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sábado, 21 de abril de 2018

Vargas na história pátria: refutando as mentiras do Brasil Paralelo!

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Vargas mandou fechar lojas maçônicas e se aproximou de setores católicos da vida política nacional; a CLT foi, em grande parte, fruto da influência destes setores que prezavam pela aplicação da Doutrina Social da Igreja nas relações sociais a fim de impedir a luta de classes. A partir daí entendemos o ódio do Brasil Paralelo a Vargas, na medida em que o BP se atrela ao liberalismo maçonizante. 





Senhores, trazemos aqui o parecer do ilustre professor de História Eduardo Cruz* sobre o mais novo absurdo do Brasil Paralelo, que abriu um processo acusatório difamante contra a figura do Presidente Getúlio Vargas. No fundo, a acusação se pauta por uma defesa escrachada do liberalismo. Nos vídeos anteriores do Brasil Paralelo tal defesa era implícita, misturada com apelos à tradição católica do Brasil. O objetivo do embuste era capturar a simpatia do público católico para a iniciativa e fazê-lo aceitar, de modo quase imperceptível, uma narrativa liberal da nossa História. Uma tática parecida com a do estuprador que, pretendendo atrair a vítima para seu terreno, a adula com carícias a fim de seduzi-la e violentá-la. O Brasil Paralelo é o "estupro liberal" da nossa memória: é uma ressignificação esdrúxula do nosso passado a fim de justificar um futuro desejado, qual seja, um futuro onde o Brasil seja pautado por Estado mínimo, liberalismo econômico nas relações de trabalho, individualismo, americanismo. A releitura da nossa História, feita pelo BP, é claramente ideológica: é um recorte canhestro que serve a fins políticos subordinados a uma causa estranha ao nosso interesse nacional. Para o Brasil Paralelo, Vargas foi, ao mesmo tempo, pró-comunista, fascista, positivista, psicopata, gênio da política, simpatizante do nazismo, etc. Como foi possível ele ter sido tudo isto é o grande mistério. O Brasil Paralelo transformou Getúlio no "Tio Chico" (aquele pentecostal maluco que disse ter sido maçom, islâmico, pai de santo, rosa cruz, travesti, etc.) da nossa História. Sobre a péssima qualidade do documentário é preciso dizer que:


1 - Logo de cara há uma propaganda em prol das monarquias liberais - Noruega, Inglaterra, etc. - e dos EUA e Alemanha, vistos como exemplos de democracia para países que respeitam as "liberdades". Os coitados não entendem que a noção de democracia no século 19 se dirige para o igualitarismo jacobino que abrirá caminho para o comunismo em razão duma coisa simples: as liberdades para as classes baixas eram só nominais; elas passarão a desejar uma liberdade real e concreta; para isso os Estados serão instados a criar leis igualizantes/democratizantes. 

Liberdades liberais geram democracia, que gera insatisfação com a nominalidade dos direitos jurídicos, que gera o anseio pelo socialismo. A panacéia proposta pelos membros do Brasil Paralelo só será capaz de fazer com que o pesadelo comunista – o qual eles deploram – venha a vingar no Brasil.

2 - A República Velha é apresentada como "época estagnada onde nada aconteceu". Só analfabetos em História podem levar isso a sério.

3 - Sem citar prova alguma, Olavo acusa Vargas de chacinar todos os seus inimigos no Nordeste após desarmá-los. Não especifica onde e quando teria ocorrido tal episódio.

4 - O vídeo é feito, quase todo, por propagandistas do liberalismo como Constantino et caterva. Historiador, quase nenhum.

5 - Vargas é chamado de positivista e gênio político por Olavo; logo depois o mesmo Olavo diz que Vargas era um psicopata; outro "especialista" diz que ele era fascista. Entre fascismo e positivismo há uma distância imensa. Eles não sabem disso? Positivistas se fundam na idéia de um exército formal; fascistas fundam seu ativismo em grupos paramilitares, pois perderam a confiança nas Forças Armadas; SS nazi e Squadristi de Mussolini provam-no. Positivistas são pró1789, fascistas são anti1789.

6 - Pondé – até Pondé! O que o dinheiro de institutos liberais não é capaz de fazer, hein? – diz que fascismo, comunismo e varguismo são a mesma coisa! Pondé vendeu sua inteligência ao poder do dinheiro.

7 - Narloch aparece chiando porque Vargas controlou bancos. Agora já está tudo claro: o BP serve à velha elite bancária talmudista. Nós dissemos!

8 - Nada é dito sobre o fato dos fazendeiros paulistas terem movido uma guerra contra Vargas por razões econômicas, dado que ele havia quebrado a política de valorização do café e acabado com o esquemão de eleições fraudadas. Tudo é apresentado como se os paulistas lutassem apenas por Constituição e direitos! Os paulistas queriam continuar escravizando o Brasil aos seus interesses; não havia nada de moralizante na "revolução constitucionalista".


O Brasil Paralelo ainda assevera que o "Plano Cohen" foi inventado por Vargas para justificar a implantação do Estado Novo em 1937. Ora, em 1935 houve uma insurreição comunista liderada por Prestes e havia fundadas razões para se temer um novo assalto, como veremos adiante. Depois Narloch, aos 43 minutos, diz que Vargas foi um "cara mau" porque proibiu a usura. Um sujeito reclama que Vargas "acabou" com nossa "tradição liberal". Enfim eles deixaram claras as coisas: são apenas liberais e nada mais. Servos dos bancos, inimigos do povo - há uma crítica geral à CLT no vídeo do BP - etc. Que anticomunismo é este que deplora o ditador que impediu uma revolução comunista? É a pergunta ser feita!


Sobre os erros do documentário, demos a palavra ao Prof. Eduardo Cruz, que comenta o seguinte sobre a Revolução Constitucionalista:

"Aos 29:16 do vídeo, o entrevistado Rafael Brodbeck afirma que os paulistas se rebelaram em 1932 porque Getúlio não cumpriu sua promessa de entregar uma nova Constituição. Não sei quem é este senhor, mas a afirmação está FACTUALMENTE ERRADA. Getúlio agendou a eleição da Assembléia Constituinte em 14 de maio de 1932, quando assinou o Decreto nº 21.402, tendo designado, no mesmo ato, a comissão encarregada de redigir o anteprojeto da Carta. A Revolução eclodiu em 9 de julho, ou seja, dois meses depois. Logo, é incorreto estabelecer uma relação de causa e efeito entre a protelação da promessa e a insurreição. A suposta causa da revolta deixou de existir dois meses antes da sua deflagração".

O Prof. Eduardo desmente uma suposta colaboração de Vargas com os comunistas, veiculada no documentário, cujo narrador sugere que a Intentona de 1935 teria resultado do rompimento desta [inexistente] aliança:


"Além disso, aos 40:30 o narrador afirma o seguinte, referindo-se ao período 1930-1935: 'Por muito tempo, Vargas se aproveitou de ambos os movimentos. Com habilidade e oportunismo, engajou comunistas e integralistas. Utilizava ambas as vertentes a seu favor, comparecia a eventos políticos de ambos e trocava favores com seus líderes. A relação seria estremecida até o rompimento, quando lideranças comunistas acusaram Vargas de caminhar para uma ditadura fascista. Passam a postular o poder para si e tornam-se inimigos do Presidente. O primeiro grande ataque foi lançado pelos comunistas, em mais uma tentativa de golpe que a jovem república brasileira assistiu. O capitão do Exército convertido ao comunismo Luiz Carlos Prestes comandou o levante: a Intentona Comunista [de 1935]' ------- Não sei quem redigiu o texto lido pelo narrador, mas esta alegação é rigorosamente FALSA!!! Jamais houve qualquer colaboração entre Vargas e o PCB entre 1930 e 1935. Não houve sequer negociações! Vargas não 'compareceu a eventos' do PCB nem 'trocou favores' com líderes do Partido, que naquele período atuava sob a capa da UOC (União Operária e Camponesa) e da ANL (Aliança Nacional Libertadora). O Partido Comunista Brasileiro seguia as diretrizes da União Soviética, que determinava oposição irrestrita ao governo Vargas, conforme resoluções aprovadas na II Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina, realizada em Moscou, de 2 a 10 de outubro de 1930, e na III Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina, realizada em Moscou, de 16 a 28 de outubro de 1934 (Fonte: OLIVEIRA, Marcos Aurélio Guedes de. 'O Cominter e a Aliança Nacional Libertadora'. Recife: Edições Bagaço, 1996, pp. 92-128). A informação pode ser confirmada nas memórias de Luiz Carlos Prestes ('Prestes: lutas e autocríticas', p. 67) e outros líderes do PCB, como Gregório Bezerra ('Memórias', Vol. I, pp. 233-236), Leôncio Basbaum ('Uma vida em seis tempos', pp. 96-140), Paulo Cavalcanti ('O caso eu conto como o caso foi, Vol. I', pp. 121-130), Apolônio de Carvalho ('Vale a pena sonhar', p. 53), Apparício Torelly ('Entre sem bater', pp. 170 e 211-213) e Ivan Pedro Martins ('A flecha e o alvo', pp. 86-87 e 92-95). Portanto, em 1935 não houve nenhum 'rompimento' entre Vargas e os comunistas, como os autores afirmam, dando a entender que existia uma aliança com o PCB. Tal aliança não existiu! Em toda a História do Brasil, houve apenas um momento em que o PCB apoiou Vargas, não porque tivesse afinidades ideológicas com ele, mas por razões meramente táticas: o período 1943-1945, quando o Brasil se engajou na 2ª Guerra Mundial ao lado dos EUA e da URSS. Durante essa fase, por ordem de Moscou, os comunistas brasileiros promoveram intensa propaganda pró-EUA, sob cobertura de uma entidade recreativa denominada 'Sociedade de Amigos da América', conforme consta nas memórias de vários militantes do PCB, como João Falcão ('O Partido Comunista que eu conheci', pp. 214-218) e Moisés Vinhas ('O Partidão: a luta por um partido de massas', pp. 73-76). A respeito desse breve namoro de conveniência, Gregório Bezerra relata que 'estávamos contentes por Vargas ter rompido com as potências do Eixo, cedido bases militares aos EUA, assinado a Carta do Atlântico e declarado guerra ao fascismo alemão' ('Memórias', Vol. I, p. 306). Obviamente, os idealizadores do documentário não explicarão este contexto nem entrarão em tais detalhes, porque isso quebraria a narrativa que busca equiparar comunistas e getulistas, retratando-os como parceiros na luta contra o liberalismo anglo-americano, supostamente o mocinho da História. Aliás, este é o subtexto que permeia todo o enredo costurado pelo vídeo".

Expondo a ignorância crassa do Sr. Rodrigo Constantino, o Prof. Eduardo Cruz observa que:


"Rodrigo Constantino, com sua habitual ignorância, acrescenta aos 42:05 que Olga Benario era 'ligada à KGB'. Na verdade, ela pertencia ao GRU, serviço secreto das Forças Armadas da União Soviética. O GRU é bem menos conhecido do que a KGB. Olga foi recrutada para os seus quadros em 1932, conforme comprovam os relatórios arquivados no Departamento de Quadros do Comintern (Fonte: WAACK, William. 'Camaradas'. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, pp. 94-95)."

A respeito do golpe que instituiu a ditadura em 1937, o Prof. Eduardo Cruz destaca outra falácia do documentário, que, por descuido ou má-fé, repete a lenda esquerdista segundo a qual Getúlio usou o Plano Cohen como pretexto para implantar o Estado Novo:

"Aos 42:45, o narrador alude ao Plano Cohen: 'As eleições [de 1938] se aproximavam e Vargas poderia perder a Presidência pela via democrática. Foi nesse momento que Getúlio se aproveitou de um falso plano que representaria uma nova revolução comunista para justificar a necessidade de dar um golpe de Estado' ------- Esta fábula já ganhou ares de fato, graças à persistência com que é repetida por ideólogos interessados em retratar a esquerda como eterna vítima de armações reacionárias. Ironicamente, alguns liberais lhe dão crédito, pondo de lado sua alergia ao socialismo, tamanha a sua obsessão de atacar o nacionalismo – talvez julguem o primeiro um mal menor frente ao segundo. É possível que tenham engolido essa lorota por descuido, como muitos incautos  que passam ao largo das fontes primárias. Quem se der ao trabalho de ler o discurso proferido por Vargas em 10 de novembro de 1937 descobrirá que em NENHUM momento ele citou o Plano Cohen para justificar a implantação do novo regime. A fúria do Presidente recaía sobre dois governos estaduais, ambos acusados de tramar uma insurreição armada contra o Governo Federal, situação que no limite poderia desembocar em guerra de secessão, nas palavras de Getúlio: 'Os preparativos eleitorais foram substituídos, em alguns Estados, pelos preparativos militares, agravando os prejuízos que já vinha sofrendo a Nação, em conseqüência da incerteza e instabilidade criadas pela agitação facciosa. O caudilhismo regional, dissimulado sob aparências de organização partidária, armava-se para impor à Nação as suas decisões, constituindo-se, assim, em ameaça ostensiva à unidade nacional' (Fonte: VARGAS, Getúlio Dornelles. 'A nova política do Brasil – Vol. V'. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1938, p. 25). O Presidente referia-se a São Paulo e ao Rio Grande do Sul, cujos governos vinham adquirindo vultosos arsenais no Exterior sob pretexto de equipar suas PMs, comprando inclusive baterias antiaéreas, armamento incompatível com qualquer missão policial. Os fatos foram registrados pelo Marechal Eurico Gaspar Dutra, na época Ministro da Guerra, que ao escrever suas memórias teve o cuidado de documentá-las com cópias de relatórios, ofícios e alertas produzidos pelo Exército entre 05/10/1936 e 30/05/1937 ('O dever da verdade', pp. 158-163, 194-197 e 247-256). Chamo atenção para as datas, todas bem anteriores ao aparecimento do Plano Cohen. Isso significa que a decisão de implantar o Estado Novo não foi influenciada pela percepção de ameaça comunista? Foi, mas esta percepção não foi gerada pelo referido plano. Ela decorreu de um episódio anterior, conhecido como 'Macedada', quando o Ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, concedeu habeas-corpus a 300 suspeitos implicados na Intentona Comunista, em 8 de junho de 1937. A decisão enfureceu os comandantes militares, que dirigiram uma advertência a Macedo Soares, conforme atesta ofício datado de 26 de junho de 1937, reproduzido nas memórias de Dutra ('O dever da verdade', pp. 245-246). Beneficiados por aquela soltura coletiva, centenas de comunistas voltaram a promover agitação nas ruas, inclusive atentados com vítimas fatais. E aqui vamos ao documento decisivo: a ata da reunião realizada pelo Alto Comando do Exército em 27 de setembro de 1937, quando tomou-se a decisão de implantar o Estado Novo. Quem examiná-la descobrirá que o Plano Cohen (uma pista falsa) foi mencionado pelos militares uma única vez, em meio a várias pistas verdadeiras, entre elas as evidências da atividade subversiva que se avolumava nas ruas e na Câmara dos Deputados, graças à liberalidade do Ministro da Justiça ('O dever da verdade', pp. 232-238). Até hoje, no intuito de limpar sua barra, a esquerda se agarra ao Plano Cohen para forjar uma narrativa que oculta sua parcela de responsabilidade pelas turbulências que convulsionaram o Brasil entre maio e outubro de 1937".

O referido professor ainda revela a incapacidade analítica de Luiz Philippe de Orléans e Bragança:

"Surpreende-me o que foi dito aos 59:52 pelo Príncipe Luiz Philippe de Orléans e Bragança: 'Ao final da guerra, o Brasil estava arruinado financeiramente, com uma dívida externa imensa' -------- Esta afirmação não é apenas incorreta. É fraudulenta. Foi durante a 2ª Guerra Mundial que o Brasil renegociou e reduziu sua dívida externa pela metade, nos termos do Plano Souza Costa, aprovado pelo Decreto-Lei nº 6.019 de 23 de novembro de 1943. Isso tudo graças à firmeza do governo, que soube aproveitar a conjuntura favorável para redefinir os termos do nosso relacionamento financeiro com os EUA e a Inglaterra (Fonte: COSTA, Artur de Souza. 'Dívida externa do Brasil'. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943, pp. 7-20)."


Eduardo Cruz ainda aponta outros equívocos gravíssimos para um documentário que se pretende histórico:

"Aos 41:45, o narrador afirma que 'apesar do apoio dos tenentistas, os ideais comunistas não haviam sido bem recebidos pela grande maioria das Forças Armadas' ------- O movimento tenentista estava agrupado no Clube 3 de Outubro, que jamais apoiou o PCB, formalmente ou informalmente. Seu programa foi aprovado na I Convenção Nacional do Clube, realizada de 5 a 9 de julho de 1932. Era um típico programa nacionalista-autoritário, do qual tenho cópia nos meus arquivos. Basicamente, antecipava tudo que seria feito durante o Estado Novo: nacionalização no petróleo, dos minérios e setores de base, assimilação dos imigrantes, centralização do poder político, implantação da siderurgia, etc. Prestes estava afastado do movimento tenentista desde 1928. Ingressou no PCB em 1934, época em que o Clube 3 de Outubro já havia inclusive se dissolvido. Quase todos os seus quadros foram aliciados por Vargas e pela Ação Integralista. Pouquíssimos se bandearam para a ANL (Fonte: WIRTH, John. 'Os tenentes na Revolução de 30'. In: FIGUEIREDO, Eurico de Lima (Org.). 'Os militares e a Revolução de 30'. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 41)...Aos 55:25, Flávio Morgenstern afirma que Vargas 'queria entrar na 2ª Guerra Mundial apoiando o Eixo' ------ Isso também é mentira. Vargas nunca cogitou engajar o Brasil no conflito ao lado da Alemanha. Quem se der ao trabalho de ler os relatórios produzidos pelo Estado-Maior do Exército em 1939-1945 descobrirá que o governo discutia apenas duas alternativas: manter o País neutro ou lutar ao lado dos Aliados, conforme recomendasse o interesse nacional. O que houve, sim, foram negociações muito difíceis e desagradáveis com os americanos, a cujas exigências descabidas era preciso resistir (Fonte: ESTEVES, Diniz. 'Documentos históricos do Estado-Maior do Exército'. Brasília: EME, 1996, pp. 226-285). O segundo volume dos diários de Getúlio confirma que ele temia a vitória da Alemanha tanto quanto repelia pressões dos EUA (Fonte: VARGAS, Getúlio Dornelles. 'Diário - Vol. II'. São Paulo: Siciliano, 1995, pp. 313 e 396)" ...Aos 01:03:00, o narrador afirma que Carlos Lacerda deixou a militância comunista aos 25 anos, ou seja, em 1939, 'quando entrou em conflito com o líder do Partido, Luiz Carlos Prestes' ----- De onde os editores tiraram isso? Prestes só foi nomeado Secretário-Geral do PCB em 1943, por determinação de Moscou. Em 1939 o líder do PCB ainda era Antônio Maciel Bonfim, vulgo 'Miranda', a quem Prestes estava subordinado. Além disso, o rompimento de Lacerda com o Partido não decorreu de nenhum atrito com Prestes, mas de um artigo que ele publicou na revista Observador Econômico e Financeiro ...Ainda aos 01:04:30, o narrador afirma que 'Getúlio, em troca do seu apoio à candidatura de Dutra, não teve seus direitos cassados, não sofreu qualquer processo judicial' ----------- Esta afirmação é rigorosamente FALSA. Quem impediu represálias contra Vargas foi o General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, então Ministro da Guerra. Logo após a queda do Estado Novo, alguns inimigos do Presidente deposto propuseram que seus direitos políticos fossem cassados por 10 anos. O General não permitiu, até porque isso abriria um precedente para a punição de outros expoentes da ditadura, inclusive ele próprio. O episódio está registrado nas memórias de Góes Monteiro ('O general Góes depõe', pp. 462-463). Eurico Dutra, por sua vez, lançou sua candidatura à Presidência da República em 27 de março de 1945. Vargas foi deposto em 29 de outubro e só manifestou seu apoio à candidatura do Marechal em 27 de novembro, por insistência de João Neves da Fontoura e José de Segadas Vianna, conforme relatado pelo General Osvaldo Cordeiro de Farias em depoimento autobiográfico ('Meio século de combate', pp. 400-402). Por conseguinte, é falacioso afirmar que a impunidade de Vargas foi garantida em troca do seu apoio à candidatura de Dutra. Tal negociata nunca ocorreu!"


Em face de todos os esclarecimentos prestados pelo Prof. Eduardo, fica evidenciado a chanchada que o Brasil Paralelo representa. A idéia de manchar a imagem de Vargas atende a vários fins, entre eles retratar a odiada figura de Lula como fruto do Varguismo, o que é falso, dado que o modelo sindical apregoado por Vargas era autoritário e ligado ao Estado, controlado por ele e conduzido com fins a uma colaboração capital-trabalho; já o modelo do sindicalismo lulista é comunista, pois aposta na luta de classes e no confronto do trabalhador com a orientação do Estado "burguês". Entre outros fins, os idealizadores do BP têm o propósito de convencer o público letrado de que seríamos um país melhor se fôssemos mais liberais, o que evidentemente não é verdade: em toda a República Velha, quando fomos liberais em economia e federalistas em política, nosso País era a 24ª economia mundial e, depois de termos passado pelo industrialismo e centralismo da Era Vargas e dos governos militares, galgamos a 8ª posição na economia global. Os números não mentem. Os liberais sim.
Agradecemos ao Professor Eduardo Cruz pelas análises e contribuições!


* Eduardo Cruz é professor de Geopolítica, História das Relações Internacionais e Política Externa Brasileira. Cursou graduação em Relações Internacionais e mestrado em História na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. As opiniões transcritas refletem a posição do autor, não das instituições às quais ele está ou esteve vinculado.




segunda-feira, 2 de abril de 2018

Por que Jesus ressuscitou na primavera?


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Isaías profetizou que Cristo ao ser sepultado “descansaria na paz” ( Is 57, 2) pois, por sua morte, ele restabeleceu a paz entre o céu e a terra. Ora esta era a paz que existia no Jardim do Éden. 

Não é, portanto, sem razão que Jesus foi sepultado num jardim e nele ressuscitou. Não é sem razão, também, que Cristo morreu e reviveu no começo da primavera no hemisfério norte. No livro de Cantares se fala de um horto fechado, uma fonte selada. Lembremos que os judeus mandaram fechar o jardim pois temiam que os apóstolos roubassem seu corpo para dizer que ele havia ressuscitado. Tal fonte selada e tal jardim fechado é o Salvador: pois sua alma só tendia a Deus, como a amada tende apenas a seu amado. Cantares em 2,14 afirma que a 'amada' é chamada a se levantar do 'buraco da pedra' que designa a câmara que ficava diante da porta do sepulcro do Cristo.

Nosso Senhor ressurgiu não no verão ou outro tempo mas na primavera pois neste tempo fica o primeiro mês dos hebreus onde acontece a festa da páscoa. Isto se reveste dum sentido místico pois foi neste tempo que se deu a origem do mundo pois disse o Senhor que “produza a terra a erva verde e que dêem sementes segundo sua espécie e semelhança.” O lugar da sepultura era um horto e a Vida – ele mesmo com seu corpo sepultado - lá foi plantada pois Jesus disse: Eu sou a Vida. Foi plantada na terra para limpar a maldição que Adão trouxe à mesma com seu pecado. Por conta dela a terra produziu abrolhos e espinhos, mas é da terra, como se profetizou, que germinará a fidelidade ( Salmo 84, 12). Em Cantares se diz que a amada recolheu mirra, aromas e aloés (Cantares 4, 14). Nos evangelhos vemos as mulheres e Nicodemos levando misturas de mirra e aloé ao sepulcro de Cristo ( Jo 19, 39), frutos da primavera, do renascimento. O aloé é uma planta que frutifica em terra árida como Cristo que frutificou a Graça na terra dos judeus que não o receberam, tinham a alma árida. O aloé é cicatrizante assim como Cristo que veio cicatrizar a ferida dos pecados.

Deste modo, Nosso Senhor ressurge na primavera pois esta foi a primeira estação da história, dado que foi nela que Deus começou a criação da terra. A primavera é a ressurreição da natureza depois da morte trazida pelo inverno onde as árvores já não dão flores nem frutos, onde os animais hibernam. Jesus é a ressurreição da humanidade da morte espiritual pois já não dava frutos de justiça para Deus. Em Cristo o mundo ressurge – é uma nova criação que começa, uma nova humanidade. Cristo é o novo Adão. Como novo Adão ele recomeça nossa história desde um jardim pois ele é a Árvore da Vida. Notemos que ele aparece na forma de um jardineiro antes de se revelar a Madalena, no horto da ressurreição. Como Deus cultivou um Jardim para por o primeiro homem, Jesus cultiva um novo jardim para o novo homem renascido pela fé: ele é o jardineiro do Pai.  Sua cruz é o madeiro donde vem a Vida Nova, é a planta donde virão os frutos que curam as nações. 

É como se a Semana Santa resumisse, em poucos dias, o ciclo completo da natureza e da vida, mas também o da história da salvação, unindo, num só quadro, a religião cósmica e natural, onde se pode adorar a Deus a partir da beleza da criação, com a religião revelada, onde vemos Deus se apresentar por meio de fatos redentores: a chegada triunfal do Cristo em Jerusalém entre uma multidão que agita palmas (os ramos, uma semana antes da Páscoa) já anunciam o fim da era invernal; em seguida a morte de Cristo, que  representa a morte do antigo mundo, depois a ressurreição de Cristo, que é a criação de um novo mundo, de uma nova era, de um novo homem, que significa a volta da esperança, um novo fluxo da vida, a vitória sobre a morte. Assim como tudo começa num jardim tudo se torna pleno e acabado nele. Do jardim do túmulo sai a Vida Vitoriosa. Voltando ao jardim do qual Adão foi expulso, pela fé na ressurreição, teremos acesso ao fruto da Árvore da Vida pelo qual ganharemos a Vida Eterna.

terça-feira, 27 de março de 2018

A estratégia dos "centros culturais católicos".


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 CDB: centro católico ou militância olavista? 





Os fatos assomam e exigem que falemos deles. Propositalmente demos um tempo para avaliar se o que supúnhamos era mesmo real, até que os eventos foram confirmando nossas suspeitas. Estamos falando da estratégia dos Centros Culturais. Nos últimos meses vários deles surgiram pelo Brasil com um fito claro: agregar católicos para iniciativas de luta cultural. Faz tempo que uma certa direita - que de católica não tem muito já que flerta com liberalismo, tradição estadunidense e capitalismo usurário - vem plantando a semente de uma guerra ideológica/cultural contra a esquerda; crentes de que ela se pauta por guerra cultural gramsciana, a direita adotou a mesma tática o que passou a envolver, inclusive, a instrumentalização da Igreja Católica como fez a esquerda com suas CEBs e os padres vermelhos que orientaram, por anos a fio, o eleitorado católico para o voto no PT. Assim tais Centros Culturais, embora falem de luta pela Igreja e sua Tradição, se portam mais como veículos para guiar fiéis na direção dos ensinos de Olavo de Carvalho - o mesmo que diz que a salvação do Ocidente passa pelo restauro da Maçonaria e duma aliança dela com a Igreja -  seja para se valer disso a fim de criar uma militância anticomunista reativa que se embasa em contestação ao socialismo mas não com a Doutrina Social da Igreja na mão e sim com conservadorismo americano, Burke, Russel Kirk, et caterva. 

Comecemos tratando do caso do Centro Dom Bosco do RJ. Liderado por neoconservadores que reconhecem o Concílio Vaticano II - Concílio que se calou sobre o comunismo; é bastante irônico que anticomunistas se baseiem num Concílio que abriu a Igreja para o diálogo com o comunismo como bem mostra a Ostpolitik de Paulo VI, bem estudada pelo historiador Roberto De Mattei - o Centro referido recentemente publicou um jornal - ou seria panfleto? - onde, pasmem, não se encontra um único artigo de espiritualidade, teologia revelada, magistério romano, nada relativo a fé católica! Nada! O jornal do referido Centro Católico, fala de Bolsonaro, põe Olavo na capa e traz Carlos Nougué num rodapé, o que deixa claro por quem o CDB é pautado. Nougué é apenas um professor coadjuvante no CDB tanto que, depois de um bom tempo contribuindo para o grupo, não conseguiu orientar nenhum dos líderes do Centro para longe das diretivas de Olavo de Carvalho nem para longe do neoconservadorismo baseado na absurda hermenêutica da continuidade. 

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Também é preciso que se fale da conexão estreita entre os vários Centros Culturais "Católicos", todos nascidos sob os auspícios dos alunos de Olavo. O Centro Anchieta, no Espírito Santo, é mais um caso; o referido Centro tem em Garschagen, um seguidor das idéias de Von Mises, que classificava o Evangelho de Jesus Cristo como abjeção comunista, uma referência : 



Outro caso igualmente estranho é do Instituto Hugo de São Vítor. O Instituto que tem em Clístenes Fernandes uma de suas lideranças oferece curso de "Astros e Símbolos" como podemos ver abaixo: 






seus membros sobretudo entre jovens mais ou menos letrados, quechegaram a alcançar algum grau de informação sobre as doutr...
Sumário do livro de Olavo, Astros e Símbolos. Centros católicos oferecendo isso como curso? Como é possível? 


O curso sobre Astros e Símbolos é a base da astrologia perenialista que vê nos planetas e estrelas símbolos da atuação de poderes angélicos - quer dizer, de demônios - ensinada por Olavo de Carvalho e seu filho Luiz Gonzaga de Carvalho. Astrologia mil vezes condenada pela Igreja mas exaltada por várias linhas esotéricas. Será que o Sr. Clístenes desconhece o que vem sendo ensinado em seu Instituto? Se não desconhece por que permite? E será que o CDB desconhece que o Instituto do sr. Clístenes oferece um curso herético e malsão? Um Centro que quer defender a fé católica pode associar-se a um Instituto que oferta tal coisa? Os líderes do CDB deviam ler o referido livro de Olavo onde o mesmo diz que o Islam é uma dos pilares da tradição e um lugar onde podemos ouvir o eco da Palavra dirigida por Deus aos homens!

mais baixa de cultura letrada, o jornal, não atinge mais que uma parcelamínima e insignificante do público —, nesse panora...
Página 11 do Astros e Símbolos de Olavo de Carvalho.



Que a atuação dos referidos centros está articulada a Olavo está mais que provado pelo próprio testemunho de Bruno Mendes, uma das lideranças do CDB; percebam que a maioria das referências intelectuais do CDB são de alunos do sr. Carvalho: 



A pergunta que não quer calar é: até que ponto tudo isto é católico? Ao que nos parece tudo não passa de estratégia cultural dum perenialismo difuso, associado a direitismo americanista chulé, a qual talvez nem os líderes destes Centros compreendam dado que tais coisas são organizadas desde o cimo de sociedades secretas.

Quem tiver olhos que veja!




quarta-feira, 7 de março de 2018

Kuster, a insanidade neoconservadora e a CNBB

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KUSTER, TERÇA LIVRE, ETC. LIGUEM OS PONTOS!





Recentemente o senhor Bernardo Kuster ficou famoso por entrar numa polêmica referente a supostas idéias comunistizantes e a teses vinculadas a ideologia de gênero, entre outras coisas, num documento da CNBB, contra o qual o mesmo protestou com amplo apoio de mídias ligadas à trupe de Olavo de Carvalho ( Como o Terça Livre) o que ajudou a alavancar a sua "indignação" e a capturar a revolta de muitos católicos com o pendor da CNBB ao socialismo ( Como se isso fosse uma novidade e como se Kuster tivesse descoberto a roda). 

A tática é velha dado que Olavo "surfou na onda" do antipetismo para tornar-se uma figura que aparece como referência mais a direita do espectro político, angariando adeptos e um público cativo que passou a acreditar que comunismo se combate com democracia ao estilo EUA. O objetivo da trupe do Terça Livre - da qual Kuster pertence - é exatamente esta. Falar em nome dos católicos contra a corrupção da CNBB e passar a imagem de que são eles os arautos que representam a solução para a Igreja, atingindo um público que possa servir de massa maleável a seus propósitos e de peão a sua militância. 

Agora com o apoio do Centro Dom Bosco - um centro cultural que visa, entre outras coisas, forjar a "elite" intelectual desejada por Olavo para conduzir o país, enquanto se faz passar por ser uma associação católica - o senhor Kuster em 15 de março de 2018 pretende mostrar como o "protagonismo leigo" é a saída para a crise eclesial. 

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O Centro referido anuncia assim o evento: 

"Muito se tem falado sobre os limites da atuação do leigo na defesa da fé católica. Para esta aula magna de inauguração da Universidade São Jerônimo, convidamos Bernardo Pires Küster, Carlos Nougué e Chris Reis Tonietto para expor o tema à luz do que a própria Igreja sempre ensinou ao longo de 2000 anos de história. 

Local: Hotel Atlântico Business - Rio de Janeiro
Valor: R$25,00
Data: 15/03 às 18h
INGRESSOS LIMITADOS! Sujeito a lotação."


Para esclarecer sobre um tão importante tema o CDB cobra 25 reais. E Kuster parece que também não pretende trabalhar de graça pelo "bem" da Igreja. Ele diz que precisa de financiamento pois precisa de uma câmera própria - já que usa câmera emprestada: https://apoia.se/bernardokuster. 

Que fique claro de uma vez: Bernardo, no caso, não passa dum agente a serviço do sr. Carvalho; ao mesmo tempo que denuncia CNBB está associado a um herege público. Para quem tem dúvidas basta conferir: 

1-Kuster associado a Silvio Grimaldo, braço direito de Olavo no COF: https://www.instagram.com/p/BfJJebfF5zG/?taken-by=bernardo_kuster

2- Kuster e Olavo: https://www.instagram.com/p/BbdZ-YDFk8_/?taken-by=bernardo_kuster

3-Kuster e Flavio Gordon, outro adepto do guru: https://www.instagram.com/p/BZymKHclssH/?taken-by=bernardo_kuster

4- Kuster e Bolsonaro: https://www.instagram.com/p/BX1IIwylFjM/?taken-by=bernardo_kuster (Cabe recordar que Bolsonaro é a favor de laqueadura o que é contrário a fé da Igreja e a lei de Deus; quando Kuster protestou contra isso? Dois pesos, duas medidas? ). 

Vamos à questão: a panacéia oferecida por Kuster e o CDB para salvar a Igreja das tramas da CNBB é a velha heresia do "protagonismo leigo".  Interessante é que este é o mesmo erro em que se funda a CNBB e a pastoral eclesial das dioceses do Brasil. Explicamos. 

A CNBB adota a idéia de que a Igreja tem de ser  uma "Igreja Popular", em suma, uma organização que nasça das bases, ou seja, da realidade vivida pelo povo em sua dimensão social, política, econômica. Uma Igreja voltada aos aspectos mundanos da vida. Ora o leigo está imerso no mundo, diferente do clero que por seu celibato se coloca fora do sistema deste mundo; o clérigo não exerce uma atividade social ou econômica ligada a estrutura sistêmica de uma sociedade; ele é agente do reino de Cristo. A noção de protagonismo laico nasce da Gaudium Et Spes, documento do Vaticano II que pedia maior aproximação da Igreja dos problemas e anseios do mundo moderno. Foi isso que deu origem a teologia da libertação. Kuster e sua trupe querem combater o marxismo da TL com o mesmo princípio que inseriu o socialismo na Igreja, nas dioceses, nos seminários. Evidente que isso é de uma insanidade de proporções imensas. 

Dentro do aspecto teológico não podemos esperar nada de um protagonismo laico como se daí viesse a salvação da Igreja; a Igreja é uma Hierarquia Sagrada onde cabe ao clero ensinar. Se há hoje uma crise de fé é por que o clero não ensina retamente. Nenhum leigo pode resolver isso. No máximo pode resistir ao erro na fé de sempre e esperar melhores dias tentando fazer o máximo para conscientizar os seus irmãos de que há uma crise e que ela é a de fé e que é preciso fixar-se no ensino de sempre, deixando de lado as novidades conciliares. A solução teológica é se fiar no protagonismo da autoridade; no caso da autoridade de Dom Lefebvre e de Dom Mayer que, como leões da fé, guardaram a fé de sempre. 

É PRECISO QUE DIFERENCIEMOS o católico tradicional do liberal:

1- Católico tradicional:

- A autoridade aperfeiçoa a liberdade e portanto seu exercício deve ser elevado ao máximo
-O Espírito Santo assiste a autoridade que, portanto é regra da fé
-A autoridade é mestra da verdade

2- Católico liberal:

- A autoridade sufoca e restringe a liberdade, devendo ser reduzida ao mínimo; deve se dar liberdade ao Espírito Santo, que fala por todos e não, notadamente pela autoridade. 
-O ES assiste o sentir comum do povo fiel; é este sentir comum que deve ser a regra da fé e das ações da autoridade
-A autoridade é serva da unidade (do consenso).


O discurso de Kuster e de seus colegas neoconservadores não passa de uma "teologia do americanismo", QUER DIZER, NÃO PASSA DE UM ESQUEMA DE PENSAMENTO QUE SE LIGA AO QUE CHAMAMOS DE "CATOLICISMO LIBERAL" NA MEDIDA EM QUE TEM NO PROTAGONISMO LEIGO UM PRINCÍPIO. Explico: enquanto a ala esquerda quer a "Igreja" servindo como veículo do marxismo, a trupe de Olavo quer a Igreja distante das questões sociais a fim de que uma direita americanista dê o tom ao desenvolvimento político do país. O projeto de Kuster e da direita que ele representa é a velha bobagem dos católicos linha média dos EUA:  Igreja não tem de se meter em assuntos políticos ou econômicos. Cabe a ela cuidar somente do espiritual. 

Ambas as vias - esquerda e direita "católicas"- erram. Se uma - a esquerda - quer instrumentalizar a Igreja a outra não reconhece uma questão social - a direita católica neste ponto se põe fora do que afirma a Rerum Novarum que admite a existência de uma questão social; o que a Rerum rejeita é a solução socialista - e pretende que caiba a uma elite cultural leiga - inspirada nos valores maçônicos da revolução americana - o papel de dar o tom e guiar a sociedade sem que nenhum papel caiba a Igreja Hierárquica no plano político.  

  




terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Woods e suas calúnias contra a Doutrina Social da Igreja: refutando a heresia austríaca!

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Um canalha disfarçado de católico: ei-lo! Sr. Thomas Woods, o herege defensor de Mises.




Nos últimos anos temos visto idéias liberais e anarcapitalistas sendo espalhadas na seara católica por certos pensadores e escritores cujo objetivo é claro: capitanear a fidelidade dos cristãos para projetos ideológicos/políticos que se afastam do verdadeiro espírito do evangelho.

Entre tais pensadores se destaca a figura de Thomas Woods, um escritor estadunidense compromissado com a defesa do modelo de civilização americana onde a liberdade – no seu sentido moderno - é tida em grande conta e vista como fim supremo. Woods teve, recentemente, um artigo publicado pelo site do Mises Brasil, organismo dedicado a defensa da escola austríaca de economia de caráter ultraliberal. O artigo se encontra aqui: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1548

O texto em questão é uma suma de erros e de acusações contra a Doutrina Social da Igreja. Cumpre, portanto, refutá-lo.

Para isto faz-se necessário entender sobre que premissas o sr. Woods se assenta para defender a escola austríaca contra a Doutrina Social da Igreja. Segundo o sr. Woods

o pensamento católico enfatiza a razão e sua capacidade de descortinar uma ordem no universo que seria obra do Criador”

Ainda segundo Woods alguns escolásticos viam o livre mercado como uma expressão desta harmonia natural criada por Deus e capaz de ser verificada na ordem natural e física. Logo, segundo Woods, seria perfeitamente viável uma conciliação de livre mercado e pensamento católico. Partindo do pressuposto de que as coisas tem propósitos que foram estipulados por Deus, não caberia ao homem mudar, por exemplo o propósito reprodutório do sexo, para usá-lo apenas como meio de prazer. Não cabe ao homem mudar o propósito das coisas segundo sua vontade arbitrária. Daí Woods concebe que o livre mercado tenha suas leis próprias – a velha lenga lenga liberal, que vem de Adam Smith, de que a economia seria regida por leis naturais e eternas, - e que não cabe ao homem ou ao Estado, ou mesmo a Igreja interferir em seu funcionamento, pois isso redundaria numa quebra da ordem natural estabelecida por Deus.

Este é o cerne da tese de Woods. A premissa e a conclusão são perfeitamente harmônicas mas o problema e que elas partem de falsos princípios e cabe mostrar por que.

É falso dizer que a economia é regida por leis naturais como a física é regida pela lei da gravidade; as leis econômicas não são leis físicas. Ora, era exatamente deste modo que os economistas clássicos – Quesnay, Smith, Ricardo – a enxergavam: como um conjunto de “leis” férreas impostas pela natureza da atividade econômica; partindo daí todos eles naturalizavam a lei de oferta e procura, a idéia de preço natural, entre outras, como verdades eternas da economia.

Todavia, trabalhos como o de Karl Polanyi provaram que tais leis não se achavam em outras sociedades humanas. Para Polanyi, embora mercados sempre tenham existido, foi só no século XIX que se transformaram no princípio organizador da sociedade, emergindo das relações sociais onde, anteriormente, estavam submersos. Logo, antes do século 19, o mercado autoregulável inexistia. Inexistia a lei de oferta e procura como “regra eterna” da economia. Para que a lei de oferta e procura passasse a vigorar foi preciso destruir a ordem social tradicional. Até o período feudal, a ordem na produção e distribuição era garantida por três princípios:

- Reciprocidade ( as trocas devem se basear na comutação, quer dizer, na igualdade de valor; a idéia da busca do lucro, como fim último da atividade econômica, era inexistente)
- redistribuição ( o excedente é redistribuído pelo poder político feudal aos servos; a produção visa amealhar para atender ao bem comum)
- domesticidade ( a produção não visa um mercado mas as necessidades familiares ou comunitárias)

Esses princípios vinham ao encontro de três padrões correspondentes: simetria, centralização e autarquia (autosubsistência).

No medievo o comércio local sempre foi uma instituição cercada de salvaguardas para proteger seus limites. Nessa época, as relações de troca eram apenas uma das muitas relações sociais e obedeciam as mesmas regras morais impostas a todas. Ora, as cidades medievais eram cercadas por medidas auto-protetoras e regulamentações que atingiam, também, o mercado de bens locais. Esta instituição só se liberou dos laços protetores, não através de uma evolução natural, mas sob a ação direta e deliberada do Estado que, nos séculos XV e XVI, impôs às cidades o sistema mercantil, eliminando a separação entre os dois comércios ( o local e o interno, portanto nacional). Estas instituições perderam, então, seu aspecto complementar e se tornaram competitivas dentro de um mercado agora nacional.

Logo o mercado livre não é uma lei natural mas uma invenção política da modernidade gestada por grupos ligados à realeza e às burguesias. O mercado foi uma ruptura com a história econômica da humanidade pois inventou a noção de que o trabalho, a terra e a moeda eram “mercadorias”, idéia esta estranha a todas as economias até então existentes na história humana. Ora para se falar de lei eterna e natural da economia seria preciso que fosse possível generalizar normas como oferta e procura ou preço natural, a partir das experiências econômicas particulares de cada época. Porém jamais uma “lei de oferta e procura” existiu para a terra ou o trabalho em qualquer civilização tradicional, antiga ou medieval. Por cerca de seis mil anos, terra, trabalho e moeda fugiam a considerações de mercado. Foi só com o capitalismo liberal do século 18-19 que ela emergiu, fruto de políticas, ou seja da vontade arbitrária de agentes econômicos/políticos. Mas Woods não alega que mudar a ordem das coisas atenta contra o propósito divino? Quem fez isso foram exatamente os economistas liberais e clássicos que ele admira, pois com suas teorias jogaram por terra uma ordem econômica de seis mil anos.

Percebam que as definições de mercadoria, que é algo produzido para a venda, mudaram com o advento do capitalismo liberal; e nenhum desses três fatores ( terra, trabalho e moeda não são produtos pois não visam o consumo; moeda não se consome mas se usa como meio de troca) o são, logo eles não podem ser mercadoria reais pelo simples fato de que isso é impossível. Essa impossibilidade se torna evidente, para Polanyi quando ele lembra que

... o trabalho e a terra nada mais são do que os próprios seres humanos dos quais se constituem todas as sociedades, e o ambiente natural no qual elas existem. Incluí-los no mecanismo de mercado significa subordinar a substância da própria sociedade às leis de mercado”.

Logo fica demonstrado que:

1- Não existem leis físicas da economia, ou seja, regras que emanariam da própria imanência natural da atividade econômica como normas das quais o homem não pode escapar.

2- A idéia de livre mercado é uma utopia liberal na medida em que rompe com as práticas tradicionais e suas considerações sobre justiça comutativa, regateio, terra, trabalho como não vendáveis em termos de mercadoria, sobre moeda como mero meio de troca, etc. Uma utopia que quer romper com a ordem moral que sempre regulou a economia.

3- O mercado é uma invenção do estado moderno e não fruto de evolução espontânea. Sem que o estado moderno tivesse derrubado as barreiras tradicionais das cidades medievais quanto à concorrência e produção não haveria surgido o mercado nacional nem o internacional.

4-As únicas “leis” da economia não são leis físicas, mas regras morais apropriadas a regular a atividade humana; a economia como atividade de troca entre pessoas deve ter como base uma ética que estabeleça a justiça no âmbito destas relações.

Woods segue sua imensa lista de falácias alegando que Juan de Lugo, um escolástico, considerou que

o equilíbrio do preço” era impossível de ser conhecido ou determinado por um poder qualquer dado que isto envolveria tantas circunstâncias que só Deus poderia conhecer todas elas”.

Lugo, percebam, já raciocina no contexto da era do mercantilismo moderno onde as barreiras protetivas das cidades quanto ao comércio já haviam caído. O “equilíbrio do preço”, aquilo que os liberais e austríacos chamam de preço natural, seria o perfeito espelhamento da oferta e da procura no valor do produto; para Lugo como eram muitas as instâncias envolvidas na determinação do preço era incognoscível estipulá-lo por uma medida estatal ou eclesiástica; assim a noção aristotélica e católica de “preço justo” devia ser abandonada. O justo preço seria o preço de mercado e mais nada. A noção de Lugo preparou a via para a teoria do preço natural de Smith, segundo o qual, o “deus mercado” - único capaz de conhecer este preço justo – o estabeleceria espontaneamente, desde que o Estado não interferisse na determinação do mesmo, ou que a Igreja não sentenciasse um preço justo para as mercadorias. Woods vai asseverar que este “deus mercado” nada mais seria que a Providência Divina! Woods vai mais longe em sua loucura e alega que “os iluministas” como Smith e demais economistas liberais viam os fenômenos naturais como “decretos da providência”. O erro de Woods consiste no seguinte:

1- A idéia de que o preço natural é impossível de determinar a não ser pelo “mercado providência”, abre caminho para aquilo que é a essência do liberalismo: o lucro desmedido através da especulação. Como o preço natural é incognoscível ao vendedor ou comprador tomado em particular, abre-se a via para a aposta na superestimação do valor. Um valor superestimado garante à burguesia industrial nascente, uma fonte de lucro desmesurado e um acúmulo excessivo de capital. Ademais a tese de Smith e Woods de que o mercado regularia, espontaneamente, o valor, é falsa. A práxis do capitalismo real o prova. Smith e seus discípulos liberais consideram a natureza humana desde uma visão otimista onde não tem lugar a noção de pecado original. Neste sentido as naturais maquinações humanas para auferir vantagens e ganhos majorados são desconsideradas no plano econômico. A tendência natural do capitalismo a formar cartéis para aumentar preços e dividir o mercado não são levados em conta. O mercado de carros no Brasil é um bom exemplo: por mais baixas que a demanda por carro sofra, os preços se mantém estáveis. Nesta crise que o país atravessa desde 2014 o preço do carro 1.0 é o mesmo em toda concessionária: em torno dos 40 mil reais; mesmo com menos compradores dispostos a enveredar num carro zero km desde 2014, o preço se mantém, estranhamente, estável.


2- Os iluministas não consideravam providência alguma: a maioria deles era deísta, ou seja, acreditava em um “deus-natureza” onde as forças materiais em sua imanência eram vistas como expressão da divindade; os deístas concebem Deus como mero princípio intelectual que teria ordenado o mundo mas deixado o mesmo caminhar a sua própria sorte (Providência, em sentido católico significa que Deus é um ser pessoal que cuida da sua obra conduzindo-a para um fim); nesta concepção os instintos naturais são encarados como bons em si mesmo. Por exemplo, a vontade de lucrar não deve, dentro desta cosmovisão, ser regulada pois, dada sua espontaneidade natural, precisa ter livre curso.

3-Considerar que a mão do mercado equivaleria a de Deus, dentro do pensamento liberal, é um erro grotesco de Woods. Quesnay e Smith entendiam a “mão invisível” como somatório dos interesses individuais. A “ordem” econômica nasce espontânea da imanência e do cálculo racional de ganhos e perdas, nasce da vontade dos indivíduos. Não nasce de um decreto da providência. A mão invisível é a harmonia natural dos interesses opostos. Da contradição nasce a unidade. O mercado é uma soma de meras vontades humanas. Nenhum economista clássico ou austríaco considerou a providência divina na formulação da tese da mão invisível. Os liberais políticos vão dizer que o Estado e o poder do rei não vem de um direito divino; daí dirão que o poder vem de baixo, do homem, de sua vontade e do pacto social: a lei vem da maioria. Os liberais econômicos alegarão que a economia não se pauta em leis morais vindas de Deus mas sim no cálculo meramente natural e humano: as leis econômicas não podem ser leis morais mas apenas leis materiais.

Para defender seu ponto de vista Woods mente descaradamente sobre a Doutrina Social da Igreja. Primeiro ele negativa a DSI ao dizer que, se ela exige intervenções no campo econômico, ela impede que a mão de Deus – a mão invisível do mercado – ordene as coisas. O pecado máximo da DSI, segundo Woods, é não aceitar que o mercado seja livre de qualquer intervenção. Os papas teriam errado pois quiseram opor a ordem natural colocada por Deus na economia, a uma lista de recomendações morais regulando a ação econômica.

Woods entende que a Rerum Novarum concebe que a “vontade humana” é suficiente para resolver questões econômicas. O maquiavelismo de Woods fica notório aqui. Quem sempre considerou a vontade humana como base da economia foram os liberais e austríacos – a estimação livre da vontade dos indivíduos em torno do valor dos bens, a soma dos interesses voluntários de cada pessoa é a “mão invisível do mercado – e não a Igreja. Ela, ao inverso, concebe que a vontade de ganho deve ser regulada por razões e leis morais que vem de Deus. A economia tem suas leis mas elas são morais e não “físicas”. Entre estas leis temos:

-Justiça comutativa
-Regateio
-Preço Justo
-Bem comum


Logo a DSI não nega a existência de “leis econômicas”: ela nega que tais leis sejam as que nascem da vontade imanente dos sujeitos; as “leis econômicas” são as leis morais eternas aplicadas ao campo da produção das riquezas; a riqueza, na escala de valores, é um bem inferior a virtude. Sua produção e circulação deve ser vigiada de forma a estabelecer a justiça; ocorre que, no mundo moderno, a produção de bens está ordenada, apenas, a atender a tríplice concupiscência, fruto do pecado original.

Woods afirma que

a tradição intelectual católica consiste em adequar as ações à realidade”
Mas o que é a realidade? Mais uma vez Woods insiste na superstição de que as tendências da economia liberal sejam leis da realidade e não convenções úteis para atender a vontade de ganho desmesurado do homem moderno. Na mesma linha Woods faz a assertiva de que os seguidores da DSI pretendem “obrigar a realidade ser o que não pode ser”. Não sr. Woods: a DSI se funda na moral que decorre do Evangelho de Cristo e nos mandamentos. Os seguidores da DSI é que, na verdade, repudiam o desejo como fonte da ordem da realidade, colocando o acento na lei moral: esta lei é que consiste na realidade da vida econômica pois as ações humanas tem um caráter moral. Se a economia não opera, agora, dentro destas leis morais é só por que a natureza humana se tornou desordenada por causa do pecado. E a noção católica de desordem consiste em considerar toda realidade humana sob o prisma dos mandamentos; ora a economia é uma realidade humana, também ela sujeita a vigência dos mandamentos.

Woods para tentar se sair da acusação de que estaria quebrando as tábuas da lei divina, ao advogar um puro liberalismo, vai alegar que “A DSI é contestável pois insere princípios morais nem sempre possíveis”. O senhor Woods tem certa razão: os postulados da DSI só são possíveis se a sociedade se converter. A DSI insta patrões e empregados a observarem a moral cristã para que se dê um ajustamento das relações econômicas. Todavia é exatamente por isso que a DSI não é contestável pois ela nasce da percepção dos papas de que havia uma questão social, nascida de desequilíbrios injustos provocados pela aplicação dos princípios liberais na sociedade e na economia, questão esta explorada pelos socialistas. Os princípios morais elencados pela DSI nem sempre são aplicáveis por conta da corrupção dos costumes provocada pelo contágio do pecado da avareza no mundo da economia; sendo a ação econômica um fenômeno moral, cabe a Igreja dar os antídotos a desordem provocada pela presença do erro e do mal no campo da produção. Tomar o fato econômico como algo neutro em termos morais é o cerne dos erros de Woods.

Partindo destas alegações espúrias, Woods considera que a DSI legitima a intervenção estatal na linha de leis antiTruste ( Ora o que é um Truste senão uma forma de monopólio? É sério que o sr. Woods defende monopólio? Mas isso não iria contra a teoria liberal de que, quanto mais livre o mercado, menos monopólio? Não é o estado que cria os monopólios segundo alguns austríacos? Woods, no entanto, parece dizer que o mercado os gera e que, caso os gere, o estado não poderá dissolvê-los, para bem da economia), aumento do salário mínimo, impostos, regulamentos, etc, o que seria ilegítimo pois impediria o aumento da prosperidade (com salários mais altos o patrão empregaria menos pessoas, segundo Woods). Como o fito da economia é o incremento da prosperidade isto seria um pecado inominável da DSI. Ao mesmo tempo Woods cita artigos do Instituto Mises que supostamente provariam que, mesmo sem um salário mínimo imposto pelo estado regulador, o mercado trabalharia com um mínimo salarial abaixo do qual seria impossível contratar. Toda a argumentação é montada para demonstrar que os adeptos da escola austríaca estão certos enquanto que os defensores da DSI não passariam de idiotas completos. Nada mais falso. Explicamos:

1- Primeiro, é necessário compreender que os austríacos alegam que o trabalho não gera valor mas somente o mercado;

2- Segundo, cabe lembrar que todos os austríacos defendem medidas de enxugamento salarial o que passa por eliminação das leis do trabalho e do salário mínimo, permitindo assim a queda do valor que se paga a um empregado. Para tais economistas esta panacéia traria mais empregos.

Quanto ao ponto 1 se é verdade que o trabalho não gera valor, por que reduzir salários? Se eles não afetam o valor do produto, encarecendo-o, por que defender medidas de austeridade em termos de legislação trabalhista, ou mesmo sua eliminação? Logo admite-se, implicitamente, que trabalho gera valor.

Quanto ao ponto 2 o fato é que, neste contexto nada poderia impedir que o mercado pagasse um salário muito baixo a ponto de forçar as pessoas a rebaixarem, drasticamente, o nível de vida. A tese de que o mercado jamais pagaria menos do que o “necessário” para a subsistência do empregado é problemática por duas razões:

- A primeira, que o nível de subsistência pode ser levado ao extremo. Os fatos ocorridos durante a primeira fase da revolução industrial provam isso. O “necessário” sempre pode ser menos amanhã do que é hoje a fim de atender os ditames da produção e do capital desvinculado de leis morais.

-A segunda que, em tempos de crise, a pressão pela sobrevivência levará os desempregados a se sujeitarem a quaisquer condições de salário e trabalho. Num tempo de prosperidade seria possível admitir que o mercado, deixado livre, pagasse um salário razoável ao trabalhador dada a possibilidade do mesmo de recusar uma oferta absurdamente baixa, coisa impossível em tempos de crise. Para isso servem medida como salário mínimo.

Outrossim um regime de ausência de salários mínimos já existiu: no século 19 a economia capitalista ocidental viveu várias crises cíclicas por conta da falta de expansão do mercado consumidor no mesmo ritmo em que a produção crescia, justamente por falta de políticas de renda mínima que poderiam incrementar um aumento do poder de compra, ampliando o mercado de consumo que poderia, aí, absorver a produção. O efeito disso foi que os países capitalistas europeus tiveram que realocar seu capital excedente na África e Ásia, no que ficou conhecido como neocolonialismo, a fim de manter a engrenagem capitalista funcionando. Enquanto o século 19 assistiu uma crise a cada dez anos, o século 20 – que viu a implementação do salário mínimo - teve apenas duas crises do capitalismo, das quais sobreviveu sem precisar de novos processos colonizadores. O salário mínimo assegurou o aumento do mercado de consumo, puxando a produção e a prosperidade; uma politica de austeridade e redução salarial pode ser algo adotado como emergência, em casos específicos, mas não é uma solução consequente para fazer a economia crescer pois isso exige capitalização o que só pode acontecer se os patrões aceitarem lucrar menos a fim de que o trabalhador forme poupança e assim possa consumir. A concentração excessiva de capital, no pólo empresarial, seria o efeito da não existência do salário mínimo o que nos faria voltar ao contexto do século 19 o que traria um bloqueio ao crescimento do poder de consumo. Mesmo levando em conta somente o aspecto econômico, Woods e os austríacos erram neste aspecto como fica claro acima.

Por fim Woods lamenta que a DSI tenha orientado Paulo VI a estimular os países ricos a financiar desenvolvimento na África da década de 60/70; para Woods a iniciativa resultou num grande fracasso pois acabou financiando regimes despóticos, o que seria a prova cabal de que a Populorum Progressio de Paulo VI e seu apelo político estava errada. Woods então, compara os países africanos com Chile, Coréia do Sul, Hong Kong – que cresceram depois de terem a ajuda internacional cortada - para mostrar que a Doutrina Social não pode conduzir a resultados econômicos. O que Woods não considera é que a Coréia do Sul cresceu aceleradamente graças ao modelo dos Chaebols, monopólios criados e conduzidos pelo estado interventor, quer dizer, mega empresas protegidas pelo estado coreano que deram ao país condições de competir no mercado internacional; a Coréia adotou o modelo do protecionismo. Em suma: a Coréia se desenvolveu aplicando os pressupostos opostos aos da escola austríaca e de Mises, pressupostos defendidos por Woods!

Já Hong Kong está longe de ser um paraíso como quer fazer parecer Woods e seus colegas do Instituto Mises. Hong Kong tem o mercado imobiliário mais caro do mundo. Um cidadão comum não tem meios de viver em Hong Kong pagando aluguel. A maior parte deles compartilha casas de 50 metros quadrados com vários familiares, as chamadas “casas jaulas”. Eis o modelo defendido por Woods.

O patife ainda tem o descaramento de dizer que

baseando-se nessa tese errônea que Paulo VI condenou o livre comércio, negando que este fosse um caminho para a prosperidade do mundo em desenvolvimento”.

Ora os EUA, Alemanha, Inglaterra, França, tornaram-se países ricos no século 19 fazendo protecionismo ao invés de abrir fronteiras – Os EUA no século 19, por exemplo, forçou a abertura do Japão usando sua marinha de guerra enquanto manteve seu mercado fechado a influxos estrangeiros. A tese de Paulo VI não estava errada: a história prova que não. Se livre comércio trouxesse progresso econômico contínuo e fim da pobreza, depois de mais de 20 anos de mundo globalizado, desde a queda do Muro de Berlim, teríamos visto um boom econômico nos países mais pobres o que, evidentemente, não aconteceu.

Para finalizar vejamos duas assertivas de Woods e como elas não podem ser levadas a sério; primeiro ele diz que:

infalibilidade papal é válida para questões de moral e fé, e não para questões econômicas. Um católico não deve negar a autoridade moral do Papa, mas ele também não tem de levar a ferro e fogo toda e qualquer recomendação econômica da Santa Sé.”

Os liberais fazem uso frequente deste sofisma: a DSI é doutrina econômica; a Igreja não é infalível em matéria de ciência econômica, logo a DSI não exige assentimento da razão. O sofisma é velho: vem da renascença e do iluminismo e consiste em dizer que a Igreja não pode se meter em discussões científicas mas apenas se ater ao plano da “salvação da alma”.

Porém é preciso dizer que a teologia católica tem por objeto Deus e Deus revelado. Ora, a teologia é a ciência mater, aquela que estuda os mais altos princípios do ser, pois lida com o Ser Em Si (Deus, fonte de todo o ser) em cima do qual se funda a realidade – dado que ela foi criada por este Deus revelado. Logo é natural que a Igreja pontifique também em matéria científica quando isso afeta a questão da relação entre Deus e os homens ou entre os homens e seus semelhantes, ou quando uma doutrina diga respeito a uma cosmovisão geral do mundo que possa comprometer a fé no Deus criador (O caso Galileu é bem significativo a este respeito). A Doutrina Social da Igreja não é doutrina econômica mas doutrina teológica que deduz, das verdades de fé e moral, postulados de ação econômica dado que economia é ação humana e ação humana deve estar plantada em leis morais. A alegação de Woods é uma falsidade que visa desnortear os católicos e lançar desconfiança e confusão sobre ensinos papais sérios e fundados na revelação e que exigem assentimento. Não existe liberdade quanto aos princípios da DSI. Um “católico” que defenda isto não passa de um liberal, de um negador do poder do magistério de pontificar sobre os mais diversos assuntos que tenham relação direta ou indireta com salvação eterna e com a melhor ordem social possível para favorecer a redenção dos homens. E isso também envolve aspectos econômicos.

Woods continua sua patifaria alegando que

Ninguém que conheça a evolução do pensamento econômico dos membros da igreja ao longo dos séculos ousaria afirmar que há apenas uma visão que constitui a "visão católica da economia"

Woods confunde, deliberadamente a opinião de teólogos escolásticos com encíclicas papais. A posição de teólogos escolásticos sobre quaisquer assuntos não são o parecer da Igreja. O teólogo pode propor vias e auxiliar o Magistério mas não o substitui nem se coloca no mesmo patamar dele. Variedade de opiniões na teologia escolástica sobre economia não autoriza que um católico admita que o trabalho humano – como bem mostrou João Paulo II na Laborens Exercens – seja pago com base apenas na lei de oferta e procura, como defendem os austríacos. Em certos temas não há liberdade de discussão.

Woods continua sua lista de loucura e blasfêmias dizendo que

Contra aqueles que sugerem que um católico deve abordar assuntos econômicos de apenas uma maneira, o professor Daniel Villey nos lembra que "a teologia católica não exclui o pluralismo de opiniões a respeito de assuntos profanos"

De facto: pode haver pluralismo quando o Magistério não se pronuncia. Não é o caso de certos assuntos econômicos já abordados pela DSI.

Woods ainda diz que

Católicos austríacos não dizem que "a nossa ciência econômica é a única católica"; apenas dizemos que aquilo que defendemos e ensinamos não apenas não vai contra o catolicismo tradicional, como na verdade é profundamente compatível com ele”.

Como a escola austríaca poderia estar em consonância com o catolicismo se Rothbard defendia o direito de pais venderem seus filhos (Para quem duvida de que Murray Rothbard, membro da escola austríaca, defendia isso, aí vai - http://rothbardbrasil.com/a-etica-da-liberdade-18/)?

Se Mises dizia que o Evangelho de Jesus Cristo era um manual de socialismo?

Se austríacos não admitem controle governamental sobre juros abusivos ( nunca existem juros abusivos segundo os austríacos)? Se austríacos renegam a noção de preço justo, defendida por todos os papas?

Se austríacos acreditam numa ordem espontânea harmônica nascendo, unicamente, das relações de troca (se isso não é negação do pecado original e a doutrina iluminista do otimismo quanto a natureza humana o que falta para ser?)?

Enfim, o senhor Woods é uma farsa como o é o Instituto Mises. Os católicos devem manter guarda contra as idéias nefastas vindas dele.