
Senhores,
fomos lançados num terreno de incerteza e nela o caos é uma
realidade tangível. Por esta razão resolvi escrever sobre o que
pressinto em face aos acontecimentos recentes levando em conta
algumas perspectivas históricas e sob a guia do seguinte problema
lançado pela pandemia do Corona Vírus:
Estaríamos
à beira duma crise da civilização contemporânea e suas
instituições?
Não
sabemos ainda mas tudo isto que está a ocorrer tem enorme potencial
de levar-nos a um cenário desses por algumas razões;
- O
Corona nos expôs, pela primeira vez na história contemporânea, a
uma crise econômica que é, ao mesmo tempo, de oferta e demanda. As
crises de 1929/2008 foram crises de demanda. Agora temos uma crise
similar – guardadas as devidas proporções – àquela do fim do
Império Romano. No século III D.C. Roma já começa a experimentar
sinais de grave queda em sua economia desencadeadas, entre tantas
outras razões, por uma peste que matava, segundo relatos, cinco mil
por dia na capital. Tendo começado em torno de 240 D.C. nas
províncias do oriente, ela chegará no ocidente em torno de 251. Ao
reduzir mão de obra e quebrar a oferta e a demanda ao mesmo tempo, a
peste atingiu até mesmo os bárbaros do norte – godos – e os da
estepe russa – os citas. Isto desencadeou baixas no exército
romano – que se viu em apuros por conta dos ataques godos/citas (
em boa parte esses bárbaros buscavam novas zonas para saques a fim
de compensar as fugas de áreas contaminadas e mortes com a doença;
foi o caso dos saques Citas no Chipre e Creta ) - abrindo as prévias
da crise que Roma iria enfrentar no século IV/V D. C ligadas à fuga
de população para o campo, retração da produção urbana,
contração da demanda, inflação, incapacidade do estado em
investir em infra-estrutura, etc. Neste contexto o controle de
preços por Diocleciano, no começo do século IV D.C., gerou
escassez. Diminuiu a arrecadação, pois impulsionou o mercado negro.
Os que não recorriam ao mercado negro não vendiam, pois os preços
estavam desatualizados. Com isto a economia derreteu ainda mais,
ajudando a impulsionar a inflação. Membros da burocracia passaram
recorrer também ao mercado ilegal. Isto tudo dificultava na
arrecadação de impostos. Tal quadro fez Roma voltar a emitir moedas
para subornar os invasores, custear as alquebradas forças armadas,
evitar revoluções internas causadas por bárbaros, etc.
O
quadro que o Corona possibilita não é muito diferente pois temos
que considerar que se o combate ao mesmo não tiver sucesso poderemos
ter 3.5% de 50% da população mundial ( segundo estudos o Corona
teria o potencial de infectar de 40 a 70 por cento da população
mundial ) morrendo – levando em conta algumas perspectivas
matemáticas – o que significaria cerca de 100 milhões de pessoas!
Isto traria baixa da mão de obra em vários países, paralisia da
produção ( falta de oferta ), redução da demanda ( paralisia do
consumo em razão das quarentenas ) necessidade do estado em emitir
moeda para cobrir gastos correntes e extraordinários decorrentes da
crise gerada, controle de preços e salários para evitar inflação,
defasagem dos preços, mercado negro, dificuldades em recolher
impostos e financiar seus gastos, etc, o que nos faz recordar da conjuntura da queda de Roma.
-Um
segundo ponto a considerar é uma reflexão que a tese de Arnold
Toynbee nos oportuniza enquanto possível via para um prognóstico do
que virá; ela trata do desafio-resposta como conceito chave de
explicação da origem e desenvolvimento das civilizações,
mostrando-nos o homem como um animal racional que busca, a todo
custo, transcender a natureza por meio da vitória sobre o meio
ambiente. A tese suscita ricas possibilidades meta-históricas e
apresenta, como lei geral do nascimento de uma civilização, a
necessidade de um desafio – que não pode ser nem muito árduo e
nem muito fraco – que mobilize o espírito a dominar a natureza. Um
ambiente farto de recursos não é um desafio; um ambiente parco de
recursos constitui o lugar ideal para a civilização florescer; um
ambiente de recursos quase nulos – o deserto ou o gélido ártico –
é um desafio invencível e, portanto, inviabilizador da civilização.
Toynbee faz menção, inclusive, aos desafios a posteriori: se no
começo de uma civilização os problemas são mais relacionados à
conquista do meio ambiente natural, após este estágio, em
decorrência da complexificação social, surgem novos problemas mais
ligados a questões de ordem social, política, cultural, etc. O
sucesso de uma civilização vai ser determinado pela capacidade das
elites de serem criativas e não apenas meramente dominantes ( elites
que consigam resolver os novos problemas criando novas leis,
instituições, etc, e não apenas reprodutoras das antigas
instituições que não conseguem dar resposta adequada aos novos
desafios, agora de cunho interno). Pois é exatamente aqui que nos
achamos: tudo isto a que o Corona nos expôs é absolutamente novo em
termos de desafio. O capitalismo jamais passou por uma crise de
oferta/demanda ao mesmo tempo. Não existe receituário para
enfrentar isso em nenhum manual de história econômica ou de teoria
econômica. O exemplo mais parecido que temos deste cenário é o da
Queda de Roma mas dele não podemos tirar muitas lições já que as
medidas imperiais fracassaram e sobretudo por que estamos num cenário
de capitalismo avançado jamais visto outrora. Por outro lado não
temos para a hora nenhum sinal de elites criativas capazes de dar uma
resposta à crise. Todos os governos falharam em se antecipar a
epidemia e/ou a reagir a tempo, o que mostra a inépcia das elites e
líderes mundiais. Muitos sub-estimaram o potencial da mesma, ainda
que vivendo num mundo de intenso fluxo de pessoas – não era
previsível que um vírus deste porte iria percorrer o globo com
facilidade ante o contexto de integração que vivenciamos por conta
da globalização? Não
é o caso de explorar a questão duma culpa exclusiva da China – é
muito comum, em quadros de crise, elegerem um bode expiatório a fim
de tirar proveito da situação – mas sim de entender que todos –
mesmo os países ocidentais – demoraram em dar uma resposta mesmo
depois das notícias que chegavam da China desde 20 de janeiro de
2020, confirmando o Corona.
- Um
terceiro aspecto é o fato de que esta crise é nova e que nós não
temos nenhuma solução clara. Isto significará a destruição do
mundo liberal-globalizado? É a morte do liberalismo? Ou, antes,
significará a morte do Estado por asfixia com o colapso dos sistemas
de proteção social e de saúde? Cada partido torce pela sua causa.
Os que apostam no papel do Estado imaginam que esta crise vai provar
que ele é mais necessário do que muitos andavam pensando; para
esses o liberalismo está morto e enterrado agora; há, contudo, que
tomar em consideração que sem uma elite criativa os Estados não
vão conseguir vencer esse desafio. Não bastará os Estados tomarem
a rédea da economia, será preciso tornar essa rédea eficaz. Não
temos nada, no momento, que prove decisivamente que isso vai
acontecer. Então estamos expostos a possibilidade de que um
horizonte similar ao do fim de Roma nos acometa; uma nova “era
feudal” não é absolutamente impossível na medida em que poderes
centrais não conseguirem dar conta dos desafios pois um fato nos
parece bem claro: o de que estamos saindo dum mundo aberto para um
mundo fechado. Fronteiras fechadas parece ser o mote do que vem a
seguir. Fechadas mas que fronteiras? Fronteiras de estados nacionais
ou de poderes locais independentes ante a incapacidade dos Estados em
gerir a crise?
-Um
quarto ponto a pensar é que, como já dissemos num artigo nosso
sobre Ernesto Araújo:
“se
analisarmos as grandes crises históricas, notaremos que todas elas
terminaram por provocar uma concentração do poder nas mãos de um
líder mais ou menos autocrático: a Primeira Revolução inglesa
desaguou no poder pessoal de Cromwell; a Revolução Francesa,
naquele de Robespierre e, sobretudo, anos depois, no de Napoleão; o
resultado da revolução dos escravos negros de Santo Domingo foi a
ditadura militar, primeiro, de Toussaint Louverture, e mais tarde de
Dessalines; a Revolução Liberal na França de 1848 levou ao poder
pessoal de Luís Bonaparte ou Napoleão III... No que se refere ao
período entre as duas grandes guerras mundiais do século XX, são
inúmeras as crises que culminaram na instauração de uma ditadura
pessoal.”- In: Queiroz, Rafael. 9
razões por que Ernesto Araújo é um inepto que não conhece
história.
catolicidadetradit.blogspot.com/2019/05/9-razoes-por-que-ernesto-araujo-e-um.html
Isto
nos leva diretamente à conclusão de que uma nova era autocrática
poderia estar nascendo. As medidas draconianas dalguns líderes
apontam para isto. Noto, sobretudo, a atitude impressionante de
Vladimir Putin ao fechar a imensa fronteira russa, ato sem
precedentes. Que forma essa autocracia vai tomar não sabemos.
Monarquias centrais? Ditaduras Nacionais? Caudilhismos localistas?
-
Por fim gostaria de recordar que a crise trazida pelo Corona expôs a
fraqueza dos sistemas liberais constitucionais em dar, aos líderes
políticos, os mecanismos necessários para uma ação consequente,
rápida e eficaz de combate a uma epidemia. O Brasil é o melhor
exemplo disso quando vemos o governo federal e os governos estaduais
se desentendendo muito pela falta duma coordenação centralista das
providências indispensáveis para proteger todo o país. Num âmbito
de liberdades individuais e de debate parlamentar uma solução
rápida para uma crise repentina é praticamente inviável dadas as
impossibilidades da tomada de medidas de força imediatas. Como dizia
Codreanu, “A democracia não pode governar com autoridade, já que
ela não pode forçar suas decisões”. Esta crise nos ensina que
mecanismos futuros precisarão ser criados para que a liberdade não
seja colocada acima da segurança e da vida – sem as quais nenhuma
liberdade existe e é possível.
A
crise em tela expõe, inclusive, o materialismo do sistema
capitalista ocidental e do socialismo de mercado chinês – morosos
em fechar fronteiras e reduzir o comércio ante as primeiras
possibilidades de risco a saúde, o que deixou patente que a vida
humana foi colocada em segundo lugar em prol do deus dinheiro – bem
caracterizados pelas tergiversações do PC chinês, de Trump, do
governo italiano e, inclusive, do governo Bolsonaro em reconhecer a
gravidade da situação.
Muito bom artigo..Deus nos guarde dessa Pandemia que asola o Mundo..
ResponderExcluir👍👍👍👍👍
ResponderExcluirQuantas incertezas e amarguras!Que Deus tenha misericórdia do mundo inteiro!Nunca uma Quaresma mostrou tanto a nossa pequenez,que somos pó e ao pó retornaremos!Parabéns,Rafael,pela sua análise profunda dessa catástrofe!
ResponderExcluirVc tá doido, Rafael? 100 milhões de pessoas? rsrs Mas nem a pau! sabe quantas pessoas morreram de coronavirus (segundo dados oficiais) nas 3 regiões mais afetadas da Itália e q representam 84% do total de óbitos desse país relativos ao vírus chinês? 4500 pessoas, eis o número. Em termos percentuais, sabe o q isso significa? Tome: 0,024% da população dessas regiões. Não é um número ridículo? e veja q estou sendo generoso de aceitar que todas essas 4500 mortes foram provocadas pelo coronavirus (o q é muito improvável e contestado até oficialmente na própria Itália). Sabe quanto é 0,024% da população mundial? 1 milhão e 800 mil... Esse é basicamente o teto, disso dificilmente passará; e se considerarmos q essa região da Itália é especialmente idosa, e portantomais vulnerável a vírus desse tipo, pode-se dizer q o percentual mundial de mortes por coronavirus (se assim quiser chamar-se) será bem inferior ao italiano, de modo q ñ é o colapso de uma era, mas a prova da mais ardilosa obra de manipulação psicológica q o homem já conheceu... Aliás, para vc ter uma ideia, este ano provavelmente a tuberculose vai matar bem mais q o coronavirus (e talvez a gripe comum também). Enfim, é terrível como os donos do mundo têm a humanidade inteira e, se lhes aprouver, podem fazer com ela tudo o que quiserem...
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