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terça-feira, 13 de maio de 2014

Dom Rifan explica os limites da obediência às autoridades!

                                                              Verdade X Autoridade




Nosso Senhor fundou uma Igreja hierárquica, com Papa e Bispos 
a quem se deve obedecer. Esses hierarcas não são donos ou 
proprietários da Igreja. São administradores; e o que deles a Igreja 
exige é que sejam fiéis transmissores (Concílio Vaticano I – Denz. 
3070). Seu poder é grande, mas não absoluto ou sem limites. E o 
fiel pode muito bem usar do direito – e da obrigação – de 
comparação entre o que se lhe ensina hoje e o que foi sempre 
ensinado; conforme proclama o Apóstolo São Paulo: “Mas, ainda 
que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho 
diferente daquele que vos tenho anunciado, seja anátema” (Gal. 1, 
8). A Igreja quando manda obedecer não o faz incondicionalmente, 
mas dá ao fiel o direito de analisar, comparar e resistir, se for 
preciso, como o disse e fez São Paulo com relação a São Pedro, 
primeiro Papa (Cfr. Gal. 2, 11-14 e Suma Teológica II-II, q. 33, a. 
IV). 

Quando os tempos são normais e as autoridades nos transmitem a 
verdadeira doutrina tradicional, não há porque não obedecer, como 
o fizeram os santos de tais épocas. Mas se não, eles sabiam resistir e 
arrostar todas as pressões, arbitrariedades e abusos de poder. 
O célebre hagiógrafo católico Dom Guéranger assim resume esta 
posição, comentando a resistência oposta pelos fiéis às autoridades 
que patrocinaram o erro, no tempo da heresia do Bispo Nestório: 
“Quando o pastor se transforma em lobo, é ao rebanho que, em 
primeiro lugar, cabe defender-se. Normalmente, sem dúvida, a 
doutrina desce dos Bispos para o povo fiel, e os súditos, no domínio 
da Fé, não devem julgar seus chefes. Mas há, no tesouro da 
revelação, pontos essenciais, que todo cristão, em vista de seu 
próprio título de cristão, necessariamente conhece e 
obrigatoriamente há de defender. O princípio não muda, quer se 
trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma. (...) Os 
verdadeiros fiéis são os homens que extraem de seu Batismo, em  
tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os 
pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes 
estabelecidos, esperam, para afugentar o inimigo, ou para se opor 
a suas empresas, um programa, que não é necessário, que não lhes 
deve ser dado” (L’Année Liturgique, p. 340 ss). 

Evidentemente, viver em tempos de crise, como os que nós 
vivemos, é muito penoso e exige-se então, de cada um, verdadeiro 
heroísmo. É muito fácil defender causas já vitoriosas. O difícil é 
trabalhar arduamente pela vitória de uma causa justa. É muito fácil 
ser o corajoso adepto de uma verdade já vencedora. O difícil é 
aderir à vontade quando ela está perseguida e humilhada. É mais 
cômodo juntar-se às fileiras do exército vencedor. É mais agradável 
seguir a maioria, estar bem com quem está no poder. Mas é 
tremendamente incômodo lutar pela verdade quando até as 
autoridades patrocinam a causa contrária e favorecem o erro. 
Hoje, quando a história já deu ganho de causa a Jesus Cristo, 
contra Anás e Caifás, não há quem julgue que, se vivesse naquele 
tempo, teria sido um fiel discípulo do Salvador e jamais teria 
tomado o partido de Caifás. Mas, teriam esses mesmos coragem de 
enfrentar as autoridades oficiais da religião verdadeira de então? 
Caifás era o Sumo Pontífice, cercado de outros representantes 
oficiais do poder de Deus. E nós vemos pelo Evangelho a "pressão" 
que essas autoridades faziam sobre os que queriam seguir a Jesus. 
São João no seu Evangelho (9, 22) narra aquela passagem dos pais 
do cego curado por Cristo negando-se a confessar o milagre porque 
os judeus tinham decidido expulsar quem aderisse a Jesus. É difícil 
ficar com a verdade até contra a autoridade. Por isso Jesus ficou 
com bem poucos amigos, porque a maioria não suportou a pressão e 
o peso da autoridade religiosa e preferiu ficar do lado do Sumo 
Pontífice Caifás e condenar a Jesus como impostor, ladrão e 
agitador do povo. 

Hoje, séculos depois, quando vemos na História da Igreja (Cfr. 
Denz.-Sch. 561 e 563) que o Papa Honório I favoreceu a heresia e 
por isso foi condenado pelo seu sucessor Papa São Leão II e pelo VI 
Concílio Ecumênico por estar em desacordo com a tradição da  
Igreja, fica fácil dizer que nós, naquele tempo, também estaríamos 
do lado de São Máximo e São Sofrônio, que resistiram ao Papa e 
foram canonizados, isto é, colocados pela Igreja como modelo de 
fidelidade para todos os cristãos. Mas se defendêssemos o "dogma" 
da obediência incondicional ao Papa, como muitos hoje o fazem, 
estaríamos sim do lado dos hereges. 

Assim também no confronto entre o Papa Libério e Santo 
Atanásio, este, defensor da ortodoxia e por isso expulso de sua 
igreja, e aquele, o Papa, que assinou uma fórmula ambígua e 
heretizante, ao sabor dos hereges e excomungou Atanásio porque 
este se recusava acompanhá-lo na sua defecção. O Papa Libério 
então, em nome da paz e da concórdia, declarou-se em união com 
todos os Bispos, inclusive os semi-arianos, menos com Atanásio, ao 
qual proclamou alheio à sua comunhão e à comunhão da Igreja 
Romana (Cfr. Denz.-Sch. 138). Santo Atanásio, por defender a sã 
doutrina, foi condenado como perturbador da comunhão eclesial! 
Hoje, depois que a Igreja canonizou Santo Atanásio como ínclito 
defensor da Fé e da Tradição, fica fácil dizer que estavam certos 
aqueles poucos que ficaram ao lado do Santo e foram expulsos das 
igrejas oficiais, sendo obrigados a se reunirem nos desertos debaixo 
de sol e chuva, mas conservando a fé intacta e respondendo aos 
hereges: vocês têm os templos, nós temos a Fé! (Cfr. São Basílio, 
ep. 242, apud Cardeal Newman - Arians of the Fourth Century, 
apêndice V). Mas, como ficariam, se vivessem naquele tempo, 
aqueles que põem na obediência o seu universo mental? 

Evidentemente do lado mais fácil e cômodo da autoridade, e da 
heresia por ela favorecida. 

Hoje, a história da Revolução Francesa nos ensina quão covardes 
foram aqueles padres e bispos que, para conservarem as suas igrejas 
e seus cargos, aceitaram um compromisso com os dominantes e 
fizeram o juramento revolucionário, e quão heróicos foram aqueles 
sacerdotes que a isso se recusaram e foram expulsos, tendo que 
atender ao povo fiel nos paióis, escondidos e perseguidos. 
De nossa parte, temos a plena convicção de que o melhor serviço 
que podemos prestar à Igreja, ao Papa, ao Bispo e ao povo cristão é  
defendermos a tradição, a doutrina que a Igreja sempre ensinou, 
mesmo à custa de sermos perseguidos, injuriados e até expulsos das 
igrejas. Podem nos tirar os templos, mas jamais a nossa Fé! Assim o 
dizemos, confiados unicamente na Graça de Deus. 
A história nos dará razão! E, mais do que o tribunal da história, o 
tribunal de Deus, para o qual apelamos! Que Nossa Senhora nos dê coragem e perseverança.

Fonte: Rifan, Pe Fernando Arêas. Quer agrade, quer desagrade. Páginas 46 a 49. 

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