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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Em decisão inédita, Francisco decide reescrever a Bíblia!



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Diretamente da Cidade do Vaticano, 03 de Agosto de 2018 em #NEWSVA#. 

   Em primeira mão, noticiamos quem em breve a Congregação da Doutrina da Fé irá lançar uma nova versão da Bíblia Sagrada. A decisão inédita na história foi tomada pelo Papa Francisco que assevera "ser necessário adequar o texto bíblico aos novos tempos onde a compreensão da dignidade humana cresce, dos direitos humanos, da não violência, da paz social e da igualdade, de modo que certos trechos da sagrada escritura, que dizem respeito ao contexto cultural de uma época, não tem mais razão de ser, nem de aparecer no bojo das narrativas que são destinadas a liturgia da missa e a catequese"

   Ainda segundo o Papa, estes trechos "serão recolhidos a uma coleção de versículos a serem reunidos numa suma de antiguidades bíblicas, destinada apenas ao estudo cultural e histórico do passado da humanidade, a fim de compreender como crenças arcaicas foram sendo superadas pela evolução dos tempos". 

Os evangelhos, inclusive, serão objeto de modificações, como adiantou o Cardeal Luis Ladaria, SJ, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ladaria diz que " passagens nas quais Jesus fala que veio trazer a espada e o fogo serão extraídas, assim como as invectivas mais duras contra os fariseus". Ladaria explica que tais passagens, hoje, não são mais necessárias pois vivemos uma época de ecumenismo; para o Cardeal, Jesus usou tais palavras apenas por que, na época, havia uma animosidade entre seus discípulos e os judeus, coisa já superada graças ao diálogo inter-religioso com os judeus.  

Apesar de alguns protestos - isolados - de católicos mais aferrados ao passado - chamados de tradicionalistas - a maioria dos bispos apoia a decisão. Até mesmo um bispo ligado a missa tradicional se pronunciou, tentando tranquilizar os fiéis. Dom Gusmão ensina que "tais passagens nunca foram de fé divina ou mesmo objetos de declarações solenes dos papas; Jesus as usou mais como força de expressão e metáfora...é apenas uma compreensão mais aprofundada do contexto da sagrada escritura, nada mudou". Dom Gusmão ressaltou que os tradicionalistas devem se libertar das concepções do AT sobre a divindade. Segundo o mesmo "Jesus se valeu de uma linguagem didática pois o povo da época não entenderia de outro modo; logo, ele precisou se valer dos conceitos de um Deus terrível, típico do AT...mas o nosso Deus é o Deus da pura misericórdia; não tem nada mais tradicional que isso". 

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Os EUA como origem do movimento gay

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   Há quem diga que existe uma conexão exclusiva entre movimento LGBT e a cultura marxista passando por cima das relações entre a cultura individualista americana e os primeiros grupos ligados a causa sodomita no ocidente. Se é verdade que há doutrinas marcusianas, de tom neomarxista, fundamentando o movimento homossexual, também é verdade que o pós-modernismo ocidental, o individualismo liberal e a revolução sexual e hippie nos EUA - ligada não apenas a cultura gay mas, inclusive, ao império da da pornografia com publicações que revolucionaram o comportamento sexual, estimulando a fornicação, o adultério e a prostituição, como a Playboy - tiveram impacto decisivo na eclosão das pautas LGBT. Cabe explicar que já na década de 20, na Broadway tínhamos uma pré-revolução sexual, movida a música foxtrot e charleston que imprimiam um ritmo alucinante, estimulando o "esfrega-esfrega" entre casais que frequentavam os salões e os bailes da época; marca da década de 20 eram, diga-se de passagem, as dublês de dançarinas prostitutas do charleston que ofertavam seus serviços nos eventos de antanho. 




   Sobre o facto de que foi nos EUA que tiveram origem as lutas gays e as organizações pró-LGBT fizemos um resumo mostrando, como a cultura estadunidense, é a raiz onde prosperou esta árvore maldita: 

- Desde a década de 20 a máfia tinha o poder e os recursos financeiros para criar bares e clubes gay, apesar de proibição oficial. 

-No início dos anos 1960, Dick Leitsch, o presidente do Mattachine Society de Nova York, defendeu a ação direta em prol dos direitos gays, encenando a primeira apresentação pública de manifestações homossexuais na década de 1960. Frank Kameny, fundador da Mattachine de Washington em 1961, havia defendido uma ação militante recordativa da campanha de direitos civis dos negros, ao mesmo tempo defendendo a moralidade da homossexualidade.

-O Julius Bar (Nova Iorque), em Greenwich Village, foi o primeiro estabelecimento gay na história ocidental reconhecida e registrada legalmente. O caso ganhou uma atenção extensiva da mídia em vista da ação judicial contra o um órgao público local; a partir de então não era mais possível revogar licenças com base na solicitação de homossexuais. 

-Em 1969 foi alterada a política de Nova York de aprisionamento dos gays pela polícia. 

- Los Angeles viu o primeiro grande movimento gay em 1967 trazendo uma demonstração de centenas de pessoas durante vários dias depois protestando contra invasões da polícia em bares gays.

-Em 1966 Adrian Ravarour e Billy Garrison fundaram a "Vanguard, Incorporated" uma organização de juventude LGBT que em seus discursos, humanizaram a homossexualidade como uma relação humana normal. A Vanguarda também realizou um fim de semana de danças do mesmo sexo. Em agosto de 1966 um protesto no Doggie Diner foi seguido pelo apoio do Compton's Cafeteria. No final de 1966 o grupo juvenil se mudou para um teatro e depois para a Grove Street, 330, onde mudou seu nome para o The Gay and Lesbian Center (Centro de gays e lésbicas), o primeiro no ocidente.

-Em 28 de março de 1969 em San Francisco, Laurence Leo (o editor da Vetor, a revista da maior organização dos Estados Unidos sobre a homossexualidade, a Sociedade pelos Direitos Individuais) conclamou a uma "Revolução Homossexual de 1969", exortando os homens gays e lésbicas a se unir a um grupo militante, o Comitê de Liberdade Homossexual com Gale Whittington - um jovem que tinha sido demitido da States Steamship Company por ser abertamente gay, depois que sua foto apareceu na Berkley Barb, ao lado da manchete "HOMOS, Don't Hide It!", artigo revolucionário escrito por Leo Laurence. No mesmo mês Carl Wittman, um membro da CHF, começou a escrever o "Refugiados da Amerika: Um Manifesto Gay" (Refugees from Amerika: A Gay Manifesto), que mais tarde seria descrito como "a bíblia da libertação gay". Foi primeiramente publicado pela pela San Francisco Free Press e distribuído a nível nacional até a cidade de Nova York. 


Bibliografia: 

- Carter, David, 2004. Stonewall:The Riots that Sparked the Gay Revolution.

- Sibalis, Michael. 2005. Gay Liberation Comes to France: The Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire (FHAR), Published in 'French History and Civilization. Papers from the George Rudé Seminar. Volume 1. ( In: https://h-france.net/rude/wp-content/uploads/2017/08/vol1_Sibalis2.pdf)


sábado, 2 de junho de 2018

Reconhecer o Estado de Israel é sionismo? Resposta ao Padre Tenório.

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Padre Marcelo Tenório



1- Introdução

Recentemente um vídeo espalhou uma denúncia sobre o sacerdote Marcelo Tenório. O referido padre rezou no Muro das Lamentações em Israel o que escandalizou muitas almas católicas mais aferradas a tradição. Tenório, tendo se indignado ante a denúncia passou a defender-se asseverando que embora ele reconheça a existência do Estado de Israel não se considera um sionista, base da acusação levantada pelo vídeo. Segundo o padre Marcelo a existência de Israel seria um fato positivo para a população cristã da região dado que o Estado Judeu, protegeria os cristãos de ataques muçulmanos; assim, se a terra de Israel não estivesse em mãos judias, a condição dos cristãos seria bem pior o que traria perseguições e mortes, segundo padre Marcelo. Ainda segundo o sacerdote o Estado de Israel deve existir pois para onde iriam os judeus sem um Estado?  Em suma, são estes os argumentos utilizados por Tenório para justificar a reza no Muro e sua posição ante Israel. 

Num primeiro momento é preciso explicar que é o sionismo para podermos responder esta pergunta. Antes, porém, precisamos entender, teologicamente, o que significa o dom da terra no contexto da palavra de Deus. 

2- A “terra da promissão” na sagrada escritura

A bíblia na versão hebraica não conhece o termo "terra prometida" pois tal palavra inexiste no hebraico. O termo que se encontra em Êxodo é jurar: terra que a teus pais jurou dar-te (Ex 13, 5). A expressão se refere a um juramento feito por Deus a Abraão em decorrência da promessa da descendência: a terra é a garantia de uma descendência. Trata-se aí da Terra de Canaã (Gn 17,8). Depois de Moisés ter guiado o povo para Canaã, Deus apela a que os hebreus mantenham a terra sem mancha pois nela habita o Altíssimo (Nm 35,34). Na tradição bíblica só Deus é proprietário do país. A terra não é um privilégio dos hebreus mas um dom, um direito conferido ao povo; direito implica deveres, consignados num pacto entre Deus e os israelitas no Sinai: se obedecerdes o meu mandamento tereis a benção, a terra e ela produzirá frutos; caso desobedeçam serão malditos, a terra dará cardos e espinhos e sereis dominados por povos pagãos, perdendo a terra. Os israelitas habitam nela a título de "estrangeiros e inquilinos" (Gn 23, 4; Ex 6,4). Só na medida em que o povo se mantiver longe dos deuses estranhos (Js 24,14-24) é que a terra será protegida por Deus. 


Na história do povo hebreu foram várias as ocasiões onde o mesmo foi conquistado e levado como escravo para o exterior por conta de sua infidelidade ao pacto e a Deus. Foi o caso da conquista Assíria do reino de Israel e o caso do Reino de Judá, destruído pelo Império Neo-Babilônico de Nabucodonosor II. Porém Deus sempre deixou a porta aberta para um retorno a terra, desde que o povo soubesse se arrepender de suas faltas e clamar ao Senhor pelo perdão. A volta dos judeus a Canaã com Ciro da Pérsia - que domina a Babilônia e liberta os israelitas - marca essa restauração de Jerusalém e do Templo. Mesmo sendo um espaço geográfico limitado, no ensino dos profetas, ela vai ganhando um caráter universal: na visão de Isaías (Is 2, 1-4) ela vira o pólo de atração para as nações onde se anuncia uma redenção universal. E aí é que entra a temática da terra no Novo Testamento na epístola aos Hebreus (Hb 11, 9) que sublinha a terra como dom ao povo de Israel, como algo provisório, incompleto, orientado ao futuro absoluto da História: a terra de Israel tem o único intento de orientar os fiéis a uma pátria celeste. A terra no Novo Testamento equivale ao Reino dos Céus: a era messiânica corresponde a um novo céu e terra. Os judeus, porém, permaneceram na crença de que esta era se daria cá embaixo por meio de um reino político universal de Israel. Na descrição dada pelos padres, os judeus se tornaram carnais, incapazes de uma visão espiritual da terra da promissão. 

3- O sionismo: um messianismo anticristão


Então o que é, exatamente, o sionismo? 

Para compreendê-lo é necessário entender o proto-sionismo. 

Durante os anos de exílio judaico - do ano 70 D.C. em diante - os israelitas experimentaram um desejo de retorno a Canaã. Pensadores e religiosos judeus que se expressaram em obras escritas, mostravam o desejo ancestral de retornar às suas raízes históricas através da volta para Canaã. A "nostalgia de Sião" se manifestou claramente nos discursos de diversos místicos judeus surgidos ao longo dos séculos de duração da Diáspora, como Sabbatai Zevi, no século XVII, passando pelos poemas de Yehudah Halevi e por vários místicos. Todos tendiam a dizer que o exílio vivido pelo povo seria similar ao da Babilônia, uma grande provação onde, depois de um grande sofrimento, o povo voltaria a Canaã, o que inauguraria a era messiânica. Cabe dizer que os judeus, por negarem a Jesus a condição divina de Filho de Deus, rechaçam que já estaríamos em plena era messiânica, na era da graça onde se prepara a terra definitiva, o reino celestial do Pai para os fiéis em Cristo. Eles esperam, portanto, o desencadear de uma salvação e de um redentor. No passado os judeus chegaram mesmo a crer que Zevi era o Messias. Mas sua conversão ao Islão em 1666 frustrou as expectativas. 

O Sionismo se delineou de vez com o nacionalismo judaico do século 19, onde pensadores judeus secularizados - para os quais a prática religiosa já não tinha tamanha importância e que insistiam numa identidade judaica com base nos pressupostos da liberdade/igualdade da revolução francesa e americana - começaram a defender um lar judeu, um Estado como base de autoafirmação do povo. Moses Hess, neste sentido, teve um papel muito destacado. Hess focava a história da humanidade a partir das noções de luta de raças e nacionalidades. Preconizou um socialismo sionista - Hess foi colaborador de Karl Marx - onde idealizava uma sociedade futura perfeita, em que terra seria colonizada por judeus operosos, um Estado Ideal, a Israel Restaurada mas sob os auspícios socialistas. Segundo Hess esse novo Estado seria a forma futura da sociedade humana na sua mais elevada perfeição. E este Estado seria Israel. Israel - o Estado - seria então o Messias da Humanidade.  Hess afirmou que a história marcha sobre a influência do Espírito para um novo Éden. Quem teria o papel de realizar este feito seria nada mais que o povo judeu organizado num Estado. Estas idéias foram absorvidas por Theodor Herzl, fundador do movimento sionista em 1897 com o fito de criar tal Estado. A idéia era organizá-lo em torno da migração possibilitada pela compra de terrenos na Palestina e, depois, criar os Kibutz, terras comunais que misturavam elementos socialistas e nacionalistas. Os kibutz foram a base da migração e da colonização judia da Palestina a partir de 1900 quando judeus começaram a colonizar a região para forçar a criação de um Estado Judeu na área. 

Havia, é verdade, várias facções entre os Kibutzim - membros dos Kibutz, judeus que vinham de vários lugares do mundo para colonizar a terra dentro de um modelo de terra comunal - mas a maioria era socialista; em 1927, alguns novos Kibutzim fundados pelo Hashomer Hatzair uniram-se para formar uma associação de alcance nacional, Kibutz Artzi. Por décadas, Kibutz Artzi seria a esquerda dos Kibutzim. Em 1936, a Federação do Kibutz Artzi fundou seu próprio partido político chamado a Liga Socialista da Palestina mas popularmente conhecida como Hashomer Hatzair. Fundiu-se com outro partido de esquerda para se tornar Mapam (o atual Meretz) tão logo o Estado de Israel se estabeleceu. Os Kibutzim da Artzi eram devotados à igualdade dos sexos. Uma mulher de um Kibutz da era dos anos 1920-1930 chamaria seu marido ishi — "Meu homem" — ao invés da palavra usual hebraica, ba'ali, que, literalmente, significa "Meu mestre". Os Kibutzim do Kibutz Artzi eram seculares, mesmo firmemente ateus, orgulhosamente tentando ser "monastérios sem Deus". A maioria dos Kibutzim da corrente principal também desdenhavam o Judaísmo Ortodoxo de seus pais, mas eles queriam que suas novas comunidades tivessem características judaicas mesmo assim. As noites de Sexta-feira ainda eram Shabat, com um pano de mesa branco e comida de qualidade, e trabalho não era feito aos sábados se pudesse ser evitado. Mais tarde, alguns Kibutzim adotaram o Yom Kipur como o dia para discutir receios em relação ao futuro do kibutz. Os Kibutzim também tinham bar mitzvá coletivos para suas crianças. Embora os kibutzniks não rezassem diversas vezes ao dia, marcavam festividades como Shavuot, Sucot e Pessach com danças, banquetes e celebrações. Um feriado judaico, Tu B'shvat, o "aniversário das árvores" era substancialmente revivido por Kibutzim. Em todos eles, feriados com algum componente natural, como Pessach e Sucot, eram os mais importantes para os Kibutzim. Logo, os Kibutzim era uma síntese de secularismo, relgião e socialismo. Neste sentido a ideologia dos Kibutzim tendia ao Utopismo Comunista. O espiritualismo dos pioneiros do movimento Kibutz consistiam de sentimentos místicos sobre trabalho judaico, articulados por sionistas como Berl Katznelson, que disse, "onde quer que o trabalhador judeu vai, a divina presença vai com ele." É redenção pelo trabalho. Em adição à redenção da nação judaica através do trabalho, também havia um elemento de redenção de Eretz Yisrael, Palestina, na ideologia do Kibutz. Os membros do Kibutz tinham prazer em trazer a terra de volta à vida plantando árvores, drenando pântanos e incontáveis outras atividades que fizeram com que a terra ficasse mais fértil. Quando solicitavam doações, os Kibutzim e outras atividades de assentamento sionistas apresentavam a si mesmas como "fazendo o deserto florescer". A idéia do deserto que floresce é fundada na benção que o trabalho da mão judaica traz ao mundo: seria como se só esta mão pudesse trazer a redenção a terra e mais nenhuma. 

Logo podemos ver que a base fulcral da organização social dos judeus na Palestina antes da fundação do Estado de Israel é uma estrutura utopista de fundo socialista. O que é bastante interessante pois a nova direita brasileira que postula uma defesa férrea de Israel, considera qualquer relação com o socialismo como abjeção política, como totalitarismo, identificando-o com o império do mal; porém quando se trata do socialismo subjacente à formação de Israel há um silêncio absoluto. A pergunta é: por quê? 

4- A teologia do sionismo

Os religiosos que aderem ao sionismo consideram o projeto de Herzl não um objetivo humano mas expressão da vontade divina. Segundo a teologia do sionismo o movimento trouxe uma nova época para a história humana, ligada a liberação dos três juramentos e pelo fim da passividade política dos judeus. Segundo tal teologia o Estado de Israel é a materialização das promessas dos profetas do AT. Vejam que, dentro de uma visão cristã, tais promessas se efetivaram em Jesus Cristo e na Igreja. Deste modo um cristão que adere e apoia o Estado Israelita, flerta com a apostasia. O rabino Avraham Kook, que foi o primeiro rabino chefe da comunidade local que se formava no meio dos Kibutz, antes da fundação do Estado, chegou a dizer que “o Estado de Israel será a base do trono de Deus no mundo”. Segundo Kook mesmo os sionistas seculares, que não compartilhavam da visão religiosa dele, ajudavam na redenção pois construíam a base material para a era messiânica. Comparou-os aos pedreiros estrangeiros do Templo de Salomão, que construíam sem saber a verdadeira função do santuário. Ainda para Kook a redenção só se desencadearia quando os sionistas reconhecerem o sentido espiritual de sua atividade. Com o suposto Holocausto e a criação de Israel os religiosos sionistas, antes marginalizados dentro da religião judia, passaram a ter respeitabilidade e a receber apoio de outros setores religiosos do judaísmo talmúdico. 

O filho de Kook, Yehuda Kook, virou o líder do processo de colonização judaica da Cisjordânia. Para Yehuda, que virou a liderança espiritual dos colonos, incentivou a não retirada já que “estando na era messiânica, não se pode ceder nenhum quilômetro de terra, devemos acumular conquistas”. Desde a ocupação em 1967 até 1993, os palestinos da Cisjordânia estiveram sob a administração militar israelense. Sobre a Cisjordânia, em diversas ocasiões, Israel instaurou a plena administração militar sobre a área que é disputada com os palestinos. Após a Segunda Intifada, o governo israelense iniciou a construção do chamado "Muro da Cisjordânia", que avança sobre o território da Cisjordânia. A posição de Yehuda foi muito importante para legitimar as ações violentas de Israel na região o que mostra que o fundo teológico do sionismo trabalha para justificar as pretensões do Estado de Israel e o massacre e expulsão de populações palestinas.


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O  suposto Holocausto também influenciou na transformação da postura ortodoxa frente ao sionismo. Primeiro é preciso que se diga que segundo o Talmud e outras fonte rabínicas, o povo judeu e as nações do mundo fizeram três juramentos ante Deus, no início do exílio judaico do ano 70: os judeus prometeram não forçar a volta à Terra do Israel antes do tempo messiânico (“não subir os muros”) e não se revoltar contra os povos entre o quais viviam exilados; já as demais nações juraram não maltratar os judeus “em demasia”. O Talmud da Babilônia, Tratado Ketubot 111a, traz o seguinte:  “Três Juramentos: Um, que Israel não suba os muros; o segundo, que [Deus] fez Israel jurar que não se rebelaria contra as nações do mundo; e o terceiro, que [Deus] fez os idólatras jurarem que não oprimiriam Israel em demasia”. Os Três Juramentos, foi o que, durante os séculos de exílio, barrou a migração judia de duas maneiras: como consolo para a difícil situação existencial vivida pelos judeus e como bloqueio moral contra movimentos messiânicos de imigração em massa para a Terra de Israel. No judaísmo medieval em terras muçulmanas, entre os anos 600 e 1100 DC, a imigração judaica para a Terra de Israel foi fenômeno raro. Porém, logo em seguida, vemos Maimônides utilizando os Três Juramentos para tentar impedir um movimento de imigração de tendência messiânica que aflorou na comunidade judaica do Iêmen. No século XIII, outro rabino de renome, Moshe ben Nachman, o Nachmânides, deixou sua comunidade em Girona (Espanha) e imigrou para a Terra de Israel. Ele foi o primeiro a legislar que assentar-se na Terra Santa era um mandamento divino para o indivíduo judeu. De tendência cabalista, Nachmânides sublinhou o significado místico da vida religiosa na Terra de Israel e decretou que a imigração era uma “mitzvah positiva que todos estão obrigados, para todas as gerações, mesmo em época de exílio”. Assim surgiu no judaísmo a distinção entre a louvável imigração individual à Terra de Israel por motivos religiosos e a condenável imigração coletiva, que desafiava os Três Juramentos. No século XV, uma nova onda de imigração judaica, levou a uma repetida condenação baseada nos Três Juramentos. Apesar de tudo isso é para ressaltar que a proibição de imigração derivada dos Três Juramentos sempre teve caráter mais ideológico e teológico do que legal no judaísmo. A proibição não chegou a ser incorporada realmente no corpus legal rabínico.  Diga-se que o precursor da posição da ortodoxia anti-sionista foi o rabino húngaro Chaim Elazar Shapira (1872-1937). Para ele, a imigração de judeus em massa para a Terra de Israel, ainda mais sob a liderança de não-religiosos como os sionistas, representava a condenável ação de forçar o Final dos Tempos; em sua visão, os judeus deveriam esperar pacientemente por intervenção divina e ser totalmente passivos do ponto-de-vista político. A imigração à Terra de Israel somente poderia acontecer na era messiânica, quando ocorreria de forma supranatural. O rabino Shapira 322 via a Terra de Israel como um lugar único no mundo, dotado de uma sacralidade imensa. Inspirado pela mística judaica, afirmou que a Terra Santa é um lugar especial onde acontece uma luta frontal entre forças divinas e satânicas. Viver ali representaria até um perigo de vida para o judeu “mediano”. Se este pecasse na Terra de Israel, deveria esperar um castigo divino bem mais rigoroso do que se transgredisse fora dela. Nem mesmo seus discípulos tinham estatura moral para viver ali e Shapira advertiu-os, em 1937, a não imigrar para a Palestina. 

Mas tudo mudou quando os judeus começaram a se questionar se a criação de Israel estaria assinalando, pelo menos, o começo da redenção. O Holocausto aumentou ainda mais a perplexidade ortodoxa frente ao fenômeno sionista. Haveria algum significado religioso entre a destruição do judaísmo europeu e a criação do Estado de Israel, logo em seguida? O suposto massacre dos judeus europeus poderia ter sido um castigo divino motivado justamente pela proibição de “subir os muros” ou antes uma recompensa pelo sofrimento do suposto holocausto? Então começou a nascer – como mostramos acima – uma linha de pensamento que passou a ver o “holocausto” como o sofrimento que prepara a redenção e a era messiânica; desta forma o “holocausto” passou a ser considerado como um sinal escatológico. 

o rabino Zvi Yehuda Hacohen Kook (1891-1981) continuou a linha do pai Avraham Kook e levou-a até seus limites. Em 30 anos de atuação, influenciou a formação do grupo político-religioso Gush Emunim (“Bloco dos Fiéis”). Yehuda vai se valer do conceito teológico para justificar o apoio ao Estado de Israel que diz respeito ao processo messiânico. Sobre a era messiânica o judaísmo traz dentro de si diferentes visões sobre este processo e a ala ortodoxa sionista esposou uma delas, segundo a qual não há necessidade de um Messias na etapa inicial do processo. A redenção acontecerá em etapas, afirmam, culminando no aparecimento desta personalidade histórica (Messias) apenas num estágio posterior, após uma série de fases vencidas, para fechar o processo. Nesta etapa inicial o Estado de Israel é fulcral, dizem. 

Aqui entra uma questão importante: a de que a linha de Yehuda virou a fonte basal da política de Estado de todos os governos de Israel no que tange a não concessão de territórios aos árabes-palestinos. Para Zvi Yehuda, os Três Juramentos talmúdicos que proibiam a imigração em massa à Terra de Israel foram abolidos por decreto divino. Ele afirmou: “Não somos nós, de carne-e-osso, que agimos para forçar o Final dos Tempo, mas sim o Dono da Casa, o Senhor do Mundo, que está nos forçando; não é a voz de uma pessoa de carne-e-osso, mas sim a voz do Deus Vivo que destruiu o muro que deixou de nos separar de nossa terra, convocando-nos: ‘Subam’. 

Segundo o rabino, já não se trata mais de discutir se o Estado de Israel representa ou não o início da redenção. Numa declaração feita após a Guerra do Yom Kipur (1973), o rabino afirmou que a humanidade já se encontrava no interior do processo messiânico: “Há pessoas que falam que vivemos o início da redenção (…) mas temos que ver com olhos abertos que já estamos no meio da redenção (…) O início foi há mais de cem anos, quando recomeçou o assentamento judaico na Terra de Israel”. Na concepção de Zvi Yehuda, o Estado de Israel, como elemento fundamental do processo de redenção, ganha contornos extraordinários. “O Estado (de Israel) é todo santo, sem nenhum defeito. O valor deste Estado não está condicionado à quantidade de observantes dos mandamentos que vivem em seu interior. Claro, a aspiração é que todo o povo se ligue à Torá e aos mandamentos, mas este Estado é sagrado de qualquer maneira”. 

A teologia de Zvi Yehuda levou-o a se posicionar contra qualquer concessão territorial aos vizinhos árabes. Para o rabino, sua posição política era reflexo do desejo de Deus. “O Todo-Poderoso tem uma política própria. E, de acordo com ela, processa-se a política aqui de baixo. Parte da redenção é a conquista da terra e o assentamento nela. Esta é a determinação da política divina, que nenhuma política aqui de baixo pode contrariá-la”. Exatamente esta política que o Estado de Israel vem aplicando faz décadas, inclusive afastando cristãos de cidades sagradas como Belém onde, há 20 anos atrás, tínhamos 80 por cento de população cristã. Hoje são só 35 por cento. Em Jerusalém a seis décadas os cristãos eram 20 por cento da população. Agora são 2 por cento apenas. 

Embora ourtos grupos ortodoxos como o Agudat e o Lubavitch não partilhem da mesma visão dos seguidores de Yehuda, ambos legitimam o Estado de Israel como algo que melhora o estado material dos judeus embora não liguem o Estado de Israel, diretamente, a redenção. O Agudat – que virou um partido - desde a década de 90,  têm se aproximado da direita política em Israel. Porém  posição do Lubavitch e do Agudat não devem ser entendidas como um distanciamento absoluto da posição de Yehuda. Para estes grupos, os eventos políticos do último século podem ser vistos como sinais de intervenção divina e até mesmo uma janela de oportunidade para a tão-esperada redenção, de modo que, queiram ou não, o Estado de Israel passa a ser visto, mesmo pelos judeus ortodoxos como ou um elemento da redenção, ou algo que abre caminho para ela: em suma, algo que diz respeito ao DOMÍNIO UNIVERSAL DOS JUDEUS E DO SEU FALSO MESSIAS.   


5- Respondendo ao Padre Marcelo Tenório.

Por tudo isto que foi exposto acima fica claro que: 

- A terra nunca foi um direito do povo hebreu mas um dom; Deus era o proprietário dela; sua posse, por parte da descendência de Abraão, decorria, exclusivamente, da fidelidade ao pacto mosaico e aos mandamentos. Os pecados do povo hebreu justificaram a perda da terra diversas vezes, por mandato divino. 

- Cristo como Messias verdadeiro, foi rejeitado pelo povo judeu, tendo sido assassinado por ele. Deste modo a terra santa – um dom conferido em razão da fidelidade do povo – não tinha mais motivo para continuar na mão dos judeus que se tornaram infiéis. A destruição do Templo e a perda de Jerusalém, inclusive, são uma punição por sua infidelidade e empedernimento no deicídio como profetizada por Jesus em Marcos 13. 

- A culpa do deicídio não é apenas dos judeus do tempo de Cristo nem apenas dos chefes do povo. Segundo o padre Tenório nós é que teríamos matado Cristo porque ele foi entregue por nossos pecados. Isto é apenas meia verdade. 

Quatro foram os que mataram Jesus: em primeiro lugar o povo judeu que, representado por seus sacerdotes deram a sentença de morte no Sinédrio, e representado pelos que estavam em Jerusalém para a Páscoa, pediu sua crucificação a Pilatos; em segundo lugar os romanos que executaram a pena, dando-lhe cumprimento no Gólgota; em terceiro lugar a democracia que foi o método usado para decidir sobre a soltura ou não de Jesus; em quarto lugar cada um nós por causa de nossos pecados. Os judeus podiam tê-lo reconhecido como Profeta, Messias e Deus mas se recusaram por má vontade. Os romanos não o conheceram por que não tinham as profecias. Erraram mais por ignorância que por má vontade: ainda que Pilatos soubesse que Jesus era um homem justo, aplicou a sentença mais por medo do povo que por ódio a Cristo. Bem diferente foi o caso dos Judeus que odiavam Cristo e queriam matar-lhe desde os primórdios de seu ministério.

Os judeus (líderes e povo) foram os agentes principais do deicídio porque é óbvio, a partir dos Evangelhos, que o gentio mais envolvido, Pôncio Pilatos nunca teria condenado Jesus à morte, se os líderes judeus não tivessem levantado o grito do povo para a sua crucificação (Mateus 27, 20). Certamente os líderes foram mais culpados do que as pessoas ignorantes, diz Santo Tomás de Aquino (Suma III, 47, 5), mas todos em uníssono pediram que seu sangue caísse sobre eles e seus filhos, como mostra o evangelho segundo São Mateus 27, 25. O Papa Leão XIII considerando este pedido, reconheceu que havia verdadeira solidariedade entre os judeus que clamaram então para Jesus ser morto e a coletividade dos judeus de todos os tempos que permanecem na infidelidade: assim a culpa do deicídio se estende a todos os membros do povo judeu, não sendo, portanto, aceitável que qualquer parte deste povo ocupe a terra santa na qualidade de donos de um Estado: isto, na prática, significa um desafio ao decreto de Nosso Senhor Jesus Cristo quando decidiu pela destruição de Jerusalém e pela diáspora do povo como castigo até que digam “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Lucas 13, 31-35) reconhecendo sua divindade. 

- Quanto ao termo 'pérfidos' judeus o padre Tenório, reduz sua gravidade como se ele significasse apenas o desejo dos judeus de “permanecer em sua fé” - per mais fides, diz ele seria apenas "permanecer na fé". Mas o que, afinal, quer dizer pérfidos quando se trata dos judeus na tradição da Igreja? 

Primeiro que este termo implica em negação; os judeus são negadores de Deus. Negaram a Deus várias vezes por impaciência e maldade. Quando Moisés demorou no Sinai, recebendo os mandamentos, depois da saída do Egito, eles cansados de esperar, resolveram adorar um bezerro; impacientes em esperar as demoras de Deus no que tange ao envio da sua salvação e do seu salvador, se desviaram várias vezes aos ídolos. Depois de punidos e admoestados pelos profetas se reaproximaram de Deus e voltaram a esperar seus Messias: quando ele veio e satisfez as esperanças dos homens, realizando portentosos milagres, parecia que eles iam recebê-lo, cansados de esperar, mas voltaram a seu antigo hábito de negar. 

Segundo que sua perfídia consiste em permanecer na negação – e não na fé como diz Tenório – e dizer que ele – Jesus – não é o Messias e esperar outro. 

Esta perfídia consiste em três negações: 

- Negaram ao Messias a Divindade pois negaram que ele é Senhor. 

-Negaram a SUA vinda pois negaram que ELE já veio

-Negaram a pessoa pois negaram que Jesus seja o Messias. 


O termo "pérfidos" para  a coletividade dos judeus indica que quebraram um pacto e que agiram de má-fé para com Deus que com eles fez uma aliança, tratando-os como seu povo dileto. Tendo recebido a confiança de Deus para guardar sua santa lei eles o atraiçoaram, matando-o no Calvário, na Pessoa de Jesus Cristo. O pérfido é o desleal que não cumpre com sua palavra num acordo. Os judeus não a cumpriram perante Deus. Logo o padre Tenório falseia toda a questão envolvendo os judeus e sua perfídia, perfeitamente assinalada pela doutrina da Igreja pelos séculos e consignada na missa tridentina, na liturgia da sexta da paixão. 


Sobre o que o padre Tenório diz referente a que “Reconhecer o Estado de Israel não é sionismo” fica provado,  a partir de tudo que foi exposto acima, que: 

- Há uma relação direta entre sionismo e crença num papel messiânico do povo e ou estado judeu na história; 

- Os sionistas que planejaram a criação do Estado de Israel viam-no como a realização de uma utopia política terrestre onde Israel se tornaria uma espécie de paraíso social; 

- Os kibutz são a faceta socialista e utopista que deu base a estrutura social-econômica do estado de Israel, onde a terra foi colonizada segundo moldes comunistas; 

- Progressivamente o sionismo foi sendo incorporado e aceito por uma teologia judaica que passou a ver o Estado de Israel – fruto direto do sionismo -  como etapa da redenção e da vinda do Messias o que significa, em termos judaicos, DOMÍNIO ABSOLUTO DOS JUDEUS SOBRE A TERRA, o que implicará numa luta contra a Igreja Católica, opondo a ela um “UNIVERSALISMO” JUDEU onde seu falso messianismo buscará substituir o cristianismo ( Sobre isso é importante frisar o papel realizado pela Aliança Israelita Universal criada na França no século 19 e bem analisada por Henri Delassus em sua obra “A conjuração anticristã”, nas páginas 361-368, onde o mesmo fala de um ISRAELISMO HUMANITÁRIO dirigido por forças judaicas que buscam solapar o papel da Igreja no mundo). 


Logo, reconhecer o Estado de Israel leva a incorrer em uma “apostasia implícita” dado que não se pode reconhecer um Estado que se atribui caráter messiânico sem renegar o Messias, Jesus Cristo, e o papel ordenador de sua Igreja Católica – a ela é que cabe o papel de reger os povos para a salvação eterna, ela é a voz do Messias na Terra e não um  Estado Judaico.  

Evidente que há, entre os católicos, ignorantes que podem reconhecer Israel como Estado de Facto, sem levar em consideração as suas bases ideológicas e teológicas. Não cremos que seja o caso do Padre em tela. Se for o caso ele peca por imprudência – para dizer o mínimo – dado que deveria se informar melhor sobre o assunto pois que tem o papel de cura das almas. Reconhecer, ao Estado de Israel, um estatuto de direito é um pecado grave e consiste, pelo menos, em sionismo implícito.

Não somos nazistas mas católicos e como tal afirmamos a velha doutrina da Igreja sobre o assunto: o padre referido tenta, desgraçadamente, dizer que afirmá-la é "anti-semitismo" usando uma velha peça de propaganda para calar a voz dos que querem defender a verdade cristã contra pretensões israelitas de poder. Mas de nada adianta pois estamos com Deus e com a verdade e ela vencerá, ainda que seja no dia final!   


Bibliografia

BACH, H.I. – The German Jew – A Synthesis of Judaism and Western Civilization
1730-1930, Oxford University Press, Oxford, 1984 


BERKOVITS, Eliezer – “Authenticity of Being” in Judaism Transcends Catastrophe
– God, Torah and Israel Beyond the Holocaust, editado por Jacob Neusner, Vol. I,
Mercer University Press, Georgia, 1996 

DELASSUS, Henri. A conjuração anticristã. Castela, 2016. 

FINGUERMAN, Ariel – A Eleição de Israel – Um Estudo Histórico-Comparativo
sobre a Doutrina do “Povo Eleito”, Humanitas, São Paulo, 2003 


GREENBERG, Irving – “Judaism and History: Historical Events and Religious
Change” in Ancient Roots and Modern Meanings: A Contemporary Reader in Jewish
Identity, editado por Jerry V. Diller, Bloch Publishing Company, New York, 1978

PEDROSO, Francisco. Exhortaçaõ dogmatica contra a perfidia judayca feyta aos reos penitenciados no Auto publico da Fè, que se celebrou na praça do Rocio junto aos paços da Inquisição desta Cidade de Lisboa em 9 de Julho de 1713 : sendo prezentes Sua magestade, e Suas Altezas: por mandado do Senhor cardeal Nuno da Cunha de Attaide / pelo Padre Francisco Pedrozo da Congregaçaõ do Oratorio, Qualificador do Santo Officio. - Lisboa : na Officina de Miguel Manescal, Impressor do Santo Officio, & da Serenissima Casa de Bragança, 1713. 

POLIAKOV, Léon – The History of Anti-Semitism (Vol. I) – From Roman Times to
the Court Jews, Routledge & Kegan Paul, London, 1974

POLIAKOV, Léon – The History of Anti-Semitism (Vol. II) – From Mohammed to
the Marranos, Routledge & Kegan Paul, London, 1974

SAFRAI, Shmuel - “Epoca de la Misna y el Talmud” in Historia del Pueblo Judío,
editado por H.H. Ben-Sasson, Alianza Editorial, Madrid, 1988 

The Talmud of Babylonia – An Academic Commentary – editado por Jacob Neusner,
South Florida Academic Commentary Series, Scholars Press, Atlanta, 1996

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Nota sobre a greve dos caminhoneiros, Nougué e a inconsciência de certos católicos.


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O Brasil vive um caos político, moral, social, econômico poucas vezes vista em toda a sua história. Tomado por gangues políticas da pior espécie, o país sangra sob sua batuta, somada a desinformação gerada pela grande mídia que não quer que a população acorde e se una. 

A greve recente dos caminhoneiros é um momento importante para fazer uma análise geral do que está acontecendo com nosso país. No entanto, nos meios católicos, vige uma espécie de criticismo de origem claramente midiática contra a greve, vista por alguns elementos como agenda petista ou como mero egoísmo de classe dos motoristas. 

Este criticismo fica bem patente numa fala recente do professor Carlos Nougué que disse: 


O referido professor repete a lenga lenga jornalística de que tal greve seria responsável pelo caos mas, ora, o caos é anterior a mesma: 13 milhões de desempregados, violência urbana a níveis estratosféricos, trabalhadores que estão deixando de comprar o essencial para sobreviver com menos que o básico, indústrias paradas, lojas falidas, etc. Os caminhoneiros não visam o desabastecimento mas uma melhora do preço do diesel para desestrangular nossos transportes. De facto: não se pode fazer omeletes sem quebrar ovos. Que Nougué mostre- nos qual a façanha capaz de dar origem a uma omelete sem que se faça isso! Nougué inverte a realidade ao dizer que efeitos de uma crise geral são meios visados conscientemente. Inverte ainda mais quando fala de "país ainda mais falido" quando ignora que sem custeio de combustível e energia podemos parar. O país não pode se limitar a pagar dívidas: deve estimular crescimento ainda que o governo só possa fazer isso timidamente, é preciso voltar a investir, e a desoneração do diesel passa por isso; sem investimentos é que o pagamento da dívida ficará impossível. Há um caso recente que mostra que, sem subsídio a combustível, não há crescimento! A Malásia, que passou a subsidiar 30% da gasolina e do diesel, puxou seu recente crescimento assim. Nos últimos dois anos isso trouxe aumento dos gastos públicos mas, por outro lado, ajudou o país a reduzir sua dívida pública em dois bilhões ( https://pt.tradingeconomics.com/malaysia/government-debt-to-gdp) . Segundo o diretor da UHY, Eric Waidergorn, em pesquisa recente, “enquanto o governo da Malásia perde uma grande quantidade de dinheiro por ter um subsídio aos combustíveis, ele argumenta que faz tal contribuição para ajudar no crescimento do PIB do e que está disposto a aceitar a perda. Isso poderia ser um estímulo para o pensamento do governo brasileiro“. O preço dos combustíveis influencia diretamente o custo dos bens de consumo e alimentos no Brasil, uma vez que 60% da produção industrial nacional é transportada por rodovias.

Mesmo que a gestão da dívida seja posta em primeiro plano há que dizer que o Brasil só retomará investimentos puxando a produção. E isso só com subsídio do Estado, já ensinava Keynes. Numa crise as forças de mercado tendem a estagnar a economia. Isso é facto histórico indiscutível. Com uma economia parada é que ninguém paga dívida nenhuma. A leitura dos factos é uma só: de um lado há quem defenda o neoliberalismo de Temer e seus preços flutuantes e doutro há quem queira a retomada do papel indutor do estado na economia, subsidiando uma área estratégica - dos transportes - levando o país a sair aos poucos da lógica perversa em que foi lançado a dois anos - sem nenhum resultado consistente na geração de empregos. A opção é entre ficar refém da dívida ou tentar ajustar aqui e ali para puxar a produção.

Sobre tal situação consideramos que a fala do amigo Lucas Muniz Hadade foi a melhor leitura do que está acontecendo agora: 

"Empresariado nacional e trabalhadores brasileiros VS Burocratas vendidos e especuladores internacionais

A greve dos caminhoneiros tem, obviamente, a articulação e o apoio das transportadoras, do patronato - por isso é tão eficiente. Tudo isso mostra que a cooperação entre classes é muito mais forte e intimidadora aos burocratas e especuladores internacionais que a "luta de classes" - não à toa essa última sempre foi fomentada pelo grande capital especulativo, vide a história das revoluções.

De um lado está a força produtiva nacional (transportadoras e caminhoneiros); do outro estão os burocratas e especuladores internacionais (políticos financiados por carteis bancários, agentes da usura que ganham dinheiro com juros e também precificando moedas e ações, gente que nada produz). Uns querem nossa petrolífera servindo a quem produz, a quem usa dos insumos produzidos para agregar valor transportando bens e prestando serviços; outros querem apenas o produto sendo vendido a preço de mercado internacional para que possam tirar dividendos de negociatas.

A grande mídia, em especial a Globo, já divulgou uma notícia falsa que houve acordo, quando não houve. Já há colunistas criticando a participação da classe patronal chamando tudo de "locaute". Pois eu digo que o empresariado brasileiro do setor de transporte e seus funcionários estão de parabéns por darem aula do que a cooperação entre classes pode fazer.

Escolham seus lados."


Alguns católicos que fizeram críticas a esta greve devem lembrar do Solidariedade da Polônia que em 1989 parou o país por meses, fechando inclusive linhas férreas, montando milícias operárias e tudo com apoio de João Paulo II. O governo ficou tão desesperado que teve cortar as linhas telefônicas para impedir a articulação. Devem lembrar também dos Cristeros que, sob a liderança do padre Vega, mataram 51 civis dum comboio do governo; devem se lembrar de Victoriano Ramirez, um dos chefes Cristeros, que matou 14 sujeitos que haviam sido contratados para matá-lo. A brigada Cristera de Zapopan roubava armas, provisões e dinheiro para suster a frente de batalha. Assim como não há maquiavelismo algum aí,  não teve maquiavelismo algum na greve dos caminhoneiros. Eles deixaram passar caminhão que visava forças armadas, hospitais e serviços essenciais. A pauta do diesel - pouco interessa agora se ela de início foi uma pauta só de uma classe ou não - mostrou sua capacidade de unir pessoas de diversas classes numa unidade nacional contra três inimigos: o governo Temer, o legado petista e o globalismo financeiro. Evidente que a mídia não poderia deixar isto acontecer. Ela precisava inventar que agora vai faltar comida - como se estivéssemos comprando tudo a preço baixo e como se todo mundo não tenha deixado de comprar muita coisa nestes últimos anos - e que o caos se instalará como se 13 milhões de desempregados já não fosse o caos. Infelizmente - aí sim infelizmente - muitos católicos se deixaram levar por este discurso mentiroso e farsesco da mídia. 


O advogado Roberto Cavalcanti, deu, a nosso ver a melhor caracterização deste cenário midiático: 

"Na mídia corporativa entra em cena o ingrediente emocional: falta de medicamentos, carências nos hospitais, tudo, enfim, por causa do movimento dos caminhoneiros. Porém, nada disso é novidade na estrutura da saúde pública de nosso país. Eu reforço, então, com um solene "CENSURADO"! O movimento deve continuar a estrangular a população, conduzindo-a não contra o caminhoneiro, mas contra o verdadeiro inimigo: o Governo Federal. Deve ser declarada GUERRA TOTAL ao Governo Federal, e em todo tipo de GUERRA o elemento "SACRIFÍCIO" é FUNDAMENTAL. Em toda GUERRA há baixas, e essa GUERRA é legítima! Este sacrifício, aliás, nos ELEVA como seres humanos. A cultura de paz, que é o que a Rede Globo mais quer, nos torna passivos e auto-suficientes. A cultura de guerra fomenta um comportamento ativo e solidário entre membros de um mesmo povo, a ponto de nos vermos como elos de uma mesma cadeia."


Senhor Nougué! Não é maquiavelismo! É sacrifício em prol dum bem maior. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Por que o valor da missa depende da santidade do papa reinante?

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Francisco buscando união com falsas religiões. Isso afeta e reduz os frutos da missa resultando em menor santidade para todo o corpo da Igreja. 




Caros leitores, é importante que, sobre a santa missa façamos a distinção entre o sacrifício redentor e os frutos dele na vida pessoal de cada fiel. Sabemos que a missa é o único sacrifício de Cristo, perpetuado e perenizado na história humana através da qual chegam aos indivíduos particulares as graças da salvação. Na cruz, Cristo alcançou um mérito infinito diante do Pai: pela sua obediência até o fim conquistou a expiação dos pecados, de todos os pecados de todos os homens. Eis a redenção no seu aspecto objetivo! A missa, neste sentido é a aplicação destes méritos aos que participam dela. Eis a redenção no seu aspecto subjetivo! É aí que entra a questão dos frutos da missa. Uma missa mais bem celebrada, segundo o espírito da Igreja e as normas do culto, produz mais frutos pois é mais sacral e, portanto, mais agradável a Deus. Embora o sacrifício de Cristo que é apresentado na missa ao Pai seja um sacrifício de suave odor, pelo qual nos descem as bençãos celestes, a atitude dos fiéis e a santidade dos clérigos pode contribuir para uma maior ou menor abertura espiritual a tais graças e, consequentemente, para a produção de frutos de santidade maiores. 

Na missa nos associamos a  Nosso Senhor Jesus Cristo que se oferta ao Pai; quanto maior nossa devoção, nosso espírito contrito e penitente, nossa santidade pessoal, maiores os frutos para nós, individualmente tomados. Isso quanto aos fiéis. Mas e quanto ao clero?  Segundo o teólogo La Taille os frutos da missa são maiores para a toda a Igreja quando o Papa é mais santo, quando os bispos são mais santos, quando os padres são mais santos. Um mau papa, um mau episcopado, um mau padre, reduzem os frutos adicionais da missa; mas se temos um Papa santo, os frutos da missa são mais abundantes, resultando numa maior santificação geral; vejamos o que diz La Taille:

"O valor da missa é dependente da maior ou menor santidade do papa reinante, dos bispos e do clero pelo mundo. Quanto mais santa é a Igreja em seus membros, especialmente o papa e o episcopado, mais agradável tem de ser o seu sacrifício aos olhos de Deus ( ...) Com Cristo e a Igreja o sacerdote celebrante é associado em terceiro lugar, ele que é representante por meio de quem Cristo oferta o sacrifício. Se for um homem de grande devoção pessoal, santidade e pureza, isto resultará em frutos adicionais, que o beneficiarão e aqueles em favor de quem oferece a missa. Por isso os fiéis, são guiados por um instinto saudável quando preferem ter a missa celebrada por um sacerdote correto e santo em vez de por outro de menor dignidade (...) Em quarto lugar, devem ser mencionados aqueles que tomam parte ativa no sacrifício da missa, por exemplo, acólitos, sacristãos, organistas, cantores e finalmente a congregação dos fiéis". In: M. de La Taille. The mistery of faith. Vol.  II. Londres, 1950. Tese XXVI, p. 914-915.  


Não estaria aí, senhores, a resposta para o baixo nível dos católicos de hoje, que não dão frutos de vida cristã, santidade, verdade e fé? Afinal os últimos papas, além de não terem sido santos foram verdadeiros comprometedores do bem comum da Igreja, deixando-a a mercê de hereges e heresias e da corrupção da missa, entrando em diálogos com falsas religiões, desviando-se por palavras e atos, da fé de sempre ao favorecer ecumenismos, aberturas e diálogos com o mundo, liberdades modernas, etc, o que resultou num estímulo geral para a lassidão moral que vemos pulular hoje entre os fiéis e até entre o clero. 

Que Deus nos ajude e suscite um clero santo!



sábado, 21 de abril de 2018

Vargas na história pátria: refutando as mentiras do Brasil Paralelo!

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Vargas mandou fechar lojas maçônicas e se aproximou de setores católicos da vida política nacional; a CLT foi, em grande parte, fruto da influência destes setores que prezavam pela aplicação da Doutrina Social da Igreja nas relações sociais a fim de impedir a luta de classes. A partir daí entendemos o ódio do Brasil Paralelo a Vargas, na medida em que o BP se atrela ao liberalismo maçonizante. 





Senhores, trazemos aqui o parecer do ilustre professor de História Eduardo Cruz* sobre o mais novo absurdo do Brasil Paralelo, que abriu um processo acusatório difamante contra a figura do Presidente Getúlio Vargas. No fundo, a acusação se pauta por uma defesa escrachada do liberalismo. Nos vídeos anteriores do Brasil Paralelo tal defesa era implícita, misturada com apelos à tradição católica do Brasil. O objetivo do embuste era capturar a simpatia do público católico para a iniciativa e fazê-lo aceitar, de modo quase imperceptível, uma narrativa liberal da nossa História. Uma tática parecida com a do estuprador que, pretendendo atrair a vítima para seu terreno, a adula com carícias a fim de seduzi-la e violentá-la. O Brasil Paralelo é o "estupro liberal" da nossa memória: é uma ressignificação esdrúxula do nosso passado a fim de justificar um futuro desejado, qual seja, um futuro onde o Brasil seja pautado por Estado mínimo, liberalismo econômico nas relações de trabalho, individualismo, americanismo. A releitura da nossa História, feita pelo BP, é claramente ideológica: é um recorte canhestro que serve a fins políticos subordinados a uma causa estranha ao nosso interesse nacional. Para o Brasil Paralelo, Vargas foi, ao mesmo tempo, pró-comunista, fascista, positivista, psicopata, gênio da política, simpatizante do nazismo, etc. Como foi possível ele ter sido tudo isto é o grande mistério. O Brasil Paralelo transformou Getúlio no "Tio Chico" (aquele pentecostal maluco que disse ter sido maçom, islâmico, pai de santo, rosa cruz, travesti, etc.) da nossa História. Sobre a péssima qualidade do documentário é preciso dizer que:


1 - Logo de cara há uma propaganda em prol das monarquias liberais - Noruega, Inglaterra, etc. - e dos EUA e Alemanha, vistos como exemplos de democracia para países que respeitam as "liberdades". Os coitados não entendem que a noção de democracia no século 19 se dirige para o igualitarismo jacobino que abrirá caminho para o comunismo em razão duma coisa simples: as liberdades para as classes baixas eram só nominais; elas passarão a desejar uma liberdade real e concreta; para isso os Estados serão instados a criar leis igualizantes/democratizantes. 

Liberdades liberais geram democracia, que gera insatisfação com a nominalidade dos direitos jurídicos, que gera o anseio pelo socialismo. A panacéia proposta pelos membros do Brasil Paralelo só será capaz de fazer com que o pesadelo comunista – o qual eles deploram – venha a vingar no Brasil.

2 - A República Velha é apresentada como "época estagnada onde nada aconteceu". Só analfabetos em História podem levar isso a sério.

3 - Sem citar prova alguma, Olavo acusa Vargas de chacinar todos os seus inimigos no Nordeste após desarmá-los. Não especifica onde e quando teria ocorrido tal episódio.

4 - O vídeo é feito, quase todo, por propagandistas do liberalismo como Constantino et caterva. Historiador, quase nenhum.

5 - Vargas é chamado de positivista e gênio político por Olavo; logo depois o mesmo Olavo diz que Vargas era um psicopata; outro "especialista" diz que ele era fascista. Entre fascismo e positivismo há uma distância imensa. Eles não sabem disso? Positivistas se fundam na idéia de um exército formal; fascistas fundam seu ativismo em grupos paramilitares, pois perderam a confiança nas Forças Armadas; SS nazi e Squadristi de Mussolini provam-no. Positivistas são pró1789, fascistas são anti1789.

6 - Pondé – até Pondé! O que o dinheiro de institutos liberais não é capaz de fazer, hein? – diz que fascismo, comunismo e varguismo são a mesma coisa! Pondé vendeu sua inteligência ao poder do dinheiro.

7 - Narloch aparece chiando porque Vargas controlou bancos. Agora já está tudo claro: o BP serve à velha elite bancária talmudista. Nós dissemos!

8 - Nada é dito sobre o fato dos fazendeiros paulistas terem movido uma guerra contra Vargas por razões econômicas, dado que ele havia quebrado a política de valorização do café e acabado com o esquemão de eleições fraudadas. Tudo é apresentado como se os paulistas lutassem apenas por Constituição e direitos! Os paulistas queriam continuar escravizando o Brasil aos seus interesses; não havia nada de moralizante na "revolução constitucionalista".


O Brasil Paralelo ainda assevera que o "Plano Cohen" foi inventado por Vargas para justificar a implantação do Estado Novo em 1937. Ora, em 1935 houve uma insurreição comunista liderada por Prestes e havia fundadas razões para se temer um novo assalto, como veremos adiante. Depois Narloch, aos 43 minutos, diz que Vargas foi um "cara mau" porque proibiu a usura. Um sujeito reclama que Vargas "acabou" com nossa "tradição liberal". Enfim eles deixaram claras as coisas: são apenas liberais e nada mais. Servos dos bancos, inimigos do povo - há uma crítica geral à CLT no vídeo do BP - etc. Que anticomunismo é este que deplora o ditador que impediu uma revolução comunista? É a pergunta ser feita!


Sobre os erros do documentário, demos a palavra ao Prof. Eduardo Cruz, que comenta o seguinte sobre a Revolução Constitucionalista:

"Aos 29:16 do vídeo, o entrevistado Rafael Brodbeck afirma que os paulistas se rebelaram em 1932 porque Getúlio não cumpriu sua promessa de entregar uma nova Constituição. Não sei quem é este senhor, mas a afirmação está FACTUALMENTE ERRADA. Getúlio agendou a eleição da Assembléia Constituinte em 14 de maio de 1932, quando assinou o Decreto nº 21.402, tendo designado, no mesmo ato, a comissão encarregada de redigir o anteprojeto da Carta. A Revolução eclodiu em 9 de julho, ou seja, dois meses depois. Logo, é incorreto estabelecer uma relação de causa e efeito entre a protelação da promessa e a insurreição. A suposta causa da revolta deixou de existir dois meses antes da sua deflagração".

O Prof. Eduardo desmente uma suposta colaboração de Vargas com os comunistas, veiculada no documentário, cujo narrador sugere que a Intentona de 1935 teria resultado do rompimento desta [inexistente] aliança:


"Além disso, aos 40:30 o narrador afirma o seguinte, referindo-se ao período 1930-1935: 'Por muito tempo, Vargas se aproveitou de ambos os movimentos. Com habilidade e oportunismo, engajou comunistas e integralistas. Utilizava ambas as vertentes a seu favor, comparecia a eventos políticos de ambos e trocava favores com seus líderes. A relação seria estremecida até o rompimento, quando lideranças comunistas acusaram Vargas de caminhar para uma ditadura fascista. Passam a postular o poder para si e tornam-se inimigos do Presidente. O primeiro grande ataque foi lançado pelos comunistas, em mais uma tentativa de golpe que a jovem república brasileira assistiu. O capitão do Exército convertido ao comunismo Luiz Carlos Prestes comandou o levante: a Intentona Comunista [de 1935]' ------- Não sei quem redigiu o texto lido pelo narrador, mas esta alegação é rigorosamente FALSA!!! Jamais houve qualquer colaboração entre Vargas e o PCB entre 1930 e 1935. Não houve sequer negociações! Vargas não 'compareceu a eventos' do PCB nem 'trocou favores' com líderes do Partido, que naquele período atuava sob a capa da UOC (União Operária e Camponesa) e da ANL (Aliança Nacional Libertadora). O Partido Comunista Brasileiro seguia as diretrizes da União Soviética, que determinava oposição irrestrita ao governo Vargas, conforme resoluções aprovadas na II Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina, realizada em Moscou, de 2 a 10 de outubro de 1930, e na III Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina, realizada em Moscou, de 16 a 28 de outubro de 1934 (Fonte: OLIVEIRA, Marcos Aurélio Guedes de. 'O Cominter e a Aliança Nacional Libertadora'. Recife: Edições Bagaço, 1996, pp. 92-128). A informação pode ser confirmada nas memórias de Luiz Carlos Prestes ('Prestes: lutas e autocríticas', p. 67) e outros líderes do PCB, como Gregório Bezerra ('Memórias', Vol. I, pp. 233-236), Leôncio Basbaum ('Uma vida em seis tempos', pp. 96-140), Paulo Cavalcanti ('O caso eu conto como o caso foi, Vol. I', pp. 121-130), Apolônio de Carvalho ('Vale a pena sonhar', p. 53), Apparício Torelly ('Entre sem bater', pp. 170 e 211-213) e Ivan Pedro Martins ('A flecha e o alvo', pp. 86-87 e 92-95). Portanto, em 1935 não houve nenhum 'rompimento' entre Vargas e os comunistas, como os autores afirmam, dando a entender que existia uma aliança com o PCB. Tal aliança não existiu! Em toda a História do Brasil, houve apenas um momento em que o PCB apoiou Vargas, não porque tivesse afinidades ideológicas com ele, mas por razões meramente táticas: o período 1943-1945, quando o Brasil se engajou na 2ª Guerra Mundial ao lado dos EUA e da URSS. Durante essa fase, por ordem de Moscou, os comunistas brasileiros promoveram intensa propaganda pró-EUA, sob cobertura de uma entidade recreativa denominada 'Sociedade de Amigos da América', conforme consta nas memórias de vários militantes do PCB, como João Falcão ('O Partido Comunista que eu conheci', pp. 214-218) e Moisés Vinhas ('O Partidão: a luta por um partido de massas', pp. 73-76). A respeito desse breve namoro de conveniência, Gregório Bezerra relata que 'estávamos contentes por Vargas ter rompido com as potências do Eixo, cedido bases militares aos EUA, assinado a Carta do Atlântico e declarado guerra ao fascismo alemão' ('Memórias', Vol. I, p. 306). Obviamente, os idealizadores do documentário não explicarão este contexto nem entrarão em tais detalhes, porque isso quebraria a narrativa que busca equiparar comunistas e getulistas, retratando-os como parceiros na luta contra o liberalismo anglo-americano, supostamente o mocinho da História. Aliás, este é o subtexto que permeia todo o enredo costurado pelo vídeo".

Expondo a ignorância crassa do Sr. Rodrigo Constantino, o Prof. Eduardo Cruz observa que:


"Rodrigo Constantino, com sua habitual ignorância, acrescenta aos 42:05 que Olga Benario era 'ligada à KGB'. Na verdade, ela pertencia ao GRU, serviço secreto das Forças Armadas da União Soviética. O GRU é bem menos conhecido do que a KGB. Olga foi recrutada para os seus quadros em 1932, conforme comprovam os relatórios arquivados no Departamento de Quadros do Comintern (Fonte: WAACK, William. 'Camaradas'. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, pp. 94-95)."

A respeito do golpe que instituiu a ditadura em 1937, o Prof. Eduardo Cruz destaca outra falácia do documentário, que, por descuido ou má-fé, repete a lenda esquerdista segundo a qual Getúlio usou o Plano Cohen como pretexto para implantar o Estado Novo:

"Aos 42:45, o narrador alude ao Plano Cohen: 'As eleições [de 1938] se aproximavam e Vargas poderia perder a Presidência pela via democrática. Foi nesse momento que Getúlio se aproveitou de um falso plano que representaria uma nova revolução comunista para justificar a necessidade de dar um golpe de Estado' ------- Esta fábula já ganhou ares de fato, graças à persistência com que é repetida por ideólogos interessados em retratar a esquerda como eterna vítima de armações reacionárias. Ironicamente, alguns liberais lhe dão crédito, pondo de lado sua alergia ao socialismo, tamanha a sua obsessão de atacar o nacionalismo – talvez julguem o primeiro um mal menor frente ao segundo. É possível que tenham engolido essa lorota por descuido, como muitos incautos  que passam ao largo das fontes primárias. Quem se der ao trabalho de ler o discurso proferido por Vargas em 10 de novembro de 1937 descobrirá que em NENHUM momento ele citou o Plano Cohen para justificar a implantação do novo regime. A fúria do Presidente recaía sobre dois governos estaduais, ambos acusados de tramar uma insurreição armada contra o Governo Federal, situação que no limite poderia desembocar em guerra de secessão, nas palavras de Getúlio: 'Os preparativos eleitorais foram substituídos, em alguns Estados, pelos preparativos militares, agravando os prejuízos que já vinha sofrendo a Nação, em conseqüência da incerteza e instabilidade criadas pela agitação facciosa. O caudilhismo regional, dissimulado sob aparências de organização partidária, armava-se para impor à Nação as suas decisões, constituindo-se, assim, em ameaça ostensiva à unidade nacional' (Fonte: VARGAS, Getúlio Dornelles. 'A nova política do Brasil – Vol. V'. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1938, p. 25). O Presidente referia-se a São Paulo e ao Rio Grande do Sul, cujos governos vinham adquirindo vultosos arsenais no Exterior sob pretexto de equipar suas PMs, comprando inclusive baterias antiaéreas, armamento incompatível com qualquer missão policial. Os fatos foram registrados pelo Marechal Eurico Gaspar Dutra, na época Ministro da Guerra, que ao escrever suas memórias teve o cuidado de documentá-las com cópias de relatórios, ofícios e alertas produzidos pelo Exército entre 05/10/1936 e 30/05/1937 ('O dever da verdade', pp. 158-163, 194-197 e 247-256). Chamo atenção para as datas, todas bem anteriores ao aparecimento do Plano Cohen. Isso significa que a decisão de implantar o Estado Novo não foi influenciada pela percepção de ameaça comunista? Foi, mas esta percepção não foi gerada pelo referido plano. Ela decorreu de um episódio anterior, conhecido como 'Macedada', quando o Ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, concedeu habeas-corpus a 300 suspeitos implicados na Intentona Comunista, em 8 de junho de 1937. A decisão enfureceu os comandantes militares, que dirigiram uma advertência a Macedo Soares, conforme atesta ofício datado de 26 de junho de 1937, reproduzido nas memórias de Dutra ('O dever da verdade', pp. 245-246). Beneficiados por aquela soltura coletiva, centenas de comunistas voltaram a promover agitação nas ruas, inclusive atentados com vítimas fatais. E aqui vamos ao documento decisivo: a ata da reunião realizada pelo Alto Comando do Exército em 27 de setembro de 1937, quando tomou-se a decisão de implantar o Estado Novo. Quem examiná-la descobrirá que o Plano Cohen (uma pista falsa) foi mencionado pelos militares uma única vez, em meio a várias pistas verdadeiras, entre elas as evidências da atividade subversiva que se avolumava nas ruas e na Câmara dos Deputados, graças à liberalidade do Ministro da Justiça ('O dever da verdade', pp. 232-238). Até hoje, no intuito de limpar sua barra, a esquerda se agarra ao Plano Cohen para forjar uma narrativa que oculta sua parcela de responsabilidade pelas turbulências que convulsionaram o Brasil entre maio e outubro de 1937".

O referido professor ainda revela a incapacidade analítica de Luiz Philippe de Orléans e Bragança:

"Surpreende-me o que foi dito aos 59:52 pelo Príncipe Luiz Philippe de Orléans e Bragança: 'Ao final da guerra, o Brasil estava arruinado financeiramente, com uma dívida externa imensa' -------- Esta afirmação não é apenas incorreta. É fraudulenta. Foi durante a 2ª Guerra Mundial que o Brasil renegociou e reduziu sua dívida externa pela metade, nos termos do Plano Souza Costa, aprovado pelo Decreto-Lei nº 6.019 de 23 de novembro de 1943. Isso tudo graças à firmeza do governo, que soube aproveitar a conjuntura favorável para redefinir os termos do nosso relacionamento financeiro com os EUA e a Inglaterra (Fonte: COSTA, Artur de Souza. 'Dívida externa do Brasil'. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943, pp. 7-20)."


Eduardo Cruz ainda aponta outros equívocos gravíssimos para um documentário que se pretende histórico:

"Aos 41:45, o narrador afirma que 'apesar do apoio dos tenentistas, os ideais comunistas não haviam sido bem recebidos pela grande maioria das Forças Armadas' ------- O movimento tenentista estava agrupado no Clube 3 de Outubro, que jamais apoiou o PCB, formalmente ou informalmente. Seu programa foi aprovado na I Convenção Nacional do Clube, realizada de 5 a 9 de julho de 1932. Era um típico programa nacionalista-autoritário, do qual tenho cópia nos meus arquivos. Basicamente, antecipava tudo que seria feito durante o Estado Novo: nacionalização no petróleo, dos minérios e setores de base, assimilação dos imigrantes, centralização do poder político, implantação da siderurgia, etc. Prestes estava afastado do movimento tenentista desde 1928. Ingressou no PCB em 1934, época em que o Clube 3 de Outubro já havia inclusive se dissolvido. Quase todos os seus quadros foram aliciados por Vargas e pela Ação Integralista. Pouquíssimos se bandearam para a ANL (Fonte: WIRTH, John. 'Os tenentes na Revolução de 30'. In: FIGUEIREDO, Eurico de Lima (Org.). 'Os militares e a Revolução de 30'. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 41)...Aos 55:25, Flávio Morgenstern afirma que Vargas 'queria entrar na 2ª Guerra Mundial apoiando o Eixo' ------ Isso também é mentira. Vargas nunca cogitou engajar o Brasil no conflito ao lado da Alemanha. Quem se der ao trabalho de ler os relatórios produzidos pelo Estado-Maior do Exército em 1939-1945 descobrirá que o governo discutia apenas duas alternativas: manter o País neutro ou lutar ao lado dos Aliados, conforme recomendasse o interesse nacional. O que houve, sim, foram negociações muito difíceis e desagradáveis com os americanos, a cujas exigências descabidas era preciso resistir (Fonte: ESTEVES, Diniz. 'Documentos históricos do Estado-Maior do Exército'. Brasília: EME, 1996, pp. 226-285). O segundo volume dos diários de Getúlio confirma que ele temia a vitória da Alemanha tanto quanto repelia pressões dos EUA (Fonte: VARGAS, Getúlio Dornelles. 'Diário - Vol. II'. São Paulo: Siciliano, 1995, pp. 313 e 396)" ...Aos 01:03:00, o narrador afirma que Carlos Lacerda deixou a militância comunista aos 25 anos, ou seja, em 1939, 'quando entrou em conflito com o líder do Partido, Luiz Carlos Prestes' ----- De onde os editores tiraram isso? Prestes só foi nomeado Secretário-Geral do PCB em 1943, por determinação de Moscou. Em 1939 o líder do PCB ainda era Antônio Maciel Bonfim, vulgo 'Miranda', a quem Prestes estava subordinado. Além disso, o rompimento de Lacerda com o Partido não decorreu de nenhum atrito com Prestes, mas de um artigo que ele publicou na revista Observador Econômico e Financeiro ...Ainda aos 01:04:30, o narrador afirma que 'Getúlio, em troca do seu apoio à candidatura de Dutra, não teve seus direitos cassados, não sofreu qualquer processo judicial' ----------- Esta afirmação é rigorosamente FALSA. Quem impediu represálias contra Vargas foi o General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, então Ministro da Guerra. Logo após a queda do Estado Novo, alguns inimigos do Presidente deposto propuseram que seus direitos políticos fossem cassados por 10 anos. O General não permitiu, até porque isso abriria um precedente para a punição de outros expoentes da ditadura, inclusive ele próprio. O episódio está registrado nas memórias de Góes Monteiro ('O general Góes depõe', pp. 462-463). Eurico Dutra, por sua vez, lançou sua candidatura à Presidência da República em 27 de março de 1945. Vargas foi deposto em 29 de outubro e só manifestou seu apoio à candidatura do Marechal em 27 de novembro, por insistência de João Neves da Fontoura e José de Segadas Vianna, conforme relatado pelo General Osvaldo Cordeiro de Farias em depoimento autobiográfico ('Meio século de combate', pp. 400-402). Por conseguinte, é falacioso afirmar que a impunidade de Vargas foi garantida em troca do seu apoio à candidatura de Dutra. Tal negociata nunca ocorreu!"


Em face de todos os esclarecimentos prestados pelo Prof. Eduardo, fica evidenciado a chanchada que o Brasil Paralelo representa. A idéia de manchar a imagem de Vargas atende a vários fins, entre eles retratar a odiada figura de Lula como fruto do Varguismo, o que é falso, dado que o modelo sindical apregoado por Vargas era autoritário e ligado ao Estado, controlado por ele e conduzido com fins a uma colaboração capital-trabalho; já o modelo do sindicalismo lulista é comunista, pois aposta na luta de classes e no confronto do trabalhador com a orientação do Estado "burguês". Entre outros fins, os idealizadores do BP têm o propósito de convencer o público letrado de que seríamos um país melhor se fôssemos mais liberais, o que evidentemente não é verdade: em toda a República Velha, quando fomos liberais em economia e federalistas em política, nosso País era a 24ª economia mundial e, depois de termos passado pelo industrialismo e centralismo da Era Vargas e dos governos militares, galgamos a 8ª posição na economia global. Os números não mentem. Os liberais sim.
Agradecemos ao Professor Eduardo Cruz pelas análises e contribuições!


* Eduardo Cruz é professor de Geopolítica, História das Relações Internacionais e Política Externa Brasileira. Cursou graduação em Relações Internacionais e mestrado em História na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. As opiniões transcritas refletem a posição do autor, não das instituições às quais ele está ou esteve vinculado.