sábado, 9 de fevereiro de 2019

Como a direita dos EUA conjurou contra o dogma da moral sexual católica na década de 60: ou o perigo da aliança cega direita-catolicismo!



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Padre Hesburgh ao lado de Condoleezza Rice, secretária do estado do governo George W. Bush, aliado de Rockefeller e agente da direita americanista dentro da Igreja Católica. 





No verão de 1965 o padre Theodor Hesburgh, que então era presidente da universidade de Notre Dame em Indiana, EUA, organizou um encontro entre Jhon Rockefeller III e Paulo VI. Rockefeller se propôs ajudar Paulo VI a escrever uma encíclica sobre controle de natalidade. O que estava acontecendo na época? A tentativa de perversão pela direita americana – os chamados WASPs ( Brancos, anglo-saxões e protestantes) – contra a mentalidade anti-contraceptiva da Igreja Católica, pois o resultado do “Baby Boom” pós segunda guerra nos EUA foi o crescimento alarmante da população católica já que os protestantes passaram a praticar, maciçamente, a contracepção. O resultado é que os protestantes temiam ser superados numericamente pelos católicos. Como a civilização estadunidense e suas instituições liberais estão radicalmente na dependência de uma mentalidade protestante, os mesmos iniciaram um projeto de corroer o ensino da Igreja Católica sobre natalidade, compreendendo que demografia é poder político.

Rockefeller não conseguiu convencer Paulo VI. Mas, todavia, depois do Vaticano II, a campanha da direita americana obteve sucesso em convencer padres e bispos a apoiar medidas de contracepção e a deixarem de condenar, desde o alto dos púlpitos, as práticas anti-natalidade.


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John Rockefeller III

A propósito segue um excerto do historiador Donald Critchlow sobre o tema:

"Foi o Rev. Hesburgh quem, a pedido do próprio Rockefeller que desejava discutir com o Papa longa e seriamente a questão populacional, obteve para Rockefeller, através do Monsenhor Paul Marcinkus, uma audiência com Paulo VI ocorrida no Vaticano em julho de 1965. Já antes disso Rockefeller havia criado uma comissão especial em Roma para estudar a posição da Igreja em questões populacionais, pois à época parecia-lhe que Paulo VI poderia aprofundar as tendências liberais de João XXIII. No encontro, do qual Rockefeller afirmou que Paulo VI havia sido "caloroso e cordial, ouvindo-o com muita atenção e intercalando seus próprios comentários", ele expôs ao Papa a sua posição moral sobre a questão populacional, a urgência do problema, a possibilidade da Igreja aceitar novos métodos de controle de nascimentos e a preocupação dos líderes mundiais sobre o problema. Nos três anos seguintes houve cinco trocas de longas correspondências entre Rockefeller e o Papa sobre a questão populacional, a qual foi definitivamente encerrada por iniciativa de Rockefeller quando da publicação de Paulo VI de sua encíclica Humanae Vitae em 1967"

Pouco depois disso houve a liberação do aborto nos EUA em 1973, quando a Suprema Corte resolveu o caso conhecido como Roe versus Wade. A decisão da Suprema Corte foi de que a mulher tem o direito constitucional de praticar aborto. A maioria da população norte-americana, segundo frequentes pesquisas de opinião pública, apóia o direito ao aborto. Apenas cerca de 15% defendem a tese de que todo aborto deve ser posto fora da lei. Em torno de 33% acham que todo aborto deve ser legal e 50% acreditam que apenas em certas circunstâncias.

Na década de 80 João Paulo II se aliou a direita americana através de Reagan, para combater o aborto. Foi com base na proposta de combate ao aborto que a Igreja apoiou a candidatura de Reagan. Como sabemos Reagan não proibiu o aborto e usou o apoio da Igreja apenas para derrubar o Muro de Berlim. A Igreja foi passada para trás pela direita americana.

A onda conservadora de Reagan só trouxe, efetivamente, espaço para políticas neoliberais na área econômica. As políticas conservadoras – combate a pornografia, ao aborto e a liberação sexual – não foram adiante. Ficaram só na promessa. Um exemplo disso é que esta direita se valeu da ajuda de João Paulo II para a queda do comunismo no Leste Europeu. Na Polônia, após o fim do comunismo o que se estabeleceu foi o liberalismo ocidental estadunidense e não a doutrina social da Igreja – o que seria o mais coerente dado que o Movimento Solidariedade, de Lech Walesa era de fundo católico - o que provocou a liberação da pornografia e de todo o lixo comportamental da revolução sexual norte americana. Os católicos vem sendo usados pela direita, faz tempo, para implementar liberalismo em nome de uma defesa do conservadorismo moral – que aliás nunca acontece. Estaremos vivendo o mesmo no Brasil de agora? O tempo dirá.


Créditos ao Carlos Felipe Lombizani pelas informações.

Bibliografia

Michael Jones, E. “John Cardinal Krol and the cultural revolution”. Fidelity Press; 1st edition (April 1, 1995).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O falso patriotismo de Bolsonaro ou o globalismo disfarçado.

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Desde que o novo governo Bolsonaro tomou posse, o mesmo assumiu um discurso oficial de aparência nacional-patriótica. Tanto o presidente, quanto seu ministro do exterior, buscam passar a impressão de que estão em luta contra o globalismo para colocar os interesses pátrios em primeiro plano. Como diz o velho ditado as aparências enganam e as massas, como de costume, deixam se levar pelo que elas indicam. A crença no tom nacional-populista deste governo é partilhada até pela mídia estrangeira que faz comparações entre Bolsonaro, Viktor Orban e Trump (Enquanto Orban e Trump protegem a indústria nacional de seus respectivos países, Bolsonaro quer abertura total para acabar de desindustrializar o Brasil; logo a comparação é no máximo possível quanto a método de se comunicar às expensas da mídia tradicional, uso de verborragia autoritária, etc, mas nunca no plano ideológico).

Evidentemente que isto tudo não passa de fogo fátuo e de vulgaridade analítica. O fato é que Bolsonaro e seu ministro – Ernesto Araújo – não passam de capachos do interesse estadunidense. E para que isso fique claro vamos aos fatos reais.



1- Que é globalismo?



Segundo Fraga "Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”.

Por essa frase vê-se bem a influência de Olavo de Carvalho sobre Fraga, cuja tese é que os meta-capitalistas, ao conquistarem o domínio da economia global, viraram socialistas desejosos de controle estatal máximo e governo global para instaurar o “comunismo”. Comunismo com monopólios capitalistas! Lênin, no começo do século 20, chamava o sistema de monopólio mundial das mega empresas capitalistas de fase avançada do imperialismo capitalista e dizia que a revolução socialista poria fim a isso em breve. Em suma: o pensamento ortodoxo marxista jamais endossou a idéia de sistema comunista ao lado de empresas capitalistas monopolistas. Olavo e seus pupilos dirão que o comunismo mudou, que ele é um movimento camaleônico que não tem mais os mesmos atributos de antes: então o que seria comunismo neste caso? Segundo Olavo um “projeto de poder”! Pois é: riam a vontade. O que não poderia ser definido como projeto de poder? Tudo! Se o comunismo é isso, o que não é comunismo?

Socialismo significa, rigorosamente falando, um regime econômico-social e político onde temos coletivização dos meios de produção, ditadura do proletariado, partido único e planificação. Sem estes elementos constitucionais não há que falar de regime socialista ou de socialismo. Ter um partido com intenções socialistas dentro de um regime constitucional-liberal não é socialismo, regulação estatal sobre atividades privadas não é socialismo, imposto não é socialismo. Se a direita do sr. Olavo e Bolsonaro podem usar o termo "socialismo" fora deste esquadro de rigor conceitual por que a esquerda não pode deixar de ser rigorosa quando usa o termo homem/mulher? Sócrates mostra no diálogo "Górgias" que foi quando os partidos políticos começaram a usar as palavras conforme sua conveniência, que o senso de verdade e justiça se correou em Atenas. O passo seguinte foi a decadência final da Grécia.

Mas voltando ao tema precisamos dizer que globalismo e marxismo cultural não são sinônimos. Acreditar nisso é loucura. O ideário e a práxis globalizante é uma síntese de liberalismo e igualitarismo, coletivismo e individualismo. Não entender isso é imperdoável para um diplomata com formação intelectual de alto nível. O próprio conceito de marxismo cultural repugnaria a Marx que considerava a cultura mero subproduto das forças econômicas e da luta de classes e não algo dotado de autonomia própria que pudesse servir de motor a uma revolução. O termo mais certo seria neo-marxismo ou desconstrucionismo.

É verdade que Fraga rechaça os concertos internacionais ao dizer que "A aplicação dessa ideologia à diplomacia produz a obsessão em seguir os “regimes internacionais”. Produz uma política externa onde não há amor à pátria mas apenas apego à “ordem internacional baseada em regras”...O remédio é voltar a querer grandeza. Encha o peito e diga: Brasil Grande e Forte", mas a questão não é só esta: o palavreado é bonito e pomposo mas não se enganem.

Na verdade um Brasil forte ou fraco perpassa o seguinte: num regime de uni-polarismo, onde os EUA atuam como única potência global, situação imposta ao mundo desde 1991 com a queda da URSS, é impossível um país grande e forte sob as asas dos USA. Regime internacional para olavetes é apenas ONU quando, na verdade, é também os EUA onde tudo isso foi parido. Afinal quem é o maior financiador da ONU senão os USA? Sob que auspícios a ONU atua senão sob os dos direitos individuais levados a todo globo, o que é nada mais que a expansão da revolução americana de 1776? Olavo costuma separar EUA de Globalismo mas não há separação absoluta a não ser na cabeça oca dos trumpistas brasileiros que acreditam em "nacionalismo americano". O nacionalismo dos EUA só faz sentido internamente aos EUA, como não atrelamento do governo de Washington a moções da ONU, como independência do Estado Americano no plano internacional (Algo que G. W. Bush fez quando atacou Iraque e Afeganistão sem consentimento do Conselho de Segurança da ONU). Nacionalismo estadunidense é o EUA como maior player internacional, ao invés dos órgãos globais, é "pax imperial/global estadunidense" em vez de "pax imperial da ONU", é Trump mandando míssil na Síria sem passar pela ONU.

Precisamos compreender que há duas formas de globalismo: um a direita, outra a esquerda. A diferença é pequena, até existe, mas no fim a globalização acaba sendo, sempre, a americanização do mundo. A direita republicana dos EUA defende uma globalização via imperialismo nacional dos USA. Ocupações militares no Oriente Médio e o uso do “hard power” tem sido os métodos preferidos pelos republicanos. Ao fim e ao cabo tais métodos acabam dando em estabelecimento de regimes democráticos liberais, na expansão da economia capitalista ocidental e no domínio financeiro de Wall Street sob tais regiões. A esquerda democrata quer globalização com direitos humanos, o “soft power”, defesa de minorias, humanitarismo amplo, expansão do mercado junto com igualitarismo legal, etc.

A diferença está aí, mas sempre resulta na mesma coisa; onde a globalização chega temos abertura dos mercados, fluxo livre de capitais, direitos individuais, igualdade jurídica, cultura igualitária (homem e mulher são iguais, todos devem ter a mesma oportunidade, quebra das hierarquias sociais tradicionais baseadas em religião ou família, etc), em suma temos o estabelecimento da cultura política dos EUA.

Assim o pensamento de Fraga, exprime a contradição do patriotismo típico dos olavetes de plantão: querem um Brasil forte e combate ao globalismo com o Tio Sam do lado. Algo impossível.



2- Por que os EUA são hoje a cabeça do globalismo?



Não só a estrutura do estado dos EUA como sua estrutura econômica são o eixo em torno do qual o globalismo se desenvolve.

Desde Reagan o sistema financeiro americano foi desenvolvido para garantir o fluxo mais livre possível de capital. Reagan junto com o FED, trabalhou para que bancos comuns ou bancos de depósito, pudessem aplicar seus capitais fortemente em especulação, nos mercados futuros e de derivativos, assegurando, dentro de um modelo neoliberal em que o estado desregulava o setor bancário acabando com a velha distinção entre bancos de investimento e bancos populares, as estruturas para que o capital se expandisse sem limites pelo globo.

Depois da queda da URSS em 1991, o modelo financeiro de Reagan expandiu-se rapidamente no mundo, garantindo aos fundos financeiros dos EUA o controle definitivo do fluxo financeiro mundial dado que não havia mais um bloco socialista. Os ex-países socialistas adotaram o capitalismo e o dólar, abrindo de vez o caminho para um sistema mundo em termos de economia, circulação de informação e de padrões culturais, que é o que chamamos de globalização ou globalismo. As empresas de internet e computação consolidaram de vez essa tendência, empresas cujo eixo gira em torno do Vale do Silício nos EUA. Isso tudo contribuiu para que grupos financeiros se tornassem mega poderosos e estendessem seus tentáculos pelo planeta. A maioria deles tem sede em Wall Street.

Um exemplo é o Carlyle é a maior empresa de private equity do mundo que controla mais de 56 bilhões de dólares e tem filiais em 18 países. Empresas de private são fundos que compram participações em empresas com o fim de alavancá-las no mercado. O Carlyle, hoje, tornou-se o controlador do maior fluxo de caixa da economia global. Muita gente investiu dinheiro no Carlyle sem saber que estava investindo. Pelo Carlyle passaram grandes figuras da política americana: o ex-secretário de estado James Baker, o ex-secretário de defesa Frank Carlucci, o ex-diretor de orçamento da Casa Branca Dick Darman, o ex-chefe da comissão federal das comunicações, Willian Kennard, o ex-presidente da comissão de câmbio, Arthur Levitt. A sede do Carlyle fica em Washington entre a Casa Branca e o Capitólio. Sua influência sobre o establishment político americano é notório. Desde o 11 de setembro a empresa lucrou com a guerra contra o terrorismo. Ela investiu na U. S. information services (Usis) uma companhia particular de investigação que atua no departamento federal de aviação, nas alfândegas, e no ministério da defesa. Rubenstein, o maior acionista da Carlyle, forma, junto com seus sócios, uma poderosa rede global com a capacidade de investir dinheiro em países, mercados, setores, de apoiar candidatos em eleições pelo mundo, de participar de fóruns de definição de prioridades políticas, etc. A atuação da Carlyle deixa claro como existe nos EUA, uma sociedade entre políticos e megaempresários das finanças a moldar a política estadunidense no sentido de exportar, por exemplo, mecanismos de condução de mercado que favoreçam a facilidade das trocas financeiras globais que, evidentemente, favorecem o dólar e os grandes fundos de equity nas mãos da super-elite financeira dos EUA.

Tudo isto prova, sem precisar insistir muito, que um patriotismo antiglobalista que elege os EUA como parceiro preferencial é nada mais que uma farsa, um engodo tremendo. Não é preciso insistir que Bolsonaro e sua equipe querem estreitar laços com os EUA, isto é notório. Dentro disso a visão de Brasil de Bolsonaro é a seguinte: se pauta na idéia de Brasil como um binômio de “Minérios/Terras agricultáveis”. As patriotadas de Jair e seu ministro – na verdade um mero fantoche do sr. Carvalho, um sujeito sem autonomia intelectual alguma – se fundam na idéia da “grandeza do Brasil” (idéia meramente retórica com fins demagógicos ao estilo caneta bic enquanto se alia ao rentismo mundial) como mina e fazenda, algo que nos leva, diretamente de volta não a 1964 mas a época da República Velha em que nossa elite, sem nenhum projeto nacional, contentava-se com os lucros do café enquanto o país naufragava no atraso técnico em face às grandes nações. A história se repete como tragédia ou farsa. Agora se repete como farsa, sobretudo perante um povo que não consegue enxergar que, numa época de aceleração das inovações científicas no campo da informática, robótica, eletrônica, etc, investir num projeto de “Brasil Grande” via minérios e bananas é suicídio nacional, é colocar as futuras gerações condenadas ao atraso eterno e insuperável, destinadas a viver de sub-empregos pouco rentáveis.

3- Por que aliar-se ao EUA sempre foi um mau negócio para o Brasil?

Nos tempos do presidente JK o Brasil buscou um novo modelo de crescimento. O café, na época, sofreu uma queda brusca nas exportações para os EUA: em 1956 tivemos um lucro de 1 bilhão de dólares contra 845 milhões de dólares em 1957. Isso, em pleno boom industrial nacional, forçou o Brasil a buscar novos mercados. Nesse mesmo momento o FMI impunha ao Brasil medidas monetaristas que impediam JK de tomar empréstimos, atrasando nosso crescimento. O governo dos EUA afiançou a decisão do FMI que forçava, então, toda a América Latina a entrar em políticas de combate a inflação o que significava reduzir investimentos em indústria. Esta política trouxe violentos protestos no Peru e na Venezuela. Isso levou JK a enquadrar os EUA exigindo nova política econômica para a América Latina sob o risco de vê-la caindo sob o tacão do comunismo. Formou-se então a Operação Pan Americana que visava fazer os EUA estabilizar os preços de compra das nossas commodities ou a reinvestir nossos excedentes em empréstimos que promovessem nosso crescimento. Para a OPA as desigualdades profundas dentro do Continente Americano reforçavam o sub-desenvolvimento gerando as condições sociais para uma revolução comunista.

O Brasil queria, como disse então JK, “formar ao lado do Ocidente mas não desejamos constituir seu proletariado”. O interesse americano aqui era, unicamente, garantir o acesso as reservas de petróleo da Venezuela, de cobre do Chile, de estanho da Bolívia e de urânio, tório e manganês do Brasil, a fim de garantir o abastecimento de suas indústrias. O que ocupava os estadunidenses era manter um clima de estabilidade nestes países que proporcionassem a exploração privada destas jazidas dado que aventuras comunistas ou nacionalistas podiam significar estatizações que fariam sua indústria perder matéria-prima basilar. Os americanos interferiam sempre e apenas em prol da manutenção do bom clima para os negócios de sua indústria.

Na mesma época, em face a insensibilidade dos EUA aos apelos da OPA, JK pensou em buscar acordos comerciais com a URSS que elevou, no ano de 1957, em 1,6 bilhões de dólares, a ajuda aos países subdesenvolvidos com juros baixos e facilidade de escoamento de produtos agrícolas. O Objetivo de JK e do Itamaraty era retomar laços com a URSS usando tal meio como barganha para conseguir concessões do lado dos EUA em face as exigências da OPA. O clima de guerra fria e o medo do comunismo levaram a opinião pública brasileira a não apoiar a idéia de aproximação com a URSS que não foi aplicada muito também por que os EUA, perante a revolução cubana, acabou aceitando algumas condições da OPA, destinando 500 milhões de dólares para projetos assistenciais de colonização de terras, higiene e habitação para os países da América Latina. Todavia isso ficou aquém do esperado por JK que reivindicava capitais públicos dos EUA para dinamizar a indústria nacional e o mercado brasileiro. Nada disso aconteceu. Este fato exemplifica bem a continuidade da política dos EUA em face a América Latina, sempre vista como seu quintal, como seu mercado consumidor de produtos de alto valor agregado e fornecedor de matérias-primas baratas. Se mesmo o perigo comunista não fez os EUA arrefecer nesta sua tradicional política de dependência imposta aos países latino-americanos, por que ela arrefeceria agora?


4- Conclusão


Alguns poderiam objetar que os interesses da China e da Rússia poderiam ser usados, estrategicamente, pelo governo Bolsonaro, para obter vantagens ao Brasil no contexto duma relação bilateral com os USA. Mas isso só seria possível se tivéssemos um ministro do exterior que não fosse ideologicamente cooptado por um pseudo-filósofo que serve bovinamente aos interesses dos EUA em troca de sua estadia confortável por lá. Na época de JK a reorientação do Itamaraty, no sentido de pressionar os USA, foi obra de Augusto Frederico e San Tiago Dantas que, oriundos da direita nacionalista, pois ambos integralistas, influenciaram JK a tomar iniciativa verdadeiramente patriótica. Porém com esta direita apátrida que temos aqui agora, uma direita que lambe as botas de Trump, é impossível que isto se dê pois falta-lhe a devida independência ideológica.

Tudo isto prova que o governo Bolsonaro é tudo menos patriótico. Seguir acreditando nisso, depois de tudo que expomos, é cretinice intelectual ou comprometimento espúrio com um plano de desmanche do país.







domingo, 30 de dezembro de 2018

O projeto Bolsonaro- Israel: O que os judeus querem no Brasil?

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A aproximação oficial de Bolsonaro a Netanyahu e ao Estado de Israel leva-nos a pensar no que isso representa de facto. 

Evidente que tal proximidade tem, a depender do enfoque, várias dimensões que tentaremos desdobrar na medida em que os fatos forem se tornando mais claros, porém nos parece que uma das dimensões basilares desta política tem a ver com a questão agrícola no Brasil. Segundo alguns amigos, especialistas em economia, o plano Paulo Guedes para o país consistiria em fortalecer nossa posição como "fazendão" ao mesmo tempo que transformaria centros do sudeste - RJ, BH, SP - em pólos financeiros, algo semelhante ao que se vê no Chile, onde Santiago opera como um semi-paraíso fiscal enquanto o resto do país se especializa em produção de minérios. Guedes visaria substituir demanda interna por externa levando ao fim e ao cabo, até as últimas consequências, nossa tendência a nos desindustrializar. 

Podemos então ver entre a idéia do Brasil como "fazendão" e a proximidade com Israel, uma conexão de eventos e uma possível interpretação para o fenômeno. 

A agricultura israelita hoje é fortemente baseada nas startups. Apenas para citar algumas startups israelenses, se destacam empresas como a Farm Dog e a Taranis, que criaram sistemas para manejo de pragas; temos também a CropX, a Neotop e a Emefcy, que aplicam tecnologias para otimizar o uso de água. No caso da CropX,  temos o modelo de agricultura conectada. Através da estruturação de redes interligadas, os fazendeiros israelenses fazem a coleta, monitoramento e análise de dados em tempo real, que são acessados em tablets, smartphones e laptops para auxiliar na tomada de decisões na gestão da lavoura.

Vejam: A Taranis, vale registrar, definiu o Brasil como um mercado prioritário após levantar uma rodada de US$ 7,5 milhões da qual participaram vários investidores, entre eles a Mindset Ventures, parceira da Microsoft; a Finistere Ventures e a Vertex Ventures.

“Escolhemos o Brasil como um mercado estratégico pois sabemos que tem muitos clientes em potencial. Além disso, a extensão de terras é enorme em comparação com outros lugares do mundo. Descobrimos que, para enfrentar as necessidades, os fazendeiros brasileiros são early-adopters de tecnologias e abertos à inovação”. 

Liron Brish, CEO e co-fundador da Farm Dog, em entrevista de abril de 2018, deixa claro que quer trazer sua startup para o Brasil pois vê no país um potencial comprador da tecnologia israelense para a agricultura. Como nosso país tem potencial para se tornar líder em agro-negócio global, o interesse judaico é o de exportar sua tecnologia pondo nossa produção sob dependência de suas inovações técnicas. O Volcani Institute - centro de pesquisa agrícola de Israel - tem interesse direto em nosso agronegócio. Uma das atividades de destaque no Volcani é seu banco genético. Ainda em março de 2018, gente do Volcani, como Beni Lew, esteve no Brasil na "Sociedade Rural Brasileira" para vender sua tecnologia aos fazendeiros. A Volcani vende, por exemplo, métodos de tratamento de água baseado em robotização. 

O modelo de desenvolvimento de Bolsonaro para o Brasil é a velha dependência técnico-científica-industrial a que estamos sujeitos a décadas. Além de isso aprofundar nossa desindustrialização, impedirá a criação de metodologia nacional de agrotech que poderia, não só criar empregos na área de inovação, como baratear o preço final de nossas commodities com tecnologia menos custosa e cem por cento nacional.   Cabe dizer que Israel já tem boa parte do setor de petróleo e gás brasileiro sob a batuta de suas tecnologias como acontece com tecnologia usada pela Odebrecht e pela Petrobrás. 





segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Como o capitalismo e a burguesia destruíram a sociedade tradicional

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Sobre a relação entre capitalismo, liberalismo, burguesia e revolução há muito o que dizer sobretudo hoje em que toma força no Brasil uma linha política de cunho neo-direitista que acredita ser possível conciliar tradição religiosa com liberalismo, capitalismo com conservadorismo dos costumes. Neste sentido faz-se mister que se erga a voz para dizer em alto e bom som que o capitalismo em sua versão liberal - a única que existiu concretamente na história - é um dos maiores agentes - via burguesia liberal - da revolução que acomete o ocidente, revolução que é responsável pela destruição do que chamamos de cristandade. Pois vejamos: 


1- Uma coisa é um regime econômico estabelecido na distinção clara entre o pólo do capital e do trabalho o que, como sistema de produção, é legítimo na medida que assegura os meios de vida à classe industrial e a classe trabalhadora, envolvendo aí, inclusive, as condições para que a propriedade privada cresça na direção do bem comum. Isso implica em que o salário seja uma forma de assegurar não só o sustento do empregado mas facultar que ele também possa, com os meios financeiros proporcionados pelo patrão, garantir sua propriedade privada e uma poupança capaz de socorrê-lo num momento de crise. Evidentemente, observando o processo real do capitalismo, percebemos que não foi o que aconteceu historicamente. A distância entre as classes - distância financeira, social, política e cultural - só vem aumentando com o tempo. Embora o nível geral de vida tenha melhorado, o processo de concentração de riqueza na mão de uma super classe - como bem observa David Rothkopf em sua obra sobre o novo fenômeno dos super ricos - é comprovada por dados mui sólidos. Num contexto deste é claro que tais classes terão um poder ampliado - pois o dinheiro faculta mais meios de ação - o que, além de gerar um brutal processo de distanciamento entre os corpos sociais - que produz problemas de coesão social - produz uma desigualdade monstruosa de poder. A poupança, num quadro de extremo consumismo, onde os poderes do capital estimulam a vida a prazo, associado a arrochos salariais a fim de garantir sempre maiores margens de lucro, se torna difícil e, consequentemente a formação de patrimônio por parte das famílias de trabalhadores é quase inviável ( pense-se no tempo de financiamento de uma casa própria e nos juros envolvidos na operação para perceberem como obter o patrimônio mais basilar para uma família - a casa - se tornou deveres complicado; na maioria dos casos as famílias só consegue quitar a casa própria na velhice!). Isso tudo evidencia a grave imoralidade em que se assenta a economia capitalista de livre mercado atual. Como é possível conciliar as exigências de justiça, estipuladas pela lei divina, com um quadro econômico como esse? Como conciliar isto com conservadorismo religioso? 

2- Isso quer dizer que um regime de capitalismo seja sempre incompatível com o bem comum e o justo salário? Não, é claro.  Mas, num regime em que o capital monetário assume o papel de motor do desenvolvimento econômico a tentação por um liberalismo amplo e total em matéria econômica é tão grande que se torna bastante difícil impedir que o capitalismo não se valha de medidas que absolutizem o livre mercado, já que tais medidas favorecem a concentração mais rápida de capital, seu reinvestimento e sua reprodução.  

3- Também é preciso que se diga que o processo de industrialização na Inglaterra - o mesmo que trouxe a tona o sistema capitalista atual - foi calcado em rapinagem sobre as terras que tradicionalmente pertenceram aos campônios. Os cercamentos se revestiram de caráter imoral. A gentry - nobreza aburguesada que investia em pirataria e comércio naval - aplicou seus ganhos na compra de terras ancestrais e feudais, terras que sustentaram famílias por séculos. Num processo injusto bastava que pagassem uma taxa de registro fundiário no cartório real garantindo a propriedade privada sobre terras onde antes os criadores podiam levar seus rebanhos para pastar. Ora, o trabalho gera direito. Aquelas terras foram trabalhadas durante séculos por famílias de camponeses que, de um dia para o outro, ficaram sem seus meios de produção tendo que se sujeitar a vida nas fábricas inglesas, em troca de salários irrisórios. A nova classe de capitalistas ingleses nascida no século 18 era completamente imoral e foi neste ambiente que as teses de livre mercado de Adam Smith encontraram eco. A classe capitalista inglesa destruiu a propriedade privada tradicional e criou uma nova, baseada no direito absoluto sobre a propriedade como consta da teoria de John Locke. 

4- Esta burguesia liberal e capitalista ao mesmo tempo, foi a maior força revolucionária da história. A medida que o mercado mundial foi sendo criado pela expansão das locomotivas e dos navios a vapor, integrando cidade e campo, continentes e países, a burguesia calcou aos pés as antigas classes legadas pela era medieval e destruiu a antiga divisão social consagrada pela Igreja - as três ordens - assim como o poder político que emanava dessa ordem - a monarquia católica. A democracia liberal-igualitária, mais conforme aos interesses da burguesia que buscava se livrar dos padrões aristocráticos de sangue a determinar posições sociais, e dos limites tradicionais a expansão de seu poder financeiro, a fim de poder ascender na política e nos negócios, foi sendo imposta a ferro e fogo aos povos por obra e ação desta nova classe, organizada politicamente dentro das lojas maçônicas para derrubar o poder dos reis cristãos e do clero católico. A burguesia liberal capitalista destruiu, por onde passou, os laços de autoridade e as relações tradicionais. Derrubou o poder do patriarca, do senhor feudal, do rei e da Igreja. Todos os laços que prendiam o homem feudal a seu superior natural foram destruídos. No lugar ficou o frio interesse por dinheiro como único vínculo entre os homens. A relação patrão - empregado no regime burguês é algo revogável, algo que pode ser desfeito desde que haja interesse de uma das partes. Não há mais laços definitivos nem solidariedade social permanente o que, evidentemente aplainou o terreno para a luta de classes marxista, que é tem como efeito a inimizade entre estas classes, produto de um pacto fundado apenas na esperança de ganho. No lugar das liberdades concretas, das boas liberdades, a burguesia liberal exaltou a abstrata liberdade de comércio como base das relações humanas, o que não passa de relação de troca e não verdadeiro laço social orgânico e estável em que se possa construir uma convivência civilizada e duradoura. De modo que a forma de atuação histórica da burguesia liberal é a constante revolução dos costumes sempre no sentido de demoli-los quando não estão mais a altura das novas transformações econômicas que ela precisa empreender. A burguesia sujeitou o campo a cidade, aglomerou a população e concentrou a propriedade. A consequência disso foi a centralização política: os antigos direitos feudais, as leis municipais, as corporações de ofício, os direitos da Igreja, tudo foi eliminado. Os corpos intermédios foram destroçados, o homem virou um átomo solto no universo social. Marx postula que a concentração do capital e dos meios de produção nas mãos de poucos capitalistas é o passo inicial para o socialismo que é a concentração total destes meios na mão do Estado. Antes da ação da burguesia liberal estes meios estavam dispersos e o socialismo era impossível. Mas agora, dada sua concentração, ele se tornou possível, socialismo que é nada mais que o império do ateísmo sobre a terra. 

5-Outrossim Karl Polanyi, historiador da economia, mostra como a revolução industrial, prenhe de tendências liberais que só depois vão ser teorizadas por Smith, transformou três elementos acessórios da economia em mercadorias: a terra, o trabalho e a moeda. Para todos os economistas anteriores ao século 18, portanto ao fenômeno da revolução industrial, tratar a terra e o trabalho humano pela lógica de mercado - como se pudessem ser vendidos com base em lei de oferta e procura - era impensável por uma razão básica: o homem que trabalha é um sujeito, uma pessoa, não é mercadoria, e a terra é a condição sine qua nom para a subsistência de uma pessoa; a terra não é fruto do trabalho; o que se produz na terra é mercadoria mas não a terra; transformar a terra em mercadoria foi um passo decisivo para concentrar a propriedade. Na era feudal a terra é voltada ao bem comum e ao uso comum. O camponês em tempo de fome podia lavrar a reserva do senhor para se socorrer. A revolução industrial acaba com isso: perante o desemprego e a fome só resta mendigar nas ruas pois não há mais terras comunais para lavrar. Por outro lado a moeda, ao virar uma mercadoria, passa a ser a meta final do sistema econômico. Acumular dinheiro vira o fim em si da atividade bancária que vai deixando de ser mero serviço de depósito para impor níveis jamais vistos de usura a todo o sistema econômico; só a limitação ao crescimento exponencial da demanda por moeda, como ensina Aristóteles em sua doutrina do regateio, é o que permite o preço justo e o limite ao império da ganância. Esse processo todo, ao invés de generalizar a propriedade privada a torna uma exceção, um luxo auferido por poucos. 

Deste modo a revolução industrial e por tabela o capitalismo, que nasceu de seu ventre, feito nos moldes do liberalismo e continuado dentro de um processo ultra usurário e de destruição de laços tradicionais de sociedade é mais uma entre tantas outras forças revolucionárias. Logo, a aposta da nova direita em termos de conciliação entre tradição, religião cristã, costumes conservadores e liberal capitalismo não passa de ilusão, crendice, superstição que não resiste a cinco minutos de análise histórica. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Eleições 2018: o Brasil entre o americanismo e o utopismo igualizante pós moderno


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Caros leitores, as eleições 2018 em nosso país demonstram o cenário de completa degradação do debate público no Brasil em razão de pautas completamente estranhas ao caráter de nossa nação, tendo em vista sua formação católica, cordial, solidarista e integral. Os candidatos a presidência da república - em sua maioria - postulam posições estranhas ao nosso legado como civilização mostrando, com isso, o atrelamento da nossa opinião pública a idéias estrangeiras cuja relação com nossa realidade é nenhuma ou quase nenhuma. 

Tanto à esquerda quanto à direita vemos isso; de um lado pautas pós modernas e desconstrucionistas como direitos LGBT, anti-racismo, etc, pululam como se o Brasil fosse os EUA onde houve um processo de violento apartheid racial e onde a mestiçagem é quase nula; do outro questões como "menos estado" são ressaltadas sem levar em conta a falta de Estado no saneamento básico, na saúde, na segurança, numa aposta total na iniciativa privada como panacéia para todos os nosso problemas. No meio desse tiroteio entre esquerdas x direitas (ou o que se convencionou chamar de direita e esquerda no Brasil)  temos alguns candidatos alternativos que defendem a Doutrina Social da Igreja - como é o caso de Eymael - outros que postulam um plano nacional de desenvolvimento misturado a religiosidade cristã e solidariedade  como base para o refazimento da malha social do país - Cabo Daciolo - entre outros. Nos extremos Amoedo, um anarco-liberal que fez fortuna através de conluios com figurões do alto escalão de governos passados, Vera Lúcia do PSTU que postula uma rebelião socialista e o fim do modelo político atual ao mesmo tempo que disputa uma eleição dentro das regras do sistema que rechaça, e Boulos do PSOL que dirige uma versão urbana do MST, o MTST, candidato que promove invasões criminosas pelo país ao mesmo tempo que oprime os ocupantes dos imóveis invadidos com "aluguéis"; todo este quadro, digno do apocalipse, revela o total descalabro deste pleito, quiçá aquele que, historicamente, traz os piores candidatos já vistos no Brasil. 

Infelizmente as candidaturas alternativas - nas quais incluo também a de João Goulart Filho, de tom mais trabalhista e que lembra o velho getulismo  - não tiveram vez e voz nesta eleição por razões óbvias: são as únicas que realmente ameaçam o atual sistema e a polarização americanizante que vem sendo imposta ao país por esquerdas e direitas apátridas. E é aí, no terreno de direitas e esquerdas anti-nacionais que o pleito será, muito provavelmente, decidido. 

Neste sentido é preciso considerar que há dois projetos de país aí: um que vê na iniciativa pública, no estado, um papel preponderante na condução da questão social e econômica, e outro que aposta na iniciativa privada e no desmonte do estado. Do lado esquerdo, articulado em torno de um discurso próEstado temos Haddad e Ciro e, em certa medida, Marina. O projeto de Haddad é francamente Lulista: nada de novo sob o sol! O plano é o velho neoliberalismo no campo financeiro e uma política de bolsas no campo social, sem investir pesado num plano de desenvolvimento industrial do país, única via para nos tornar menos dependentes dos poderes globais. Junte a isso a insistência em pautas imorais como LGBT, liberação sexual feminista, aborto, etc. O PT com Haddad fala de retomar investimentos mas não explica como recuperar a confiança dado que, com um novo governo PT, a máfia partidária que saqueou o Estado, voltaria o que faria do Brasil um terreno adverso a qualquer aventura. Fora que um governo Haddad seria marcado por extrema instabilidade pois estaria a sombra de Lula e sempre sob o risco de um indulto que poderia colocá-lo de volta no poder como um superministro, acirrando ainda mais os ânimos no país. Já Ciro, que fez parte do governo PT, tenta se desvencilhar do passado de aliado do petismo, apresentando laivos de um plano nacional de desenvolvimento e de uma proposta geopolítica menos ideológica que a do PT,  mas a pergunta que cabe é se ele não vai governar com o partido dos trabalhadores caso vença o pleito, dado que terá enorme dificuldade de angariar maioria num congresso dominado pelo PMDB com o qual não pretende governar. Ciro não defendeu, nesta eleição, efusivamente pautas LGBT, aborto, etc,  mas sabemos que ele, pessoalmente, se posiciona a favor delas. Diz que não quer ser guru de costumes e que não pretende intervir nestes temas mas forçou a barra, durante as eleições, em acusações de nazismo (o que é uma inverdade dado que Jair é um americanista e um próJudeu convicto o que repudiaria a um nazista) contra o candidato Bolsonaro e encampou algumas propostas de empoderamento feminino: Ciro quer se valer da educação para reforçar a tese de que não haveria uma diferença essencial entre mulher e homem no que tange a papéis profissionais e familiares, endossando um igualitarismo perigoso pois sabemos que, segundo a tradição católica, Deus reservou ao homem o papel de chefe da família e, a mulher, o lugar de sua auxiliar, cabendo ao marido maiores responsabilidades no que tange ao sustento material da família e a mulher o dever primário do cuidado da vida doméstica. Ciro, porém, tem algumas propostas econômicas que o colocam, de certo modo, ao lado da doutrina social da Igreja: defendeu harmonia capital-trabalho postulando políticas para atender o bem estar de produtores e empregados, ofereceu um plano para facilitar o pagamento de dívidas dos cidadãos com os bancos o que é importante para recuperar a vida financeira familiar, isso a juros mais baixos, etc. Marina flerta com ambientalismo o que poria em xeque qualquer alternativa de crescimento industrial para o país, reduzindo, inclusive, nosso potencial agrário. A esquerda Marina é a pior opção. 

Do lado direito, pela demolição ou redução do estado temos Amoedo, Dias, Meirelles, Alckmin (apesar de ser um centrista ele encampa pautas da direita liberal) e Bolsonaro. As propostas de Meirelles, Alckmin e Bolsonaro giram em torno do mesmo eixo: privatizações, abertura indiscriminada ao capital estrangeiro, menos direitos trabalhistas, etc. Dias mistura medidas de redução do estado com posições de centro. Há algumas diferenças: Alckmin e Meirelles defendem efusivamente a reforma da previdência coisa que não acontece com Bolsonaro; Alckmin se opôs ao imposto igual de 20 por cento para todos, proposto por Guedes, o futuro ministro da economia num governo Bolsonaro; Mourão vice de Bolsonaro acenou com fim do décimo terceiro salário. A candidatura de Jair ainda tem outras facetas: a ausência de proposta claras para áreas como saúde, educação, transporte e segurança. Isso o distingue de Alckmin que tem propostas mais concretas. O fato de a candidatura Bolsonaro não apresentar projetos  claros e definidos para o país precisa ser bem entendida. Não é uma ocasionalidade tal fato nem fruto da "burrice" de Jair: ela é fruto de um projeto. O discurso implícito a candidatura de Bolsonaro é que o governo não deve apresentar soluções mas sim diminuir o Estado, inclusive reduzindo a arrecadação, deixando as pessoas livres para que se virem. E suma: a filosofia por trás de tal candidatura é o velho modelo de sociedade americana/estadunidense, o calvinismo politico puro e simples; o estado não fará nada por vocês, não contem com ele, contem somente consigo mesmos. Aqui é que se explica a idéia de armar o cidadão ( algo até justo pois temos o direito de nos defender mas que não é a solução para o combate ao crime organizado nem um enfrentamento efetivo das causas da criminalidade e sim uma medida tópica para combater efeitos ), deixando de lado propostas mais específicas de segurança pública ( Seria possível enfrentar o crime organizado apenas dando armas a particulares? É possível enfrentar a violência coletiva com ações individuais?). Junte a isto a expectativa de uma baixa burguesia de ascender socialmente com menos impostos, o que não passa de ilusão num país descapitalizado e onde o acesso ao dinheiro para financiar a produção é sempre caro; ademais sem mão de obra especializada fica deveras complicado imaginar um salto econômico, coisa que só poderia acontecer com a atuação forte do estado no campo da educação formando quadros mais qualificados a fim de fomentar a iniciativa produtiva do setor privado. Ao que parece a candidatura de Jair não pretende enfrentar a máfia bancária que impõe pesados juros ao país, reduzindo sua atuação a reduzir impostos o que, num quadro de dívida pública monstruosa, pode levar o país a um quadro semelhante ao da Argentina, onde Macri desonerou setores exportadores perdendo receita e acabando na mão do FMI. Outrossim as candidaturas Bolsonaro, Alckmin e Meirelles caso viessem a ganhar o pleito poderiam desencadear, em razão das medidas antipopulares no campo do trabalho, pois prenunciam um arrocho severo sobre os trabalhadores ( "ou tem emprego ou tem direitos", "reforma da previdência", "ajuste fiscal", são os slogans das três candidaturas, respectivamente), uma luta de classes aberta no país, liderada por setores do PT, MST, sindicatos, o que ganharia força pois a classe trabalhadora seria - em razão de tais medidas - jogada no colo dos setores mais radicais da esquerda. O fato é que, muitos, teleguiados pura e simplesmente por uma aversão ao PT apostaram em Bolsonaro como uma alternativa mas ela vem se mostrando falha e incapaz de unir o país. Isso não se deve, como alguns pensam, a sua verve autoritária. Houve líderes autoritários até mais enfáticos que Jair que conseguiram unir nações em torno de um projeto pois souberam conciliar setores, coisa que Bolsonaro e sua campanha não conseguem. A direita liberal/conservadora apostou numa candidatura mambembe, inimiga dos pobres. A recente fala de Mourão, vice de Jair, sobre acabar com o décimo terceiro é mais uma revelação do que nos espera caso o 17 vença. Bolsonaro nunca ofereceu uma proposta para a classe trabalhadora a fim de que pudesse trazê-la para seu lado anulando o perigo do PT, que digamos, nunca esteve de fato compromissado com os mais pobres, se valendo de seu desespero para ofertar bolsas fajutas comprando as eleições com migalhas para depois leiloar o Brasil a poderes financeiros estrangeiros. E nunca ofereceu por que o núcleo da campanha Bolsonaro é composto por olavistas imbecilizados que enxergam comunismo em qualquer ação ou medida do Estado para assegurar o bem estar social, não compreendendo que foi exatamente o Welfare State que impediu que o ocidente caísse nas mãos do comunismo no pós crise de 29 e que o socialismo avançasse sobre a Europa Ocidental no pós Segunda Guerra. Seu discurso se limita a proposta de reduzir impostos para atender a classe produtiva, não mostrando nenhuma disposição em unir capital-trabalho. A candidatura Bolsonaro não se compromete com medidas trabalhistas - aliás exigidas pela doutrina social da Igreja - para o incremento do mercado de consumo e de nossa economia nacional. O script de uma derrota num hipotético segundo turno com Haddad está pronto. E a culpa será da própria direita que não soube dialogar com setores populares deixando-o livre para a ação de utopistas aproveitadores. 

Ainda é preciso que se diga que não há um voto católico óbvio nestas eleições. Se há pautas positivas em Bolsonaro - como rechaço a kit gay e a aborto, fim das demarcações de reservas indígenas que comprometem a exploração das riquezas minerais da Amazônia, etc - mesmo elas ficam severamente combalidas se levarmos em consideração a Geopolítica que o referido candidato pretende realizar, dando primazia a EUA - cujo ordenamento jurídico já permite a união gay em todos os estados do país - Israel - único país do Oriente Médio a ter paradas gays e cujo Estado financia o movimento gay- Europa - onde pulula a degeneração moral, o ateísmo, etc. A idéia de um candidato conservador capaz de enfrentar o lobby mundial em torno de pautas feministas, gays, anti-família só funciona de modo muito precário: sua geopolítica e seu projeto econômico impedem ao Brasil independência financeira para poder fazer frente a esta escalada do mal. Cabe lembrar o exemplo do Zimbabué e Uganda que tiveram severos problemas com perda de investimentos europeus e americanos, quando anunciaram leis anti-LGBT no país, tendo que se voltar para outros blocos de poder geopolítico a fim de compensar as perdas financeiras. Outrossim a política anti-trabalhista de Jair, na medida em que  pode precarizar a vida familiar dos mais pobres, acaba podendo ter como efeito, um aumento das taxas de abortos por conta do empobrecimento; quadros de violência também podem piorar já que um a miserabilização pode forçar os pais de família a buscarem "bicos" ficando mais tempo fora de casa deixando os filhos sob os cuidados da rua e da tv ou do tráfico de drogas (sabemos que um dos motivos mais decisivos para a violência é a falta de estrutura familiar). Logo, não há certezas de que seu governo vá ser mesmo uma barreira conservadora a degeneração dos costumes, podendo, até, alimentar o processo por vias indiretas. 

Em suma, o Brasil está numa encruzilhada da qual será bastante difícil escapar. Peçamos a Deus que ajude nossa pátria a se reerguer o que passa por recuperamos nossa identidade como nação a fim de fazermos frente ao colosso do internacionalismo inimigo de Deus que se veste de esquerda ou de direita para levar os povos a ruína. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

7 DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA OU SECESSÃO?




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Afinal, ficamos independentes em 7 de setembro? A versão oficial dos fatos diz que sim. Porém a questão é mais complexa. Antes de respondermos isso precisamos entender o que se passou no Brasil entre 1790 e 1822.

Em primeiro plano precisamos entender que a separação do Brasil de Portugal se dá através de um processo, em etapas. A primeira etapa envolveu a conjuração baiana e a inconfidência mineira que jogaram colonos contra a coroa. A segunda envolve a chegada da família real ao Brasil. Com a abertura dos portos em 1808, Dom João VI, príncipe regente, assegurou nossa liberdade econômica pondo fim ao exclusivo metropolitano, garantindo que os produtores do Brasil pudessem vender e comprar para quem considerassem mais conveniente. A vinda da corte régia para o Brasil atendia ao fim de proteger a coroa de um ataque napoleônico em face do não cumprimento do bloqueio continental decretado por Bonaparte. Fato é que em 1815 as guerras napoleônicas acabam com a derrota de Bonaparte. Mesmo assim Dom João VI decide permanecer no Brasil e elevar-nos a condição de reino unido a Portugal e Algarves. Ao que tudo indica havia um projeto de mudar a sede do Império Marítimo Português para o RJ, fortalecendo a posição de Portugal no Atlântico Sul e impedindo um processo de ruptura que já começava a se desenvolver nas colônias espanholas sob o influxo do interesse inglês.

A Inglaterra nesta época era a maior potência industrial e naval do mundo e a ela interessava abrir portos e mares para a livre circulação de suas mercadorias e ampliação de seus lucros. Ao mesmo tempo o congresso de Viena se realizava sob os auspícios da contra-revolução. Neste sentido é que nasce a Santa Aliança, acordo que envolvia a luta de países como Portugal, Espanha, Rússia, Áustria, contra a expansão dos ideais da revolução francesa e contra a independência da América. Foi a França via Talleyrand que estimulou Dom João VI a ficar no Brasil. O acordo foi feito no tratado de Viena e envolveu uma troca. A França apoiava a empresa de Dom João VI em manter sua corte no RJ e, em troca, recebia de volta a Guiana Francesa, conquistada pelo Brasil em 1809. Evidentemente isto não interessava aos ingleses. Daí que desde 1816/1817 as Lojas Maçônicas, no geral a soldo inglês, resolveram criar um clima para fazer voltar Dom João a Portugal e estimular a secessão do território brasileiro.

Tudo começou com o Areópago do Itambé, primeira organização maçônica do Brasil a se instalar em Pernambuco na área de Itambé em 1796. Como suspeitava da atividade maçônica em Itambé denúncias levaram maçons a fugir dali para o Recife. Em 1816 foi criada uma Loja no RJ: a Beneficência liderada pelo Conde de Paraty. Dom João VI tendo descoberto as atividades desta Loja em semear postulados iluministas que envolviam a idéia de uma contestação ao absolutismo, mandou fechá-la. No Alvará de 1818, Dom João VI, manda fechar todas as Lojas do Brasil e Portugal. Elementos maçons da Beneficência, Loja do RJ, junto com os remanescentes do Itambé, ajudaram a fundar a Grande Loja Provincial que já em 1816 começou a reunir clérigos, juízes, fazendeiros, comerciantes, para uma revolução que explodiria em 1817 e tentaria a separação de Pernambuco com a consequente criação de uma república maçônica no nordeste. No mesmo ano o maçom Domingos José Martins, comerciante que tinha negócios em Londres, voltou da Inglaterra pra liderar a revolução pernambucana. Ele havia jurado a Francisco Miranda, mestre maçom venezuelano que havia fundado a Loja Grande Reunião Americana em Londres, que lideraria a independência de Pernambuco. O movimento falhou e Dom João VI conseguiu manter o controle do Brasil mas em 1820 uma nova investida maçônica viria através da revolução do Porto.

A revolução do Porto queria recolonizar o Brasil e reduzir o poder de Dom João VI criando uma monarquia parlamentar, aos moldes liberais e maçônicos. Antes dela o general Gomes Freire, em 1817, já havia conspirado contra Dom João VI. Gomes era grão mestre maçom. Gomes Freire e outros conjurados maçons foram executados sob ordem do Rei. Mas isso não desanimou a maçonaria em Portugal, pois se reorganizou. Foi então que no Porto, o desembargador da Relação, Manuel Fernandes Tomás, fundou o chamado “Sinédrio”. Integrado por maçons, visava “afirmar” o Exército Português no país. Aproveitando a ausência de Beresford no Brasil, o Sinédrio cooptou militares que pudessem materializar o seu projeto revolucionário. O Sinédrio foi uma associação secreta para-maçônica, fundada no Porto em Janeiro de 1818, que interveio na organização da revolução liberal de 24 de Agosto de 1820. Os fundadores (todos maçons) foram, além de Fernandes Thomaz (pertenceu á Loja Fortaleza, à Loja Patriotismo), José Ferreira Borges (advogado, pertenceu à Loja 24 de Agosto), José da Silva Carvalho (advogado, juiz, Ministro da Justiça, da Fazenda e da Marinha, pertenceu à Loja 1º Outubro, Loja 15 de Outubro, foi Grão-Mestre do GOL, fundador do primeiro Supremo Conselho do Grau 33), assim como outros líderes maçônicos.

Ao mesmo tempo que isso acontecia no Porto e forçava a volta de Dom João VI a Portugal, aqui no Brasil, José Moncorvo organizava a Loja Comércio e Artes para preparar a “independência do Brasil”. Uma divisão na Loja Comércio e Artes se deu no que tange a forma de estado que o Brasil deveria assumir depois de independente, se seria republicana – linha defendida por Gonçalves Ledo – ou monárquica – linha de José Bonifácio. A posição de Ledo na maçonaria era mais forte pois Bonifácio só havia sido eleito Grão Mestre por uma necessidade política – organizar a separação do Brasil. A literatura maçônica é unânime em apontá-lo como “profano”, alguém sem iniciação mas que foi aceito na maçonaria por seu papel chave junto a Dom Pedro I, que havia ficado como príncipe do Brasil depois que o pai teve de voltar a Portugal para conter os revolucionários. A ascensão de Bonifácio era uma manobra de Ledo para atrair Dom Pedro I para a causa maçônica. Percebendo que a separação seria proclamada pela maçonaria de qualquer forma, o príncipe para poder fazer parte do movimento se iniciou na Loja Comércio e Artes em 2 de agosto de 1822. Ledo foi entendendo que a melhor forma de conduzir a separação era mantendo a monarquia dado que isso facilitaria a aceitação da mesma pelas casas dinásticas européias. Ademais fazer a independência com república seria não contar com Dom Pedro I como rei, porém ele tinha o apoio da Província do RJ e de SP e sem o apoio destas duas províncias dificilmente se faria a separação. Em 9 de setembro Ledo, na sessão do Grande Oriente Maçônico declarou Dom Pedro I como rei e defensor constitucional do Brasil no que foi seguido pelas demais lideranças maçônicas.

Em razão de todos estes fatos podemos inferir que o processo de nossa separação de Portugal não se tratou de uma independência legítima, dado que ela já havia acontecido em 1815 quando recebemos nossa liberdade política das maos de Dom João Vi pela elevação do Brasil a reino unido a Portugal. Antes sofremos uma secessão, fruto de uma conjura espúria para destruir o belo ideal de Dom João VI de uma união definitiva entre Portugal e Brasil e facilitar o crescente poder da Inglaterra sobre a América assim como da maçonaria. A maçonaria tencionava criar novos países títeres de seu poder e do poder de Londres. Infelizmente o objetivo foi alcançado. O que podemos fazer hoje, passados quase dois séculos? Reconstruir os laços é ideal quase irrealizável mas lutar contra a opressão maçônica sobre o Brasil é algo possível e necessário. Lutemos contra o Grande Oriente e veremos uma autêntica liberdade reinar sobre o Brasil, não a liberdade licenciosa da maçonaria mas a liberdade cristã.



Professor Rafael G. Queiroz. 


Bibliografia


ANDRADE, João. “A Revolução de 1820: a conspiração“. Porto Editora, 1983 

DURÃO, João Ferreira. Pequena história da maçonaria no Brasil. Madras, 2008.