
Achille
Ratti – o futuro Papa Pio XI – era apenas um bibliotecário
pontifício em 1918. Ele havia sido professor de teologia do
Seminário de Milão. Seu talento intelectual o elevou a condição
de bibliotecário do Papa Bento XV. Mas não foi como tal que ele
viria se tornar papável. Em 1918, em meio a primeira guerra, Bento
XV o nomeou como seu legado na Polônia. A missão era conhecer o
estado em que encontrava o país e a Igreja Católica em terras
polacas.
A
Polônia preparava seu renascimento depois de um século de controle
russo ou alemão e austríaco. As fronteiras começavam a ser
delineadas. A missão de Ratti era, inclusive, ajudar a elite
católica do país a reerguer a Polônia em bases cristãs. Viajando
pelo país o que Ratti mais ouviu foi a preocupação dos sacerdotes
com as conjuras de certos grupos judaicos contra a idéia de uma
Polônia católica. Na Polônia da época, dez por cento da população
era de judeus. Em Milão Ratti havia tido relações amistosas com os
judeus da cidade, dado que eram bastante assimilados. Na Polônia a
assimilação quase inexistia. E Roma não tinha boas impressões
disso. Em 1555 o papa Paulo IV, através da Bula “Cum nimis
absurdum”, ordenava que os judeus em terras da Igreja, vivessem
nos guetos; o contato de judeus com católicos devia ser limitado ao
máximo para evitar contaminações. Em 1870, com a tomada de Roma
pelos exércitos de Vítor Emanuel, rei do Piemonte que liderou a
unificação da Itália, o Papa perdeu seus estados pontificais. A
unificação da Itália se fez sob a liderança de chefes maçônicos
e era vista pela Maçonaria como uma etapa fundamental para a
dissolução do poder da Igreja e a consequente laicização dos
povos. Uma das primeiras medidas do novo rei da Itália foi libertar
os judeus. Isso levou a Civiltà Cattolica, revista jesuítica que
funcionava como órgão filosófico/teológico do papado, no combate
ao iluminismo e na formação da opinião pública dos católicos,
destinando-se, principalmente, à elite intelectual do clero e dos
fiéis, fornecendo a visão do Papa sobre diversos assuntos, a
renovar os ataques aos talmudismo judaico, desde o fim do século 19.
Neste
aspecto advertia a revista que:
“judeus...conseguiram
por as mãos em...toda a riqueza pública...assumiram o controle do
dinheiro e da própria lei nos países onde tem permissão de ocupar
cargos públicos”.
A
Civiltà insistia, na época, que os judeus deviam ser separados dos
cristãos como insistira a Igreja fazia milênios e que, se isso não
ocorresse, a população cristã seria reduzida a “escravidão”:
“como
estão errados aqueles que pensam ser o judaísmo apenas um
religião...e não uma raça, um povo, uma nação” In: “La
rivoluzione mondiale e gli ebrei”, CC 1922 IV, pp. 111-121; “Il
socialismo judeo-massonico tiranneggia L'Austria”, CC 1922 IV, pp.
369-371.
A
Civiltà considerava que os judeus jamais poderiam ser leais ao país
que os recebia pois tinham um projeto de poder universal, planejando
se valer dos direitos iguais para tomar o controle político do mundo
ocidental. Nos idos de 1917 a Civiltà alimentou a polêmica
responsabilizando os judeus pela revolução comunista na Rússia,
fazendo tocar a trombeta de uma vasta conjura global pela tomada de
poder pelos judeus.
Ratti,
ao escrever seus relatórios, mostrava como a elite católica da
Polônia se achava aterrorizada pelo perigo judaico. Os judeus eram
acusados de terem se aliado aos alemães durante a guerra e de atuar
como agiotas impiedosos nos vilarejos que ficaram empobrecidos
durante o grande conflito mundial. Muitos partidos se agitavam, em
1918, para ocupar o poder no país recém independente. Entre estes
os anarco-socialistas e os bolcheviques. Os quadros anarquistas e
bolcheviques na Polônia eram formados, majoritariamente, por chefes
judeus. Ratti relata em seus escritos dirigidos ao Papa Bento XV nos
seguintes termos:
“Embora
os polacos sejam bons católicos temo que eles possam cair nas garras
da más influências que lhes preparam armadilhas...uma das piores e
mais fortes influências sentidas aqui, talvez a mais forte e pior de
todas é dos judeus” In: Carta de Achille Ratti para Pietro
Gasparri, 9 de janeiro de 1919, citado em Wilk, 1997.
Em
1919 o Papado reconheceu o novo estado polaco e Ratti virou seu
Núncio Papal. No verão o Exército Vermelho chegou perto de
Varsóvia. A contra-ofensiva polonesa afastou a ameaça. Ratti ficou,
desde então, convicto de que as democracias ocidentais eram frágeis
demais para parar o avanço comunista.
Ratti,
ao voltar da Polônia, é nomeado Arcebispo de Milão. Alguns anos
depois viraria Papa. O contexto de sua eleição era o de uma Itália
em cacos: a Monarquia Parlamentar não conseguia por ordem num país
marcado por contingentes de ex-soldados que voltavam aleijados da
primeira guerra ou que se encontravam desempregados gerando uma massa
inquieta e violenta a enxamear as cidades; Roma recebia cada vez mais
camponeses pobres vindos do sul em busca de trabalho nas fábricas e
na construção civil; a crise social e econômica fazia crescer o
movimento socialista liderado pelo partido comunista italiano. Como
oposição a isso havia a velha direita conservadora italiana incapaz
de fazer frente ao vagalhão socialista e o Partido Popular, um
partido católico liderado pelo padre Luigi Sturzo, que fora criado
sob os auspícios de Bento XV, a fim de envidar esforços de atuação
dos fiéis no campo parlamentar – Bento XV era otimista quanto as
possibilidades de ação católica no plano parlamentar/democrático
indo na linha do Ralliement de Leão XIII que autorizava os católicos
franceses a se aproximar e dialogar com a terceira república
francesa de cunho maçônico e laico.
E,
como nova força política havia o Fascismo de Benito Mussolini. O
Fascismo se organizava em torno da idéia de renascimento da grandeza
italiana; Mussolini, que se tornara seu líder, havia passado pelas
fileiras do socialismo; mas, no decurso da primeira guerra, em razão
do não apoio dos socialistas ao esforço bélico italiano, Mussolini
muda de lado considerando que os interesses nacionais da Itália
tinham que ficar acima da ideologia partidária o que o faz assumir
uma terceira posição, de cunho nacional; ele se torna o grande
veiculador e líder do movimento fascista e seu jornal “Il Popolo
d'Itália”, vira o principal órgão de propaganda do mesmo. Ao
mesmo tempo que a crise política/social/econômica aumentava no país
mais ficava clara a incapacidade do sistema parlamentar-monárquico
de lidar com ela; o caos alimentava expectativas de melhoramento
social o que fazia os votos do socialismo crescerem dia a dia. Os
fascistas enfrentavam os socialistas com brutalidade: atacavam
prefeituras, paralisam greves e piquetes, faziam políticos de
esquerda beberem óleo de rícino a força, a fim de humilhá-los
publicamente – o óleo causava diarréia imediata. Os “fasci di
combattimento” pareciam ser a única força capaz de estabelecer
uma ordem na Itália. Isso fez toda a diferença pois, quando Pio XI
ascendeu ao trono papal, a monarquia de Vítor Emanuel III
mostrava-se incapaz de deter o avanço comunista. Já em 1920,
aquando de uma greve na agricultura do Vale do rio Pó, dirigida por
socialistas, esta incapacidade ficara notória: o governo nada fez
para contê-la e o clima de rivalidade entre as classes chegou a
níveis perigosos. Os fazendeiros, perante a inércia da monarquia,
procuraram os fasci que, com bandos armados, saquearam sedes
socialistas, invadiram a prefeitura de Bolonha, onde foram mortas dez
pessoas durante os ataques, além de terem atacado sindicatos
anarquistas.
Sem
um governo de fato – dado o caos na Itália - o rei convocou novas
eleições para maio de 1921. A campanha eleitoral transformou o país
numa praça de guerra entre socialistas e fascistas. O resultado
eleitoral trouxe 138 cadeiras no parlamento para os socialistas
contra 35 para os fascistas. O partido popular católico obteve 107
cadeiras e os conservadores 240 cadeiras. Foi aí que os rumos
tomaram seu curso decisivo: o ministro conservador Giolitti via os
camisas negras fascistas como o porrete necessário para manter a
ordem no país; isso trouxe a coalização entre os conservadores e
os fasci, o que derrotou a bancada socialista e a do partido
católico. Nesse ínterim Mussolini fez seu discurso no novo
parlamento, asseverando que a missão do fascismo era “restaurar
a sociedade cristã, construindo um estado católico para uma nação
católica”. A ala anticlerical dos fasci – liderada por
Farinacci - foi posta de lado. Mussolini compreendia que era preciso
convencer o Papa que seu partido era de mais serventia à Igreja que
o partido popular de Sturzo.
Nos
meses seguintes os bandos socialistas continuaram a forçar a luta de
classes no país convocando uma greve nacional. Os squadristi
fascistas – gupos armados – atacaram os socialistas em Milão. A
Itália estava a beira de uma revolução como a ocorrida anos antes
na Rússia.
Pio
XI subira ao trono em 1921 e, em outubro de 1922 manda o seu
secretário de Estado, Cardeal Gasparri, distribuir uma circular a
todos os bispos da Itália para que retirassem seu apoio ao partido
popular católico. Com isso ele preparava o caminho para que os
fasci, em 27 de outubro, através da “Marcha Sobre Roma”,
pudessem chegar ao poder. Sua experiência na Polônia convencera-o
de que o parlamentarismo não teria os meios de impedir uma revolução
comunista na Itália. Em 28 de outubro o rei, temoroso de que
enfrentar os fasci traria demasiado derramamento de sangue, resolveu
entregar o poder a Mussolini depois dos squadristi terem ocupado
centros estratégicos do norte e centro da Itália. Num dos primeiros
gestos como primeiro ministro Mussolini levou seu gabinete a uma
missa perante o monumento ao Soldado Desconhecido, no Vitoriano em
Roma. Foi então que ele assegurou ao Papa agir agressivamente para
restaurar os direitos da Igreja. Gasparri disse, na ocasião, ao
embaixador da Bélgica que “Mussolini nos mostrou que era um bom
católico”. A decisão do Papa de apoiar Mussolini pegou muitos
de surpresa como o padre Enrico Rosa, editor chefe da Civiltà
Cattolica. Ele havia preparado uma matéria apresentando os fascistas
como “homens sinistros e anticristãos” mas, antes que ela
saísse, Pio XI advertiu, ao superior geral dos Jesuítas, que
proibisse Rosa de publicá-la.
Pio
XI agradou-se de Mussolini pois, no fundo, tinha valores em comum com
ele: ambos tinham uma descrença em face a democracia parlamentar,
não confiavam na liberdade de expressão ou de associação e viam o
comunismo como ameaça além de compreenderem que o sistema
parlamentar estava falido. Ratti mandou que Rosa descartasse o artigo
crítico sobre Mussolini e publicasse outro com estes dizeres:
“Quando
uma forma de governo é constituída de forma legítima...muito
embora tenha sido a princípio, defeituosa, ou mesmo questionável em
vários sentidos...é nosso dever apoiá-la pois a ordem política e
o bem comum a isso exigem. Não é permissível, seja a indivíduos
ou a partidos, , tramar para derrotá-la, suplantá-la ou trocá-la
recorrendo a meios injustos.” In: E. Rosa; Crisi di stato e crisi
di autorità”. CC, 1922, IV, p. 204.
A opção da Igreja em aliar-se ao fascismo para combater o comunismo, ao invés de endossar o modelo parlamentar democrático-liberal francoamericano, se deu por razões claras: afinidade doutrinária. O liberalismo com seu teor horizontal não correspondia a noção de ordem - que tem cunho vertical e hierárquico - da qual a Igreja necessitava para dar cabo do perigo marxista. Isto deve ser vir de lição aos católicos de tendência liberalconservadora que acreditam numa coalização com pressupostos da democracia americana para solucionar a grave crise civilizacional que enfrentamos. Pio XI fornece, neste caso, uma lição importante.
A opção da Igreja em aliar-se ao fascismo para combater o comunismo, ao invés de endossar o modelo parlamentar democrático-liberal francoamericano, se deu por razões claras: afinidade doutrinária. O liberalismo com seu teor horizontal não correspondia a noção de ordem - que tem cunho vertical e hierárquico - da qual a Igreja necessitava para dar cabo do perigo marxista. Isto deve ser vir de lição aos católicos de tendência liberalconservadora que acreditam numa coalização com pressupostos da democracia americana para solucionar a grave crise civilizacional que enfrentamos. Pio XI fornece, neste caso, uma lição importante.
Siglas
CC:
Revista “Civiltà Cattolica”
Bibliografia
Kertzer,
David I. O Papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a
ascensão do fascismo na Europa. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
Milza,
Pierre. Mussolini. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
Rogari,
Sandro. La Santa Sede e fascismo dall'Aventino ai Patti lateranensi.
Bolonha: Forni, 1977.
Wilk,
Stanislaus. Actae Nuntiaturae Polonae. Tomus 57, vols 1-6. Roma:
Institutum Historicum Polonicum. 1995-2000.















