Magia
judaica, Toaff e a páscoa de sangue
1-
Introdução
Recentemente
uma polêmica surgiu no que tange à questão do assassinato ritual
de São Simão de Trento, uma criança cujos pais eram católicos e
que, no século 15, foi sacrificado num ritual de magia judaica na
Itália. O caso virou um processo onde 17 judeus confessaram
participação na tortura e morte de Simão. O menino foi beatificado
e colocado no martirológio romano, tendo sido citado por diversos
papas como vítima do ódio de grupos judaicos contra a fé católica. Todavia
não faltam vozes, sejam eclesiásticas sejam não eclesiásticas,
que questionam o fato. Nosso objetivo aqui é esclarecer este
problema.
A-
Magia judaica no fim do medievo
Até um tempo atrás havia pouca
atenção ao estudo da magia e das várias artes ligadas à sua
prática no judaísmo. Essa falta de atenção foi devida à crença
errônea, difundida até os últimos tempos entre os hebraístas e os
estudiosos do mundo judeu em geral, que os judeus haviam mostrado
muito pouco interesse pela magia. Os autores do século XIX,
fortemente influenciados pelo racionalismo dominante no pensamento
científico naquele século, tentaram sublinhar os aspectos mais
racionalistas da cultura judaica. Sobre o judaísmo hispânico, por
exemplo, a pesquisa sobre a cultura hebraica se concentrou
preferencialmente na produção histórica, filosófica e literária
em geral, negligenciando campos como medicina, astrologia ou magia
aprendida. Hoje não há mais dúvida de que o recurso à magia era
habitual no judaísmo.
Isso é revelado em alguns dos
estudos mais recentes sobre magia judaica. Entre tais estudos temos
aqueles que merecem ser destacados como os de Ron Barkai em “Science
Magic e Mythology in the Middle ages” e “L'us dels Salms na màgia
jueva de l'Edat Mitjana e Renaixement: o llibre Shimush Tehil.lim em
La Càbala”.
É verdade que o Talmud, um livro
caracterizado em geral por um racionalismo pronunciado, condena de
maneira estrita a magia e a feitiçaria, que considera mera prática
de charlatanismo e a relaciona com prática de magia das mulheres com
vícios sexuais (Sanh.67a). A condenação da magia pela Torá como
um culto idólatra aos deuses pagãos e pelo Talmud como prática
própria dos amorreus, constituiu um axioma que foi transmitido entre
os judeus, de geração em geração, até tempos recentes e, durante
séculos, especialistas judeus em matéria de jurisprudência
religiosa (halaká) rejeitaram fortemente as práticas que eles
consideravam suspeitas de idolatria; os argumentos de justificação
são de natureza muito diferente: pelo uso das Sagradas Escrituras
com um propósito profano; pelo uso de feitiços e feitiços
utilizados profusamente no ritual da magia pagã e que, como tal, a
Torá reprovou expressamente; ou pelo uso de amuletos, a que foram
conferidos poderes sobrenaturais. Mas embora a teoria em relação à
magia fosse clara e rigorosa, a realidade era muito mais difusa.
Assim, nenhum dos mestres do Talmud negou o poder da magia e, mesmo
que sua prática fosse proibida, alguns dos talmudistas lutavam
contra a magia negra com o que poderia ser chamado de magia branca.
Mais tarde, já nos tempos medievais, a atitude dos rabinos espanhóis
havia se tornado, em geral, muito permissiva em relação à magia,
com alguns deles chegando mesmo a praticá-la pessoalmente.
Mesmo algumas cerimônias religiosas,
ainda hoje em uso entre os judeus, tem uma indubitável origem mágica
e supersticiosa: eles são, entre outros, o conhecido como tashlij,
consistindo em agitar a roupa nas águas de um rio ou jogando
migalhas no primeiro dia da Rosh ha-Shaná (Ano Novo judaico),
simbolizando que os pecados cometidos durante o ano que terminou
foram jogados na água para serem levados pela corrente (nas suas
origens é, com toda a probabilidade, um rito propiciatório dos
espíritos das águas); ou aquele que tem lugar em Hoshana rabba (a
grande súplica), isto é, o sétimo dia da festa de Sukkot (Festa
dos Tabernáculos), quando o solo é atingido com um monte de cinco
ramos de salgueiro e que parece estar vinculado em suas origens para
as invocações para a chuva.
Muitos se fiam no rechaço de
Maimônides – um filósofo judeu do medievo – à magia mas, mesmo
que tenhamos que frisar a oposição radical de Maimônides, outros
estudiosos judeus adotaram posições menos beligerantes em relação
à magia. É o caso do proeminente jurista catalão Shelomoh ben
Adret (1235-1310), como é deduzido da correspondência epistolar que
manteve com o judeu provençal En Bonet Abram, e isso é um bom
reflexo da controvérsia em que o trabalho de Maimônides estava
envolvido no judaísmo sefardita, desde o início do século XIII,
ainda na vida do grande filósofo espanhol-judeu. Na correspondência
Bonet Abram parte da autoridade de Maimônides e ataca todas as artes
e práticas relacionadas à magia; porém Adret deixa abrir a porta
ao seu uso para fins terapêuticos.
Assim, existe uma confusão dentro do
judaísmo em torno da legalidade ou da ilegalidade de recorrer a
práticas mágicas; ela fica mais clara no trabalho de Yishaq ben
Moseh ha-Levi (? - 1414), mais conhecido como Profiat Durán, que foi
astrólogo do rei João I de Aragão. Este autor critica o costume de
judeus sábios para recorrer a fontes estranhas ao judaísmo, às
quais ele atribui calamidades sofridas pelas comunidades hebraicas da
Alemanha, França e Espanha; ele insiste na necessidade de retornar à
literatura sagrada judaica e, em particular, refere-se ao livro dos
Salmos afirmando que foi a devoção dos judeus de Aragão a este
livro o que os salvou dos infortúnios sofridos por seus companheiros
de fé em outros territórios hispânicos no ano de 1391. Mas o mais
significativo é que sua autêntica paixão pelo livro dos Salmos
também leva a louvar o livro chamado Séfer Shimush Tehil Lim (Livro
do uso cirúrgico dos Salmos), provavelmente o tratado mágico
judaico mais importante de toda a Idade Média e do Renascimento e
dos quais são conservados trinta manuscritos com diferentes versões.
A controvérsia em torno da admissibilidade ou inadmissibilidade da
magia no judaísmo tornou-se mais agudo nos últimos dias da Idade
Média e do Renascimento, e expresso no confronto entre a escola
racionalista de Maimônides e os movimentos cabalistas e
neoplatônicos do misticismo judaico.
B- Feitiçaria judaica
A relação entre grupos de judeus com magia e,
em menor grau, com feitiçaria, é confirmada pela presença de
vários judeus conversos nos processos inquisitórios de feitiçaria
no final dos séculos 15 e 16, bem como quanto ao que é muitas vezes
referido em manuscritos hebraicos de experimentos e um e outro
consistem na descrição da estrutura do cosmos e das forças que
atuam na natureza: em suma, consistem na Cabala prática que levou a
uma floração autêntica da magia judaica medieval e contribuiu
decididamente para estender a reputação dos judeus como mágicos e
feiticeiros. Uma boa visão sobre este quadro de práticas
cabalísticas pode ser encontrada nos livros de Perle Besserman.
Ao longo da Idade Média, as
comunidades judaicas distribuídas por toda a Europa ocidental e
central tinham vários tratados mágicos, alguns dos quais eram de
tempos antigos, enquanto outros eram da época medieval. Entre os
escritos primitivos, o Séfer ha-razim (Livro dos segredos) tornou-se
muito famoso que é considerado talmúdico, e Séfer Raziel ha-malakh
(Livro do anjo Raziel), um conjunto de escritos místicos,
cosmológicos e mágicos. Eles foram integrados no século XIII em um
todo unitário pelo místico alemão Eleazar ben Yehudah de Worms.
Esses livros baseiam a ação mágica no conhecimento da estrutura do
cosmos, conhecimento este que, juntamente com as ciências mais
próximas da cosmologia (matemática, geometria, astronomia e
astrologia), permitiria ao mago fazer as forças superiores agirem;
eles se encaixam, portanto, no que é conhecido como "literatura
mágica erudita”. Nestes meios nasceu a tese de que o rei bíblico
Salomão foi o primeiro mágico. Mais tarde, desenvolveram uma lenda
sobre esse rei, cuja enorme biblioteca de livros mágicos só teria
sobrevivido dois textos de magia: o testamento e a clavícula; O
resto teria morrido em um incêndio.
A literatura apócrifa "Salomônica"
ou "pseudo salomônica" proliferou nos tempos medievais,
sendo perseguida pelos tribunais inquisitoriais. Em Toledo, na
Espanha, se deu uma forte popularização de certos livros cheios de
sinais misteriosos, personagens e orações, como a Clavícula de
Salomão e outras obras de medicina supersticiosa e necromancia.
A partir destas crenças é que
podemos analisar o impacto dos feitiços na cultura popular judaica
de então; o feitiço de gotículas, por exemplo, é devassado no
trabalho de Sebastián Cirac. Outro procedimento de feitiçaria
também usado com frequência era conhecida como "medição da
fita", que consistia em usar uma fita para tirar várias medidas
do corpo da pessoa, medidas destinadas a curar; o resultado dessas
medições determinaria o mal sofrido, que seria remediado pela
recitação de vários feitiços e orações. A cicatrização de
doenças oculares foi feita aplicando lama feita para tirada do
túmulo de um homem justo; Esta é uma prática relacionada à
crença, muito difundida na época medieval, da faculdade que possuía
os túmulos de homens santos e justos para curar doenças com simples
contato. Não há dúvida de que o feiticeiro tivesse algum sucesso
na cura de afecções menores, para as quais teria remédios baseados
em ervas medicinais conhecidas pela sabedoria popular, o que acabava
dando prestígio aos magos. Havia feitiços para que a pessoa amada
retornasse em breve se ela estivesse ausente. Os procedimentos
utilizados foram muito simples e, muitas vezes, misturaram o sagrado
e o profano; entre os procedimentos usados para alcançar o amor de
uma mulher, era muito difundido que usasse o sangue de uma galinha ou
de um pombo, de penas de preferência branco, para escrever com ela o
nome do homem que queria ser amado; essas letras deviam ser apagadas
com água pura que, em seguida, seria dado a beber à mulher. Outras
vezes, tratava-se de propiciar uma boa viagem, para a qual a proteção
foi solicitada contra animais selvagens e bandidos. Outra questão de
não menos interesse é aquilo que se refere aos materiais utilizados
nas práticas mágicas e na feitiçaria. No que diz respeito às
matérias-primas utilizadas, elas devem ser sempre puras. A água,
muito usada na magia, deve necessariamente ser tratada, recém-colhida
na fonte ou no rio, e depositada em novos recipientes que não foram
utilizados antes. Também era usual a prática em preparações
mágicas de óleo e mel, produtos considerados puros por sua
aparência límpida e transparente; quando a terra é usada, deve ser
terra virgem. Ocorria o contrário quando o ritual mágico se
destinava a causar danos a alguém: nesses casos, era necessário
usar água turva ou terra apanhada nas estradas. As pedras preciosas
também receberam poder mágico e habilidade protetora contra vários
perigos, que para alguns autores poderia estar relacionado ao
peitoral adornado com pedras preciosas usadas pelo Sumo Sacerdote no
Templo de Jerusalém (Êxodo, XXVIII, 17-20); assim se considerava a
pedra do rubi ligada a figura de Ruben; tomava-se a mesma como
protetora contra o aborto e a esterilidade das mulheres; A esmeralda
seria a pedra de Levi, dando-lhe a capacidade de conceder sabedoria a
um homem e, sob a forma de pó, rejuvenescer um velho; O topázio
seria a pedra de Simeão, considerada adequada para curar doenças,
em particular oculares; a ametista seria a pedra de Gad, a qual a
capacidade conferida era a proteção em batalhas, bem como na
frente de demônios; e o ônix seria a pedra de José, a quem era
dado o poder de conceder sucesso na sociedade.
Todas estas práticas, generalizadas
no fim da idade média entre certos judeus e, espalhadas entre os
cristãos através do contato com comunidades judias, ajudou a
propagar a idéia do judeu como mago e feiticeiro.
C – Crime ritual?
Justamente
quando a magia judia se estende pela Europa do fim do medievo é que
começam a aparecer, com
mais frequência, os relatos
de crime de assassinato ritual. Tais
relatos envolviam
de roubos de hóstias consagradas – com o crescimento da devoção
a eucaristia, sobretudo no século 13, tornaram-se mais comuns os
ataques a sacrários e o furto de hóstias – a
blasfêmias a Jesus Cristo e até rapto de crianças para a aquisição
de sangue humano a fim de realizar encantamentos.
É
comum entre certos historiógrafos o recurso a interpretar
tais acusações aos judeus
como uma forma da Igreja confiscar os seus bens, por puro interesse
material, e como um modo de reis e nobres se valerem do “perigo
judaico” como bode expiatório para problemas políticos e
econômicos. Primeiro é
preciso que se diga que tal
interpretação é viciada de marxismo, pois tende a entender
fenômenos religiosos exclusivamente
sob a ótica econômica.
Por
outro lado é uma inverdade que a Igreja agisse movida, sobremaneira,
por interesses materiais. O papa Alexandre IV (1254-1261) proibiu a
inquisição de julgar qualquer caso de feitiçaria, reservando à
mesma somente os
casos de heresia. Para a Igreja o combate aos heréticos era mais
importante que o combate aos feiticeiros e magos, pura
e simplesmente, o que prova
que o braço inquisitorial deveria, por determinação papal,
dedicar-se mais a expurgar más doutrinas que, simplesmente,
confiscar bens de curandeiros
místicos .
Por outro lado o poder repressor da inquisição não seguia um afã
de condenar quem quer que fosse para aumentar as rendas da Igreja. A
retomada do direito romano no século 13 e o uso do Corpus Iuris
Civilis, pelos inquisidores, exigia a produção de provas e o exame
e reexame dos fatos. Os
inquisidores tinham de seguir um padrão legal rígido. Com
o passar do tempo a inquisição, cada vez mais, se dirigiu para
reduzir o recurso às torturas a fim de conseguir o testemunho e a
confissão. O uso de médicos nas sessões de tortura para assegurar
que elas não passassem dos devidos limites exigidos para não
comprometer, seja a vida do sujeito, seja a lisura de sua confissão,
retrata
bem isso.
Ainda
é necessário deixar claro que
a alegação da historiografia de tendência progressista-iluminista,
carece de seriedade científica dado que costuma usar a assertiva de
que “confissão sob tortura não constitui prova válida” como
se a prova inquisitorial se baseasse somente nisso; por
outro lado é preciso dizer
que tal assertiva se embasa num anacronismo sutil: não se pode
julgar o procedimento inquisitorial à luz de supostos avanços
jurídicos ocorridos nos séculos posteriores, como se os
inquisidores fossem dotados de maquiavelismo visceral a
aplicar uma “justiça” infundada.
O que eles tinham a mão de melhor e mais avançado em termos de
direito – o corpo de leis do direito romano - é que foi usado nos
julgamentos inquisitoriais.
Cabe deixar evidenciado também que a Igreja sempre concedia a
remissão da pena temporal caso o suspeito fosse tido como culpado
mas se arrependesse, o que demonstra que o objetivo central não era
obter bens a qualquer custo.
Outrossim os inquisidores,
durante o século 14 e início do 15, relutaram bastante em acreditar
nos relatos de bruxaria e só
o fizeram sob a pressão dos acontecimentos que se avolumaram.
No
que tange aos reis, sua relação com os judeus era ambígua. Ora
necessitavam deles como prestamistas e comerciantes, ora se tornavam
devedores dos agiotas judeus o que motivava expurgos e expulsões. No
caso da Península Ibérica, envolta na luta contra os muçulmanos
durante a reconquista, nem sempre foi possível hostilizar
abertamente os judeus dada a dependência financeira deles. Na Ibéria
o sarraceno era o objeto principal do ódio e não tanto o judeu.
Outrossim a influência dos
reis sobre tribunais inquisitoriais do século 14 e 15 não chegam
perto do que vai ocorrer na era do auge do absolutismo, o que deve
afastar de vez a hipótese de que interesses políticos diretos
agissem interferindo no exame dos casos ligados a bruxaria, páscoas
de sangue, etc.
Voltando
a questão da feitiçaria, no
século 14 a visão da Igreja sobre os feiticeiros vai mudar. No
século 14 os “maleficia” - feitiços – começaram a se ligar a
cultos mais amplos, o que envolvia, inclusive, pactos com o diabo.
Entre 1317 e 1319 o Papa João XXII descobre uma conjura contra sua
vida, perpetrada por um médico, um barbeiro e um frade que
estavam envolvidos em
feitiçaria misturada à
invocação de demônios. Com base nisso o mesmo
Papa decreta a bula
Super Illius Specula onde
autoriza à
inquisição processar feiticeiros. Recorde-se que, no século 14
houve um “boom” de cultos astrológicos ligados a invocação de
entes demoníacos e que se estruturavam nos chamados Sabás das
bruxas. Tais Sabás eram um misto de toda uma onda de misticismo,
feitiçaria, adivinhação
astrológica, sobrevivências de cultos pagãos – que
se ligavam ao
culto, por exemplo, de
deusas romanas como Diana –
que vinha se desenvolvendo no fim do século 14 e início do 15, onde
a feitiçaria, de cunho mais individual e privado, dava lugar a
cultos coletivos de cunho satânico. Este
novo contexto estava ligado primeiro a sobrevivências de práticas e
doutrinas cátaras. Como os cátaros admitiam – no seu dualismo –
que este
mundo era obra do Diabo, certos sobreviventes da heresia cátara
passaram a crer que, sendo o Diabo um criador, ele deveria também
receber um certo culto. Os cátaros – como relatam escritores do
século 12 – consideravam necessário praticar ritos de
promiscuidade sagrada a fim de se libertar das leis deste mundo. Daí,
provavelmente, evoluíram as idéias e práticas que deram origem aos
ditos “Sabás”.
Na
Península Ibérica, a posição sobre os judeus evoluía, na
mesma época – século 14 -
para uma imagem cada vez mais negativa. Sobre
isso ressaltemos o fato trazido à baila por Gutierre Díez de Games
(1378-1450), em sua Crônica de Don Pero Niño, Conde de Buelna,
trabalho mais conhecido como El Victorial, onde ele ataca o
tesoureiro do rei Pedro I de Castela, o judeu Samuel
Levi, a quem ele acusa de feiticeiro e adivinho, além de ter
iniciado o monarca nessas práticas astrológicas: "Ele tinha
como conselheiro um
judeu privado que se chamava Samuel Levi; este judeu ensinou-o
a querer conhecer as coisas que estão por vir, por feitiços e arte
de estrelas”. Ao mesmo
tempo não parece casual que, pelo menos desde o início do século
15, as reuniões das bruxas começarão a ser denominadas - como as
das sinagoga – Sabás, reuniões noturnas de bruxas com o diabo na
forma de uma cabra. O primeiro autor que parece ter aplicado o termo
Sabá às bruxas foi um teólogo da Universidade de Poitiers, Pedro
Mamoris. O termo também é usado pelo padre Jean Vincent em seu
Liber Adversus
Magicas
Artes,
publicado em 1475. Há várias teorias sobre a origem do termo
“Sabá”; uma delas aponta para a grande probabilidade de provir
da palavra hebraica shabbath (repouso), com o que se chama dia
sagrado para a religião judaica.
Que
tais rituais sabáticos demoníacos existiam era um fato. Vários
historiadores atestam a sobrevivência de cultos pagãos de adoração
a natureza que não tinham sido eliminados pela cristianização da
Europa. Tais
ritos sabáticos
evidentemente
não tinham origem
exclusivamente judaica: eram
um misto de paganismo subterrâneo, gnose cátara, cabala judia, etc.
Isso tudo tomava corpo em
uma época de crise social e
moral, onde o papado estava
sob os golpes dos reis que se tornavam, pouco a pouco, absolutistas,
onde a peste negra fazia milhões de vítimas, onde revoltas
camponesas destroçavam a malha social feudal, etc. Lembremos que
desde o século 13, a cristandade está na defensiva em termos
internos: vários movimentos heréticos haviam tencionado questionar
a ordem feudo-católica, como os valdenses e cátaros. O século
14-15 traz a revivescência de antigos cultos num clima de
fermentação social e religiosa enorme. Sobre
isso há um relato marcante dos idos de 1387-1388 ocorrido na
Lombardia. Um pequeno grupo capturado por heresia pela inquisição
relatou a prática do Sabá nos seguintes termos: renúncia formal a
fé católica durante os ritos, adoração a Satã, ingestão de
bebidas repugnantes, orgias, etc. Tais relatos se tornaram cada vez
mais frequentes e seguiam um mesmo padrão. A alegação de certa
historiografia crítica da inquisição sobre isso é simplesmente
ridícula. Tal historiografia entende que tudo era uma questão de
afirmar o poder da Igreja e
que tais relatos eram “criados”.
O problema aí é que as perguntas que deviam ser feitas pelo
inquisidor eram padronizadas rigidamente: a
criatividade do inquisidor para fazer questionamentos que pudessem
levar a respostas padronizadas era quase nenhuma. Em segundo lugar a
questão que se coloca é: já que este era o grande intento da
Igreja – usar o poder inquisitorial para criminalizar usando a
alegação de feitiçaria associada a satanismo – por que desde o
século 13 (época duma crise gravíssima dado o impacto dos cátaros) isto não foi o procedimento padrão? Por que ele só
passa a ser no século 14-15? Ora, só se acontecimentos novos
estivessem a se dar é que podemos esclarecer satisfatoriamente, esta
mudança da ação da
Igreja em face à
feitiçaria, que ia deixando de ser privada para virar um culto
coletivo. Outra alegação
insustentável é a de que os “surtos de bruxaria” eram
como um
fenômeno de crença com uma função social, ou seja, com a função
de ser uma válvula de escape em época de inquietação política e
social profunda. O problema é que nem todo período de inquietação
gera “surtos de bruxaria” como fato de crença. Aliás a única
época que atesta um surto de crença generalizada em bruxaria
foi a da Europa do fim do medievo pois os surtos existentes na África
são locais e não gerais como foram no século 15 europeu e nem
envolveram toda uma cultura como ocorreu no ocidente cristão, surto
aliás que permaneceu vivo até o século 17!
A alegação de que neuroses ou
esquizofrenias coletivas seriam responsáveis pelos surtos,
simplesmente não esclarecem um fenômeno tão duradouro e tão
impactante, dado que toda a elite – juízes, intelectuais,
escritores, clérigos, reis – da época levou a sério a onda de
bruxaria, o que mostra sua incorporação ao sistema de pensamento
entre 1400-1700.
Justamente
neste contexto é que se esclarece o assassinato ritual do menino
Simão. Em 1438 um caso de assassinato ritual veio a tona com o
inquérito de Pierre Vallin, no sul da França. Vallin confessara a
participação no sacrifício da própria filha quando ainda bebê.
Admitira ter participado de Sabás onde outras
crianças também foram sacrificadas. O inquérito envolveu,
inclusive, os indícios
de participação de gente do
alto clero, de juízes e de homens ricos da região. Os inquisidores
insistiram com Vallin para que entregasse os envolvidos. Tudo
isto prova que não eram apenas judeus os envolvidos em coisas deste
tipo. Heréticos também estavam. Mas todo este contexto só se
esclarece a partir da síntese entre as sobrevivências da gnose
junto com a especulação cabalística judaica. A cabala, em suma,
nega ao Deus criador deste mundo o estatuto de ser supremo. O
esoterismo cabalista considera que este Deus Criador é apenas uma
manifestação do imanifesto, que é o Ein Sof ou Ain Sof – o Deus
oculto. Para obter o conhecimento do Ein Sof é preciso quebrar a lei
do demiurgo – o Deus Criador – que são, basicamente os dez
mandamentos. Quebrando-a
o iniciado pode elevar-se para além deste mundo material
libertando-se dele.
A
cabala envolvia, inclusive a invocação de anjos. É muito
interessante apresentar o estudo documentado de Gonzalo Rubio sobre
Angelologia na Literatura Rabínica. Ele mostra que alguns dos anjos
a quem os feiticeiros e feiticeiros judeus apelaram eram parte da
tradição hebraica, como os quatro arcanjos ou "anjos mais
velhos": Gabriel ("Homem de Deus "ou" Força de
Deus ", é o príncipe da força), Michael (é o príncipe da
água, cujo A missão consiste na proteção de Israel), Raphael
("Medicina ou cura de Deus", nomeando qual era a sua
função) e Uriel ("Fogo de Deus" ou "Luz de Deus"
através dele recebe homens, seu conhecimento). Outros "anjos
menores" também vieram da tradição hebraica, como Raziel,
Yurkemi ("príncipe saudade"), Ridya ("príncipe da
chuva"), Rahab ("Príncipe do mar"), Layla ("príncipe
da noite" e de "concepção"), Sandalfón ("irmão
associado", alcançou grande relevância na literatura
cabalística), ou Duma ("anjo da morte") . Outros anjos
tinham sua origem em literatura mística e cabalística, como
Metatron ("príncipe do mundo"). E, em outros casos,
finalmente, seu nome foi derivado do pedido específico que foi
formulado, que tem muito a ver com um procedimento usual na
literatura mágica judaica que se baseia na crença de que toda
realidade terrena é atribuída a um anjo no céu: eles são, entre
outros, Derashiel (derisha Demanda), Baqshiel (baqasha = petição),
Berakhiel (berakha = Bênção) ou Samahiel (simhá = felicidade).
Também se recorreu a muitas vezes para anjos de paz, de raiva, de
beneficência, de sonhos, e anjos maus, destruidores (mal'ake
ha-mashit). Evidentemente que, desde um ponto de vista inquisitorial
a invocação, sobretudo dos anjos da literatura mística e,
destacadamente de Metraton, era invocação a demônios, ou seja, a
anjos decaídos. É aqui, na
cabala, que encontramos a chave explicativa para a expansão dos
ritos diabólicos do século 14-15 que envolviam desde adoração
satânica a sacrifícios rituais até cultos pagãos a natureza e
gnose cátara. Claro que
isso não envolvia apenas a atuação de grupos judaicos mas, também,
de sociedades ocultistas formadas por heréticos. Todavia o fundo
comum destas práticas era o cabalismo, doutrina de base esotérica judaica.
D- São Simão e a tese de Toaf
Sobre
o livro de Toaf, há que ficar claro o seguinte:
1-
Os testemunhos sobre as "páscoas de sangue" são
inumeráveis no medievo. Documentos e depoimentos que distam séculos,
numa época em que não havia imprensa, contam a mesmíssima
história. É simplesmente impossível que tantos documentos e
depoimentos, de origem diversa no tempo e espaço, tenham sido
"inventados". Qualquer um, com alguma noção de inquérito,
entende isso.
2-
No fim do medievo a magia era fortíssima em certos círculos judaicos, até
na esfera das cerimônias sinagogais e caseiras, como mostramos
acima. Na esfera discreta/esotérica o cabalismo propugnava práticas
avessas a Torá - dado que o cabalismo considera o Deus da criação
como o demiurgo cuja lei todo iniciado deve esforçar-se para se
libertar e, assim, poder conhecer o Ain Sof, verdadeiro deus segundo
a Cabala. O assassinato ritual era uma forma de judeus cabalistas
buscarem isso.
3-
A pesquisa de Toaff
se funda na metodologia de Carlo Ginzburg, um historiador de
ascendência judia, cabe recordar. Ginzburg é um historiador da
micro-história. Especialista
em crenças religiosas populares do fim do medievo e início da era
moderna ele
constituiu um método de análise em que busca, nos textos e práticas
da época, um substrato de religiões e cultos subterrâneos que não
encontravam expressão
documentada. Por conta do
braço inquisitorial e da cultura majoritariamente católica em que
estavam inseridos, tais
cultos eram transmitidos oralmente; o acesso aos mesmos só pode ser
feito através de uma
análise histórica
que trabalha em cima de
fontes não escritas.
Ginzburg assim, vai buscar
redesenhar cultos xamânicos e pagãos que existiam subterraneamente
entre populações camponesas, por exemplo, se
valendo de fontes alternativas, como fontes literárias ficcionais.
Alguns dirão que a
literatura apregoa alguma impossibilidade de determinação, tanto do
autor/narrador, quanto do leitor, em relação ao fictício que lhe é
intrínseco. Mas Ginzburg, tenta resolver esse complicado impasse.
Ginzburg considera o uso de tais fontes como legítimas na medida em
que associa essa forma literária à necessidade de
submeter alguma coisa à verificação. Captar-se-ia na literatura e
em outras formas de texto de época, o que escaparia à
institucionalização. Ginzburg vai se valer da literatura inglesa,
e analisa em sua obra “Nenhuma ilha é uma ilha”, dentre outras
obras, a Utopia de Thomas More. Fala da Utopia sobre “as dimensões
múltiplas de um texto facetado e fugidio”, mas trata também do
poder de obras de ficção de atualizar e presentificar para o leitor
implícito e explícito, a “ekpharasis” que já vinha da tradição retórica antiga, quer
dizer, poderia propor “uma estranha sensação de realidade”. É a
partir da metodologia e das descobertas de Ginzburg que Toaff
trabalha a questão da "páscoa de sangue", como um culto
mágico que existia no subterrâneo da religião judaica de antanho e
que pode ser devassada a partir de fontes documentais não oficiais –
embora eles
deixem rastro em documentos oficiais - mas por meio das narrativas
populares, tradições, etc.
Tal culto não deixou os
mesmos rastros documentais
como deixavam os cultos tradicionais dos judeus. Desta forma Toaff,
seguindo os passos de Ginzburg, devassa a questão explorando aquilo
que não era dito de forma evidente mas apenas insinuado.
Façamos, então, uma suma da tese
de Toaff:
-Toaff baseia sua pesquisa sobre
libelos da época que falam de assassinatos rituais cometidos por
grupos judaicos.
-Ele mostra que o sangue humano
coagulado era vendido por mercadores medievais, pois se considerava
que ele tinha poder medicamentoso o que é fartamente documentando.
-Toaff não demoniza os judeus em sua
obra. Ao inverso, desculpa seus assassinatos rituais alegando que
eram reações à violência dos cristãos que os perseguiam por
serem tidos como o povo deicida. Ele alegou, inclusive, que não se
tratava de dizer que os judeus, em geral, apoiassem o assassinato
ritual mas que, alguns grupos extremados, o praticavam. Afirmar que o
livro tenha algo ligado a anti semitismo só é possível para
completos ignorantes na matéria.
-Toaff se baseia no processo de São
Simão de Trento ao qual teve acesso. Ele afirma que “"Eu
encontrei parte de declarações e depoimentos que não correspondiam
à cultura cristã dos juízes, que eles não poderiam ter inventado
ou acrescentado ao que eram os textos que aparecem nas orações
conhecidas do livro judaico de orações", disse. "Ao longo
de dezenas de páginas ficou provado o papel central do sangue na
Páscoa", disse Toaff. Baseado em "muitos sermões, concluí
que foi usado sangue, especialmente pelos judeus asquenazim, e que
haviam as crenças nos poderes curativos do sangue de crianças".
Aliás sobre tal poder curativo ficou demonstrado, acima, que a
expansão da magia entre os judeus, no fim da idade média, é um
fato incontestável.
-Toaff mostra que, na época, havia,
como ele diz: "um mascate/vendedor ambulante, Asher, que
negociava com açúcar e sangue procedente de Veneza...Eu fui aos
arquivos de Veneza e descobri que havia um vendedor ambulante que
trocou açúcar e sangue, produtos básicos de uma farmácia naquele
período", acrescentou. Embora os judeus fossem proibidos de
consumir sangue humano ou animal, Toaff provou que encontrou
permissões rabínicas de uso do sangue, inclusive de origem humana.
"Os rabinos permitiram porque se tratava de sangue que já
estava seco", provou Toaff. Tudo isso fica claro a partir do
contexto de magia no interior do judaísmo como apresentamos acima.
Perante tudo o que foi exposto,
conclui-se que o caso de São Simão foi verdadeiro e que, perante
todo o contexto de cabalismo, feitiçaria e magia judia, fica provado
não só que o caso do menino de Trento, assassinado por judeus, é
real, como também que o surto herético ligado aos cultos de
bruxaria coletiva no fim do medievo tem relação direta com esse
caldo de cultura.
A Igreja, sabiamente, reconheceu o
fato e colocou o nome de Simão no martirológio romano, além de
considerá-lo um mártir do ódio de grupos judeus contra a Igreja de Cristo. O
testemunho de diferentes papas sobre isso torna inapelável qualquer
alegação em contrário. A partir do exame histórico e do exame das
decisões eclesiásticas sobre o assunto é impossível, a católicos, e a quem examine a coisa com isenção histórica, tomar o caso de São Simão de Trento como um mal entendido.
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Autor: Rafael G. Queiroz.