sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Bohemian Grove: os encontros da elite americana da qual a Olavosfera nada diz!!

Encontro do Grove com Reagan e Nixon.


Virou moda, na olavosfera, desculpar os EUA pela Nova Ordem Mundial: os projetos de poder global são sempre dissociados do processo de expansão do poder americano no mundo e de sua elite. A dita "elite global" é sempre desvinculada da essência dos EUA que ela não representaria jamais. 

Porém a farsa, bem montada durante anos está com os dias contados. Aqui e ali pessoas vão acordando do longo sono imposto pela olavosfera. Aqui e ali informações vão surgindo para derrubar a cortina de fumaça e desinformação criada pela olavosfera. 

A elite do poder tem diretórios interligados não apenas em empresas mas na sociedade americana como um todo. Um dos exemplos é a "comunidade de política internacional de Washington" que reúne nomes como Donald Rumsfeld, Franck Carlucci, Henry Kissinger, Brzezinski, etc, todos nomes que lecionaram em universidades de elite nos EUA e que participaram de governos americanos. Esse grupo está ligado, diretamente, ás mega empresas da área financeira. Não espanta que vários membros desse grupo tenham penetrado no mundo financeiro depois de terem passado pelo cargo de secretário do tesouro americano; entre eles temos o ex-secretário John Snow da Cerberus, Paul O'Neill da Blackstone, o ex-secretário Robert Rubin do Citigroup, etc. A vinculação entre poder americano e mundo financeiro é tão evidente que negá-lo é impossível. O que resta a olavosfera é tergiversar sobre o assunto criando uma versão fantasiosa sobre isso dizendo que esses grupos são essencialmente antiamericanos pois planejariam destruir os EUA substituindo-o por um governo mundial. O que torna a versão aceitável é o fato, inegável, de que essa elite queira um governo mundial. Mas o que a versão não diz é que esse governo mundial nada mais seria que um Império Americano. 

Mas vamos ao Bohemian Grove, um encontro da elite americana, pretensamente para relaxar. O lema "aranhas tecedeiras, não venham aqui" simboliza a filosofia do encontro: expressão retirada da obra de Shakespeare, sonho de uma noite de verão,  é uma alerta contra discutir negócios ou outras preocupações mundanas durante o Grove. Os membros são estimulados a se concentrar em artes, literatura e outros prazeres dentro dos espaços do encontro que acontece sempre ao norte da Califórnia. Durante duas semanas, sempre ao fim de julho, o local recebe cerca de 1500 sócios do clube fundado em 1872. Não há boletins informativos do grupo que é ultrasecreto. Entre os convidados recentes temos membros da elite do partido republicano ligados a promoção do neoconservadorismo como Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Karl Rove e George W. Bush. Há relatos de que foi durante um encontro do clube que foi decidido o planejamento da bomba atômica. Foi no local de reunião do grupo que gente do projeto Manhattan se reuniu, na época da segunda guerra.

A filiação ao Grove é altamente seletiva e só pode acontecer por meio de convite. Há um rito iniciático que constitui de uma "cremação das preocupações" onde os participantes queimam uma efígie que representa as preocupações trazidas de fora. 

É fato que as conversas no lago, eventuais discursos feitos durante o Grove, historicamente serviram como fundamental plataforma de promoção de políticos. Um exemplo revelador da importância dessas conversas é o relato feito por Nixon sobre a aparição daquele que seria o futuro presidente americano Dwigth Eisenhower, durante o evento: " no verão de 1950 eu o vi bem de perto no Grove...depois do discurso de Eisenhower nós voltamos para o acampamente do homem das cavernas e nos sentamos ao redor da fogueira fazendo uma avaliação. Todos tinham gostado dele...me marcou sua personalidade e mística que impressionaram a platéia cética". Nixon depois alega que um discurso que fez no Grove pode tê-lo lançado para a presidência dos EUA:" Se tivesse de escolher o discurso que me deu mais prazer e satisfação em minha carreira política, seria o discurso do lago no Bohemian Grove em julho de 1967...de modos muito importantes foi a primeira pedra no meu caminho para a presidência". 

Foi em 1995, também, que de uma conversa entre Newt Gingrich, então presidente da câmara dos EUA, e o ex-presidente George Bush durante um encontro do Grove que ficou acertada a candidatura de George W. Bush, filho de G. Bush. 
O especialista Domhoff observa que nos anos 90 - época da consolidação da corrente neoconservadora ligada, basicamente as idéias de Francis Fukuyama, que falava de fim da história que estaria ligada a queda da URSS e a vitória definitiva das instituições liberais dos EUA que iriam se espalhar, fatalmente, pelo mundo. O projeto neoconservador, consiste em fazer avançar esse "fim da história", espalhando o modo americano de vida- a ausência dos membros do governo Clinton e do partido democrata tornou o Grove o centro das mais avançadas articulações entre lideranças republicanas, marcadas pela ideologia neoconservadora. Hoje os membros do Grove são solidamente republicanos.
Fukuyama, intelctual a serviço do neoconservadorismo americano, autor do livro "O fim da história e o último homem"


O Grove exibe uma reveladora mistura de membros dos grupos políticos, financeiros e empresariais da elite americana. Em um lista das 1,144 maiores corporações dos EUA, o sociólogo Peter Philips descobriu que 24 por cento tinham pelo menos um moembro ou diretor convidado em 1993. No caso das 100 maiores corporações o percentual era de 42 por cento. . Embora o Grove seja um encontro de "diversão" é inevitável que, quando as elites se reúnem, falem sobre negócios. O fato de que homens ricos de todo o EUA se reúnam em circunstâncias tão próximas quanto o Grove é prova da exist~encia de uma classe alta, dotada de projetos comuns e de alta coesão social. Esses homens não apenas se conhecem mas formam uma rede social. O Grove é um encontro que gera uma coesão de classe jamais vista pois capaz de influenciar, não apenas acontecimentos em um país, mas no mundo, pois muitos de seus menbros são chefes de instituições financeiras que se relacionam com países, governos, empresas, dinastias, etc. 

Entendem por que a Olavosfera nada diz sobre o Grove? É bem simples: a Olavosfera serve a causa neoconservadora, a hegemonia mundial dos EUA a quem o Grove serve e prepara o terreno através de seus encontros, únicos no mundo. Nem mesmo a elite global reunida no Clube Bilderberg tem tamanha coesão quanto a elite do Grove, majoritariamente, hoje, dedicada a realizar os planos republicanos e a tese de Fukuyama relativa a história ter como meta o modelo político-social-econômico dos EUA.   

Fontes Bibliográficas:

Domhoff, Willian. Social cohesion e the Bohemian Grove. sociology.ucsc.edu/whorulesamerica/index.html

Philips, Peter. San Francisco Bohemian Club: power, prestige and globalism. Sanoma Comunity Free Prees, 8 de junho de 2001. 

Rothkopf, David. Superclasse. Rio de Janeiro, Agir, 2008.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

A contra revolução pode contar com apoio de grupos e indivíduos não católicos?

Para alguns católicos a saída para escapar do marxismo é adotar o liberalismo de Smith.


















Existe hoje uma tendência - sobretudo em certos ambientes ditos "conservadores" vinculados a influência de Olavo de Carvalho - entre certos católicos e acreditar que associar-se a liberais dos mais variados matizes pode trazer resultados positivos. Muitos, sem nenhuma cerimônia, se imiscuem em rodas liberais na esperança de opor obstáculo a escalada de esquerda no Brasil e América Latina, sem levar em conta os riscos e limites inerentes a estas associações. 

Como já tivemos oportunidade de dizer, não faz sentido que católicos se associem a tais rodas sem um anteparo organizacional que lhes dê uma base segura de ação e meios eficazes de extrair disso vantagens em prol da cristandade. Tais associações só se justificam nesse contexto e sob o título de serem provisórias e esporádicas em função de um combate a um mal maior. 

A contra-revolução é essencialmente católica. E é no bojo da fé católica que encontra sua principal força. É DISSO QUE NOS FALA PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA: 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Resposta a Olavo de Carvalho sobre a relação fé e razão

Enrolavo de Carvalho.





















O Sr. Olavo de Carvalho respondeu o artigo que publicamos ontem referente a sua visão sobre a relação fé  e razão ,aqui:

https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10152518463017192

Olavo de Carvalho

O boboca da "Catolicidade" diz que você tem de acreditar na doutrina da Igreja por si mesma, independentemente de qualquer tentativa interior de apreender os fatos a que ela se refere. Bonito, né? Só há um problema: ACREDITAR na doutrina CONSISTE em admitir que o conteúdo dela são fatos e não meras afirmações. Por exemplo, "Ressuscitou no terceiro dia." Aconteceu ou não aconteceu? Ressuscitou ou não ressuscitou? Se acredito, é porque acho que aconteceu, que é um fato. Como dizia o Apóstolo: "Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé." Tentar acreditar no Credo fazendo abstração dos fatos a que se refere é como aquela história do Quico: 
-- Mãe, posso entrar na piscina?
-- Pode, filhinho, só não vá se molhar.
Só no Brasil um BURRO incapaz de perceber uma coisa tão óbvia pode posar de "defensor da fé" e acusar de heresia quem não seja tão lesado mentalmente quanto ele. O ridículo dessa gente não tem fim. Cada dia capricham mais.

Nossa resposta é a seguinte:

1- Olavo nada respondeu acerca da sua alegação - errônea - sobre a distinção entre filosofia e teologia. Ele alega que a diferença entre as mesmas é a que existe entre fatos e teorias. No entanto filosofia e teologia são ciências: a diferença entre as duas nada tem a ver com a que existe entre fatos e teorias( Não é preciso ser muito inteligente para entender. Só o Olavo não entende.).

2- Olavo diz que nós afirmamos que "você tem de acreditar na doutrina da Igreja por si mesma, independentemente de qualquer tentativa interior de apreender os fatos a que ela se refere". Começamos destrinchando o termo "apreensão". Apreensão é o ato pelo qual a mente intelige uma natureza ou essência. Quando falamos "homem", "animal", por exemplo, estamos inteligindo a essência dos objetos referidos. Embora o conhecimento intelectual dependa do sensível, ele o transcende. O intelecto vê a natureza das coisas mais profundamente que os sentidos. Para que a essência se torne inteligível é preciso desindividualizá-la das condições materiais.  Quanto as realidades naturais, somos capazes de as inteligir pois nossa mente está apta a isso. Mas, quanto as realidades sobrenaturais, não: se nossa mente não for iluminada do alto, por uma graça divina, não poderemos apreender nada a respeito do sentido dos fatos referentes às ações pelas quais Deus se revelou. Fatos por fatos, Lázaro resuscitou também, mas, tal fato, não tem o mesmo significado que a ressurreição de Jesus. Antes de Jesus profetas realizaram milagres, mas, os milagres de Cristo, tem outro significado pois revelam a sua divindade. Os acontecimentos só encontram seu sentido à luz da revelação feita por Deus. Muitos viram Jesus realizar milagres, mas só Pedro, movido por divina revelação, foi capaz de dizer: tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. E a ele Jesus disse: não foi nem a carne nem o sangue que te revelaram mas o Pai. Dizer que o conteúdo da fé são fatos é um erro, uma heresia: o conteúdo da fé é antes o sentido dos fatos,na sua essência inteligível. O esforço interior de apreender estes fatos não pode produzir nada em si mesmo, a não ser que seja movido antes e depois pela graça: sem uma moção divina que ilumine o intelecto nada feito, por uma simples razão: o conteúdo da fé transcende nosso intelecto. A forma das coisas naturais não: para conhecê-las basta nosso esforço intelectual. Para saber da coisas do alto não basta a luz da nossa razão. 

3- Olavo se aproxima- se é que não recai diretamente - no naturalismo. Ele tende a pensar que a fé precisa ser destrinchada, em seus conteúdos, pela esforço da consciência. O Concílio Vaticano I diz que: " Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a conhecimento e perfeição, que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso, chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel Cân. 3)".

4-Olavo se aproxima daquilo que a Pascendi fala sobre o modernista filósofo: "na doutrina dos modernistas, chegamos a um dos pontos mais importantes, que é a origem e mesmo a natureza do dogma. A origem do dogma põem-na eles, pois, naquelas primitivas fórmulas simples que, debaixo de certo aspecto, devem considerar-se como essenciais à fé, pois que a revelação, para ser verdadeiramente tal, requer uma clara aparição de Deus na consciência. O mesmo dogma porém, ao que parece, é propriamente constituído pelas fórmulas secundárias. Mas, para bem se  conhecer a natureza do dogma, é preciso primeiro indagar que relações há entre as fórmulas religiosas e o sentimento religioso.Não haverá dificuldade em o compreender para quem já tiver como certo que estas fórmulas não têm outro fim, senão o de facilitarem ao crente um modo de dar razão da própria fé. De sorte que essas fórmulas são como que umas intermediárias entre o crente e a sua fé; com relação à fé, são expressões inadequadas do seu objeto e pelos modernistas se denominam símbolos; com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos.Não é portanto de nenhum modo lícito afirmar que elas exprimem uma verdade absoluta; portanto, como símbolos, são meras imagens de verdade." Olavo continua alegando que dogmas são produzidos a posteriori, pela reflexão eclesial; seu pensamento cotinua ligado ao modernismo já denunciado, anos atrás, pelo apologista Orlando Fedeli, já falecido e de feliz memória pelos serviços prestados a fé. 

5- Por fim partilho aqui as pertinentes observações feitas pelo amigo Carlos Lombizani, sobre o assunto:"Não se deve confundir a verdade com o seu registro em palavras. Este é apenas verdade potencial, que só se atualiza no ato concreto da sua apreensão por uma consciência individual." São Pio X fala claramente na Pascendi que os dogmas não são mera representação da verdade, mas que contêm absolutamente a verdade. As palavras dependem da apreensão duma consciência individual para "se atualizarem"?A Lamentabili Sane Exitu condena a seguinte afirmação: "Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades caídas do Céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos que a inteligência humana logrou alcançar à custa de laboriosos esforços.".Ora, se a doutrina se refere a fatos, não está então sujeita a interpretação? É isso o que o Olavo está dizendo: a doutrina não é a verdade, ela é um registro em palavras de fatos. Fatos são meros acontecimentos do passado. A verdade é a conformidade com a realidade. Se a doutrina é verdade caída do céu, então ela não descreve fatos. A ressurreição é um fato, claro, mas e o dever de amar a Deus? Como é que se diz que algo é um "fato" e não mera "afirmação"? Um fato é apenas um acontecimento. Uma afirmação é uma proposição, isto é, algo que se propõe (como verdadeiro), então é mais geral que um fato."

6- Reproduzo também a importante análise feita por Alberto Leopoldo Batista Neto:
"Se a fé católica dependesse de alguma "apreensão individual de fatos" - como diz Olavo de Carvalho -, ela teria que esperar até que o próprio conceito de "fato" se tornasse disponível, ao menos para a consideração filosófica - o que só ocorre na modernidade.Até mesmo a ideia de "conhecimento", tradicionalmente, não coincide com a de um simples reconhecimento de alguma coisa que "lá está". Conhecer envolve a apreensão de um conceito que só pode ser "extraído" da realidade porque esta possui, por si, uma estrutura inteligível (uma vez que é fruto de uma inteligência ordenadora). "O que aconteceu" é algo que só tem sentido numa ordem de significado, que só pode ser descortinada pela reflexão - no caso em pauta, teológica.Uma velhinha analfabeta dificilmente terá uma "apreensão individual" de "fatos" como os ensinamentos concernentes às processões e missões trinitárias - mas estes, nem por isso, são menos parte da doutrina católica, a que ela adere por aceitação da autoridade da Igreja. As pessoas que não conseguem "contemplar" em suas "consciências individuais" os conteúdos do credo niceno-constantinopolitano não são menos católicas quando o recitam na missa dominical e mantêm suas vidas de devoção e obediência.Essa reconstrução fenomenológica da fé cristã é bastante característica de certas teologias modernistas do século XX. Estas podem se tornar complexas, sofisticadas, e mesmo convincentes para uns ou outros - o que não as torna ortodoxas.O pior é que O. de C. faz pouco de quem ele julga incapaz de compreender suas teses, mas uma multidão de pessoas, sem o mínimo preparo para saber do que ele está falando, dá o seu entusiástico assentimento a qualquer coisa que o homem diga. Um lembrete aqui é válido: a "consciência individual" de Olavo de Carvalho não é a de vocês."

Diante do exposto, fica claro que Olavo sabe pouco do que fala. Não sabe sequer usar o termo apreensão com rigor( Em termos aristotélicos-tomistas é impossível apreender fatos mas tão só essências, fatos são particulares, essências são gerais: Aristóteles já disse, faz dois mil, anos que nosso intelecto só apreende o geral. Apesar de Olavo ter escrito uma obra sobre o mesmo, não aprendeu isso?).

E esse é o maior filósofo vivo na atualidade?

Quanto as heresias afirmadas pelo mesmo já sabemos qual a desculpa que virá: o mesmo já afirmou que, no decurso das investigações, um filósofo pode cometer heresias. Os discípulos confrontados com elas dirão que se trata de um exercício dialético légítimo do supremo mestre e que, diante delas, não há nada a opor, tampouco que duvidar da sua fé católica. 

Quanto a isso cabe a quem realmente ama a doutrina da Igreja cerrar fileiras 
contra aquele que, se apresentando como mestre, ensina embustes e põe em risco a verdadeira fé.  

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Olavo de Carvalho e a relação fé e razão: mais um embuste!!


Olavo numa de seus elevados exercícios lógico-demonstrativos
O filósofo Olavo de Carvalho vem se apresentando, faz tempo, como católico: tendo passado bom tempo longe da verdadeira fé teria feito o caminho de retorno. Graças a isso tem tido ótima penetração em meios católicos afeitos aos estudos. A sua pretensa conversão exorcizou as denúncias feitas por Orlando Fedeli, apologeta católico fundador do Instituto Cultural Montfort, que anos atrás demonstrou, em seus artigos, como a filosofia olavética divergia radicalmente da doutrina da Igreja.  Mas já que Olavo teria se convertido não existiria mais nenhum empecilho para que um católico se sujeite ao seu magistério filosófico. 

Mas os fatos começam, pouco a pouco, a aparecer, de modo que a pretensa conversão de Olavo de Carvalho cada vez mais se afigura como uma peça teatral bem montada. 

Nosso objetivo aqui é mostrar, pouco a pouco, como o sr Olavo de católico tem só o nome: sua filosofia continua divergindo radicalmente daquilo que a Igreja ensina. 

Começamos recordando que "Não haveria, certamente, tais desvios da verdade que deplorar se também no terreno filosófico todos olhassem com a devida reverência ao magistério da Igreja, ao qual compete, por divina instituição, não só custodiar e interpretar o depósito da verdade revelada, mas também vigiar sobre as disciplinas filosóficas para que os dogmas católicos não sofram dano algum da parte das opiniões não corretas." (Pio XII, Humani Generis)". Portanto ao filósofo católico cabe submeter-se as orientações do magistério supremo até em matéria estritamente filosófica. Ou seja: a consciência individual aí deve sujeitar-se aquelas determinações da Igreja no que tange as doutrinas filosóficas que não se ajustam ao dogma. Destas o filósofo católico deve manter distância. Na Humani Generis, PIO XII recorda a obrigação de os pensadores católicos evitarem o existencialismo, o evolucionismo,etc. 

Para compreendermos a visão do Sr Olavo sobre a relação fé e razão devemos, antes de mais nada, entender o que ele diz sobre a filosofia. 

Para o senhor Olavo de Carvalho só a consciência individual é capaz de conhecimento. Para Olavo uma vez que toda expressão social depende de uma expressão individual e interior, e uma vez que esta só se torna possível após uma condensação de significado sob a forma do juízo, este, antes de se tornar proposição – em sentido lógico – dotada de compreensibilidade pública, deve ser afirmado pelo indivíduo de si para si mesmo –  deve passar por um recenseamento socrático do que se sabe e não se sabe para daí seguir-se o processo de extrusão, pelo qual o indivíduo dá forma lingüística e simbolicamente articulável à própria experiência.

O que isso quer dizer? Muito simples: para Olavo o processo do conhecimento - incluído aí o conhecimento da fé - não pode ser transmitido por uma autoridade coletiva - quer dizer por um magistério público como o magistério da Igreja - mas tão só por indivíduos que tenham elaborado a "verdade fática" do cristianismo interiormente para dar a ela forma teórica. A um outro indivíduo que recebesse a teorização da fé em forma de dogma caberia fazer o processo de ligação entre a teoria e os fatos que são a essência mesma da fé; ou seja, não basta para cada fiel receber as fórmulas dogmáticas para terem acesso a fé: eles devem obrigatoriamente reconstituir a "verdade fática" originária em seu interior. Só aí o legítimo entendimento do dogma seria possível. Segundo Olavo o dogma não garante a verdade doutrinal, asim sendo os ensinamentos solenes do magistério nada resolvem, pois toda fórmula, pelo caráter simbólico que tem, pode deslindar para a heresia já que sempre permitiria- segundo o "mestre" Olavo -   diversas interpretações. O magistério, dentro dessa visão, seria incapaz de assegurar a fé. 

É o próprio Olavo quem o diz aqui:

















A noção de uma verdade apenas potencial nos dogmas parece-me proposição condenada: Etiam post fidem conceptam, homo non debet quiescere in dogmatibus religionis, eisque fixe et immobiliter adhaerere, sede semper anxius manere progrediendi ad ulteriorem veritatem, nempe evolvendo in novos sensus, immo et corrigendo id quod credit"(mesmo depois de concebido na fé o homem não deveria repousar nos dogmas da religião)In: Monitore Ecclesiastico, 1925, p. 194; na Documentation catholique, 1925, t. I, pp. 771 ss, e em Praelectiones theologicae naturalis, do P. Descoqs, 1932, t. I, p. 150, e t. II, pp. 287 ss.


Indo agora para a questão da relação fé e razão vejamos o que Olavo diz: 




Pois vejamos: Olavo nega que deva existir uma  subordinação da filosofia a teologia como manda a fé católica. Em segundo lugar a referência de Olavo a teologia como conjunto de "fatos" é , tipicamente, modernismo. A fé não é uma coleção de fatos observáveis, embora ela esteja relacionada a fatos que, outrora, puderam ser vistos. Vejamos o que diz Hugo de São Vítor: " Como pode São Pedro ter tido fé na paixão de Cristo, se ele a viu com seus próprios olhos e a fé é de coisas que não se vêem?...o mérito de São Pedro não foi o de ter visto a paixão de Cristo mas o de ter crido ser Deus aquele homem que viu pendendo da cruz...a fé é sempre de coisas que não se podem ver" (In: Summa Sententiarum, L 1, c. 2, PL 176,45.) 

Ademais Olavo não distingue a revelação da teologia. Para dizermos o mínimo, o que ele fala demonstra uma ignorância indesculpável para um filósofo. Olavo fala de realidade mas que isso tem a ver, diretamente, com a relação entre teologia e filosofia? O cerne dessa relação - de caráter gnosiológico - não tem a ver, diretamente, com o problema do que seja a " realidade" . A filosofia é uma ciência (ou um corpo de ciências) que é, sim, ao menos em suas conclusões, subordinada à teologia, que é uma ciência superior. A expressão ancilla theologiae não tem a ver com o que ele diz. 

A teologia tem um conteúdo. Nesse sentido podemos citar o dogma da divindade de Cristo: Jesus é Deus e homem: isso é uma doutrina revelada. A filosofia afirma a não contradição( uma coisa não pode ser ela mesma e o oposto); aparentemente dizer que Jesus é Deus e homem soa como contradição. O filósofo católico não pode, em nome disso, negar o dogma; antes deve submeter a filosofia ao dogma mostrando como ele não contradiz a razão natural. É disso que se trata a relação fé e razão. 

 A  tese de que o cristianismo é um fato - que poderia ser reconstruído experiencialmente -  ordena-se a diminuir o valor da Doutrina Católica, pois geralmente a contraposição que ela faz não é entre FATO e TEORIA como no caso acima, mas entre FATO e DOUTRINA. Reduzida a importância da Doutrina, reduz-se , por conseqüência, a importância que se deve dar aos erros em matéria doutrinal (especialmente os dele).

A filosofia serve a teologia com suas noções e seus métodos. A união entre as naturezas divina e humana em Jesus Cristo é substancial; nossa união com Deus pela graça é acidental. Substância e acidente são noções pelas quais o pensamento filosófico "serve" a teologia. O problema não tem nada a ver sobre fatos serem superiores a teorizações. 

Assim das duas uma: ou Olavo é ignorante no assunto ou é mal intencionado. Creio que a primeira hipótese é improvável. A tentativa de levar católicos para dentro de uma visão alternativa sobre a relação fé e razão me parece algo muito bem articulado para por os mesmos sob sua esfera de influência intelectual, onde ele possa atuar como supremo mestre até em matéria teológica. Na visão de Olavo a teologia não é senão uma experiência de fatos  religiosos que encontrou sua expressão intelectual. Ao dizê-lo incorre em heresia caso seja católico como diz que é. 

Diante dessas evidências ainda haverá quem diga que Olavo é católico?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Missa Sertaneja: falta mais o quê?

A crise da Igreja lança a cada dia mais o catolicismo nos estertores.

A crise é tal que já não é mais possível negá-la a não ser a custa de um auto-suicídio intelectual. Porém esse auto-suicídio é mais comum que se pensa: os fiéis em geral e os clérigos estão em estado avançado de cegueira. Ninguém vê nada ou não quer ver. Cegueira que começa em cima: mesmo o sumo pontífice nada enxerga e acredita que tudo vai muito bem e que a Igreja vive tempos de primavera.

As fotos que vamos aqui exibir se explicam perfeitamente através do artigo recém publicado por Dom Lourenço: http://permanencia.org.br/drupal/node/4627

A Igreja está humanamente morta.







terça-feira, 17 de junho de 2014

Cristãos x judeus: amizade e diálogo possível?

Cristãos e judeus nos primeiros séculos. 

À guisa de esclarecimento

O Papa em recente visita a Terra Santa, reverenciou a tradição judaica. Ato legítimo ou grave afastamento da Tradição Católica? 


Com a subida do atual pontífice ao trono de Pedro a relação entre judeus e cristãos passou a ocupar o noticiário eclesiástico. O Papa Francisco, quando arcebispo de Buenos Aires, notabilizou-se por sua amizade com a Sinagoga. 

A Santa Sé através de seu órgão de imprensa(http://www.osservatoreromano.va/pt/news/com-amizade-do-papa-francisco#.U6BRI1VdWHg) demonstra forte apreço por essa atitude do Papa que, diga-se de passagem, foi também a atitude assumida por todos os papas pós conciliares. Não são poucos hoje os católicos - leigos e clérigos - entusiasmados com a relação dialogal da Igreja com os judeus. Portanto este breve artigo pretende lançar luz sobre o problema da relação judeu-cristã. É possível entabular com os bi-milenares inimigos da cristandade um dialogo amistoso? Existem motivos para pensar o cristianismo em continuidade com o judaísmo( Tese defendida por vários promotores - no seio da Igreja - desse diálogo: há que recordar que anos atrás isso deu origem a um documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado "O povo judeu e as suas sagradas escrituras na bíblia cristã")? Segundo as novas orientações patrocinadas pela "renovação conciliar", "errou-se no passado, em insistir unilateralmente sobre a descontinuidade - entre Antigo e Novo Testamento - a ponto de não se levar mais em conta a fundamental continuidade"(In: ""O povo judeu e as suas sagradas escrituras na bíblia cristã". Paulinas, São Paulo,2002. P. 236). Em suma: a nova visão patrocinada desde cima, afirma que o que é fundamental, na relação entre judaísmo e cristianismo, é a continuidade, não a diferença entre ambos. Rompendo com a visão tradicional do passado o cristianismo é apresentado como um "progresso do judaísmo", não como uma outra religião que teria abolido a antiga fé hebraica.

A pergunta que fazemos é se essa visão se sustenta em termos históricos. Logo, pretendemos contribuir com a reflexão sobre o assunto trazendo à tona algumas questões sobre a história da relação entre cristãos e judeus nos primeiros séculos. Como o senso católico de fé se funda na Tradição e na experiência de nossos antecessores na fé, devemos escutar o que o passado cristão nos diz sobre a possibilidade de uma amizade com os judeus.    

1- Introdução

Eis que, saído do judaísmo e reivindicando o Deus de Abraão, o cristianismo faz sua aparição para se impor triunfalmente, após três séculos de lutas, à totalidade do mundo romano. Tal acontecimento exerceu forte influência sobre a situação dos judeus que permaneceram presos a antiga lei. Convém estudar detalhadamente o início dessa relação complexa entre cristãos e judeus. 

Segundo alguns historiadores( Lietzmann e Guignebert) o processo de Jesus, tal como relatado nos evangelhos, é uma produção ulterior determinada pela polêmica contra os judeus: assim Jesus apareceria condenado pelo Sinédrio para ressaltar a incompatibilidade radical entre judeus e cristãos com fins apologéticos.  Sem entrarmos numa análise da questão levantada por esses historiadores o fato é que nenhuma evolução ulterior  que enfatize  o conflito entre judeus e cristãos no relato sobre o processo de Jesus seria possível se esse conflito já não existisse ao menos em potencial na vida de Jesus e no início da era apostólica. Os evangelistas não foram apenas passivos escritores dos fatos da vida de Cristo mas verdadeiros autores dado que cada um procurou especificar aspectos da narrativa evangélica ao público a que  seus relatos se destinavam e aos problemas que tencionavam esclarecer. Por isso Mateus irá começar o seu Evangelho tratando da genealogia de Jesus a fim de provar sua origem davídica, coisa deveras importante para que judeus - que eram seu público alvo - o reconhecessem como Messias. 

O Evangelho de João, o mais tardio dos quatro evangelhos canônicos, foi escrito com um forte tom antijudeu. Jesus é retratado em seu conflito com o conjunto da judiaria que o toma como um possesso, falso profeta, como um inimigo da lei antiga, etc. João termina seu evangelho culpando os judeus como um todo e não apenas suas autoridades. O termo usado exaustivamente por João é "judeus" e não "fariseus" ou "autoridades judaicas" como querem alguns exegetas ao afirmarem que o termo judeu teria, ali,  a conotação de fariseus e autoridades. Nada no Evangelho de João autoriza essa leitura que, ademais, é recente na história da exegese católica atendendo mais a critérios ecumênicos que propriamente doutrinais.Na verdade o termo "judeus" em João significa tudo: autoridades, fariseus, saduceus, povo.  

Ainda que alguns ressaltem que, de um certo ponto de vista judaico, o ensinamento de Jesus não constituísse uma heresia formal( Rabi Eliezer doutor da lei do fim do século I assevera que Jesus terá um lugar no mundo vindouro), é fato inconteste que nada explica a morte de Jesus em Jerusalém sem uma intervenção judia provocada por problemas de cunho religioso com relação a interpretação que Jesus dava a lei e a sua figura no interior da história da revelação, já que para Roma o cristianismo só passará a ser um problema décadas mais tarde. Jesus e seu cristianismo não eram, na década de 30 do século I, questões relevantes para Roma. 

A lapidação de Santo Estevão, por ordem judia e não romana, evidencia isso. A concepção romana de poder - visto como essencialmente militar - não se encontra em Jesus nem no cristianismo nascente. Logo o processo de Jesus jamais pode ter sido iniciado por Roma. Como não pode só resta a alternativa de ter sido pelos judeus. 

O conflito entre judaísmo e cristianismo tem sua fonte na polêmica que cercou toda a vida pública de Jesus: não foi, portanto, fruto de uma evolução posterior. 

2- O cristianismo como nova religião. 

É comum hoje falarem de "continuidade entre judaísmo e cristianismo" ao ponto de alguns usarem a expressão "valores judaicos-cristãos" ou "civilização judaico-cristã" termos problemáticos e destituídos de significado histórico real. 

Em termos históricos o núcleo teológico do cristianismo só se desenvolveu na medida em que se afastou de Jerusalém. As lutas nas primeiras comunidades cristãs entre os adeptos da lei antiga - em geral membros da Igreja de Jerusalém fortemente influenciada pelo apóstolo Tiago que era um judaizante - e os inovadores da diáspora- mais ligados a visão de São Paulo que acreditava não ser necessária a circuncisão e a observância da lei para ser cristão, bastando o batismo e a profissão da fé para isso - deixam entrever que foi essencial para a religião cristão afastar-se das práticas judaicas a fim de que pudesse garantir seu status de testemunha da nova aliança trazida por Cristo. Sem a noção de novo pacto - que só poderia sobreviver com o total afastamento do judaísmo ainda ligado ao velho pacto - não seria possível a constituição de uma teologia cristã nem afirmar que Jesus era de fato o Cristo.  

Por isso São Paulo dispensando os novos conversos, oriundos do paganismo, das pesadas imposições da lei, abriu perspectivas à propaganda da fé. Embora as colônias judaicas da diáspora permanecessem, na época apostólica, a principal fonte de recrutamento cristão, ela se dirige mais e mais para os gentios. Isso criará um conflito inerente a relação judaico-cristã:  judeu e cristão reivindicam o Deus de Abraão e ambos pretendem ser os fiéis intérpretes de sua vontade. 

Isso vai transformar os cristãos, de inofensivos sectários do Judaísmo, em graves hereges aos olhos judeus. Disso resulta a "solene maldição dos apóstatas" dirigida aos cristãos pelos judeus em cerca do ano 80 DC na prece Schmone Esre: " Que os apóstatas não tenham nenhuma esperança e que o império do orgulho seja extirpado prontamente, em nossos dias. Que os nazarenos e os minim pereçam em um instante, que sejam apagados do livro da vida e não sejam contados entre os justos. Bendito sejas óh eterno, que humilhas os orgulhosos" ( In: Simon, Marcel. Verus Israel; capítulo "Les chrétiens dans le Talmud".Paris, 1948.  P. 214-238. )

Em Roma as autoridades inicialmente não faziam muita diferença entre judeus e cristãos, confundindo uns com outros( Suetônio em os Doze Césares diz: "[Cláudio] expulsou de Roma os judeus que haviam feito grande alvoroço por causa de Chrestus"). 

Isso levou os judeus da diáspora a denunciarem cristãos às autoridades romanas como perigosos hereges. Isso fazia parte da tática de sobrevivência judia. Sabe-se que nos primeiros tempos do século 1 os judeus foram duramente oprimidos pelos Imperadores romanos.  Tibério "suprimiu todas as religiões estrangeiras… Distribuiu os jovens judeus, sob o pretexto de servirem ao exército, por todas as províncias notórias pelos seus climas pouco saudáveis; e expulsou da cidade o resto dos integrantes daquela nação, bem como aqueles que eram prosélitos, sob pena de escravidão vitalícia, se se recusassem a obedecer as ordens."( Suetônio, Vida dos Doze Césares, Vol. 3, "Tibério", 36).

Flávio Josefo, em suas Antiguidades Judaicas, também nota que Tibério "ordenou que todos os judeus fossem banidos de Roma", levando "quatro mil homens consigo, que enviou à ilha da Sardenha; e puniu um grande número deles, que haviam se recusado a tornar-se soldados sob o pretexto de seguir as leis de seus antepassados. Assim os judeus foram expulsos da cidade …"( Flávio Josefo, Antigüidades Judaicas (18.3.5)).

A tática de colaboração dos judeus com o poder romano abrangeria, possivelmente, a ajuda na perseguição aos cristãos. Essa tática se compreende a partir da animosidade dos romanos aos judeus e ao desejo dos mesmo de demover Roma de sua atitude mostrando-se aliados na luta contra elementos que subvertiam a cultura romana. 

Dentro disso é que se explica o fato de que Antonino, sucessor de Adriano, tenha restabelecido a liberdade de culto judaico, questão a ser esclarecida na sequência do texto.

Gibbon divide a atitude dos romanos em relação aos judeus em dois períodos; o primeiro, do reinado de Nero (37 a 68 d.C.) ao de Antonino Pio (86 a 161), ele chama de "Espírito rebelde dos judeus":
[…] os judeus descobriram a feroz impaciência do domínio de Roma, que repetidamente eclodiu nos mais furiosos massacres e insurreições.

A este seguiu-se o período da "Tolerância da religião judaica":

[…] o tratamento gentil mitigou o temperamento severo dos judeus. Despertos de seu sonho de profecia e conquistas, assumiram o comportamento de súditos pacíficos e industriosos.( In: Gibbon, Edward ''Declínio e Queda do Império Romano'', capítulo 16.)

Esse abandono da postura insurrecional dos judeus em favor de atitudes colaboracionistas vinha se desenvolvendo desde a guerra judaico-romana no ano 70 DC. A aristocracia judia depois da derrota judaica, rendeu-se ao império. A posição de Flávio Josefo - um aristocrata- revela bem isso. Ele se rendeu a Vespasiano e serviu a Roma como intérprete durante o cerco de Jerusalém. Depois serviu como propagandista. Josefo assumiu a mesma posição de Jeremias, na primeira queda de Jerusalém: tudo era vontade de Deus e os romanos eram seu instrumento; lutar contra os romanos não era apenas tolo mas mau. Progressivamente a aristocracia judaica adota a postura de colaboração em diversos níveis com o Império Romano. E o combate a seita cristã fazia parte disso. 

Podemos concluir que os acontecimentos de 70 DC em Jerusalém separaram definitivamente judeus e cristãos. Teologicamente o evento foi lido de modo radicalmente diferente em cada um dos lados. Para os cristãos a destruição do Templo era um sinal de que Deus retirara de Israel o benefício de sua eleição para transferi-lo a Igreja: uma catástrofe tão espantosa não prova que Deus se afastou em definitivo de seu povo? É dessa época o crescimento das polêmicas relativas ao deicídio. Para os cristãos a destruição de Jerusalém só podia ser o castigo pela rejeição do Messias e seu assassinato. Sendo Jesus Deus humanado, ao crime contra um homem justo se somava a ofensa a lesa majestade de Deus, o que dava aos judeus uma culpa imprescritível. Apresentar os judeus como deicidas e principais culpados pelo assassinato de Jesus era, além disso, uma boa política pois eximir os romanos de culpa podia minorar as perseguições. 

Cerco de Jerusalém. 


Os judeus exprimiam, também, a visão de que a destruição de Jerusalém era um castigo. Mas entendiam que o motivo não era o deicídio mas sim o abandono da Torá, da circuncisão e dos mandamentos( In: Ekah Rabati( Midrash das Lamentações), I, 1).

Para a economia da revelação cristã era preciso que os judeus fossem criminalmente culpados. Sem isso não haveria encadeamento entre culpa e castigo, rejeição e nova eleição. 

3- Os judeus diante das perseguições romanas aos cristãos. 

A Revolta de Bar Kochba em 135 mudou o contexto das relações judaico-romanas. A derrota da rebelião judaica fez Adriano, imperador de Roma, efetivar a diáspora transformando a Palestina em colônia romana e expulsando de vez os judeus da região. 

As lideranças judias reunidas como Catedocracia (uma elite de doutores da lei) tinham, então, percebido que a forma mais viável de sobreviver como povo e cultura era colaborando com o Império. Isso fez com que a aproximação entre judeus e lideranças imperiais se tornasse necessidade imediata: esta aproximação acabou resultando em uma mudança da política dos imperadores em relação aos judeus. 

Antonino, imperador romano que sucedeu Adriano, restabelecerá a liberdade do culto judaico. Para os imperadores era necessário uma política pró judia: ter os judeus ao lado era algo premente já que nos dois primeiros séculos da era cristã houve um forte crescimento do judaísmo, o que provocou o aumento do número de prosélitos entre gregos: sua ligação com a tradição de Israel os tornava menos permeáveis a cultura greco-romana. É preciso entender que os judeus constituíam uma religião permitida e tolerada no Império (religio licita), pois já existiam antes da conquista romana. Os romanos eram muito legalistas e desta forma as religiões pré-existentes, não eram perseguidas ou discriminadas. Fazia parte da política de conquista de Roma - desde os tempos da República - tolerar as religiões dos povos conquistados e aliançar-se às elites políticas e religiosas dos mesmos que, em troca de manutenção de seu status quo, garantiam a pacificação e a obediência dos demais grupos sociais. Para Roma era importantíssimo garantir a aliança com as elites judias sem a qual o controle sobre a vasta nação de Israel espalhada pelo território do império - aumentada pelo crescente número de prosélitos - se tornaria impossível.  No tempo em que os professores farisaicos/rabínicos se reagruparam depois da destruição do Templo, era-lhes claro que a Cristandade representava uma ameaça ideológica e religiosa. Portanto, a benção contra os minim, heréticos judaicos, foi logo adaptada para impedir cristãos racialmente judeus  de servirem como preceptores na sinagoga, uma prática mencionada no Novo Testamento e nas fontes cristãs primitivas. Várias leis judias foram adaptadas para separar judeus dos seus vizinhos cristãos de raça judia e das emergentes escrituras da nascente Cristandade. Essas ações pretendiam deixar claro que os primitivos rabis consideravam a Cristandade como heresia, e que a prática desta era, do seu ponto de vista, proibida para judeus. 

Por outro lado a Cristandade chegava a ser mais e mais gentílica: depois das decisões formais da Igreja de Jerusalém e dos resultados práticos da missão de Paulo no mundo de fala grega, os rabis começaram a ver os Cristãos claramente como não-judeus, não mais como judeus heréticos. Aos olhos de Roma os adoradores de Cristo nem mesmo tinham a escusa de pertencer a uma religião absurda e exasperante mas que, ao menos, possuía os títulos de nobreza constituídos por uma tradição nacional que se perde na noite dos tempos. Cabe compreender que Roma e seu direito asseguravam garantias a costumes imemoriais: sendo o cristianismo uma novidade absoluta o mesmo não teria direito a tal garantia. Para piorar, a visão que a elite romana tinha dos cristãos era o de uma massa gentílica anárquica: eles são inquietantes, recém vindos, o genus tertium; "usque quo genus tertium" grita a multidão no circo. Não havia uma elite cristã a quem Roma pudesse se referir e aliançar-se: cristãos não eram membros de uma nação identificável nem tinham uma estrutura sociológica definida pois não eram uma nação; os Papas da época - autoridades máximas da Igreja - eram em geral de origem escrava. A estrutura de funcionamento da Igreja que concedia o episcopado a pessoas sem nobreza era "subversivo" em face da estrutura aristocrática romana. O critério de poder na Igreja não era nobiliárquico mas relativo a ordem da graça. O cristianismo era perigosamente universalista: nele não havia grego ou judeu. As classificações nacionais no interior da Igreja perdiam sentido e as sociais também. As duas distinções sociais básicas da Roma de então - entre o homem livre e o escravo e entre o patrício e a plebe- não valiam no interior da Igreja. 

Isso lançava a Igreja num limbo político-jurídico. O cristianismo - entendido como seita de origem israelita que tinha se separado da grande tradição judaica -  era vista como uma ameaça social e política a ser combatida. 

Mas que papel os judeus teriam nas perseguições que o Império iria perpetrar contra os cristãos a partir daí? Cabe lembrar que a memória cristã do século IV se refere ao auxílio dos judeus aos romanos na época das grandes perseguições. 

Segundo alguns autores é plausível a hipótese de uma colaboração senão direta ao menos indireta dos judeus; a necessidade dos judeus de conseguirem a boa vontade dos Imperadores vai levá-los a colaborar com os mesmos na luta contra a Igreja nascente. Marcel Simon assevera que judeus se enfileiraram no campo pagão para promoverem perseguições sistemáticas aos cristãos. A relativa liberdade conferida aos judeus por Roma aferrou o proselitismo judeu a expensas do cristianismo: o que se deu no século II e III DC foi uma luta intestina entre judaísmo e cristianismo pela penetração entre os gentios. Roma evidentemente preferia ficar do lado judeu já que com sua elite era possível fazer acordos e, bem ou mal, controlar o número de conversos ao judaísmo proibindo por outro lado a circuncisão de não judeus fazendo concessões aqui e ali em troca de um proselitismo restrito( líderes judeus recebiam doações de terras imperiais e se lhes permitia exercer amplos poderes judiciários em suas comunidades). O rabino Judah Ha-Nasi, o príncipe, que viveu na segunda metade do século II e no início do III era um potentado que vivia cercado de guardas e governava comunidades da Galileia e do sul sob proteção de Roma. Essa íntima relação entre o poder de Roma e a elite judia criou dinastias de eruditos. Em troca disso davam ajuda no combate a “apostasia cristã”. Dentro dessa estratégia talvez se explica a releitura das fábulas de Maneton e de Ápio sobre a ignomínia do culto judaico, aplicadas doravante ao culto cristão. Isso tornará possível o que diz Lietzmann em Histoire de L’Eglise ancienne: “ Cada vez que acontece uma desgraça pública, uma peste, uma fome, a multidão furiosa clama a grandes brados a morte dos cristãos: que sejam jogados aos leões”. 
Essa operação de transferência de animosidade (dos judeus para os cristãos) foi uma operação política bem montada graças, bem provavelmente, a associação entre elite imperial e sinagoga: cabe lembrar que já no tempo de Jesus os judeus criaram fábulas sobre as pretensões de Cristo quanto ao desejo de ser rei em oposição ao domínio de Tibério César. Foi essa acusação – falsa – que usaram para convencer Pilatos que Jesus devia ser julgado conforme as leis romanas. 

Paul Veyne, em um artigo denominado Culto, piedade e moral no paganismo greco-romano (2009) diz que a atitude de crítica dos romanos frente às comunidades cristãs se baseava na repulsa “ao que era “híbrido, impuro e ambíguo” (2009: 245). Sob este ponto de vista, que nos remete às questões de identidade cultural, podem-se inserir as perseguições no quadro dos conflitos culturais com algo que não se conhece, contra um grupo que não se sabe bem ao certo o que seja. Nesse sentido, Veyne propôs que os cristãos eram vistos como híbridos pelos pagãos romanos, uma vez que, possuíam as mesmas categorias de pensamentos dos demais cidadãos do Império Romano: “Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus...esse Deus pretendia superar os deuses nacionais”.  

As perseguições aos cristãos iniciadas na época de Nero, tornaram-se mais sistemáticas no século II -III

As perseguições eram causadas pela rejeição a algo inclassificável, anormal. Quem produziu essa imagem do cristão como o inclassificável se entre os séculos I e II, as comunidades cristãs embora mal vistas pela população pagã, só eram objeto de ações persecutórias assistemáticas, localizadas, mobilizadas pela população local ante problemas circunscritos – pestes, inundações, secas –, ou pela vontade pessoal de um imperador? Ela teria surgido de dentro do sistema cultural romano ou teria sido fruto de uma importação? 

É bem verdade que os cristãos eram por "natureza" cidadãos do um reino que não é deste mundo. O romano para classificar culturalmente o cristão como o apátrida tinha que se referir necessariamente ao judaísmo de onde a “seita” tinha se destacado e separado radicalmente? Entra aqui a questão da identidade. O cristianismo pode ser definido enquanto ruptura e negação do judaísmo. Jesus rompeu com as noções de pureza judia interiorizando o conceito de puro-impuro, rompeu com o sábado, etc. O cristão é por essência o antijudeu, o não judeu. Para o judeu o cristianismo também era tido como “subversão” social(assim como passaram a ser vistos, progressivamente, pelas autoridades romanas dos séculos II e III) em face da lei e do Templo e das autoridades que a representavam. Um romano poderia encarar os cristãos em termos cristãos - como o apátrida por excelência - se eles não tivessem antes desenvolvido uma identidade apátrida opondo-se ao judaísmo? Evidente que não. A fórmula a partir do qual o cristão era definido como apátrida só era possível de ser aplicada na medida em que tal qualidade existia no cristianismo como oposição radical a judiaria. 

Havia aí uma inter-relação entre perspectivas culturais que atendiam a interesses parecidos: o judeu que procurava livrar-se da apostasia cristã e o imperial desnorteado ante uma malta de homens “inclassificáveis”, impossíveis de incorporar no sistema romano. Neste sentido, podemos observar o desenvolvimento do seguinte fenômeno: os cristãos se converteram no decorrer do século III, nos principais inimigos internos do Império Romano e dos valores romanos, perturbavam a paz dos deuses, e punham em risco a manutenção da própria “res publica”.Embora os judeus tivessem um monoteísmo intransigente e fossem um contingente populacional considerável, organizado e proselitista, eram apenas os cristãos os vistos como inimigos da "pax deorum". O sentimento anticristão foi recrudescido pelo aumento das pressões germânicas sobre o Império e, em 250, o imperador Décio emitiu um decreto no qual obrigava a todos os cidadãos do Império Romano a efetuar sacrifício aos deuses tradicionais perante uma autoridade imperial, da qual receberia um certificado, o libellus. 

Claro que as perseguições não podem ser explicadas apenas com referência a uma relação entre poderes romanos e judeus. Roma tinha seus motivos próprios para perseguir os cristãos: Neste contexto, o fator fundamental que levou às ondas persecutórias foi a manutenção da pax deorum, que não podia ser rompida por este grupo “diferente”. Por conseguinte, os cristãos foram perseguidos por suas diferentes formas de culto, que se contrapunham às características gerais da religiosidade greco-romana, e que, por sua vez, colocavam em risco a relação entre o Império Romano e os deuses. Para a população imperial e, posteriormente, para os imperadores apresentava-se a necessidade de expurgar este grupo de pessoas que punham em risco a segurança da coletividade. 

4- Entre o fim do século III e o século IV-V:  a ascensão do cristianismo e a nova condição dos judeus em face da Igreja depois de Constantino.

O conflito tornou-se, durante o século III, a praxe normal da relação entre as religiões cristã e judaica. Uns e outros viam-se como o "outro", o pólo contrário a partir o qual ambas as identidades religiosas eram constituídas. 

Nesse contexto, a tese da punição divina dos judeus é explicitamente formulada por Orígenes: " podemos concluir com toda a confiança que os judeus não recuperarão sua situação de então, pois cometeram a mais abominável das perversidades, tramando este conluio contra o salvador do gênero humano...era preciso, por conseguinte, que a cidade onde Jesus sofreu assim fosse destruída de alto a baixo, que o povo judeu fosse expulso de lá e que outros fossem chamados a Deus à bem aventurada eleição"( Contra Celso, 4, 23. Patrologie Grecque de Migne, 11,1060).

Durante os anos de 200 DC era comum os judeus lançarem a seguinte acusação aos cristãos:"Não há pois, entre vós, um único homem cujas preces sejam acolhidas por Deus e façam cessar vossas desgraças?". Não era de se estranhar que a reação cristã viesse: a evolução da liturgia pascal em seu "anti-judaísmo teológico"  principia a se desenvolver nessa época. Segundo a Didascália, um dos documentos mais antigos que chegaram até nós, o motivo principal da solenização da páscoa parece ser, tanto quanto a comemoração da paixão de Cristo, a obtenção do perdão pelos judeus:"Saibam pois, meus irmãos, a respeito do jejum que jejuamos na Páscoa, vós jejuareis por nossos irmãos que não obedeceram mesmo que eles vos odeiem...Precisamos jejuar e nos afligir por eles, pelo julgamento e pela destruição do país...pois quando nosso Senhor veio ao povo judeu, não lhe deram crédito quando Ele lhes instruía" (V, 14,23).

O resultado disso será o que virá a se consolidar na liturgia durante o século IX onde alguns sacramentos da liturgia romana indicarão expressamente:"pro judaeis no flectante"(pelos judeus não há genuflexão). 

Nestas condições durante o século IV sobretudo no Oriente, onde os judeus eram mais numerosos, começam a se ouvir pregadores a lançar contra eles diatribes como estas: "Homicidas do Senhor, assassinos dos profetas, rebeldes e odientos para com Deus, ultrajam a lei, resistem à graça, repudiam a fé de seus pais. Comparsas do Diabo, raça de víboras, delatores, caluniadores, toldados de cérebro, fermento farisaico, sinédrio dos demônios, malditos, execráveis, lapidadores, inimigos de tudo que é belo...( In: Gregório de Nissa.Patrologia Grega de Migne, 46, 685)"; e como estas:"Lupanar e teatro, a sinagoga é também antro de salteadores e covil de bestas...vivendo para o ventre, a boca sempre escancarada, os judeus não se conduzem melhor que os porcos e os bodes, na sua lúbrica grosseria e no excesso de sua glutoneria. Só sabem fazer uma coisa empanturrar-se e embriagar-se...( In: São João Crisóstomo. Patrologia Latina de Migne, 25,830.)

Com a liberdade de culto dada a Igreja em 313 por Constantino - que tornara-se então um catecúmeno cristão - as relações entre Roma e judeus irão se alterar aos poucos. Com isso o cristianismo irá se tornar uma religião de massa. A provável influência judia na heresia ariana( Criada por Ario, Bispo de Alexandria) que negava a divindade de Cristo motivou a reação de populações cristãs dentro do Império; na época, sobretudo durante os Concílios da Igreja, grupos populares gritavam palavras de ordem como "para a forca com o Iscariote", "Abaixo o filo-judeu", etc. Cabe lembrar que Alexandria há séculos era um ponto de encontro entre a sabedoria judia e a grega: essa mistura deu origem a uma espécie de racionalismo que se opunha ao dogma cristão. E foi essa mistura que permitiu o nascimento do Arianismo. Filosoficamente, Ario foi um descendente dos proponentes gregos da racionalidade, buscando compreender o universo exclusivamente pela razão, incluindo a natureza de Jesus e de Deus Pai. A ortodoxia e a doutrina da Trindade promoviam a noção baseada na fé de que a crença cristã tinha origem revelada: embora pudesse ser inteligida a posteriori pela razão, não dependia dela para afirmar sua autoridade. Logo, a solução  ortodoxa foi um sinal de que a Igreja atribuíra à razão um posto subordinado no esquema das coisas.

A vitória do trinitarismo durante o Concílio de Nicéia - que teve a participação de Constantino -fará que judeus sejam incluídos lado a lado com os hereges. O pacto entre o Imperador e a Igreja trará para a comunidade judaica uma mudança de status civil. Ocorrem  proibições de conversão ao Judaísmo tanto de cristãos quanto de pagãos; tributos especiais são exigidos dos judeus. Numa lei datada de 18 de outubro de 315 - bem antes de Nicéia -  Constantino determina que se impeça e se punam os judeus, sua liderança, etnarcas e patriarcas (maiouribus eorum et patriarchis), se depois de a lei ser promulgada ousarem apedrejar ou empregar qualquer forma de “loucura” (saxis aut aulio furoris genere) contra qualquer pessoa que escape de sua seita e se dirija a servir a Deus (qui eorum feralem fugerit sectam et ad dei cultum respexerit). Quem o fizer será queimado, junto com seus ajudantes (mox flammis dedendus est et cum omnibus suis  participibus concremandus). E acrescenta que, se alguma pessoa do povo se converter a esta seita corrompida (nefariam sectam), sofrerá junto com eles as penas correspondentes. A separação dos judeus e das mulheres não judias, forçando a endogamia e impedindo os casamentos mistos e a provável conversão de mulheres não judias ao Judaísmo, foi decretada por Constâncio, filho de Constantino, em lei de 13 de agosto de 339. O texto fala das mulheres, que trabalham nas tecelagens/fábricas imperiais (in gynaeceo nostro ante versatas) e manda os judeus as restituírem às fábricas (restitui gynaeceo), caso, em sua loucura (in turpitudinis suae), as tenham desposado/tomado (duxere consortium). O desrespeito pela ordem imperial (si hoc fecerint) seria punido com a pena capital (capitali  periculo subiugentur ).

Constâncio legislará, também, sobre a posse de escravos por judeus. Caso os judeus tivessem escravos, poderiam influenciá-los e convertê-los ao seu credo. O ponto central desta lei e de muitas outras similares seria impedir o proselitismo  judaico. Há uma lei no Pentateuco pela qual um judeu não  podia manter outro judeu na escravidão por mais de seis anos,no denominado ano sabático. Portanto para um escravo de um judeu se converter à crença do senhor era bastante atraente. Tratava-se de um perigo para a expansão do Cristianismo. Constâncio legisla que “se alguém entre os judeus adquirir um escravo de outra seita ou nação (mancipium sectae alterius seu nationis crediderit conparandum), deverá ser confiscado  pelo tesouro imperial/fisco (mancipium fisco protinus vindicetur ).

Tudo isso mostra que, aos poucos, os judeus se tornarão um problema a ser resolvido: eram uma minoria organizada e rica que rejeitava o cristianismo não por ignorância mas por obstinação. Cada vez mais se tornavam impopulares diante das massas cristãs que acreditava na sua colaboração com os imperadores que tinham perseguido os cristãos. Por isso judeus receberam com alegria o reflorescimento pagão sob o Imperador Juliano que é conhecido na tradição judia não como "Juliano, o apóstata" mas como "Juliano, o heleno".

Durante a década de 380, com a ascensão do Imperador Teodósio que torna a fé católica religião oficial do Império, a política oficial do império passa a ser a conformidade religiosa: com isso surgem inúmeros estatutos legais para conformar a fé pagãos, heréticos e minorias não-conformistas como os judeus. Ataques de populares a sinagogas se tornam comuns embora fossem proibidas pelo estado imperial pois judeus ainda eram vistos como elementos valiosos na sociedade já que davam apoio à autoridade constituída. Em 388 populares, instigados pelo bispo local, incendiará uma sinagoga no Callinicum, no Eufrates. Teodósio mandou reconstruí-la as custas dos cristãos. Santo Ambrósio opôs-se firmemente a Teodósio e ordenou numa carta que a ordem fosse retirada já que mais importante era a causa da religião católica que o direito civil. A atitude de Ambrósio - um santo - vale para os que hoje acusam - falsamente -  diversos católicos de "anti-semitismo" pela ousadia de levantarem suas vozes para denunciar os esquemas conspiratórios judaicos : a estes cabe dizer que a causa da fé católica está muito acima do respeito a qualquer outra coisa.

Santo Ambrósio confronta Teodósio. 


A posição de Ambrósio foi a base para a retirada dos direitos comunais e de todos os privilégios de quem gozava a judiaria. Foram excluídos do serviço ao estado e do exército. Apesar disso não era o objetivo da Igreja extirpar o judaísmo pela força: Santo Agostinho alegava que a existência dos judeus faziam parte do plano de salvação já que eram, indiretamente, testemunhas da verdade do cristianismo, simbolizando seu fracasso e humilhação o triunfo da Igreja sobre a sinagoga. A política da Igreja era permitir que comunidades judias subsistissem mas em condições de impotência. Entre os gregos a hostilidade aos judeus eram mais intensa que entre os latinos. No século V São João Crisóstomo fez oito "Sermões contra os judeus" em Antioquia: eles tornaram-se o padrão da retórica anti-judia que se baseava amplamente nas passagens dos evangelhos de Mateus e João, onde o judeu era apresentado como assassino de Cristo. 

A cruzada antijudaica levou, no Oriente, a cristianização de Jerusalém: outros sítios relacionados a vida de Cristo foram igualmente cristianizados com o estabelecimento de mosteiros e igrejas, sobrevivendo ali pequenas comunidades judias empobrecidas. A cristianização desses sítios foi efetivada por pogrons contra a Palestina judaica, liderados por Barsauma e seus monges sírios que incendiaram sinagogas e aldeias. 
Aproveitando-se disso os samaritanos refloresceram: as autoridades de Bizâncio agiram rápido. Teodósio II aplicou-lhe os estatutos antijudaicos. Quatro décadas depois os samaritanos montaram um rebelião contra Bizâncio massacrando comunidades cristãs e incendiando Igrejas. O exército bizantino os derrotou e destruiu seu santuário em Garizim mudado em basílica dedicada a Virgem. Na época de Justiniano, imperador de ortodoxia estrita( ele só dava cidadania a batizados e perseguiu cristãos que não se adequaram as decisões do Concílio de Calcedônia) os samaritanos realizaram outra revolta: foi então que Bizâncio os exterminou como uma nação e fé. 

Assim percebemos que os primeiros imperadores cristãos, sabiamente advertidos pelo exemplo de homens como Santo Ambrósio, não pouparam os judeus, naturais adversários da cristandade, procurando a todo custo cercear a liberdade do povo deicida a fim de que não ameaçasse a expansão da fé cristã. A atitude destes imperadores e dos bispos e papas da época contrasta radicalmente com a política favorável aos judeus praticada hoje pelas autoridades eclesiásticas e por católicos de cariz modernista. Em quem devemos nos espelhar? Nesses varões cheios de fé do passado ou nos gestos das autoridades atuais que se dobram, com docilidade, às demandas perversas dos judeus, cujo projeto é destruir o que ainda resta de pé em termos de cristianismo? Que o bom senso cristão seja o farol que nos oriente nessa decisão.     

Bergoglio, então cardeal arcebispo de Buenos Aires, celebrando a páscoa judaica - abolida definitivamente por Jesus. 


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domingo, 18 de maio de 2014

Dom Castro Mayer responde ao Sr. Rafael Vitola sobre apologética!

Recentemente o sr Rafael Vitola Brodbeck - apologeta afamado, que promoveu anos atrás o "selo de ortodoxia"-  afirmou que "apologética não é UFC", querendo dizer que ações como o do Caiafarsa são duras demais e que devemos, portanto, ser mais dóceis na defesa da doutrina. É como se ele dissesse a soldados em uma guerra que diminuíssem os tiros. Levando em conta que os inimigos não diminuem os ataques, reduzir os tiros seria nada mais que suicídio. 

Mas eu não irei responder a alegação do sr Vitola. Deixarei que Dom Castro Mayer citando exemplos da escritura, tradição e magistério esclareça tudo isso. Evidente que excessos devem ser corrigidos: mas entre os excessos de zelo e a amenização dele o segundo caso é bem mais grave. Num tempo de debandada geral ficar preocupado com os "novos zelotas" é dar prova de alienação. O que menos precisamos, nestes tempos de dialoguismos e traições desde o alto, são de apelos a moderação na defesa da fé.