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sábado, 2 de junho de 2018

Reconhecer o Estado de Israel é sionismo? Resposta ao Padre Tenório.

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Padre Marcelo Tenório



1- Introdução

Recentemente um vídeo espalhou uma denúncia sobre o sacerdote Marcelo Tenório. O referido padre rezou no Muro das Lamentações em Israel o que escandalizou muitas almas católicas mais aferradas a tradição. Tenório, tendo se indignado ante a denúncia passou a defender-se asseverando que embora ele reconheça a existência do Estado de Israel não se considera um sionista, base da acusação levantada pelo vídeo. Segundo o padre Marcelo a existência de Israel seria um fato positivo para a população cristã da região dado que o Estado Judeu, protegeria os cristãos de ataques muçulmanos; assim, se a terra de Israel não estivesse em mãos judias, a condição dos cristãos seria bem pior o que traria perseguições e mortes, segundo padre Marcelo. Ainda segundo o sacerdote o Estado de Israel deve existir pois para onde iriam os judeus sem um Estado?  Em suma, são estes os argumentos utilizados por Tenório para justificar a reza no Muro e sua posição ante Israel. 

Num primeiro momento é preciso explicar que é o sionismo para podermos responder esta pergunta. Antes, porém, precisamos entender, teologicamente, o que significa o dom da terra no contexto da palavra de Deus. 

2- A “terra da promissão” na sagrada escritura

A bíblia na versão hebraica não conhece o termo "terra prometida" pois tal palavra inexiste no hebraico. O termo que se encontra em Êxodo é jurar: terra que a teus pais jurou dar-te (Ex 13, 5). A expressão se refere a um juramento feito por Deus a Abraão em decorrência da promessa da descendência: a terra é a garantia de uma descendência. Trata-se aí da Terra de Canaã (Gn 17,8). Depois de Moisés ter guiado o povo para Canaã, Deus apela a que os hebreus mantenham a terra sem mancha pois nela habita o Altíssimo (Nm 35,34). Na tradição bíblica só Deus é proprietário do país. A terra não é um privilégio dos hebreus mas um dom, um direito conferido ao povo; direito implica deveres, consignados num pacto entre Deus e os israelitas no Sinai: se obedecerdes o meu mandamento tereis a benção, a terra e ela produzirá frutos; caso desobedeçam serão malditos, a terra dará cardos e espinhos e sereis dominados por povos pagãos, perdendo a terra. Os israelitas habitam nela a título de "estrangeiros e inquilinos" (Gn 23, 4; Ex 6,4). Só na medida em que o povo se mantiver longe dos deuses estranhos (Js 24,14-24) é que a terra será protegida por Deus. 


Na história do povo hebreu foram várias as ocasiões onde o mesmo foi conquistado e levado como escravo para o exterior por conta de sua infidelidade ao pacto e a Deus. Foi o caso da conquista Assíria do reino de Israel e o caso do Reino de Judá, destruído pelo Império Neo-Babilônico de Nabucodonosor II. Porém Deus sempre deixou a porta aberta para um retorno a terra, desde que o povo soubesse se arrepender de suas faltas e clamar ao Senhor pelo perdão. A volta dos judeus a Canaã com Ciro da Pérsia - que domina a Babilônia e liberta os israelitas - marca essa restauração de Jerusalém e do Templo. Mesmo sendo um espaço geográfico limitado, no ensino dos profetas, ela vai ganhando um caráter universal: na visão de Isaías (Is 2, 1-4) ela vira o pólo de atração para as nações onde se anuncia uma redenção universal. E aí é que entra a temática da terra no Novo Testamento na epístola aos Hebreus (Hb 11, 9) que sublinha a terra como dom ao povo de Israel, como algo provisório, incompleto, orientado ao futuro absoluto da História: a terra de Israel tem o único intento de orientar os fiéis a uma pátria celeste. A terra no Novo Testamento equivale ao Reino dos Céus: a era messiânica corresponde a um novo céu e terra. Os judeus, porém, permaneceram na crença de que esta era se daria cá embaixo por meio de um reino político universal de Israel. Na descrição dada pelos padres, os judeus se tornaram carnais, incapazes de uma visão espiritual da terra da promissão. 

3- O sionismo: um messianismo anticristão


Então o que é, exatamente, o sionismo? 

Para compreendê-lo é necessário entender o proto-sionismo. 

Durante os anos de exílio judaico - do ano 70 D.C. em diante - os israelitas experimentaram um desejo de retorno a Canaã. Pensadores e religiosos judeus que se expressaram em obras escritas, mostravam o desejo ancestral de retornar às suas raízes históricas através da volta para Canaã. A "nostalgia de Sião" se manifestou claramente nos discursos de diversos místicos judeus surgidos ao longo dos séculos de duração da Diáspora, como Sabbatai Zevi, no século XVII, passando pelos poemas de Yehudah Halevi e por vários místicos. Todos tendiam a dizer que o exílio vivido pelo povo seria similar ao da Babilônia, uma grande provação onde, depois de um grande sofrimento, o povo voltaria a Canaã, o que inauguraria a era messiânica. Cabe dizer que os judeus, por negarem a Jesus a condição divina de Filho de Deus, rechaçam que já estaríamos em plena era messiânica, na era da graça onde se prepara a terra definitiva, o reino celestial do Pai para os fiéis em Cristo. Eles esperam, portanto, o desencadear de uma salvação e de um redentor. No passado os judeus chegaram mesmo a crer que Zevi era o Messias. Mas sua conversão ao Islão em 1666 frustrou as expectativas. 

O Sionismo se delineou de vez com o nacionalismo judaico do século 19, onde pensadores judeus secularizados - para os quais a prática religiosa já não tinha tamanha importância e que insistiam numa identidade judaica com base nos pressupostos da liberdade/igualdade da revolução francesa e americana - começaram a defender um lar judeu, um Estado como base de autoafirmação do povo. Moses Hess, neste sentido, teve um papel muito destacado. Hess focava a história da humanidade a partir das noções de luta de raças e nacionalidades. Preconizou um socialismo sionista - Hess foi colaborador de Karl Marx - onde idealizava uma sociedade futura perfeita, em que terra seria colonizada por judeus operosos, um Estado Ideal, a Israel Restaurada mas sob os auspícios socialistas. Segundo Hess esse novo Estado seria a forma futura da sociedade humana na sua mais elevada perfeição. E este Estado seria Israel. Israel - o Estado - seria então o Messias da Humanidade.  Hess afirmou que a história marcha sobre a influência do Espírito para um novo Éden. Quem teria o papel de realizar este feito seria nada mais que o povo judeu organizado num Estado. Estas idéias foram absorvidas por Theodor Herzl, fundador do movimento sionista em 1897 com o fito de criar tal Estado. A idéia era organizá-lo em torno da migração possibilitada pela compra de terrenos na Palestina e, depois, criar os Kibutz, terras comunais que misturavam elementos socialistas e nacionalistas. Os kibutz foram a base da migração e da colonização judia da Palestina a partir de 1900 quando judeus começaram a colonizar a região para forçar a criação de um Estado Judeu na área. 

Havia, é verdade, várias facções entre os Kibutzim - membros dos Kibutz, judeus que vinham de vários lugares do mundo para colonizar a terra dentro de um modelo de terra comunal - mas a maioria era socialista; em 1927, alguns novos Kibutzim fundados pelo Hashomer Hatzair uniram-se para formar uma associação de alcance nacional, Kibutz Artzi. Por décadas, Kibutz Artzi seria a esquerda dos Kibutzim. Em 1936, a Federação do Kibutz Artzi fundou seu próprio partido político chamado a Liga Socialista da Palestina mas popularmente conhecida como Hashomer Hatzair. Fundiu-se com outro partido de esquerda para se tornar Mapam (o atual Meretz) tão logo o Estado de Israel se estabeleceu. Os Kibutzim da Artzi eram devotados à igualdade dos sexos. Uma mulher de um Kibutz da era dos anos 1920-1930 chamaria seu marido ishi — "Meu homem" — ao invés da palavra usual hebraica, ba'ali, que, literalmente, significa "Meu mestre". Os Kibutzim do Kibutz Artzi eram seculares, mesmo firmemente ateus, orgulhosamente tentando ser "monastérios sem Deus". A maioria dos Kibutzim da corrente principal também desdenhavam o Judaísmo Ortodoxo de seus pais, mas eles queriam que suas novas comunidades tivessem características judaicas mesmo assim. As noites de Sexta-feira ainda eram Shabat, com um pano de mesa branco e comida de qualidade, e trabalho não era feito aos sábados se pudesse ser evitado. Mais tarde, alguns Kibutzim adotaram o Yom Kipur como o dia para discutir receios em relação ao futuro do kibutz. Os Kibutzim também tinham bar mitzvá coletivos para suas crianças. Embora os kibutzniks não rezassem diversas vezes ao dia, marcavam festividades como Shavuot, Sucot e Pessach com danças, banquetes e celebrações. Um feriado judaico, Tu B'shvat, o "aniversário das árvores" era substancialmente revivido por Kibutzim. Em todos eles, feriados com algum componente natural, como Pessach e Sucot, eram os mais importantes para os Kibutzim. Logo, os Kibutzim era uma síntese de secularismo, relgião e socialismo. Neste sentido a ideologia dos Kibutzim tendia ao Utopismo Comunista. O espiritualismo dos pioneiros do movimento Kibutz consistiam de sentimentos místicos sobre trabalho judaico, articulados por sionistas como Berl Katznelson, que disse, "onde quer que o trabalhador judeu vai, a divina presença vai com ele." É redenção pelo trabalho. Em adição à redenção da nação judaica através do trabalho, também havia um elemento de redenção de Eretz Yisrael, Palestina, na ideologia do Kibutz. Os membros do Kibutz tinham prazer em trazer a terra de volta à vida plantando árvores, drenando pântanos e incontáveis outras atividades que fizeram com que a terra ficasse mais fértil. Quando solicitavam doações, os Kibutzim e outras atividades de assentamento sionistas apresentavam a si mesmas como "fazendo o deserto florescer". A idéia do deserto que floresce é fundada na benção que o trabalho da mão judaica traz ao mundo: seria como se só esta mão pudesse trazer a redenção a terra e mais nenhuma. 

Logo podemos ver que a base fulcral da organização social dos judeus na Palestina antes da fundação do Estado de Israel é uma estrutura utopista de fundo socialista. O que é bastante interessante pois a nova direita brasileira que postula uma defesa férrea de Israel, considera qualquer relação com o socialismo como abjeção política, como totalitarismo, identificando-o com o império do mal; porém quando se trata do socialismo subjacente à formação de Israel há um silêncio absoluto. A pergunta é: por quê? 

4- A teologia do sionismo

Os religiosos que aderem ao sionismo consideram o projeto de Herzl não um objetivo humano mas expressão da vontade divina. Segundo a teologia do sionismo o movimento trouxe uma nova época para a história humana, ligada a liberação dos três juramentos e pelo fim da passividade política dos judeus. Segundo tal teologia o Estado de Israel é a materialização das promessas dos profetas do AT. Vejam que, dentro de uma visão cristã, tais promessas se efetivaram em Jesus Cristo e na Igreja. Deste modo um cristão que adere e apoia o Estado Israelita, flerta com a apostasia. O rabino Avraham Kook, que foi o primeiro rabino chefe da comunidade local que se formava no meio dos Kibutz, antes da fundação do Estado, chegou a dizer que “o Estado de Israel será a base do trono de Deus no mundo”. Segundo Kook mesmo os sionistas seculares, que não compartilhavam da visão religiosa dele, ajudavam na redenção pois construíam a base material para a era messiânica. Comparou-os aos pedreiros estrangeiros do Templo de Salomão, que construíam sem saber a verdadeira função do santuário. Ainda para Kook a redenção só se desencadearia quando os sionistas reconhecerem o sentido espiritual de sua atividade. Com o suposto Holocausto e a criação de Israel os religiosos sionistas, antes marginalizados dentro da religião judia, passaram a ter respeitabilidade e a receber apoio de outros setores religiosos do judaísmo talmúdico. 

O filho de Kook, Yehuda Kook, virou o líder do processo de colonização judaica da Cisjordânia. Para Yehuda, que virou a liderança espiritual dos colonos, incentivou a não retirada já que “estando na era messiânica, não se pode ceder nenhum quilômetro de terra, devemos acumular conquistas”. Desde a ocupação em 1967 até 1993, os palestinos da Cisjordânia estiveram sob a administração militar israelense. Sobre a Cisjordânia, em diversas ocasiões, Israel instaurou a plena administração militar sobre a área que é disputada com os palestinos. Após a Segunda Intifada, o governo israelense iniciou a construção do chamado "Muro da Cisjordânia", que avança sobre o território da Cisjordânia. A posição de Yehuda foi muito importante para legitimar as ações violentas de Israel na região o que mostra que o fundo teológico do sionismo trabalha para justificar as pretensões do Estado de Israel e o massacre e expulsão de populações palestinas.


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O  suposto Holocausto também influenciou na transformação da postura ortodoxa frente ao sionismo. Primeiro é preciso que se diga que segundo o Talmud e outras fonte rabínicas, o povo judeu e as nações do mundo fizeram três juramentos ante Deus, no início do exílio judaico do ano 70: os judeus prometeram não forçar a volta à Terra do Israel antes do tempo messiânico (“não subir os muros”) e não se revoltar contra os povos entre o quais viviam exilados; já as demais nações juraram não maltratar os judeus “em demasia”. O Talmud da Babilônia, Tratado Ketubot 111a, traz o seguinte:  “Três Juramentos: Um, que Israel não suba os muros; o segundo, que [Deus] fez Israel jurar que não se rebelaria contra as nações do mundo; e o terceiro, que [Deus] fez os idólatras jurarem que não oprimiriam Israel em demasia”. Os Três Juramentos, foi o que, durante os séculos de exílio, barrou a migração judia de duas maneiras: como consolo para a difícil situação existencial vivida pelos judeus e como bloqueio moral contra movimentos messiânicos de imigração em massa para a Terra de Israel. No judaísmo medieval em terras muçulmanas, entre os anos 600 e 1100 DC, a imigração judaica para a Terra de Israel foi fenômeno raro. Porém, logo em seguida, vemos Maimônides utilizando os Três Juramentos para tentar impedir um movimento de imigração de tendência messiânica que aflorou na comunidade judaica do Iêmen. No século XIII, outro rabino de renome, Moshe ben Nachman, o Nachmânides, deixou sua comunidade em Girona (Espanha) e imigrou para a Terra de Israel. Ele foi o primeiro a legislar que assentar-se na Terra Santa era um mandamento divino para o indivíduo judeu. De tendência cabalista, Nachmânides sublinhou o significado místico da vida religiosa na Terra de Israel e decretou que a imigração era uma “mitzvah positiva que todos estão obrigados, para todas as gerações, mesmo em época de exílio”. Assim surgiu no judaísmo a distinção entre a louvável imigração individual à Terra de Israel por motivos religiosos e a condenável imigração coletiva, que desafiava os Três Juramentos. No século XV, uma nova onda de imigração judaica, levou a uma repetida condenação baseada nos Três Juramentos. Apesar de tudo isso é para ressaltar que a proibição de imigração derivada dos Três Juramentos sempre teve caráter mais ideológico e teológico do que legal no judaísmo. A proibição não chegou a ser incorporada realmente no corpus legal rabínico.  Diga-se que o precursor da posição da ortodoxia anti-sionista foi o rabino húngaro Chaim Elazar Shapira (1872-1937). Para ele, a imigração de judeus em massa para a Terra de Israel, ainda mais sob a liderança de não-religiosos como os sionistas, representava a condenável ação de forçar o Final dos Tempos; em sua visão, os judeus deveriam esperar pacientemente por intervenção divina e ser totalmente passivos do ponto-de-vista político. A imigração à Terra de Israel somente poderia acontecer na era messiânica, quando ocorreria de forma supranatural. O rabino Shapira 322 via a Terra de Israel como um lugar único no mundo, dotado de uma sacralidade imensa. Inspirado pela mística judaica, afirmou que a Terra Santa é um lugar especial onde acontece uma luta frontal entre forças divinas e satânicas. Viver ali representaria até um perigo de vida para o judeu “mediano”. Se este pecasse na Terra de Israel, deveria esperar um castigo divino bem mais rigoroso do que se transgredisse fora dela. Nem mesmo seus discípulos tinham estatura moral para viver ali e Shapira advertiu-os, em 1937, a não imigrar para a Palestina. 

Mas tudo mudou quando os judeus começaram a se questionar se a criação de Israel estaria assinalando, pelo menos, o começo da redenção. O Holocausto aumentou ainda mais a perplexidade ortodoxa frente ao fenômeno sionista. Haveria algum significado religioso entre a destruição do judaísmo europeu e a criação do Estado de Israel, logo em seguida? O suposto massacre dos judeus europeus poderia ter sido um castigo divino motivado justamente pela proibição de “subir os muros” ou antes uma recompensa pelo sofrimento do suposto holocausto? Então começou a nascer – como mostramos acima – uma linha de pensamento que passou a ver o “holocausto” como o sofrimento que prepara a redenção e a era messiânica; desta forma o “holocausto” passou a ser considerado como um sinal escatológico. 

o rabino Zvi Yehuda Hacohen Kook (1891-1981) continuou a linha do pai Avraham Kook e levou-a até seus limites. Em 30 anos de atuação, influenciou a formação do grupo político-religioso Gush Emunim (“Bloco dos Fiéis”). Yehuda vai se valer do conceito teológico para justificar o apoio ao Estado de Israel que diz respeito ao processo messiânico. Sobre a era messiânica o judaísmo traz dentro de si diferentes visões sobre este processo e a ala ortodoxa sionista esposou uma delas, segundo a qual não há necessidade de um Messias na etapa inicial do processo. A redenção acontecerá em etapas, afirmam, culminando no aparecimento desta personalidade histórica (Messias) apenas num estágio posterior, após uma série de fases vencidas, para fechar o processo. Nesta etapa inicial o Estado de Israel é fulcral, dizem. 

Aqui entra uma questão importante: a de que a linha de Yehuda virou a fonte basal da política de Estado de todos os governos de Israel no que tange a não concessão de territórios aos árabes-palestinos. Para Zvi Yehuda, os Três Juramentos talmúdicos que proibiam a imigração em massa à Terra de Israel foram abolidos por decreto divino. Ele afirmou: “Não somos nós, de carne-e-osso, que agimos para forçar o Final dos Tempo, mas sim o Dono da Casa, o Senhor do Mundo, que está nos forçando; não é a voz de uma pessoa de carne-e-osso, mas sim a voz do Deus Vivo que destruiu o muro que deixou de nos separar de nossa terra, convocando-nos: ‘Subam’. 

Segundo o rabino, já não se trata mais de discutir se o Estado de Israel representa ou não o início da redenção. Numa declaração feita após a Guerra do Yom Kipur (1973), o rabino afirmou que a humanidade já se encontrava no interior do processo messiânico: “Há pessoas que falam que vivemos o início da redenção (…) mas temos que ver com olhos abertos que já estamos no meio da redenção (…) O início foi há mais de cem anos, quando recomeçou o assentamento judaico na Terra de Israel”. Na concepção de Zvi Yehuda, o Estado de Israel, como elemento fundamental do processo de redenção, ganha contornos extraordinários. “O Estado (de Israel) é todo santo, sem nenhum defeito. O valor deste Estado não está condicionado à quantidade de observantes dos mandamentos que vivem em seu interior. Claro, a aspiração é que todo o povo se ligue à Torá e aos mandamentos, mas este Estado é sagrado de qualquer maneira”. 

A teologia de Zvi Yehuda levou-o a se posicionar contra qualquer concessão territorial aos vizinhos árabes. Para o rabino, sua posição política era reflexo do desejo de Deus. “O Todo-Poderoso tem uma política própria. E, de acordo com ela, processa-se a política aqui de baixo. Parte da redenção é a conquista da terra e o assentamento nela. Esta é a determinação da política divina, que nenhuma política aqui de baixo pode contrariá-la”. Exatamente esta política que o Estado de Israel vem aplicando faz décadas, inclusive afastando cristãos de cidades sagradas como Belém onde, há 20 anos atrás, tínhamos 80 por cento de população cristã. Hoje são só 35 por cento. Em Jerusalém a seis décadas os cristãos eram 20 por cento da população. Agora são 2 por cento apenas. 

Embora ourtos grupos ortodoxos como o Agudat e o Lubavitch não partilhem da mesma visão dos seguidores de Yehuda, ambos legitimam o Estado de Israel como algo que melhora o estado material dos judeus embora não liguem o Estado de Israel, diretamente, a redenção. O Agudat – que virou um partido - desde a década de 90,  têm se aproximado da direita política em Israel. Porém  posição do Lubavitch e do Agudat não devem ser entendidas como um distanciamento absoluto da posição de Yehuda. Para estes grupos, os eventos políticos do último século podem ser vistos como sinais de intervenção divina e até mesmo uma janela de oportunidade para a tão-esperada redenção, de modo que, queiram ou não, o Estado de Israel passa a ser visto, mesmo pelos judeus ortodoxos como ou um elemento da redenção, ou algo que abre caminho para ela: em suma, algo que diz respeito ao DOMÍNIO UNIVERSAL DOS JUDEUS E DO SEU FALSO MESSIAS.   


5- Respondendo ao Padre Marcelo Tenório.

Por tudo isto que foi exposto acima fica claro que: 

- A terra nunca foi um direito do povo hebreu mas um dom; Deus era o proprietário dela; sua posse, por parte da descendência de Abraão, decorria, exclusivamente, da fidelidade ao pacto mosaico e aos mandamentos. Os pecados do povo hebreu justificaram a perda da terra diversas vezes, por mandato divino. 

- Cristo como Messias verdadeiro, foi rejeitado pelo povo judeu, tendo sido assassinado por ele. Deste modo a terra santa – um dom conferido em razão da fidelidade do povo – não tinha mais motivo para continuar na mão dos judeus que se tornaram infiéis. A destruição do Templo e a perda de Jerusalém, inclusive, são uma punição por sua infidelidade e empedernimento no deicídio como profetizada por Jesus em Marcos 13. 

- A culpa do deicídio não é apenas dos judeus do tempo de Cristo nem apenas dos chefes do povo. Segundo o padre Tenório nós é que teríamos matado Cristo porque ele foi entregue por nossos pecados. Isto é apenas meia verdade. 

Quatro foram os que mataram Jesus: em primeiro lugar o povo judeu que, representado por seus sacerdotes deram a sentença de morte no Sinédrio, e representado pelos que estavam em Jerusalém para a Páscoa, pediu sua crucificação a Pilatos; em segundo lugar os romanos que executaram a pena, dando-lhe cumprimento no Gólgota; em terceiro lugar a democracia que foi o método usado para decidir sobre a soltura ou não de Jesus; em quarto lugar cada um nós por causa de nossos pecados. Os judeus podiam tê-lo reconhecido como Profeta, Messias e Deus mas se recusaram por má vontade. Os romanos não o conheceram por que não tinham as profecias. Erraram mais por ignorância que por má vontade: ainda que Pilatos soubesse que Jesus era um homem justo, aplicou a sentença mais por medo do povo que por ódio a Cristo. Bem diferente foi o caso dos Judeus que odiavam Cristo e queriam matar-lhe desde os primórdios de seu ministério.

Os judeus (líderes e povo) foram os agentes principais do deicídio porque é óbvio, a partir dos Evangelhos, que o gentio mais envolvido, Pôncio Pilatos nunca teria condenado Jesus à morte, se os líderes judeus não tivessem levantado o grito do povo para a sua crucificação (Mateus 27, 20). Certamente os líderes foram mais culpados do que as pessoas ignorantes, diz Santo Tomás de Aquino (Suma III, 47, 5), mas todos em uníssono pediram que seu sangue caísse sobre eles e seus filhos, como mostra o evangelho segundo São Mateus 27, 25. O Papa Leão XIII considerando este pedido, reconheceu que havia verdadeira solidariedade entre os judeus que clamaram então para Jesus ser morto e a coletividade dos judeus de todos os tempos que permanecem na infidelidade: assim a culpa do deicídio se estende a todos os membros do povo judeu, não sendo, portanto, aceitável que qualquer parte deste povo ocupe a terra santa na qualidade de donos de um Estado: isto, na prática, significa um desafio ao decreto de Nosso Senhor Jesus Cristo quando decidiu pela destruição de Jerusalém e pela diáspora do povo como castigo até que digam “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Lucas 13, 31-35) reconhecendo sua divindade. 

- Quanto ao termo 'pérfidos' judeus o padre Tenório, reduz sua gravidade como se ele significasse apenas o desejo dos judeus de “permanecer em sua fé” - per mais fides, diz ele seria apenas "permanecer na fé". Mas o que, afinal, quer dizer pérfidos quando se trata dos judeus na tradição da Igreja? 

Primeiro que este termo implica em negação; os judeus são negadores de Deus. Negaram a Deus várias vezes por impaciência e maldade. Quando Moisés demorou no Sinai, recebendo os mandamentos, depois da saída do Egito, eles cansados de esperar, resolveram adorar um bezerro; impacientes em esperar as demoras de Deus no que tange ao envio da sua salvação e do seu salvador, se desviaram várias vezes aos ídolos. Depois de punidos e admoestados pelos profetas se reaproximaram de Deus e voltaram a esperar seus Messias: quando ele veio e satisfez as esperanças dos homens, realizando portentosos milagres, parecia que eles iam recebê-lo, cansados de esperar, mas voltaram a seu antigo hábito de negar. 

Segundo que sua perfídia consiste em permanecer na negação – e não na fé como diz Tenório – e dizer que ele – Jesus – não é o Messias e esperar outro. 

Esta perfídia consiste em três negações: 

- Negaram ao Messias a Divindade pois negaram que ele é Senhor. 

-Negaram a SUA vinda pois negaram que ELE já veio

-Negaram a pessoa pois negaram que Jesus seja o Messias. 


O termo "pérfidos" para  a coletividade dos judeus indica que quebraram um pacto e que agiram de má-fé para com Deus que com eles fez uma aliança, tratando-os como seu povo dileto. Tendo recebido a confiança de Deus para guardar sua santa lei eles o atraiçoaram, matando-o no Calvário, na Pessoa de Jesus Cristo. O pérfido é o desleal que não cumpre com sua palavra num acordo. Os judeus não a cumpriram perante Deus. Logo o padre Tenório falseia toda a questão envolvendo os judeus e sua perfídia, perfeitamente assinalada pela doutrina da Igreja pelos séculos e consignada na missa tridentina, na liturgia da sexta da paixão. 


Sobre o que o padre Tenório diz referente a que “Reconhecer o Estado de Israel não é sionismo” fica provado,  a partir de tudo que foi exposto acima, que: 

- Há uma relação direta entre sionismo e crença num papel messiânico do povo e ou estado judeu na história; 

- Os sionistas que planejaram a criação do Estado de Israel viam-no como a realização de uma utopia política terrestre onde Israel se tornaria uma espécie de paraíso social; 

- Os kibutz são a faceta socialista e utopista que deu base a estrutura social-econômica do estado de Israel, onde a terra foi colonizada segundo moldes comunistas; 

- Progressivamente o sionismo foi sendo incorporado e aceito por uma teologia judaica que passou a ver o Estado de Israel – fruto direto do sionismo -  como etapa da redenção e da vinda do Messias o que significa, em termos judaicos, DOMÍNIO ABSOLUTO DOS JUDEUS SOBRE A TERRA, o que implicará numa luta contra a Igreja Católica, opondo a ela um “UNIVERSALISMO” JUDEU onde seu falso messianismo buscará substituir o cristianismo ( Sobre isso é importante frisar o papel realizado pela Aliança Israelita Universal criada na França no século 19 e bem analisada por Henri Delassus em sua obra “A conjuração anticristã”, nas páginas 361-368, onde o mesmo fala de um ISRAELISMO HUMANITÁRIO dirigido por forças judaicas que buscam solapar o papel da Igreja no mundo). 


Logo, reconhecer o Estado de Israel leva a incorrer em uma “apostasia implícita” dado que não se pode reconhecer um Estado que se atribui caráter messiânico sem renegar o Messias, Jesus Cristo, e o papel ordenador de sua Igreja Católica – a ela é que cabe o papel de reger os povos para a salvação eterna, ela é a voz do Messias na Terra e não um  Estado Judaico.  

Evidente que há, entre os católicos, ignorantes que podem reconhecer Israel como Estado de Facto, sem levar em consideração as suas bases ideológicas e teológicas. Não cremos que seja o caso do Padre em tela. Se for o caso ele peca por imprudência – para dizer o mínimo – dado que deveria se informar melhor sobre o assunto pois que tem o papel de cura das almas. Reconhecer, ao Estado de Israel, um estatuto de direito é um pecado grave e consiste, pelo menos, em sionismo implícito.

Não somos nazistas mas católicos e como tal afirmamos a velha doutrina da Igreja sobre o assunto: o padre referido tenta, desgraçadamente, dizer que afirmá-la é "anti-semitismo" usando uma velha peça de propaganda para calar a voz dos que querem defender a verdade cristã contra pretensões israelitas de poder. Mas de nada adianta pois estamos com Deus e com a verdade e ela vencerá, ainda que seja no dia final!   


Bibliografia

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1730-1930, Oxford University Press, Oxford, 1984 


BERKOVITS, Eliezer – “Authenticity of Being” in Judaism Transcends Catastrophe
– God, Torah and Israel Beyond the Holocaust, editado por Jacob Neusner, Vol. I,
Mercer University Press, Georgia, 1996 

DELASSUS, Henri. A conjuração anticristã. Castela, 2016. 

FINGUERMAN, Ariel – A Eleição de Israel – Um Estudo Histórico-Comparativo
sobre a Doutrina do “Povo Eleito”, Humanitas, São Paulo, 2003 


GREENBERG, Irving – “Judaism and History: Historical Events and Religious
Change” in Ancient Roots and Modern Meanings: A Contemporary Reader in Jewish
Identity, editado por Jerry V. Diller, Bloch Publishing Company, New York, 1978

PEDROSO, Francisco. Exhortaçaõ dogmatica contra a perfidia judayca feyta aos reos penitenciados no Auto publico da Fè, que se celebrou na praça do Rocio junto aos paços da Inquisição desta Cidade de Lisboa em 9 de Julho de 1713 : sendo prezentes Sua magestade, e Suas Altezas: por mandado do Senhor cardeal Nuno da Cunha de Attaide / pelo Padre Francisco Pedrozo da Congregaçaõ do Oratorio, Qualificador do Santo Officio. - Lisboa : na Officina de Miguel Manescal, Impressor do Santo Officio, & da Serenissima Casa de Bragança, 1713. 

POLIAKOV, Léon – The History of Anti-Semitism (Vol. I) – From Roman Times to
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POLIAKOV, Léon – The History of Anti-Semitism (Vol. II) – From Mohammed to
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SAFRAI, Shmuel - “Epoca de la Misna y el Talmud” in Historia del Pueblo Judío,
editado por H.H. Ben-Sasson, Alianza Editorial, Madrid, 1988 

The Talmud of Babylonia – An Academic Commentary – editado por Jacob Neusner,
South Florida Academic Commentary Series, Scholars Press, Atlanta, 1996