçou sobretudo o setor de Big Techs ( Apple e Microsoft de Gates foram as grande beneficiadas). A reforma de Trump reduziu a progressividade do imposto de renda favorecendo os grandes bilionários além de isenção para heranças.  Não a toa Starbucks, Comcast, Disney Company, JP Morgan, Walmart e Big Techs apoiaram a reforma do presidente. Onde isso é ser anti-sistêmico? Nunca foi nem será. 


6- O FMI passou a temer que isso trouxesse desaceleração do comércio global - se você levanta tarifas a tendência é que todos levantem para se proteger num efeito cascata. Trump quer, com isso, destruir a globalização? Não. Desacelerar é ganhar tempo. Imagine um time que está perdendo um jogo por que o adversário toca rápido a bola. O segredo é cadenciar, reduzir o ritmo da partida para retomar o fôlego e contra-atacar, virando o placar. O que Trump imagina é: os EUA precisam refortalecer seu mercado interno primeiro. Só depois de recuperá-lo é que podemos falar de acelerar o jogo do comércio global. O fechamento do Império traz perdas mas ele tenta, enquanto ganha tempo, compensá-las com governos títeres como o do Brasil de Bolsonaro. 


7- Então que peças do sistema não apoiam Trump? Wall Street e o Global Research apontavam um alto risco para os mercados caso Biden vencesse: 


"Uma vitória dos Democratas pode ameaçar políticas defendidas por Trump e geralmente saudadas por Wall Street, incluindo taxas mais baixas de impostos corporativos e menor regulação, disseram analistas...Uma vitória em potencial de Joe Biden... e, em maior medida, uma 'virada Democrata", geralmente são consideradas resultados mais hostis ao mercado"


https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/06/09/investidor-se-prepara-para-volatilidade-conforme-trump-cai-nas-pesquisas


O que fez Wall Street mudar no fim da eleição se Trump apoiou a retirada da lei Dodd-Frank que impunha restrições a derivativos, criada depois da crise de 2008 como as desregulações dos fundos de pensão como pedia Wall Street? 


Simples: o pessimismo, de setores do mundo financeiro, em uma recuperação econômica dos USA sem um pacote de políticas sociais e sem arrecadação com impostos (lembrem que Trump cortou impostos). Stiglitz e Soros passaram a apostar no discurso de que, com a renúncia fiscal americana, o défice não será coberto e o crescimento impossível num quadro de covid-19 que demandaria política orçamentária e não apenas monetária. Por outro lado o temor de que a globalização sofra ainda mais retrocessos com a pandemia fê-los apostar em Biden que não parece tão disposto a uma guerra comercial. 


Em conclusão: há setores financeiros ao lado de Trump e outros contra Trump, ele não quer o fim da globalização mas o USA com o maior naco da riqueza gerada pela globalização, quer as instituições globais - FMI/FED/OCDE, etc. - seguindo os ditames duma retomada industrial da economia americana e, por isso, menos dedicadas a fomentar abertura comercial , além de suster a politica de baixos juros do governo estadunidense para reassegurar aos EUA o espaço perdido. LOGO, O QUE ESTÁ A ACONTECER É APENAS UMA LUTA INTRASISTÊMICA PELO SENTIDO DA GLOBALIZAÇÃO E NÃO ENTRE O SISTEMA E O ANTI-SISTEMA.  


Abaixo uma MATÉRIA de 2016 do site "Politico Magazine" com o título: "Por que Wall Street está de repente apaixonada por Trump? Não é apenas o retorno de ‘Government Sachs’ na pessoa do novo estrategista da Casa Branca Steve Bannon. Os comerciantes estão pensando que as políticas de Trump podem realmente funcionar - pelo menos para eles".


https://www.politico.com/magazine/story/2016/11/wall-street-donald-trump-2016-214452



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Manifesto contra a autonomia do Banco Central que fará do Brasil escravo definitivo do mercado financeiro.


 


Nos anos 70 a crise do petróleo desencadeou a subida da dívida externa dos países latino-americanos (inclusive do Brasil). O serviço da dívida (o pagamento dela), então, passou a requerer mais de 80 por cento das nossas exportações impedindo investimentos que resultassem em desenvolvimento. Foi este cenário que fez nosso país virar refém do poder financeiro estadunidense sob a direção do FMI/FED. Exportar a inflação americana para a América Latina via subida dos juros foi mortal pois isso levou-nos a perder a nossa autonomia na execução da política macroeconômica. Porém nada é tão ruim que não possa piorar. A recente notícia de que o BC ganhará autonomia reforça uma tendência histórica na direção dum projeto americano e neoliberal de destruição de nossa soberania que vem sendo posto em prática mais decisivamente desde os anos 1980.


Na década de 80 a América Latina e o Brasil passaria, em vista do contexto acima referido a ser um exportador líquido de recursos à media anual de 5% de seu PIB! FMI/FED resolveram na época que cabia ao Brasil e países latino-americanos buscar, por conta própria, soluções que resolvessem o problema orçamentário o que passaria a envolver a contração das importações mais que expansão das exportações. Isso levou a uma expropriação de 195 bilhões de dólares da América Latina por parte dos bancos americanos, o dobro do valor que os EUA destinou ao Plano Marshall! O governo brasileiro teve que se virar aumentando a receita tributária, pegando crédito interno a curto prazo e a taxas de juros altas. Na época o Plano Baker, do tesouro americano, previu, até, que o Brasil pagasse a sua dívida com ações de suas empresas! Com o Plano Brady os EUA passam a acenar para renegociação da dívida desde que os países da América Latina abram suas economias: isso aponta para o fato de que a abertura neoliberal no Brasil se deveu mais a chantagem norte-americana que aos méritos da teoria neoliberal. Só para termos uma ideia isso levou a uma redução de nosso saldo comercial com os USA que saiu dos 3.6 bilhões de dólares para cerca de 1.5 bilhões de dólares. Tudo isto aplainou o caminho para o Consenso de Washington ( Baseado em 10 pontos: Disciplina fiscal, reforma tributária, liberalização financeira, desregulação, privatizações, etc.) que passou a servir de modelo de modernização imposto sobre as costas dos países da América Latina e que convergem para dois lados: a redução drástica do Estado e a corrosão do conceito de Nação. Nessa abordagem só resta o modelo ortodoxo de Estado reduzido à função de manutenção da lei e ordem que emergiria da soberania absoluta do mercado que nem a Inglaterra – pátria de Adam Smith que preconizava o Laissez Faire – nem os EUA jamais praticaram pois nestes países de capitalismo avançado se destacam as grandes corporações dirigidas por executivos e não mais por seus proprietários, empresas socializadas e oligopolísticas, num quadro de competição imperfeita onde preços são administrados a salvo das incertezas da lei de oferta e procura, economias onde o Estado exerce atividade de regulador da atividade econômica para garantir o pleno emprego, o consumo de massa e o desenvolvimento.


A panaceia neoliberal vem acompanhada do discurso de que monopólios estatais são ineficazes mas ele não leva em conta que aqui no Brasil e no resto da América Latina, a gestão delas foi sacrificada pela contenção dos preços públicos em função dum combate equivocado a inflação que acabou refletindo no orçamento dos governos. Na maior parte dos casos a privatização vira desnacionalização como no caso das Aerolíneas Argentinas que passaram para o controle da Ibéria, empresa da Espanha. Como dizia Foster Dulles, secretário de estado do governo Eisenhower: “há duas maneiras de conquistas um povo, uma é pela força das armas, outra por meios financeiros”. Foi exatamente pela segunda maneira que os USA/Mercado Financeiro capturou o Brasil ao conseguir que, no governo Collor, o país se dobrasse às demandas neoliberais que exigem abertura completa ao capital especulativo. Os USA, ao contrário, controlam, por exemplo, o investimento estrangeiro em seu território como o investimento das empresas americanas no exterior podendo exigir aumento de remessas de dividendos de suas multinacionais para repatriar capital isso por que as multinacionais americanas não tem só papel comercial mas também como instrumentos da politica externa de Washington. A decolagem do Consenso de Washington com Collor levou o mesmo a negociar bilateralmente com os USA forçando o Brasil a rever sua lei de propriedade industrial, lei de informática, etc., exigindo aprovação do congresso nacional nessas matérias. Com a nomeação de Marcílio Marques Moreira, homem da comunidade financeira internacional, Collor renunciou ao papel de dirigir a economia nacional dando aos credores o poder de definir os rumos do país. De lá para cá tivemos FHC criando o plano real num quadro de monetarismo onde a estabilidade da moeda é posta acima do pressuposto do desenvolvimento nacional criando as condições para a contração da demanda, as privatizações e a consequente redução do papel macroeconômico do Estado que foi o receituário seguido pelo governo Lula graças a presença de Henrique Meirelles no BC, pelo governo Dilma via Joaquim Levy na economia e agora pelo governo Bolsonaro através de Paulo Guedes, super ministro da economia.


Com a autonomia do BC se fecha um ciclo iniciado pelo Consenso de Washington. O mercado tenta fazer valer a proposta sob a alegação de que ela visa blindar a instituição de “interferências políticas” como se estas fossem negativas. Decerto para os investidores, cujo interesse máximo é especular sem o risco de desvalorização da moeda, a interferência política no BC é extremamente negativa. Interferência política consiste em que o presidente tenha a autonomia para definir nossa política monetária em razão de nossas necessidades de crescimento. A panaceia é apresentada como saída para a questão fiscal, ou seja, para os neoliberais de plantão o país não existe mas tão só os investidores. Apesar dos especialistas do mercado financeiro apontarem a autonomia do BC como solução para atrair investimentos e gerar crescimento os mesmos especialistas insistem que “só isso não basta, precisa passar todas as reformas” numa clara tentativa de chantagear a sociedade brasileira a aceitar toda a agenda de destruição da soberania nacional. A pergunta que fica é que crescimento a reforma trabalhista e previdenciária proporcionaram, apontadas como soluções pelo mercado na época em que eram debatidas, trouxeram ao país? O que tivemos foi o crescimento do desemprego. Levando em conta as necessidades de retomada geradas pelo quadro da Covid-19 e duma política orçamentária condizente com elas, implantar a autonomia do BC fará de nosso país não mais um refém do sistema financeiro mas um escravo sem nenhuma perspectiva de uma futura alforria. Diga não a autonomia do BC!


Encaminhe este artigo no formato de envio de mensagem/formulário ao Senado Federal para evitar a escravidão do nosso povo aos banqueiros internacionais por este link: https://www12.senado.leg.br/institucional/falecomosenado


Professor Rafael Gonçalves de Queiroz, membro fundador da Legião da Santa Cruz, a iniciativa de nacionalismo católico na Terra de Santa Cruz.  



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Lista de heresias e erros da Fratelli Tutti de Bergoglio

Francisco a receber o ídolo Pachamama, divindade dos incas


Cada ponto representa um resumo dos erros e heresias da FT distribuídos nos seus 287 parágrafos. No termo de cada ponto está indicado o parágrafo corresponde ao erro/heresia encontrada. 




- Felicidade é amar o outro ( o amor a Deus não recebe destaque ) n1


- Encíclica dedicada a amizade social ( naturalismo - filantropia - amor natural ) n2


- Perverte a história de São Francisco de Assis com o Sultão dando-lhe caráter humanista ( não ressalta que o santo foi ter com ele para lhe converter a fé católica, antes dá a vista um caráter de universalismo humanista - algo que vence a diferença de cor, nação, religião ) n3


- Diz que São Francisco de Assis não impunha doutrina ( Falso pois foi pregar a fé católica ao Sultão defendendo Cristo diante dos doutores muçulmanos reunidos contra ele na corte de Al Kamil anunciando que todos deviam se converter ao Salvador ) n4


- Dá tom ecumênico a encíclica ao citar o Patriarca Bartolomeu e o Imã Ahmad n5


- Lamenta perda de força do projeto da UE e da Pátria Grande Bolivariana na América Latina n10/11


- Crítica positiva ao globalismo n12


- Crítica a colonização cultural ( ao mesmo tempo propõe uma cultura humanitária universal que é, nada mais, que a dissolução das identidades pátrias e colonização cultural progressista ) n14


- Crítica aos poderes econômicos da globalização enquanto advoga um projeto comum ( globalismo político sim, econômico não) n17


-Critica positiva ao descarte da pessoa pelos poderes econômicos n18/21


- Exaltação da cultura dos direitos humanos como base para superar a falta de qualidade de vida de populações excluídas dos bens da criação n22


- Advoga o feminismo amplo e geral ( igualitarismo mulher-homem) / não ressalta os diferentes papéis de cada sexo n23


- Quer uma globalização com um rumo comum ( governo global? Parlamento global? Medidas globais? Tomadas por quem? Que forma teria? Certamente calcada apenas na tal amizade social sem um horizonte sobrenatural) n29/31


- Pede abertura irrestrita de fronteiras mesmo em países europeus ameaçados pela mistura cultural com populações não católicas ( caso de Polônia, Hungria, etc) n37/41


-Condena o “fanatismo católico” dizendo que se trata de violência verbal n46


-Condena o colonialismo cultural dos países desenvolvidos sobre os subdesenvolvidos dizendo que isso cria baixo autoestima nacional que não ajuda no crescimento de cada povo conforme sua peculiaridade e cultura ( ao mesmo tempo, porém, ele pede uma cultura universal humanitária! Que contradição!) n51


- Fala de esperança num sentido meramente humano como sede do que é pleno, sem referência a vida eterna n55


- Se vale da Parábola do Bom Samaritano para embasar um conjunto de direitos humanos calcados em Deus mas há zero referência ao fato que só pela graça e fé em Cristo podemos amar perfeitamente o próximo e que poderia ser a via para reconstruir a cristandade. n57/62


- Faz uma provocação para que as barreiras históricas entre cristãos e judeus sejam superadas como se os segundos não fossem inimigos encarniçados dos primeiros e negadores de Cristo n84


- Fala da caridade apenas como virtude voltada para o homem, como abertura para o outro, reduzindo o seu caráter sobrenatural enquanto amor de Deus n91


- Assevera que amar é abrir-se e faz a leitura de que isso exige uma “sociedade aberta” ( mesma tese de Karl Popper que consiste numa sociedade sem “preconceitos”- leia-se sem valores religiosos e morais católicos mas aberta a todo tipo de costume e conduta ) n96/98


- Propõe um universalismo democrático multicultural sem homogeneização e eliminação das diferenças ( globalismo pluralista ) n99


- Critica positiva a liberdade econômica que por si só não cria condições dignas a todos. n 110


- Pede desenvolvimento do bem moral sem referência explícita ao fato que só na fé católica existe essa plena possibilidade n112/113


- Pede uma solidariedade meramente humana sem Cristo n114/117


- Ênfase positiva na destinação universal dos bens e na necessidade de colocar a propriedade privada orientada ao bem comum, enquanto direito relativo em vez de absoluto n118/120


- Ênfase positiva na necessidade de apoio às nações mais fracas a fim de que atinjam seu melhor IDH n124/127


-Diz que, no tocante aos grandes fluxos migratórios, as decisões dos estados nacionais não são legítimas nem suficientes pois todas elas recaem sobre a comunidade internacional n132


- Bergoglio pede uma governança global (legislação) para as migrações ( destruição prática das fronteiras nacionais ) n132


- Bergoglio pede uma síntese ocidente—oriente onde o Ocidente deve buscar no Oriente a cura para seu materialismo ( como se a Igreja Católica não pudesse oferecer isso duma maneira melhor que o Oriente!) n136


- Pede um ordenamento jurídico, politico e econômico global ( Governo Global ) n138


- Condena a defesa intransigente duma cultura e tradição como narcisismo localista/ toda cultura só é saudável se aberta aos outros ( não considera o caso de povos cristãos estarem sendo bombardeados por uma cultura laica anticatólica, pelo americanismo cultural, pela pressão da jihad islâmica em algumas áreas do Oriente, pelo Sionismo na Palestina, etc, e que, em muitos casos, esse fechamento é necessário para manter uma religião de pé e uma cultura milenar dotada de valores católicos) n146


- Povo é uma categoria aberta, é um vir a ser, não pode se fechar ( apelo a uma abertura multicultural que destrói a tradição dum povo ou apenas abertura na medida em que a novidade pode entrar em síntese com a tradição? Não fica claro) n160


- Crítica positiva a visão liberal: o indivíduo todo poderoso é uma falácia, o mercado não resolve tudo, a vida privada sem a ordem pública não subsiste n163/169


- Lamenta a perda de poder dos estados nacionais ante o crescimento dos poderes financeiros, mas, ao mesmo tempo, advoga um poder global comum para erradicar a fome e estabelecer os direitos humanos universais ( globalismo mercantil não pode/ globalismo político pode!) n172


- Pede autoridade mundial sem citar a Igreja Católica, a única autoridade mundial estabelecida por Deus na terra n172


- A política não deve se submeter a economia mas aos direitos humanos e bem comum mas nada de referir que a potestade política deve estar ligada a autoridade espiritual da Igreja ( humanismo laico ) n 177


- Amor social como caminho para uma civilização do "amor" sem referência a uma sociedade católica que embase isso; civilização do amor meramente humano. n183


- Fala da necessidade de buscar a verdade e que o relativismo não é o caminho para construir o bem comum mas nada de referir-se a Cristo como a Verdade. n206/209


- Defende o diálogo para chegar a verdades fundamentais e esquece de dizer que a Igreja já possui estas verdades: no mais tais verdades seriam, no máximo, aquelas naturais e acessíveis a razão e não as verdades reveladas sem as quais uma sociedade não pode ser redimida de suas feridas morais n211/214


- Paz social baseada na cultura do encontro e diálogo e não na redenção de Jesus Cristo: nada de restaurar todas as coisas Nele mas sim em confiar no homem ( otimismo iluminista ) n216/217

- Erra ao dizer que Jesus não autorizou o uso da violência e da intolerância; Nosso Senhor espancou os cambistas do templo, fazendo ele mesmo uso dela, assim como não mandou Pedro jogar fora a espada mas guardá-la ( base da doutrina do poder temporal dos papas que deu origem aos estados pontifícios durante a Idade Média e que foi consagrada na Bula Unam Sanctam ); outrossim deixou o mandamento de que aquele que depois de três admoestações não ouvir a Igreja que seja tratado como pagão e excomungado, consagrando o princípio da intolerância; São Paulo também diz em Romanos 16, 17 que os fiéis se afastem dos hereges n238


- Mente ao afirmar que as primeiras comunidades cristãs eram tolerantes com o mundo pagão em que vivia citando fora de contexto passagens de 2 Timóteo e Tito. Ora o Apóstolo São Paulo que pedia correção com suavidade se referia na mesma carta de 2 Timóteo 3, 1-9, do perigo que representam os homens de espírito corrupto desprezadores de Deus de quem os fiéis deveriam se precaver. São Paulo insiste que Timóteo no capítulo 4 de 2 Tim que combata o erro pois dias virão em que as pessoas não suportarão a sã doutrina. n239


- Heretiza ao rechaçar, in totus, a guerra e a pena de morte como recursos em casos graves; ora Santo Agostinho e Urbano II, papa que convocou as cruzadas, deram base teológica a guerra santa cristã e a Igreja sempre ensinou a liceidade da pena de morte como recurso em casos em que não resta outra via para restaurar a boa ordem. Se a guerra revela a condição de queda do homem nem sempre ela é má ou injusta como quer fazer parecer Bergoglio no número 261 n 255/270


-Apela a que todas as religiões se unam no reconhecimento de que somos filhos de Deus mas nem todas creem em Deus n271


-Lamenta o materialismo do mundo moderno mas numa clave de defesa dos “valores religiosos” em vez de se referir, claramente a que a única via para solucionar isto é a Igreja Católica, mãe e mestra da Verdade, e não valores de quaisquer religiões como se todas fossem igualmente boas n276


- Heretiza ao dizer que Deus age em outras religiões quando, na verdade, a Igreja é a única religião que guarda a revelação de Deus e pela qual ele continua a falar com o mundo n278


- Pede a intercomunhão plena das seitas protestantes e da Igreja Católica ( para que trabalhem pela humanidade não pela glória de Deus ) como se a unidade ainda estivesse por construir e não fosse, a própria Igreja Católica, o único rebanho de Cristo a quem todos devem se converter n280


-Diz que é possível a Paz entre a verdadeira religião e as falsas n281


-Condena as cruzadas e a inquisição como se derramar sangue culpado e herético fosse avesso a lei divina que permite o uso da força e da violência santa quando a salvação das almas e a vida da cristandade correm perigo n285






quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Refutação de Carlos Ramalhete sobre a liceidade das "uniões civis gays" de Bergoglio



De fato o diabo está a atacar o Papa: com a idéia de uniões civis gays o que se dará é justamente a progressiva equiparação das duplas gays aos casais héteros. 



Ramalhete se faz de besta.

Primeiro por que reconhecimentos de uniões de fato ( como já ocorre com as uniões estáveis ) no atual ordenamento jurídico ocidental implicam no que diz o caput do artigo 1.723 do Código Civil, que estabelece ser a união estável - protótipo dos regimes de "uniões" de ato-fato jurídico - constituída “com o objetivo de constituição de família". Todo a filosofia jurídica ocidental, nos últimos anos, passou a girar no entorno de uma base costumeira ( onde fato faz o direito em vez do direito, emanado da ética, da lei natural, da lei eterna, etc, regular os costumes ) de origem anglo-estadunidense que faz de hábitos sociais consolidados um direito. Assumir esse pressuposto é aplainar a estrada para amanhã autorizar e reconhecer sobre todo tipo de perversão.


Segundo que a expressão “com objetivo de constituição de família” têm o mesmo significado de natureza familiar na jurisprudência ocidental atual. A configuração da natureza familiar da união estável não depende de qualquer ato de vontade, ou seja, da vontade de constituir família. Ainda que os companheiros ou conviventes declarem expressamente, em algum ato jurídico, que não desejam constituir família, a natureza desta será determinada pelo juiz, tomando em conta apenas "fatos" e não o conceito reto do que seja família.


Terceiro que o art. 1.725 do Código Civil admite que os companheiros possam celebrar contrato escrito para regular “as relações patrimoniais”. Os "companheiros" podem adotar algum dos regimes aplicáveis facultativamente ao casamento o que significa a equiparação deste regime de união civil ao do casamento natural. A ausência desse contrato fará com que os bens adquiridos por qualquer dos companheiros na constância da união estável entrem na comunhão, segundo o regime de comunhão parcial do casamento, com ou sem participação de ambos na aquisição por decisão do juiz e em face a jurisprudência já consolidada. Logo, tais uniões, acabam ganhando o mesmo status que o casamento, ao fim e ao cabo.


Quarto que as uniões estáveis acabaram por, na prática, regulamentar a bigamia e a poligamia em desfavor da fidelidade matrimonial e da boa ordem social.


Quinto que, como diz Leão 13, as leis civis devem favorecer a salvação eterna das almas. Leis que favorecem aqueles que vivem amasiados no pecado vão na linha oposta ao deste princípio. Ainda que se pudesse alegar a necessidade duma união civil gay para regular direitos de patrimônio e sucessão no caso de morte ou separação da dupla, pergunto: qual a finalidade da transmissão dos bens patrimoniais senão a segurança da prole e sustento dos laços sanguíneos? Sodomitas não podem ter prole natural, de modo que as leis devem dificultar ao máximo que sua união de fato traga benefícios em termos de direitos que mais estimulam a desobediência a lei de Deus, facilitando o pecado, que a obediência, o dificultando.


Sexto que tal dispositivo facilitaria a adoção de crianças por duplas gays já que direitos de sucessão e transmissão estariam consolidados e equiparados ao do regime de comunhão de bens do casamento civil.


Enfim, por todos estes motivos esta proposta é completamente oposta ao que se poderia esperar dum católico bem informado quanto menos dum papa pela falta de prevenção que ela representa.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Entenda por que o Chile está a beira da primeira revolução identitária da história: a América do Sul em perigo.


 

O que está a acontecer no Chile é uma revolução. Não se tratam apenas de protestos e de revolta popular contra um governo de direita que encareceu o custo de vida do povo mas duma mudança estrutural do país. Bom lembrar que revoluções começam, via de regra, através de manifestações populares de descontentamento que, capturadas por intelectuais, ganham uma direção que lhes falta. Foi assim na revolução francesa onde as ondas de rebelião no campo e nas cidades foi capturada pela gironda que tinha um projeto estruturado de monarquia constitucional delineada nos porões das lojas maçônicas pelos pensadores da ilustração. Foi também o que aconteceu na Rússia de 1917 em que os descontentamentos e a fome causada pela permanência na primeira guerra deram aos bolcheviques a oportunidade de tomar as rédeas dos soviets. Nos dois casos uma inteligência, uma minoria organizada, se sobrepõe às forças caóticas de destruição a fim de construir uma nova ordem dos escombros.

O que se passa no Chile deve ser descrito em três passos; no primeiro trata-se de entender que Chile temos, no segundo que Chile está sendo criado, no terceiro o que isso significa para a América do Sul.

A atual constituição do Chile é de corte neoliberal nascida na ditadura de Pinochet. Ela dá pouco destaque ao papel do Estado na prestação de servições de saúde, educação e previdência. Os protestos querem uma nova constituição que garanta esses serviços via Estado. A princípio pode parecer que temos uma revolução pró Estado mas não se enganem. A idéia de base do Unidad Social, movimento que unifica coletivos de esquerda e que passou a liderar as manifestações – a minoria organizada, a inteligência revolucionária – é a da sociedade civil organizada x Estado. Não custa lembrar que a lógica da era Pinochet também estava marcada por menos Estado no plano econômico e social embora por mais Estado no plano policialesco. Agora o discurso que sustém o projeto do Unidad Social é o inverso: mais serviços com menos poder. Explico: a Mesa Sindical que forma o Unidad Social criou uma estrutura de “cabildos populares” espécies de comunas que seriam protótipos da democracia direta a ser implementada via nova constituinte, ou seja, uma espécie de experimento anarquista. O clamor por um novo pacto social que garanta direitos básicos aos mais pobres é absolutamente legítimo porém as organizações da esquerda anarco-feminista e indigenista aprisionou esta aspiração justa dentro dum esquema completamente espúrio e que atende a interesses escusos. Para se ter uma idéia a Mesa da Unidad conta apenas com coletivos de esquerda em sua composição como se a sociedade chilena estivesse perfeitamente espelhada por elas. Na Mesa temos a CUT chilena e a “No Mas AFP”, organizações marcadas pela luta trabalhista e previdenciária mas quem dá o tom na Unidade Social são militantes que carregam um discurso democratizante/identitário ou comuno-anarquista. É o caso de Barbara Figueroa, professora universitária ligada ao movimento Juventud Comunistas de Chile. Figueroa se tornou líder da CUT afastando Arturo Martinez da direção da mesma, um socialista moderado. Barbara faz parte do “Colégio de Profesores” organização que lidera manifestações estudantis desde 2006 e cujos dirigentes são, na sua maioria, filiados ao partido comunista chileno, não representando, portanto, o conjunto do professorado chileno mas servindo de fachada para organizações partidárias. É o caso, inclusive, do seu atual presidente, Mario Aguilar, um dos fundadores do Partido de Los Verdes, de linha ecologista e ligado ao Movimento Siloísta fundado por Luiz Cobos e que tem por objetivo instaurar uma nova humanidade calcada na “diversidade”. Esse movimento deu origem, no Chile, ao Partido Humanista ao qual o sr. Aguilar pertence.

Barbara Figueroa, comunista líder da CUT do Chile

Outro nome importante nesse cenário é o de Alondra Carrilo, a líder do movimento feminista 8M que está por trás do vilipêndio às Igrejas. A 8M é uma “internacional feminista” que não representa organicamente a sociedade chilena. A 8M foi fundada pela comunista Angela Y. Davis, entre outras militantes feministas; Davis é a criadora da ONG Critical Resistance que trabalha pelo fim dos “complexos prisionais” e pelos “direitos” de criminosos. Outra fundadora é Mônica Benício da ONG Human Rights que está sob o auspício de várias fundações globais. Por tudo isto se vê em que direção está indo o Chile. Para aclarar ainda mais o cenário chileno lembro que a Human Rights Watch foi fundada como uma ONG americana em 1978, sob o nome de Helsinki Watch, cuja missão era monitorar o cumprimento pela então União Soviética dos Acordos de Helsinque. A Helsinki Watch adotou a prática de publicamente "nomear e envergonhar" governos abusivos através de coberturas jornalísticas e colaborações com formuladores de políticas. Ao expor internacionalmente as violações dos direitos humanos na União Soviética e em seus parceiros europeus, a organização contribuiu para as transformações democráticas da região no final de 1980, servindo, portanto como navio quebra gelo para a implantação da pax americana e a unipolaridade. Uma das organizações de mídia dos USA mais dedicadas a cobrir positivamente as mudanças no Chile é o Democracy Now, grupo financiado pela JM Kaplan, fundo de apoio a direitos humanos e ambientais, a Fundação Lannan que apoia a literatura indigenista e o indigenismo, a Park Foudantion, do magnata da mídia Roy Park, que financia causas liberais e ambientais, além da já conhecida e famigerada Fundação Ford, entre outras. Portando o que estamos a assistir no Chile é a velha e conhecida revolução colorida onde um governo não perfeitamente alinhado aos interesses americanos é substituído por outro: é a revolução permanente pela via da democracia e não mais do comunismo puro e simples, uma revolução que despoleta um processo de dominação dum país pelas ONGs estadunidenses, poderes financeiros internacionais, coletivos anônimos que obedecem a comandos estrangeiros e a pautas exóticas e exógenas, forças estas comprometidas com a destruição final da malha nacional dos países que são suas vítimas.

                Alondra Carrilo, a Sarah Winter de esquerda do Chile

Mas, no caso chileno ainda há um agravante que faz essa revolução colorida ganhar cor nova: o projeto da nova constituição aborda a autonomia das terras mapuches. A pauta pela criação do Estado Mapuche merece um artigo em separado pela extensão do problema que coloca em risco não só a soberania do Chile quanto da Argentina. Primeiro é preciso lembrar que jamais existiu um povo mapuche e o que se convencionou chamar de mapuches são remanescentes de 4 povos que existiam na Araucania e Patagônia. E em segundo lugar é preciso destacar que a luta pelo estado mapuche dentro dum novo estado comunal chileno se faz em torno da batalha pelo reconhecimento das identidades (sexuais, étnicas, geracionais) que marca a ideologia pós moderna. O historiador Fernando Pairicán vê na causa dos mapuches uma chance de incorporar o Chile de vez às tendências da pós-modernidade.

Isso tudo terá consequências desastrosas para a América do Sul caso realmente se concretize pois poderemos vir a assistir a primeira revolução anarco-colorida e identitária da história. Quem conhece o passado sabe bem como esse tipo de experiência revolucionária tem a capacidade de despoletar processos semelhantes em outros países. Sabemos que o Brasil vive, agora, um processo de implantação da pós modernidade via grande mídia e via  partidos/coletivos/intelectuais/propagandistas progressistas além do papel da new left. Sabemos como o cenário em toda a América do Sul vem se desenhando, nos mais variados países, em torno duma guerra híbrida entre partidos da direita patriótica neoliberal ao estilo  do partido republicano dos USA x identitários democratizantes pós modernos que é o esquema em cima do qual se desenha a revolução no Chile agora, assim como também por aqui, se delineiam reclamos cada vez mais intensos e organizados em torno de terras indígenas que podem vir a se valer do exemplo mapuche. Exportar essa mesma experiência pelo continente não será difícil se o exemplo do Unidad Social vingar e isto nos porá num quadro de balcanização do continente.


A bandeira Mapuche, colocada acima da do Chile, durante os protestos de 2019 em Santiago. 

Um outro elemento da equação é o recente alinhamento do Chile em direção a Ásia via acordo do Pacífico. Em 2015 o Instituto Inter American Dialogue, sediado em Washington, deixou claro que a China era o parceiro invisível do acordo e ligou o alerta de vários thinks thanks e organizações americanas quanto aos rumos do Chile.

Quem tiver olhos que veja.  



sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Fugir dos Rad-Trads para cair no colo de Pachamama: refutação do padre Leonardo

 



Antes e durante o Vaticano II as forças da dissolução da Igreja dentro da Igreja – os teólogos modernistas do movimento litúrgico, bíblico e ecumênico calcados na síntese de todas as heresias já condenada por São Pio X na Pascendi – não fizeram o caso de mascarar seu ímpeto progressista deixando claro que o objetivo era mesmo secularizar a Igreja aproximando-a do mundo e colocando-a à altura dos tempos modernos. Mas depois de décadas de aplicação das reformas do CVII e com os maus frutos decorrentes delas – perda de vocações, menos assistência aos sacramentos, perda de fiéis, etc – não é mais tão fácil convencer que o progressismo seja o caminho. Por isso foi preciso vestir a demolição da Igreja de capa e tiara, de batina e sobrepeliz, para dar-lhe novo fôlego com uma roupagem que tem ares de “tradição” sem que vá, de verdade, ao cerne do que seja a Tradição. Este o caso do padre em tela. Leonardo Wagner, egresso do carismatismo – mais um fruto podre das reformas do CVII – agora se apresenta como padre da “tradição”, um sacerdote apegado a missa “na forma extraordinária”, um “tradicionalista moderado” que rechaça o “tradicionalismo radical”, ou seja, um “tradicionalista” que atravessa uma corda bamba embaixo dum abismo e que tenta sintetizar o ensino imutável da Igreja com as novidades do CVII – todas elas condenadas pelos papas pré conciliares.


Por conta dessa revolução de capa e tiara – anunciada pela alta venda maçônica já no século 19 – agora sob a forma da idéia de hermenêutica da continuidade iniciada por Bento 16 é que padres como Leonardo ascenderam na cena católica do Brasil – na esteira de Padre Paulo Ricardo e outros adeptos da corda bamba que tentam equilibrar obediência a modernistas com missa de sempre.


Esse equilibrismo, que é medo de lutar e de perder o sentimento de que vai tudo bem e que tudo segue equilibrado na Igreja pois, se fosse diferente disto eles teriam que dar uma resposta existencial a este quadro pois quando tomamos consciência das coisas já não podemos ser mais os mesmos, exige de nós uma refutação das falácias, sofismas e espantalhos usados como recursos pelo padre referido para denegrir a posição tradicionalista e levar as consciências a um estado de cegueira, único capaz de assegurar a letargia necessária para que tudo seja destroçado sem que ninguém oponha, às forças do mal, muralhas e exércitos.


Vamos, então, ao texto do padre referido com as devidas refutações.


No dia 11 de outubro de 2020 Leonardo Wagner escreveu este texto sob o título de “Fuja dos Rad-Trads” - em negrito e sublinhado - onde elenca que:



1- “Um problema que provoca um impacto negativo entre os fiéis católicos são os grupos tradicionais radicais. Tais grupos negam a autoridade do Papa Francisco, a validade da Missa de Paulo VI, a validade de canonizações, etc.”


Refutação: Em que consiste negar a autoridade de Francisco? Contestar a validade de sua eleição? Questionar a sua forma de governar?


A posição tradicionalista de linha lefebvrista sempre se caracterizou por criticar a forma do exercício da autoridade tal como esta se desenhou após o CVII e não por negá-la aos papas conciliares. Tal posição é a dos sedevacantes que não reconhecem os últimos papas como pontífices legítimos. Mesmo no caso deles seria absurda a acusação, desde o pressuposto do qual partem que é o de que tais papas teriam sido, na verdade, usurpadores o que obrigaria a resistir-lhes como a antipapas, não constando aí, rigorosamente falando, nem pecado de cisma ( que é a recusa de obedecer ao pontífice e permanecer em comunhão com ele pois isto exige que o acusado reconheça que exista um papa reinante ) nem de heresia ( pois não advogam a posição de Lutero, qual seja uma Igreja sem papa ou cabeça). Por outro lado toda autoridade deve ser exercida dentro de limites de modo que o poder civil se baseia na lei, num pacto entre governantes e governados, enquanto que o poder eclesiástico se funda em critérios estipulados por Nosso Senhor Jesus Cristo cujo princípio máximo é o da salvação das almas e onde o modo é hierárquico e imperativo e não dialogal e consensual.


Desde o CVII não só a maneira de exercer a “autoridade” foi modificada quanto a doutrina que a fundamenta. A maneira pois em vez de impor os hierarcas dialogam o que lhes revela a doutrina que subjaz a este novo modelo de “hierarquia”: a Igreja não tem a verdade plena por isso dialoga-se com o mundo, com as falsas religiões, com as seitas, com os homens de “boa vontade”; a Igreja de Cristo não é mais a mesma coisa que a Igreja Católica, apenas subsiste nela, como diz a Lumen Gentium, mas também pode subsistir fora dela nos vários caminhos do homem, de modo que os papas não devem mais agir de forma imperativa, ensinando o caminho da salvação e da verdade ao mundo, eles devem, também aprender dele, levando a uma síntese entre Igreja e Mundo.


Por isso que não são os tradicionalistas que negam a autoridade de Francisco mas ele mesmo que a recusa. E isto fica claro em dois documentos oficiais:;


- Primeiro na Evangelii Gaudium onde vemos no número 32 que:


“ Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado”


Percebam que não se fala de conversão do Papa que pode, como pessoa individual, ser mais ou menos fiel ao múnus recebido de Cristo; antes Francisco fala de mudança – conversão é mudar de direção – do papado, da instituição.


Continuando:


“Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização”.


Acima Francisco dá a entender que estaria a falar duma maior fidelidade ao seu encargo mas na sequência do texto vai ficando claro que é não é bem isso;


“O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova».[35] Pouco temos avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma conversão pastoral.”


Ou seja, não se trata de conversão pessoal mas de mudar estruturas.


Continuando:


“O Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas patriarcais, as conferências episcopais podem «aportar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas».[36] Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal.


Vejam: Bergoglio pede que conferências episcopais façam parte da Igreja Docente, tendo poder de doutrinar! Todavia o múnus de ensinar pertence apenas ao Papa e Bispos; as conferências episcopais são apenas associações nacionais de bispos duma região ou país, não fazem parte da estrutura hierárquica da Igreja. Neste caso a doutrina ensinada pelas conferências obrigaria cada bispo local – uma clara usurpação do poder episcopal. Como uma conferência poderia dedicir questões de doutrina levando em conta apenas contextos locais se a doutrina deve ser universal? Então teríamos uma doutrina para cada país? Neste contexto o poder do papa seria reduzido em matérias judiciais e legislativas, caminhando para se tornar apenas um coordenador da “unidade” entre as conferências. Ademais as conferências se organizam de forma democrática, baseadas no consenso e na maioria, são fruto do espírito colegial-democratizante do CVII, enquanto que a Igreja Católica é hierárquica.


E não estamos aventando hipóteses ou elucubrando ao vento: Francisco diz expressamente que deve haver uma doutrina para cada lugar e que o papa não deve decidir sobre todas as questões de fé, como vemos na Amoris Laetitia, número 3:


“Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. ( redução explícita da autoridade papal – nota nossa ) Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há-de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo 16, 13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar. Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, «as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.



Quanto a validade das canonizações pós CVII os tradicionalistas alertam para a falta dum processo seguro calçado no contraditório (advogado do diabo), no exame de todos os escritos do candidato e não apenas dos escritos públicos ( alguém pode ser herege em privado ), nos três milagres e nas virtudes heróicas do candidato, elementos ausentes ou – no caso dalgumas canonizações – dispensados. Nem se poderia mais falar, estritamente, em processo de canonização mas apenas em procedimento pois já não existe um julgamento da causa dependendo a decisão sobre o candidato aos altares apenas do cumprimento das fases procedimentais requeridas o que envolve, no mais das vezes, a mobilização de vultosos recursos financeiros por parte dos promotores o que coloca candidatos que advém de dioceses ricas e de organizações milionárias ( Caso de JoseMaria Escrivá da Opus Dei ) em posição de vantagem, pervertendo a coisa toda. Quanto a missa nova a posição tradicional sempre foi de que ela é ilícita mas não inválida. Portanto o padre Leonardo mente no tocante a estes dois pontos: nenhum tradicionalista trata as duas questões a partir da noção de invalidade mas da de suspeição e ilicitude. Obviamente o padre em tela precisa criar um espantalho feio em vez de pontuar as coisas com honestidade a fim de pintar o tradicionalismo como se fora o diabo em vez duma posição embasada na mais lídima doutrina católica.



2- “Além dessas más condutas, esses grupos atraem pessoas para a “tribo”. Por conta dos rigorismos impostos, a pessoa acaba desenvolvendo os escrúpulos de consciência, um defeito de consciência que muitos já devem conhecer. A partir daí, é ladeira abaixo, a pessoa vai se cansando, vai desenvolvendo uma fadiga espiritual, pois foi colocado um peso muito grande sobre o seu ombro. No final da história, ela acaba cansando e deixando a vivência da fé católica como um episódio passageiro da sua biografia”.



Que pessoas foram essas que o padre diz terem saído da Igreja e perdido a fé? Ele não aponta um só exemplo, não apresenta números, talvez por que tenha medo dos números envolvendo a missa nova e dos meios conciliares que mostram uma verdadeira fuga de vocações religiosas e sacerdotais além da fuga de fiéis, fatos que não preocupam Leonardo. Quando Paulo VI encerrou o Concílio Vaticano II em 1965, os religiosos estavam no máximo fulgor. Os membros dos institutos masculinos eram 329.799, as mulheres chegavam quase a um milhão (961.264). Eram os anos em que os religiosos davam exemplo da universalidade da Igreja, estando presentes nos lugares de missão espalhados pelo mundo, não temendo enfrentar as hostilidades dos estados seculares e encarnando o impulso à missão. A Europa já perdera a exclusividade da vida consagrada, enquanto as Américas, em particular os Estados Unidos, se povoavam com túnicas e véus. O tempo da prosperidade, porém, estava se esgotando. Apenas uma década depois, os religiosos já tinham caído 18,51% (-61.053), e as religiosas, 9,72% (-93.491). Desde então, a tendência ainda não se inverteu e só piora com o passar dos tempos. Durante os primeiros 40 anos pós-conciliares, as congregações clericais ou sacerdotais se contraíram em média 24,58%. Na Irlanda, por exemplo, foram ordenados apenas 14 sacerdotes no ano de 2015, contra uma média de quase 300 algumas décadas atrás! Na França, a redução foi de 85%, na Alemanha foi de 88%. Na FSSPX tradicionalista, ao contrário, entre 2013 e 2017 tivemos 23 sacerdotes ordenados por ano, mais que a Irlanda inteira.


No Brasil, apenas 37% dos católicos de missa nova afirmam que vão à igreja ao menos uma vez por semana, contra 76% dos protestantes. Na Argentina, terra natal de Francisco, o número cai para 15% e chega a apenas 9% no Uruguai. No Brasil, 54% dos atuais protestantes dizem ter sido criados como católicos. Como temos cerca de 50 milhões de protestantes no país segundo os últimos censos isso dá uma perda de mais de 25 milhões de almas durante a fase que o CVII foi aplicado no Brasil que coincidiu com os anos 60/70 em que tivemos um grande crescimento populacional ligado a ascensão do mundo urbano e a migração interna para os grandes centros industrializados do sudeste o que prova a ineficácia da pastoral baseada nos preceitos do aggiornamento do concílio.


Os dados não mentem, já o padre Leonardo não poupa no uso de mentiras para desinformar o seu público cativo. E não se esqueçam: se fugirem dos rad-trads, como pede o padre, cairão nos braços da Pachamama - https://oriundi.net/a-nova-moeda-do-vaticano-representa-a-pachamama