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| Um canalha disfarçado de católico: ei-lo! Sr. Thomas Woods, o herege defensor de Mises.
Nos
últimos anos temos visto idéias liberais e anarcapitalistas sendo
espalhadas na seara católica por certos pensadores e escritores cujo
objetivo é claro: capitanear a fidelidade dos cristãos para
projetos ideológicos/políticos que se afastam do verdadeiro
espírito do evangelho.
Entre
tais pensadores se destaca a figura de Thomas Woods, um escritor
estadunidense compromissado com a defesa do modelo de civilização
americana onde a liberdade – no seu sentido moderno - é tida em
grande conta e vista
como
fim supremo. Woods teve, recentemente, um artigo publicado pelo site
do Mises Brasil, organismo dedicado a defensa da escola austríaca de
economia de caráter ultraliberal. O artigo se encontra aqui:
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1548
O
texto em questão é uma suma de erros e de acusações contra a
Doutrina Social da Igreja. Cumpre, portanto, refutá-lo.
Para
isto faz-se necessário entender sobre que premissas o sr. Woods se
assenta para defender a escola austríaca contra a Doutrina Social da
Igreja. Segundo o sr. Woods
“o
pensamento católico enfatiza a razão e sua capacidade de
descortinar uma ordem no universo que seria obra do Criador”
Ainda
segundo Woods alguns escolásticos viam o livre mercado como uma
expressão desta harmonia natural criada por Deus e capaz de ser
verificada na ordem natural e física. Logo, segundo Woods, seria
perfeitamente viável uma conciliação de livre mercado e pensamento
católico. Partindo do pressuposto de que as coisas tem propósitos
que foram estipulados por Deus, não caberia ao homem mudar, por
exemplo o propósito reprodutório do sexo, para usá-lo apenas como
meio de prazer. Não cabe ao homem mudar o propósito das coisas
segundo sua vontade arbitrária. Daí Woods concebe que o livre
mercado tenha suas leis próprias – a velha lenga lenga liberal,
que vem de Adam Smith, de que a economia seria regida por leis
naturais e eternas, - e que não cabe ao homem ou ao Estado, ou mesmo
a Igreja interferir em seu funcionamento, pois isso redundaria numa
quebra da ordem natural estabelecida por Deus.
Este
é o cerne da tese de Woods. A premissa e a conclusão são
perfeitamente harmônicas mas o problema e que elas partem de falsos
princípios e cabe mostrar por que.
É
falso dizer que a economia é regida por leis naturais como a física
é regida pela lei da gravidade; as leis econômicas não são leis
físicas. Ora, era exatamente deste modo que os economistas clássicos
– Quesnay, Smith, Ricardo – a enxergavam: como um conjunto de
“leis” férreas impostas pela natureza da atividade econômica;
partindo daí todos eles naturalizavam a lei de oferta e procura, a
idéia de preço natural, entre outras, como verdades eternas da
economia.
Todavia,
trabalhos como o de Karl Polanyi provaram que tais leis não se
achavam em outras sociedades humanas. Para Polanyi, embora mercados
sempre tenham existido, foi só no século XIX que se transformaram
no princípio organizador da sociedade, emergindo das relações
sociais onde, anteriormente, estavam submersos. Logo, antes do século
19, o mercado autoregulável inexistia. Inexistia a lei de oferta e
procura como “regra eterna” da economia. Para que a lei de oferta
e procura passasse a vigorar foi preciso destruir a ordem social
tradicional. Até o período feudal, a ordem na produção e
distribuição era garantida por três princípios:
-
Reciprocidade ( as trocas devem se basear na comutação, quer dizer,
na igualdade de valor; a idéia da busca do lucro, como fim último
da atividade econômica, era inexistente)
-
redistribuição ( o excedente é redistribuído pelo poder político
feudal aos servos; a produção visa amealhar para atender ao bem
comum)
-
domesticidade ( a produção não visa um mercado mas as necessidades
familiares ou comunitárias)
Esses
princípios vinham ao encontro de três padrões correspondentes:
simetria, centralização e autarquia (autosubsistência).
No
medievo o comércio local sempre foi uma instituição cercada de
salvaguardas para proteger seus limites. Nessa época, as relações
de troca eram apenas uma das muitas relações sociais e obedeciam as
mesmas regras morais impostas a todas. Ora, as cidades medievais eram
cercadas por medidas auto-protetoras e regulamentações que
atingiam, também, o mercado de bens locais. Esta instituição só
se liberou dos laços protetores, não através de uma evolução
natural, mas sob a ação direta e deliberada do Estado que, nos
séculos XV e XVI, impôs às cidades o sistema mercantil, eliminando
a separação entre os dois comércios ( o local e o interno,
portanto nacional). Estas instituições perderam, então, seu
aspecto complementar e se tornaram competitivas dentro de um mercado
agora nacional.
Logo
o mercado livre não é uma lei natural mas uma invenção política
da modernidade gestada por grupos ligados à realeza e às
burguesias. O mercado foi uma ruptura com a história econômica da
humanidade pois inventou a noção de que o trabalho, a terra e a
moeda eram “mercadorias”, idéia esta estranha a todas as
economias até então existentes na história humana. Ora para se
falar de lei eterna e natural da economia seria preciso que fosse
possível generalizar normas como oferta e procura ou preço natural,
a partir das experiências econômicas particulares de cada época.
Porém jamais uma “lei de oferta e procura” existiu para a terra
ou o trabalho em qualquer civilização tradicional, antiga ou
medieval. Por cerca de seis mil anos, terra, trabalho e moeda fugiam
a considerações de mercado. Foi só com o capitalismo liberal do
século 18-19 que ela emergiu, fruto de políticas, ou seja da
vontade arbitrária de agentes econômicos/políticos. Mas Woods não
alega que mudar a ordem das coisas atenta contra o propósito divino?
Quem fez isso foram exatamente os economistas liberais e clássicos
que ele admira, pois com suas teorias jogaram por terra uma ordem
econômica de seis mil anos.
Percebam
que as definições de mercadoria, que é algo produzido para a
venda, mudaram com o advento do capitalismo liberal; e nenhum desses
três fatores ( terra, trabalho e moeda não são produtos pois não
visam o consumo; moeda não se consome mas se usa como meio de troca)
o são, logo eles não podem ser mercadoria reais pelo simples fato
de que isso é impossível. Essa impossibilidade se torna evidente,
para Polanyi quando ele lembra que
“...
o trabalho e a terra nada
mais são do que os próprios seres humanos dos quais se constituem
todas as sociedades, e o ambiente natural no qual elas existem.
Incluí-los no mecanismo de mercado significa subordinar a substância
da própria sociedade às leis de mercado”.
Logo
fica demonstrado que:
1-
Não existem leis físicas da economia, ou seja, regras que emanariam
da própria imanência natural da atividade econômica como normas
das quais o homem não pode escapar.
2-
A idéia de livre mercado é uma utopia liberal na medida em que
rompe com as práticas tradicionais e suas considerações sobre
justiça comutativa, regateio, terra, trabalho como não vendáveis
em termos de mercadoria, sobre moeda como mero meio de troca, etc.
Uma utopia que quer romper com a ordem moral que sempre regulou a
economia.
3-
O mercado é uma invenção do estado moderno e não fruto de
evolução espontânea. Sem que o estado moderno tivesse derrubado as
barreiras tradicionais das cidades medievais quanto à concorrência
e produção não haveria surgido o mercado nacional nem o
internacional.
4-As
únicas “leis” da economia não são leis físicas, mas regras
morais apropriadas a regular a atividade humana; a economia como
atividade de troca entre pessoas deve ter como base uma ética que
estabeleça a justiça no âmbito destas relações.
Woods
segue sua imensa lista de falácias alegando que Juan de Lugo, um
escolástico, considerou que
“o
equilíbrio do preço” era impossível de ser conhecido ou
determinado por um poder qualquer dado que isto envolveria tantas
circunstâncias que só Deus poderia conhecer todas elas”.
Lugo,
percebam, já raciocina no contexto da era do mercantilismo moderno
onde as barreiras protetivas das cidades quanto ao comércio já
haviam caído. O “equilíbrio do preço”, aquilo que os liberais
e austríacos chamam de preço natural, seria o perfeito espelhamento
da oferta e da procura no valor do produto; para Lugo como eram
muitas as instâncias envolvidas na determinação do preço era
incognoscível estipulá-lo por uma medida estatal ou eclesiástica;
assim a noção aristotélica e católica de “preço justo” devia
ser abandonada. O justo preço seria o preço de mercado e mais nada.
A noção de Lugo preparou a via para a teoria do preço natural de
Smith, segundo o qual, o “deus mercado” - único capaz de
conhecer este preço justo – o estabeleceria espontaneamente, desde
que o Estado não interferisse na determinação do mesmo, ou que a
Igreja não sentenciasse um preço justo para as mercadorias. Woods
vai asseverar que este “deus mercado” nada mais seria que a
Providência Divina! Woods vai mais longe em sua loucura e alega que
“os iluministas” como Smith e demais economistas liberais viam os
fenômenos naturais como “decretos da providência”. O erro de
Woods consiste no seguinte:
1-
A idéia de que o preço natural é impossível de determinar a não
ser pelo “mercado providência”, abre caminho para aquilo que é
a essência do liberalismo: o lucro desmedido através da
especulação. Como o preço natural é incognoscível ao vendedor ou
comprador tomado em particular, abre-se a via para a aposta na
superestimação do valor. Um valor superestimado garante à
burguesia industrial nascente, uma fonte de lucro desmesurado e um
acúmulo excessivo de capital. Ademais a tese de Smith e Woods de que
o mercado regularia, espontaneamente, o valor, é falsa. A práxis do
capitalismo real o prova. Smith e seus discípulos liberais
consideram a natureza humana desde uma visão otimista onde não tem
lugar a noção de pecado original. Neste sentido as naturais
maquinações humanas para auferir vantagens e ganhos majorados são
desconsideradas no plano econômico. A tendência natural do
capitalismo a formar cartéis para aumentar preços e dividir o
mercado não são levados em conta. O mercado de carros no Brasil é
um bom exemplo: por mais baixas que a demanda por carro sofra, os
preços se mantém estáveis. Nesta crise que o país atravessa desde
2014 o preço do carro 1.0 é o mesmo em toda concessionária: em
torno dos 40 mil reais; mesmo com menos compradores dispostos a
enveredar num carro zero km desde 2014, o preço se mantém,
estranhamente, estável.
2-
Os iluministas não consideravam providência alguma: a maioria deles
era deísta, ou seja, acreditava em um “deus-natureza” onde as
forças materiais em sua imanência eram vistas como expressão da
divindade; os deístas concebem Deus como mero princípio intelectual
que teria ordenado o mundo mas deixado o mesmo caminhar a sua própria
sorte (Providência, em sentido católico significa que Deus é um
ser pessoal que cuida da sua obra conduzindo-a para um fim); nesta
concepção os instintos naturais são encarados como bons em si
mesmo. Por exemplo, a vontade de lucrar não deve, dentro desta
cosmovisão, ser regulada pois, dada sua espontaneidade natural,
precisa ter livre curso.
3-Considerar
que a mão do mercado equivaleria a de Deus, dentro do pensamento
liberal, é um erro grotesco de Woods. Quesnay e Smith entendiam a
“mão invisível” como somatório dos interesses individuais. A
“ordem” econômica nasce espontânea da imanência e do cálculo
racional de ganhos e perdas, nasce da vontade dos indivíduos. Não
nasce de um decreto da providência. A mão invisível é a harmonia
natural dos interesses opostos. Da contradição nasce a unidade. O
mercado é uma soma de meras vontades humanas. Nenhum economista
clássico ou austríaco considerou a providência divina na
formulação da tese da mão invisível. Os liberais políticos vão
dizer que o Estado e o poder do rei não vem de um direito divino;
daí dirão que o poder vem de baixo, do homem, de sua vontade e do
pacto social: a lei vem da maioria. Os liberais econômicos alegarão
que a economia não se pauta em leis morais vindas de Deus mas sim no
cálculo meramente natural e humano: as leis econômicas não podem
ser leis morais mas apenas leis materiais.
Para
defender seu ponto de vista Woods mente descaradamente sobre a
Doutrina Social da Igreja. Primeiro ele negativa a DSI ao dizer que,
se ela exige intervenções no campo econômico, ela impede que a mão
de Deus – a mão invisível do mercado – ordene as coisas. O
pecado máximo da DSI, segundo Woods, é não aceitar que o mercado
seja livre de qualquer intervenção. Os papas teriam errado pois
quiseram opor a ordem natural colocada por Deus na economia, a uma
lista de recomendações morais regulando a ação econômica.
Woods
entende que a Rerum Novarum concebe que a “vontade humana” é
suficiente para resolver questões econômicas. O maquiavelismo de
Woods fica notório aqui. Quem sempre considerou a vontade humana
como base da economia foram os liberais e austríacos – a estimação
livre da vontade dos indivíduos em torno do valor dos bens, a soma
dos interesses voluntários de cada pessoa é a “mão invisível do
mercado – e não a Igreja. Ela, ao inverso, concebe que a vontade
de ganho deve ser regulada por razões e leis morais que vem de Deus.
A economia tem suas leis mas elas são morais e não “físicas”.
Entre estas leis temos:
-Justiça
comutativa
-Regateio
-Preço
Justo
-Bem
comum
Logo
a DSI não nega a existência de “leis econômicas”: ela nega que
tais leis sejam as que nascem da vontade imanente dos sujeitos; as
“leis econômicas” são as leis morais eternas aplicadas ao campo
da produção das riquezas; a riqueza, na escala de valores, é um
bem inferior a virtude. Sua produção e circulação deve ser
vigiada de forma a estabelecer a justiça; ocorre que, no mundo
moderno, a produção de bens está ordenada, apenas, a atender a
tríplice concupiscência, fruto do pecado original.
Woods
afirma que
“a
tradição intelectual católica consiste em adequar as ações à
realidade”
Mas
o que é a realidade? Mais uma vez Woods insiste na superstição de
que as tendências da economia liberal sejam leis da realidade e não
convenções úteis para atender a vontade de ganho desmesurado do
homem moderno. Na mesma linha Woods faz a assertiva de que os
seguidores da DSI pretendem “obrigar a realidade ser o que não
pode ser”. Não sr. Woods: a DSI se funda na moral que decorre do
Evangelho de Cristo e nos mandamentos. Os seguidores da DSI é que,
na verdade, repudiam o desejo como fonte da ordem da realidade,
colocando o acento na lei moral: esta lei é que consiste na
realidade da vida econômica pois as ações humanas tem um caráter
moral. Se a economia não opera, agora, dentro destas leis morais é
só por que a natureza humana se tornou desordenada por causa do
pecado. E a noção católica de desordem consiste em considerar toda
realidade humana sob o prisma dos mandamentos; ora a economia é uma
realidade humana, também ela sujeita a vigência dos mandamentos.
Woods
para tentar se sair da acusação de que estaria quebrando as tábuas
da lei divina, ao advogar um puro liberalismo, vai alegar que “A
DSI é contestável pois insere princípios morais nem sempre
possíveis”. O senhor Woods tem certa razão: os postulados da DSI
só são possíveis se a sociedade se converter. A DSI insta patrões
e empregados a observarem a moral cristã para que se dê um
ajustamento das relações econômicas. Todavia é exatamente por
isso que a DSI não é contestável pois ela nasce da percepção dos
papas de que havia uma questão social, nascida de desequilíbrios
injustos provocados pela aplicação dos princípios liberais na
sociedade e na economia, questão esta explorada pelos socialistas.
Os princípios morais elencados pela DSI nem sempre são aplicáveis
por conta da corrupção dos costumes provocada pelo contágio do
pecado da avareza no mundo da economia; sendo a ação econômica um
fenômeno moral, cabe a Igreja dar os antídotos a desordem
provocada pela presença do erro e do mal no campo da produção.
Tomar o fato econômico como algo neutro em termos morais é o cerne
dos erros de Woods.
Partindo
destas alegações espúrias, Woods considera que a DSI legitima a
intervenção estatal na linha de leis antiTruste ( Ora o que é um
Truste senão uma forma de monopólio? É sério que o sr. Woods
defende monopólio? Mas isso não iria contra a teoria liberal de
que, quanto mais livre o mercado, menos monopólio? Não é o estado
que cria os monopólios segundo alguns austríacos? Woods, no
entanto, parece dizer que o mercado os gera e que, caso os gere, o
estado não poderá dissolvê-los, para bem da economia), aumento do
salário mínimo, impostos, regulamentos, etc, o que seria ilegítimo
pois impediria o aumento da prosperidade (com salários mais altos o
patrão empregaria menos pessoas, segundo Woods). Como o fito da
economia é o incremento da prosperidade isto seria um pecado
inominável da DSI. Ao mesmo tempo Woods cita artigos do Instituto
Mises que supostamente provariam que, mesmo sem um salário mínimo
imposto pelo estado regulador, o mercado trabalharia com um mínimo
salarial abaixo do qual seria impossível contratar. Toda a
argumentação é montada para demonstrar que os adeptos da escola
austríaca estão certos enquanto que os defensores da DSI não
passariam de idiotas completos. Nada mais falso. Explicamos:
1-
Primeiro, é necessário compreender que os austríacos alegam que o
trabalho não gera valor mas somente o mercado;
2-
Segundo, cabe lembrar que todos os austríacos defendem medidas de
enxugamento salarial o que passa por eliminação das leis do
trabalho e do salário mínimo, permitindo assim a queda do valor que
se paga a um empregado. Para tais economistas esta panacéia traria
mais empregos.
Quanto
ao ponto 1 se é verdade que o trabalho não gera valor, por que
reduzir salários? Se eles não afetam o valor do produto,
encarecendo-o, por que defender medidas de austeridade em termos de
legislação trabalhista, ou mesmo sua eliminação? Logo admite-se,
implicitamente, que trabalho gera valor.
Quanto
ao ponto 2 o fato é que, neste contexto nada poderia impedir que o
mercado pagasse um salário muito baixo a ponto de forçar as pessoas
a rebaixarem, drasticamente, o nível de vida. A tese de que o
mercado jamais pagaria menos do que o “necessário” para a
subsistência do empregado é problemática por duas razões:
-
A primeira, que o nível de subsistência pode ser levado ao extremo.
Os fatos ocorridos durante a primeira fase da revolução industrial
provam isso. O “necessário” sempre pode ser menos amanhã do que
é hoje a fim de atender os ditames da produção e do capital
desvinculado de leis morais.
-A
segunda que, em tempos de crise, a pressão pela sobrevivência
levará os desempregados a se sujeitarem a quaisquer condições de
salário e trabalho. Num tempo de prosperidade seria possível
admitir que o mercado, deixado livre, pagasse um salário razoável
ao trabalhador dada a possibilidade do mesmo de recusar uma oferta
absurdamente baixa, coisa impossível em tempos de crise. Para isso
servem medida como salário mínimo.
Outrossim
um regime de ausência de salários mínimos já existiu: no século
19 a economia capitalista ocidental viveu várias crises cíclicas
por conta da falta de expansão do mercado consumidor no mesmo ritmo
em que a produção crescia, justamente por falta de políticas de
renda mínima que poderiam incrementar um aumento do poder de compra,
ampliando o mercado de consumo que poderia, aí, absorver a produção.
O efeito disso foi que os países capitalistas europeus tiveram que
realocar seu capital excedente na África e Ásia, no que ficou
conhecido como neocolonialismo, a fim de manter a engrenagem
capitalista funcionando. Enquanto o século 19 assistiu uma crise a
cada dez anos, o século 20 – que viu a implementação do salário
mínimo - teve apenas duas crises do capitalismo, das quais
sobreviveu sem precisar de novos processos colonizadores. O salário
mínimo assegurou o aumento do mercado de consumo, puxando a produção
e a prosperidade; uma politica de austeridade e redução salarial
pode ser algo adotado como emergência, em casos específicos, mas
não é uma solução consequente para fazer a economia crescer pois
isso exige capitalização o que só pode acontecer se os patrões
aceitarem lucrar menos a fim de que o trabalhador forme poupança e
assim possa consumir. A concentração excessiva de capital, no pólo
empresarial, seria o efeito da não existência do salário mínimo o
que nos faria voltar ao contexto do século 19 o que traria um
bloqueio ao crescimento do poder de consumo. Mesmo levando em conta
somente o aspecto econômico, Woods e os austríacos erram neste
aspecto como fica claro acima.
Por
fim Woods lamenta que a DSI tenha orientado Paulo VI a estimular os
países ricos a financiar desenvolvimento na África da década de
60/70; para Woods a iniciativa resultou num grande fracasso pois
acabou financiando regimes despóticos, o que seria a prova cabal de
que a Populorum Progressio de Paulo VI e seu apelo político estava
errada. Woods então, compara os países africanos com Chile, Coréia
do Sul, Hong Kong – que cresceram depois de terem a ajuda
internacional cortada - para mostrar que a Doutrina Social não pode
conduzir a resultados econômicos. O que Woods não considera é que
a Coréia do Sul cresceu aceleradamente graças ao modelo dos
Chaebols, monopólios criados e conduzidos pelo estado interventor,
quer dizer, mega empresas protegidas pelo estado coreano que deram ao
país condições de competir no mercado internacional; a Coréia
adotou o modelo do protecionismo. Em suma: a Coréia se desenvolveu
aplicando os pressupostos opostos aos da escola austríaca e de
Mises, pressupostos defendidos por Woods!
Já
Hong Kong está longe de ser um paraíso como quer fazer parecer
Woods e seus colegas do Instituto Mises. Hong Kong tem o mercado
imobiliário mais caro do mundo. Um cidadão comum não tem meios de
viver em Hong Kong pagando aluguel. A maior parte deles compartilha
casas de 50 metros quadrados com vários familiares, as chamadas
“casas jaulas”. Eis o modelo defendido por Woods.
O
patife ainda tem o descaramento de dizer que
“baseando-se
nessa tese errônea que Paulo VI condenou o livre comércio, negando
que este fosse um caminho para a prosperidade do mundo em
desenvolvimento”.
Ora
os EUA, Alemanha, Inglaterra, França, tornaram-se países ricos no
século 19 fazendo protecionismo ao invés de abrir fronteiras – Os
EUA no século 19, por exemplo, forçou a abertura do Japão usando
sua marinha de guerra enquanto manteve seu mercado fechado a influxos
estrangeiros. A tese de Paulo VI não estava errada: a história
prova que não. Se livre comércio trouxesse progresso econômico
contínuo e fim da pobreza, depois de mais de 20 anos de mundo
globalizado, desde a queda do Muro de Berlim, teríamos visto um boom
econômico nos países mais pobres o que, evidentemente, não
aconteceu.
Para
finalizar vejamos duas assertivas de Woods e como elas não podem ser
levadas a sério; primeiro ele diz que:
“infalibilidade
papal é válida para questões de moral e fé, e não para questões
econômicas. Um católico não deve negar a autoridade moral do
Papa, mas ele também não tem de levar a ferro e fogo toda e
qualquer recomendação econômica da Santa Sé.”
Os
liberais fazem uso frequente deste sofisma: a DSI é doutrina
econômica; a Igreja não é infalível em matéria de ciência
econômica, logo a DSI não exige assentimento da razão. O sofisma é
velho: vem da renascença e do iluminismo e consiste em dizer que a
Igreja não pode se meter em discussões científicas mas apenas se
ater ao plano da “salvação da alma”.
Porém
é preciso dizer que a teologia católica tem por objeto Deus e Deus
revelado. Ora, a teologia é a ciência mater, aquela que estuda os
mais altos princípios do ser, pois lida com o Ser Em Si (Deus, fonte
de todo o ser) em cima do qual se funda a realidade – dado que ela
foi criada por este Deus revelado. Logo é natural que a Igreja
pontifique também em matéria científica quando isso afeta a
questão da relação entre Deus e os homens ou entre os homens e
seus semelhantes, ou quando uma doutrina diga respeito a uma
cosmovisão geral do mundo que possa comprometer a fé no Deus
criador (O caso Galileu é bem significativo a este respeito). A
Doutrina Social da Igreja não é doutrina econômica mas doutrina
teológica que deduz, das verdades de fé e moral, postulados de ação
econômica dado que economia é ação humana e ação humana deve
estar plantada em leis morais. A alegação de Woods é uma falsidade
que visa desnortear os católicos e lançar desconfiança e confusão
sobre ensinos papais sérios e fundados na revelação e que exigem
assentimento. Não existe liberdade quanto aos princípios da DSI. Um
“católico” que defenda isto não passa de um liberal, de um
negador do poder do magistério de pontificar sobre os mais diversos
assuntos que tenham relação direta ou indireta com salvação
eterna e com a melhor ordem social possível para favorecer a
redenção dos homens. E isso também envolve aspectos econômicos.
Woods
continua sua patifaria alegando que
“Ninguém
que conheça a evolução do pensamento econômico dos membros da
igreja ao longo dos séculos ousaria afirmar que há apenas uma visão
que constitui a "visão católica da economia"
Woods
confunde, deliberadamente a opinião de teólogos escolásticos com
encíclicas papais. A posição de teólogos escolásticos sobre
quaisquer assuntos não são o parecer da Igreja. O teólogo pode
propor vias e auxiliar o Magistério mas não o substitui nem se
coloca no mesmo patamar dele. Variedade de opiniões na teologia
escolástica sobre economia não autoriza que um católico admita que
o trabalho humano – como bem mostrou João Paulo II na Laborens
Exercens – seja pago com base apenas na lei de oferta e procura,
como defendem os austríacos. Em certos temas não há liberdade de
discussão.
Woods
continua sua lista de loucura e blasfêmias dizendo que
“Contra
aqueles que sugerem que um católico deve abordar assuntos econômicos
de apenas uma maneira, o professor Daniel Villey nos lembra que "a
teologia católica não exclui o pluralismo de opiniões a respeito
de assuntos profanos"
De
facto: pode haver pluralismo quando o Magistério não se pronuncia.
Não é o caso de certos assuntos econômicos já abordados pela DSI.
Woods
ainda diz que
“Católicos
austríacos não dizem que "a nossa ciência econômica é a
única católica"; apenas dizemos que aquilo que defendemos e
ensinamos não apenas não vai contra o catolicismo tradicional, como
na verdade é profundamente compatível com ele”.
Como
a escola austríaca poderia estar em consonância com o catolicismo
se Rothbard defendia o direito de pais venderem seus filhos (Para
quem duvida de que Murray Rothbard, membro da escola austríaca,
defendia isso, aí vai -
http://rothbardbrasil.com/a-etica-da-liberdade-18/)?
Se
Mises dizia que o Evangelho de Jesus Cristo era um manual de
socialismo?
Se
austríacos não admitem controle governamental sobre juros abusivos
( nunca existem juros abusivos segundo os austríacos)? Se austríacos
renegam a noção de preço justo, defendida por todos os papas?
Se
austríacos acreditam numa ordem espontânea harmônica nascendo,
unicamente, das relações de troca (se isso não é negação do
pecado original e a doutrina iluminista do otimismo quanto a natureza
humana o que falta para ser?)?
Enfim,
o senhor Woods é uma farsa como o é o Instituto Mises. Os católicos
devem manter guarda contra as idéias nefastas vindas dele.
|
"Amados não creias em todo o espírito , mas provais se os espíritos são de Deus pois muitos falsos profetas se tem levantado no mundo"-1 João 4, 1.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Woods e suas calúnias contra a Doutrina Social da Igreja: refutando a heresia austríaca!
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Padre Ivo permite culto a orixás em Igreja de Nova Iguaçu/RJ (Assine o abaixo assinado!)
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| Padre Ivo Gomes, sacerdote de Nova Iguaçu. |
A Diocese de Nova Iguaçu continua seu descaminho no rumo da heresia do diálogo inter-religioso onde Cristo, única verdade, é relativizada em nome da tolerância, da "paz" e do "respeito" a cultos demoníacos.
Desta vez a Comunidade do Sagrado Coração de Jesus em Geneciano, Nova Iguaçu, foi a escolhida para ser profanada por adoradores de deuses falsos. Não bastasse o fato de lavarem as escadarias da Igreja ainda tiveram acesso a nave do templo onde fizeram rituais e invocaram seus orixás, com a anuência do Padre Ivo Gomes.
O padre em questão agiu contrariamente a missão recebida de Nosso Senhor Jesus Cristo. A função sacerdotal do padre é a de ensinar que Jesus é a única via de salvação e zelar para que os fiéis de Cristo se mantenham na verdadeira doutrina. Ao receber praticantes do candomblé em sua Comunidade, ele ofendeu a Deus e conspurcou seu sacerdócio, manchando-o com a aprovação de rituais macabros de invocação a anjos decaídos dado que os orixás nada mais são do que diabos, como bem ensina Santo Agostinho: "os deuses pagãos são demônios".
O sacerdote em questão diz que, o que une umbandistas e católicos é maior do que as diferenças que separam - heresia do indiferentismo religioso - que "o axé e a graça" são a mesma coisa - axé, no candomblé é a força do orixá; a graça, na teologia cristã é o poder salvador de Deus; não é possível que sejam a mesma coisa: na teologia católica a graça é produto da morte redentora do Filho de Deus na cruz; os umbandistas ou praticantes do candomblé não creem em pecado ou redenção, tampouco no caráter salvador de Jesus. Padre Ivo escorrega para o terreno da insanidade e do absurdo teológico ( A partir do minuto 5:50 https://www.facebook.com/odebabaomyn/videos/1914114275297910/)
Ao longo do vídeo que pode ser visto no link acima, fica claro que os adoradores de orixás entram fazendo cantos em Iorubá em honra a seus deuses pagãos.
O Pe. Ivo ainda alega que "não faz sincretismo" mas que respeito o sagrado que há em outras religiões ( Minuto 7:30 a 8:00) e que a união das religiões é que vai trazer a paz ( Não é mais Cristo, o príncipe da paz, quem a trará).
O referido sacerdote recaiu no pecado contra o primeiro mandamento pois cometeu sacrilégio. O Catecismo disciplina que:
"§2120 O sacrilégio consiste em profanar ou tratar indignamente os sacramentos e as outras ações litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e OS LUGARES CONSAGRADOS A DEUS. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando cometido contra a Eucaristia, pois neste sacramento o próprio Corpo de Cristo se nos torna substancialmente presente."
A permissão a que cultores da religião iorubá adorem seus orixás em um templo católico, consiste em profanar um lugar santo. É sacrilégio.
A fim de que a honra devida a Deus seja reconhecida, estamos, por meio deste blog, abrindo um abaixo assinado a fim de que as devidas penas sejam aplicadas ao Padre em questão, para que práticas infames como estas não voltem a acontecer no templo santo de Deus. Embora consideremos bastante improvável que as autoridades tomem a necessária medida para corrigir este absurdo ,faremos nossa parte a fim de que possamos testemunhar o nome de Jesus Cristo.
No espaço para os comentários deixe seu nome completo a fim de encaminharmos o abaixo assinado ao bispado de Nova Iguaçu.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Neocons e olavetes: cúmplices do assassinato de cristãos?
"[...]Todo
militante ou simpatizante comunista é cúmplice moral de genocídio,
tem as mãos tão sujas quanto as de qualquer nazista, deve ser
denunciado em público e excluído da convivência com pessoas
decentes. A alegação de ignorância, com que ainda podem tentar se
eximir de culpas, é tão aceitável da parte deles quanto o foi da
parte dos réus de Nuremberg. É uma vergonha para a humanidade
inteira que crimes desse porte não tenham jamais sido julgados, que
seus perpetradores continuem posando no cenário internacional como
honrados defensores dos direitos humanos, que partidos comunistas
continuem atuando livremente, que as idéias marxistas continuem
sendo ensinadas como tesouros do pensamento mundial e não como as
aberrações psicóticas que indiscutivelmente são. [...]"
Por questão de isonomia, adotemos o critério olaviano aplicado aos comunistas para os adeptos e simpatizantes do neoconservadorismo made in US, caso dos apoiadores da Guerra do Iraque, aquela que ceifou milhares de vidas e abriu caminho para a convulsão social que poderá levar o anticristianismo genocida do ISIS ao poder em Bagdá:
"[...]A
justificativa que eles[EUA] deram[à Guerra do Iraque] é uma coisa,
o que aconteceu realmente foi outra. Eu pessoalmente, depois que
descobri todo aquele morticínio de presos políticos[por parte do
regime de Saddam Hussein], eu comecei a achar que a guerra[para
derrubá-lo] tinha sido certa. Não pelas razões que que eles
alegaram, mas pelos fatos que apareceram depois, tá
compreendendo?[...]Você tem que ver a longo prazo o benefício que
efetivamente resultou para a humanidade.[...]O que a humanidade
ganhou com isso? Ora, foi boa a invasão do Iraque? Eu não sei, o
senhor também não sabe, ninguém sabe, mas tem uma pessoa que deve
saber isso: os iraquianos. Pergunta para eles! 82% da
opinião[pública]iraquiana acha que a situação melhorou
muito.[...]"
O que se tem acima foi proferido numa mesa-redonda (ver vídeo a partir de 4min43s a 5min43s). Não lhes parece uma versão mais elaborada do velho bordão "os fins justificam os meios"? Vou além: não lhes parece que é fenômeno comparável (ainda que não necessariamente equiparável) ao descrito abaixo?
"'Mentalidade
revolucionária' é o estado de espírito, permanente ou transitório,
no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o
conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por
meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de
um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade
presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao 'tribunal
da História'." [v.
"A
mentalidade revolucionária"]
Tivesse o sr. Olavo de Carvalho um público de boa memória, com adequado tirocínio e de disposições críticas diferentes daquelas vigentes em fã-clubes e torcidas organizadas, esse público cobraria satisfações do guru. Como não é o caso, deixarão que ele coloque-se na defesa das causas pessoalmente vantajosas do momento sem ter que dar explicação ou justificativa, e menos ainda responder pelas consequências deletérias da sua pretensa atividade de formador e informador.
VER TAMBÉM: É a guerra contra a Líbia uma guerra justa?
Por Victor Fernandes
Pio XI e seu apoio a Mussolini contra judeus e comunistas

Achille
Ratti – o futuro Papa Pio XI – era apenas um bibliotecário
pontifício em 1918. Ele havia sido professor de teologia do
Seminário de Milão. Seu talento intelectual o elevou a condição
de bibliotecário do Papa Bento XV. Mas não foi como tal que ele
viria se tornar papável. Em 1918, em meio a primeira guerra, Bento
XV o nomeou como seu legado na Polônia. A missão era conhecer o
estado em que encontrava o país e a Igreja Católica em terras
polacas.
A
Polônia preparava seu renascimento depois de um século de controle
russo ou alemão e austríaco. As fronteiras começavam a ser
delineadas. A missão de Ratti era, inclusive, ajudar a elite
católica do país a reerguer a Polônia em bases cristãs. Viajando
pelo país o que Ratti mais ouviu foi a preocupação dos sacerdotes
com as conjuras de certos grupos judaicos contra a idéia de uma
Polônia católica. Na Polônia da época, dez por cento da população
era de judeus. Em Milão Ratti havia tido relações amistosas com os
judeus da cidade, dado que eram bastante assimilados. Na Polônia a
assimilação quase inexistia. E Roma não tinha boas impressões
disso. Em 1555 o papa Paulo IV, através da Bula “Cum nimis
absurdum”, ordenava que os judeus em terras da Igreja, vivessem
nos guetos; o contato de judeus com católicos devia ser limitado ao
máximo para evitar contaminações. Em 1870, com a tomada de Roma
pelos exércitos de Vítor Emanuel, rei do Piemonte que liderou a
unificação da Itália, o Papa perdeu seus estados pontificais. A
unificação da Itália se fez sob a liderança de chefes maçônicos
e era vista pela Maçonaria como uma etapa fundamental para a
dissolução do poder da Igreja e a consequente laicização dos
povos. Uma das primeiras medidas do novo rei da Itália foi libertar
os judeus. Isso levou a Civiltà Cattolica, revista jesuítica que
funcionava como órgão filosófico/teológico do papado, no combate
ao iluminismo e na formação da opinião pública dos católicos,
destinando-se, principalmente, à elite intelectual do clero e dos
fiéis, fornecendo a visão do Papa sobre diversos assuntos, a
renovar os ataques aos talmudismo judaico, desde o fim do século 19.
Neste
aspecto advertia a revista que:
“judeus...conseguiram
por as mãos em...toda a riqueza pública...assumiram o controle do
dinheiro e da própria lei nos países onde tem permissão de ocupar
cargos públicos”.
A
Civiltà insistia, na época, que os judeus deviam ser separados dos
cristãos como insistira a Igreja fazia milênios e que, se isso não
ocorresse, a população cristã seria reduzida a “escravidão”:
“como
estão errados aqueles que pensam ser o judaísmo apenas um
religião...e não uma raça, um povo, uma nação” In: “La
rivoluzione mondiale e gli ebrei”, CC 1922 IV, pp. 111-121; “Il
socialismo judeo-massonico tiranneggia L'Austria”, CC 1922 IV, pp.
369-371.
A
Civiltà considerava que os judeus jamais poderiam ser leais ao país
que os recebia pois tinham um projeto de poder universal, planejando
se valer dos direitos iguais para tomar o controle político do mundo
ocidental. Nos idos de 1917 a Civiltà alimentou a polêmica
responsabilizando os judeus pela revolução comunista na Rússia,
fazendo tocar a trombeta de uma vasta conjura global pela tomada de
poder pelos judeus.
Ratti,
ao escrever seus relatórios, mostrava como a elite católica da
Polônia se achava aterrorizada pelo perigo judaico. Os judeus eram
acusados de terem se aliado aos alemães durante a guerra e de atuar
como agiotas impiedosos nos vilarejos que ficaram empobrecidos
durante o grande conflito mundial. Muitos partidos se agitavam, em
1918, para ocupar o poder no país recém independente. Entre estes
os anarco-socialistas e os bolcheviques. Os quadros anarquistas e
bolcheviques na Polônia eram formados, majoritariamente, por chefes
judeus. Ratti relata em seus escritos dirigidos ao Papa Bento XV nos
seguintes termos:
“Embora
os polacos sejam bons católicos temo que eles possam cair nas garras
da más influências que lhes preparam armadilhas...uma das piores e
mais fortes influências sentidas aqui, talvez a mais forte e pior de
todas é dos judeus” In: Carta de Achille Ratti para Pietro
Gasparri, 9 de janeiro de 1919, citado em Wilk, 1997.
Em
1919 o Papado reconheceu o novo estado polaco e Ratti virou seu
Núncio Papal. No verão o Exército Vermelho chegou perto de
Varsóvia. A contra-ofensiva polonesa afastou a ameaça. Ratti ficou,
desde então, convicto de que as democracias ocidentais eram frágeis
demais para parar o avanço comunista.
Ratti,
ao voltar da Polônia, é nomeado Arcebispo de Milão. Alguns anos
depois viraria Papa. O contexto de sua eleição era o de uma Itália
em cacos: a Monarquia Parlamentar não conseguia por ordem num país
marcado por contingentes de ex-soldados que voltavam aleijados da
primeira guerra ou que se encontravam desempregados gerando uma massa
inquieta e violenta a enxamear as cidades; Roma recebia cada vez mais
camponeses pobres vindos do sul em busca de trabalho nas fábricas e
na construção civil; a crise social e econômica fazia crescer o
movimento socialista liderado pelo partido comunista italiano. Como
oposição a isso havia a velha direita conservadora italiana incapaz
de fazer frente ao vagalhão socialista e o Partido Popular, um
partido católico liderado pelo padre Luigi Sturzo, que fora criado
sob os auspícios de Bento XV, a fim de envidar esforços de atuação
dos fiéis no campo parlamentar – Bento XV era otimista quanto as
possibilidades de ação católica no plano parlamentar/democrático
indo na linha do Ralliement de Leão XIII que autorizava os católicos
franceses a se aproximar e dialogar com a terceira república
francesa de cunho maçônico e laico.
E,
como nova força política havia o Fascismo de Benito Mussolini. O
Fascismo se organizava em torno da idéia de renascimento da grandeza
italiana; Mussolini, que se tornara seu líder, havia passado pelas
fileiras do socialismo; mas, no decurso da primeira guerra, em razão
do não apoio dos socialistas ao esforço bélico italiano, Mussolini
muda de lado considerando que os interesses nacionais da Itália
tinham que ficar acima da ideologia partidária o que o faz assumir
uma terceira posição, de cunho nacional; ele se torna o grande
veiculador e líder do movimento fascista e seu jornal “Il Popolo
d'Itália”, vira o principal órgão de propaganda do mesmo. Ao
mesmo tempo que a crise política/social/econômica aumentava no país
mais ficava clara a incapacidade do sistema parlamentar-monárquico
de lidar com ela; o caos alimentava expectativas de melhoramento
social o que fazia os votos do socialismo crescerem dia a dia. Os
fascistas enfrentavam os socialistas com brutalidade: atacavam
prefeituras, paralisam greves e piquetes, faziam políticos de
esquerda beberem óleo de rícino a força, a fim de humilhá-los
publicamente – o óleo causava diarréia imediata. Os “fasci di
combattimento” pareciam ser a única força capaz de estabelecer
uma ordem na Itália. Isso fez toda a diferença pois, quando Pio XI
ascendeu ao trono papal, a monarquia de Vítor Emanuel III
mostrava-se incapaz de deter o avanço comunista. Já em 1920,
aquando de uma greve na agricultura do Vale do rio Pó, dirigida por
socialistas, esta incapacidade ficara notória: o governo nada fez
para contê-la e o clima de rivalidade entre as classes chegou a
níveis perigosos. Os fazendeiros, perante a inércia da monarquia,
procuraram os fasci que, com bandos armados, saquearam sedes
socialistas, invadiram a prefeitura de Bolonha, onde foram mortas dez
pessoas durante os ataques, além de terem atacado sindicatos
anarquistas.
Sem
um governo de fato – dado o caos na Itália - o rei convocou novas
eleições para maio de 1921. A campanha eleitoral transformou o país
numa praça de guerra entre socialistas e fascistas. O resultado
eleitoral trouxe 138 cadeiras no parlamento para os socialistas
contra 35 para os fascistas. O partido popular católico obteve 107
cadeiras e os conservadores 240 cadeiras. Foi aí que os rumos
tomaram seu curso decisivo: o ministro conservador Giolitti via os
camisas negras fascistas como o porrete necessário para manter a
ordem no país; isso trouxe a coalização entre os conservadores e
os fasci, o que derrotou a bancada socialista e a do partido
católico. Nesse ínterim Mussolini fez seu discurso no novo
parlamento, asseverando que a missão do fascismo era “restaurar
a sociedade cristã, construindo um estado católico para uma nação
católica”. A ala anticlerical dos fasci – liderada por
Farinacci - foi posta de lado. Mussolini compreendia que era preciso
convencer o Papa que seu partido era de mais serventia à Igreja que
o partido popular de Sturzo.
Nos
meses seguintes os bandos socialistas continuaram a forçar a luta de
classes no país convocando uma greve nacional. Os squadristi
fascistas – gupos armados – atacaram os socialistas em Milão. A
Itália estava a beira de uma revolução como a ocorrida anos antes
na Rússia.
Pio
XI subira ao trono em 1921 e, em outubro de 1922 manda o seu
secretário de Estado, Cardeal Gasparri, distribuir uma circular a
todos os bispos da Itália para que retirassem seu apoio ao partido
popular católico. Com isso ele preparava o caminho para que os
fasci, em 27 de outubro, através da “Marcha Sobre Roma”,
pudessem chegar ao poder. Sua experiência na Polônia convencera-o
de que o parlamentarismo não teria os meios de impedir uma revolução
comunista na Itália. Em 28 de outubro o rei, temoroso de que
enfrentar os fasci traria demasiado derramamento de sangue, resolveu
entregar o poder a Mussolini depois dos squadristi terem ocupado
centros estratégicos do norte e centro da Itália. Num dos primeiros
gestos como primeiro ministro Mussolini levou seu gabinete a uma
missa perante o monumento ao Soldado Desconhecido, no Vitoriano em
Roma. Foi então que ele assegurou ao Papa agir agressivamente para
restaurar os direitos da Igreja. Gasparri disse, na ocasião, ao
embaixador da Bélgica que “Mussolini nos mostrou que era um bom
católico”. A decisão do Papa de apoiar Mussolini pegou muitos
de surpresa como o padre Enrico Rosa, editor chefe da Civiltà
Cattolica. Ele havia preparado uma matéria apresentando os fascistas
como “homens sinistros e anticristãos” mas, antes que ela
saísse, Pio XI advertiu, ao superior geral dos Jesuítas, que
proibisse Rosa de publicá-la.
Pio
XI agradou-se de Mussolini pois, no fundo, tinha valores em comum com
ele: ambos tinham uma descrença em face a democracia parlamentar,
não confiavam na liberdade de expressão ou de associação e viam o
comunismo como ameaça além de compreenderem que o sistema
parlamentar estava falido. Ratti mandou que Rosa descartasse o artigo
crítico sobre Mussolini e publicasse outro com estes dizeres:
“Quando
uma forma de governo é constituída de forma legítima...muito
embora tenha sido a princípio, defeituosa, ou mesmo questionável em
vários sentidos...é nosso dever apoiá-la pois a ordem política e
o bem comum a isso exigem. Não é permissível, seja a indivíduos
ou a partidos, , tramar para derrotá-la, suplantá-la ou trocá-la
recorrendo a meios injustos.” In: E. Rosa; Crisi di stato e crisi
di autorità”. CC, 1922, IV, p. 204.
A opção da Igreja em aliar-se ao fascismo para combater o comunismo, ao invés de endossar o modelo parlamentar democrático-liberal francoamericano, se deu por razões claras: afinidade doutrinária. O liberalismo com seu teor horizontal não correspondia a noção de ordem - que tem cunho vertical e hierárquico - da qual a Igreja necessitava para dar cabo do perigo marxista. Isto deve ser vir de lição aos católicos de tendência liberalconservadora que acreditam numa coalização com pressupostos da democracia americana para solucionar a grave crise civilizacional que enfrentamos. Pio XI fornece, neste caso, uma lição importante.
A opção da Igreja em aliar-se ao fascismo para combater o comunismo, ao invés de endossar o modelo parlamentar democrático-liberal francoamericano, se deu por razões claras: afinidade doutrinária. O liberalismo com seu teor horizontal não correspondia a noção de ordem - que tem cunho vertical e hierárquico - da qual a Igreja necessitava para dar cabo do perigo marxista. Isto deve ser vir de lição aos católicos de tendência liberalconservadora que acreditam numa coalização com pressupostos da democracia americana para solucionar a grave crise civilizacional que enfrentamos. Pio XI fornece, neste caso, uma lição importante.
Siglas
CC:
Revista “Civiltà Cattolica”
Bibliografia
Kertzer,
David I. O Papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a
ascensão do fascismo na Europa. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
Milza,
Pierre. Mussolini. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
Rogari,
Sandro. La Santa Sede e fascismo dall'Aventino ai Patti lateranensi.
Bolonha: Forni, 1977.
Wilk,
Stanislaus. Actae Nuntiaturae Polonae. Tomus 57, vols 1-6. Roma:
Institutum Historicum Polonicum. 1995-2000.
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