quinta-feira, 10 de julho de 2014

Olavo de Carvalho e a relação fé e razão: mais um embuste!!


Olavo numa de seus elevados exercícios lógico-demonstrativos
O filósofo Olavo de Carvalho vem se apresentando, faz tempo, como católico: tendo passado bom tempo longe da verdadeira fé teria feito o caminho de retorno. Graças a isso tem tido ótima penetração em meios católicos afeitos aos estudos. A sua pretensa conversão exorcizou as denúncias feitas por Orlando Fedeli, apologeta católico fundador do Instituto Cultural Montfort, que anos atrás demonstrou, em seus artigos, como a filosofia olavética divergia radicalmente da doutrina da Igreja.  Mas já que Olavo teria se convertido não existiria mais nenhum empecilho para que um católico se sujeite ao seu magistério filosófico. 

Mas os fatos começam, pouco a pouco, a aparecer, de modo que a pretensa conversão de Olavo de Carvalho cada vez mais se afigura como uma peça teatral bem montada. 

Nosso objetivo aqui é mostrar, pouco a pouco, como o sr Olavo de católico tem só o nome: sua filosofia continua divergindo radicalmente daquilo que a Igreja ensina. 

Começamos recordando que "Não haveria, certamente, tais desvios da verdade que deplorar se também no terreno filosófico todos olhassem com a devida reverência ao magistério da Igreja, ao qual compete, por divina instituição, não só custodiar e interpretar o depósito da verdade revelada, mas também vigiar sobre as disciplinas filosóficas para que os dogmas católicos não sofram dano algum da parte das opiniões não corretas." (Pio XII, Humani Generis)". Portanto ao filósofo católico cabe submeter-se as orientações do magistério supremo até em matéria estritamente filosófica. Ou seja: a consciência individual aí deve sujeitar-se aquelas determinações da Igreja no que tange as doutrinas filosóficas que não se ajustam ao dogma. Destas o filósofo católico deve manter distância. Na Humani Generis, PIO XII recorda a obrigação de os pensadores católicos evitarem o existencialismo, o evolucionismo,etc. 

Para compreendermos a visão do Sr Olavo sobre a relação fé e razão devemos, antes de mais nada, entender o que ele diz sobre a filosofia. 

Para o senhor Olavo de Carvalho só a consciência individual é capaz de conhecimento. Para Olavo uma vez que toda expressão social depende de uma expressão individual e interior, e uma vez que esta só se torna possível após uma condensação de significado sob a forma do juízo, este, antes de se tornar proposição – em sentido lógico – dotada de compreensibilidade pública, deve ser afirmado pelo indivíduo de si para si mesmo –  deve passar por um recenseamento socrático do que se sabe e não se sabe para daí seguir-se o processo de extrusão, pelo qual o indivíduo dá forma lingüística e simbolicamente articulável à própria experiência.

O que isso quer dizer? Muito simples: para Olavo o processo do conhecimento - incluído aí o conhecimento da fé - não pode ser transmitido por uma autoridade coletiva - quer dizer por um magistério público como o magistério da Igreja - mas tão só por indivíduos que tenham elaborado a "verdade fática" do cristianismo interiormente para dar a ela forma teórica. A um outro indivíduo que recebesse a teorização da fé em forma de dogma caberia fazer o processo de ligação entre a teoria e os fatos que são a essência mesma da fé; ou seja, não basta para cada fiel receber as fórmulas dogmáticas para terem acesso a fé: eles devem obrigatoriamente reconstituir a "verdade fática" originária em seu interior. Só aí o legítimo entendimento do dogma seria possível. Segundo Olavo o dogma não garante a verdade doutrinal, asim sendo os ensinamentos solenes do magistério nada resolvem, pois toda fórmula, pelo caráter simbólico que tem, pode deslindar para a heresia já que sempre permitiria- segundo o "mestre" Olavo -   diversas interpretações. O magistério, dentro dessa visão, seria incapaz de assegurar a fé. 

É o próprio Olavo quem o diz aqui:

















A noção de uma verdade apenas potencial nos dogmas parece-me proposição condenada: Etiam post fidem conceptam, homo non debet quiescere in dogmatibus religionis, eisque fixe et immobiliter adhaerere, sede semper anxius manere progrediendi ad ulteriorem veritatem, nempe evolvendo in novos sensus, immo et corrigendo id quod credit"(mesmo depois de concebido na fé o homem não deveria repousar nos dogmas da religião)In: Monitore Ecclesiastico, 1925, p. 194; na Documentation catholique, 1925, t. I, pp. 771 ss, e em Praelectiones theologicae naturalis, do P. Descoqs, 1932, t. I, p. 150, e t. II, pp. 287 ss.


Indo agora para a questão da relação fé e razão vejamos o que Olavo diz: 




Pois vejamos: Olavo nega que deva existir uma  subordinação da filosofia a teologia como manda a fé católica. Em segundo lugar a referência de Olavo a teologia como conjunto de "fatos" é , tipicamente, modernismo. A fé não é uma coleção de fatos observáveis, embora ela esteja relacionada a fatos que, outrora, puderam ser vistos. Vejamos o que diz Hugo de São Vítor: " Como pode São Pedro ter tido fé na paixão de Cristo, se ele a viu com seus próprios olhos e a fé é de coisas que não se vêem?...o mérito de São Pedro não foi o de ter visto a paixão de Cristo mas o de ter crido ser Deus aquele homem que viu pendendo da cruz...a fé é sempre de coisas que não se podem ver" (In: Summa Sententiarum, L 1, c. 2, PL 176,45.) 

Ademais Olavo não distingue a revelação da teologia. Para dizermos o mínimo, o que ele fala demonstra uma ignorância indesculpável para um filósofo. Olavo fala de realidade mas que isso tem a ver, diretamente, com a relação entre teologia e filosofia? O cerne dessa relação - de caráter gnosiológico - não tem a ver, diretamente, com o problema do que seja a " realidade" . A filosofia é uma ciência (ou um corpo de ciências) que é, sim, ao menos em suas conclusões, subordinada à teologia, que é uma ciência superior. A expressão ancilla theologiae não tem a ver com o que ele diz. 

A teologia tem um conteúdo. Nesse sentido podemos citar o dogma da divindade de Cristo: Jesus é Deus e homem: isso é uma doutrina revelada. A filosofia afirma a não contradição( uma coisa não pode ser ela mesma e o oposto); aparentemente dizer que Jesus é Deus e homem soa como contradição. O filósofo católico não pode, em nome disso, negar o dogma; antes deve submeter a filosofia ao dogma mostrando como ele não contradiz a razão natural. É disso que se trata a relação fé e razão. 

 A  tese de que o cristianismo é um fato - que poderia ser reconstruído experiencialmente -  ordena-se a diminuir o valor da Doutrina Católica, pois geralmente a contraposição que ela faz não é entre FATO e TEORIA como no caso acima, mas entre FATO e DOUTRINA. Reduzida a importância da Doutrina, reduz-se , por conseqüência, a importância que se deve dar aos erros em matéria doutrinal (especialmente os dele).

A filosofia serve a teologia com suas noções e seus métodos. A união entre as naturezas divina e humana em Jesus Cristo é substancial; nossa união com Deus pela graça é acidental. Substância e acidente são noções pelas quais o pensamento filosófico "serve" a teologia. O problema não tem nada a ver sobre fatos serem superiores a teorizações. 

Assim das duas uma: ou Olavo é ignorante no assunto ou é mal intencionado. Creio que a primeira hipótese é improvável. A tentativa de levar católicos para dentro de uma visão alternativa sobre a relação fé e razão me parece algo muito bem articulado para por os mesmos sob sua esfera de influência intelectual, onde ele possa atuar como supremo mestre até em matéria teológica. Na visão de Olavo a teologia não é senão uma experiência de fatos  religiosos que encontrou sua expressão intelectual. Ao dizê-lo incorre em heresia caso seja católico como diz que é. 

Diante dessas evidências ainda haverá quem diga que Olavo é católico?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Missa Sertaneja: falta mais o quê?

A crise da Igreja lança a cada dia mais o catolicismo nos estertores.

A crise é tal que já não é mais possível negá-la a não ser a custa de um auto-suicídio intelectual. Porém esse auto-suicídio é mais comum que se pensa: os fiéis em geral e os clérigos estão em estado avançado de cegueira. Ninguém vê nada ou não quer ver. Cegueira que começa em cima: mesmo o sumo pontífice nada enxerga e acredita que tudo vai muito bem e que a Igreja vive tempos de primavera.

As fotos que vamos aqui exibir se explicam perfeitamente através do artigo recém publicado por Dom Lourenço: http://permanencia.org.br/drupal/node/4627

A Igreja está humanamente morta.







terça-feira, 17 de junho de 2014

Cristãos x judeus: amizade e diálogo possível?

Cristãos e judeus nos primeiros séculos. 

À guisa de esclarecimento

O Papa em recente visita a Terra Santa, reverenciou a tradição judaica. Ato legítimo ou grave afastamento da Tradição Católica? 


Com a subida do atual pontífice ao trono de Pedro a relação entre judeus e cristãos passou a ocupar o noticiário eclesiástico. O Papa Francisco, quando arcebispo de Buenos Aires, notabilizou-se por sua amizade com a Sinagoga. 

A Santa Sé através de seu órgão de imprensa(http://www.osservatoreromano.va/pt/news/com-amizade-do-papa-francisco#.U6BRI1VdWHg) demonstra forte apreço por essa atitude do Papa que, diga-se de passagem, foi também a atitude assumida por todos os papas pós conciliares. Não são poucos hoje os católicos - leigos e clérigos - entusiasmados com a relação dialogal da Igreja com os judeus. Portanto este breve artigo pretende lançar luz sobre o problema da relação judeu-cristã. É possível entabular com os bi-milenares inimigos da cristandade um dialogo amistoso? Existem motivos para pensar o cristianismo em continuidade com o judaísmo( Tese defendida por vários promotores - no seio da Igreja - desse diálogo: há que recordar que anos atrás isso deu origem a um documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado "O povo judeu e as suas sagradas escrituras na bíblia cristã")? Segundo as novas orientações patrocinadas pela "renovação conciliar", "errou-se no passado, em insistir unilateralmente sobre a descontinuidade - entre Antigo e Novo Testamento - a ponto de não se levar mais em conta a fundamental continuidade"(In: ""O povo judeu e as suas sagradas escrituras na bíblia cristã". Paulinas, São Paulo,2002. P. 236). Em suma: a nova visão patrocinada desde cima, afirma que o que é fundamental, na relação entre judaísmo e cristianismo, é a continuidade, não a diferença entre ambos. Rompendo com a visão tradicional do passado o cristianismo é apresentado como um "progresso do judaísmo", não como uma outra religião que teria abolido a antiga fé hebraica.

A pergunta que fazemos é se essa visão se sustenta em termos históricos. Logo, pretendemos contribuir com a reflexão sobre o assunto trazendo à tona algumas questões sobre a história da relação entre cristãos e judeus nos primeiros séculos. Como o senso católico de fé se funda na Tradição e na experiência de nossos antecessores na fé, devemos escutar o que o passado cristão nos diz sobre a possibilidade de uma amizade com os judeus.    

1- Introdução

Eis que, saído do judaísmo e reivindicando o Deus de Abraão, o cristianismo faz sua aparição para se impor triunfalmente, após três séculos de lutas, à totalidade do mundo romano. Tal acontecimento exerceu forte influência sobre a situação dos judeus que permaneceram presos a antiga lei. Convém estudar detalhadamente o início dessa relação complexa entre cristãos e judeus. 

Segundo alguns historiadores( Lietzmann e Guignebert) o processo de Jesus, tal como relatado nos evangelhos, é uma produção ulterior determinada pela polêmica contra os judeus: assim Jesus apareceria condenado pelo Sinédrio para ressaltar a incompatibilidade radical entre judeus e cristãos com fins apologéticos.  Sem entrarmos numa análise da questão levantada por esses historiadores o fato é que nenhuma evolução ulterior  que enfatize  o conflito entre judeus e cristãos no relato sobre o processo de Jesus seria possível se esse conflito já não existisse ao menos em potencial na vida de Jesus e no início da era apostólica. Os evangelistas não foram apenas passivos escritores dos fatos da vida de Cristo mas verdadeiros autores dado que cada um procurou especificar aspectos da narrativa evangélica ao público a que  seus relatos se destinavam e aos problemas que tencionavam esclarecer. Por isso Mateus irá começar o seu Evangelho tratando da genealogia de Jesus a fim de provar sua origem davídica, coisa deveras importante para que judeus - que eram seu público alvo - o reconhecessem como Messias. 

O Evangelho de João, o mais tardio dos quatro evangelhos canônicos, foi escrito com um forte tom antijudeu. Jesus é retratado em seu conflito com o conjunto da judiaria que o toma como um possesso, falso profeta, como um inimigo da lei antiga, etc. João termina seu evangelho culpando os judeus como um todo e não apenas suas autoridades. O termo usado exaustivamente por João é "judeus" e não "fariseus" ou "autoridades judaicas" como querem alguns exegetas ao afirmarem que o termo judeu teria, ali,  a conotação de fariseus e autoridades. Nada no Evangelho de João autoriza essa leitura que, ademais, é recente na história da exegese católica atendendo mais a critérios ecumênicos que propriamente doutrinais.Na verdade o termo "judeus" em João significa tudo: autoridades, fariseus, saduceus, povo.  

Ainda que alguns ressaltem que, de um certo ponto de vista judaico, o ensinamento de Jesus não constituísse uma heresia formal( Rabi Eliezer doutor da lei do fim do século I assevera que Jesus terá um lugar no mundo vindouro), é fato inconteste que nada explica a morte de Jesus em Jerusalém sem uma intervenção judia provocada por problemas de cunho religioso com relação a interpretação que Jesus dava a lei e a sua figura no interior da história da revelação, já que para Roma o cristianismo só passará a ser um problema décadas mais tarde. Jesus e seu cristianismo não eram, na década de 30 do século I, questões relevantes para Roma. 

A lapidação de Santo Estevão, por ordem judia e não romana, evidencia isso. A concepção romana de poder - visto como essencialmente militar - não se encontra em Jesus nem no cristianismo nascente. Logo o processo de Jesus jamais pode ter sido iniciado por Roma. Como não pode só resta a alternativa de ter sido pelos judeus. 

O conflito entre judaísmo e cristianismo tem sua fonte na polêmica que cercou toda a vida pública de Jesus: não foi, portanto, fruto de uma evolução posterior. 

2- O cristianismo como nova religião. 

É comum hoje falarem de "continuidade entre judaísmo e cristianismo" ao ponto de alguns usarem a expressão "valores judaicos-cristãos" ou "civilização judaico-cristã" termos problemáticos e destituídos de significado histórico real. 

Em termos históricos o núcleo teológico do cristianismo só se desenvolveu na medida em que se afastou de Jerusalém. As lutas nas primeiras comunidades cristãs entre os adeptos da lei antiga - em geral membros da Igreja de Jerusalém fortemente influenciada pelo apóstolo Tiago que era um judaizante - e os inovadores da diáspora- mais ligados a visão de São Paulo que acreditava não ser necessária a circuncisão e a observância da lei para ser cristão, bastando o batismo e a profissão da fé para isso - deixam entrever que foi essencial para a religião cristão afastar-se das práticas judaicas a fim de que pudesse garantir seu status de testemunha da nova aliança trazida por Cristo. Sem a noção de novo pacto - que só poderia sobreviver com o total afastamento do judaísmo ainda ligado ao velho pacto - não seria possível a constituição de uma teologia cristã nem afirmar que Jesus era de fato o Cristo.  

Por isso São Paulo dispensando os novos conversos, oriundos do paganismo, das pesadas imposições da lei, abriu perspectivas à propaganda da fé. Embora as colônias judaicas da diáspora permanecessem, na época apostólica, a principal fonte de recrutamento cristão, ela se dirige mais e mais para os gentios. Isso criará um conflito inerente a relação judaico-cristã:  judeu e cristão reivindicam o Deus de Abraão e ambos pretendem ser os fiéis intérpretes de sua vontade. 

Isso vai transformar os cristãos, de inofensivos sectários do Judaísmo, em graves hereges aos olhos judeus. Disso resulta a "solene maldição dos apóstatas" dirigida aos cristãos pelos judeus em cerca do ano 80 DC na prece Schmone Esre: " Que os apóstatas não tenham nenhuma esperança e que o império do orgulho seja extirpado prontamente, em nossos dias. Que os nazarenos e os minim pereçam em um instante, que sejam apagados do livro da vida e não sejam contados entre os justos. Bendito sejas óh eterno, que humilhas os orgulhosos" ( In: Simon, Marcel. Verus Israel; capítulo "Les chrétiens dans le Talmud".Paris, 1948.  P. 214-238. )

Em Roma as autoridades inicialmente não faziam muita diferença entre judeus e cristãos, confundindo uns com outros( Suetônio em os Doze Césares diz: "[Cláudio] expulsou de Roma os judeus que haviam feito grande alvoroço por causa de Chrestus"). 

Isso levou os judeus da diáspora a denunciarem cristãos às autoridades romanas como perigosos hereges. Isso fazia parte da tática de sobrevivência judia. Sabe-se que nos primeiros tempos do século 1 os judeus foram duramente oprimidos pelos Imperadores romanos.  Tibério "suprimiu todas as religiões estrangeiras… Distribuiu os jovens judeus, sob o pretexto de servirem ao exército, por todas as províncias notórias pelos seus climas pouco saudáveis; e expulsou da cidade o resto dos integrantes daquela nação, bem como aqueles que eram prosélitos, sob pena de escravidão vitalícia, se se recusassem a obedecer as ordens."( Suetônio, Vida dos Doze Césares, Vol. 3, "Tibério", 36).

Flávio Josefo, em suas Antiguidades Judaicas, também nota que Tibério "ordenou que todos os judeus fossem banidos de Roma", levando "quatro mil homens consigo, que enviou à ilha da Sardenha; e puniu um grande número deles, que haviam se recusado a tornar-se soldados sob o pretexto de seguir as leis de seus antepassados. Assim os judeus foram expulsos da cidade …"( Flávio Josefo, Antigüidades Judaicas (18.3.5)).

A tática de colaboração dos judeus com o poder romano abrangeria, possivelmente, a ajuda na perseguição aos cristãos. Essa tática se compreende a partir da animosidade dos romanos aos judeus e ao desejo dos mesmo de demover Roma de sua atitude mostrando-se aliados na luta contra elementos que subvertiam a cultura romana. 

Dentro disso é que se explica o fato de que Antonino, sucessor de Adriano, tenha restabelecido a liberdade de culto judaico, questão a ser esclarecida na sequência do texto.

Gibbon divide a atitude dos romanos em relação aos judeus em dois períodos; o primeiro, do reinado de Nero (37 a 68 d.C.) ao de Antonino Pio (86 a 161), ele chama de "Espírito rebelde dos judeus":
[…] os judeus descobriram a feroz impaciência do domínio de Roma, que repetidamente eclodiu nos mais furiosos massacres e insurreições.

A este seguiu-se o período da "Tolerância da religião judaica":

[…] o tratamento gentil mitigou o temperamento severo dos judeus. Despertos de seu sonho de profecia e conquistas, assumiram o comportamento de súditos pacíficos e industriosos.( In: Gibbon, Edward ''Declínio e Queda do Império Romano'', capítulo 16.)

Esse abandono da postura insurrecional dos judeus em favor de atitudes colaboracionistas vinha se desenvolvendo desde a guerra judaico-romana no ano 70 DC. A aristocracia judia depois da derrota judaica, rendeu-se ao império. A posição de Flávio Josefo - um aristocrata- revela bem isso. Ele se rendeu a Vespasiano e serviu a Roma como intérprete durante o cerco de Jerusalém. Depois serviu como propagandista. Josefo assumiu a mesma posição de Jeremias, na primeira queda de Jerusalém: tudo era vontade de Deus e os romanos eram seu instrumento; lutar contra os romanos não era apenas tolo mas mau. Progressivamente a aristocracia judaica adota a postura de colaboração em diversos níveis com o Império Romano. E o combate a seita cristã fazia parte disso. 

Podemos concluir que os acontecimentos de 70 DC em Jerusalém separaram definitivamente judeus e cristãos. Teologicamente o evento foi lido de modo radicalmente diferente em cada um dos lados. Para os cristãos a destruição do Templo era um sinal de que Deus retirara de Israel o benefício de sua eleição para transferi-lo a Igreja: uma catástrofe tão espantosa não prova que Deus se afastou em definitivo de seu povo? É dessa época o crescimento das polêmicas relativas ao deicídio. Para os cristãos a destruição de Jerusalém só podia ser o castigo pela rejeição do Messias e seu assassinato. Sendo Jesus Deus humanado, ao crime contra um homem justo se somava a ofensa a lesa majestade de Deus, o que dava aos judeus uma culpa imprescritível. Apresentar os judeus como deicidas e principais culpados pelo assassinato de Jesus era, além disso, uma boa política pois eximir os romanos de culpa podia minorar as perseguições. 

Cerco de Jerusalém. 


Os judeus exprimiam, também, a visão de que a destruição de Jerusalém era um castigo. Mas entendiam que o motivo não era o deicídio mas sim o abandono da Torá, da circuncisão e dos mandamentos( In: Ekah Rabati( Midrash das Lamentações), I, 1).

Para a economia da revelação cristã era preciso que os judeus fossem criminalmente culpados. Sem isso não haveria encadeamento entre culpa e castigo, rejeição e nova eleição. 

3- Os judeus diante das perseguições romanas aos cristãos. 

A Revolta de Bar Kochba em 135 mudou o contexto das relações judaico-romanas. A derrota da rebelião judaica fez Adriano, imperador de Roma, efetivar a diáspora transformando a Palestina em colônia romana e expulsando de vez os judeus da região. 

As lideranças judias reunidas como Catedocracia (uma elite de doutores da lei) tinham, então, percebido que a forma mais viável de sobreviver como povo e cultura era colaborando com o Império. Isso fez com que a aproximação entre judeus e lideranças imperiais se tornasse necessidade imediata: esta aproximação acabou resultando em uma mudança da política dos imperadores em relação aos judeus. 

Antonino, imperador romano que sucedeu Adriano, restabelecerá a liberdade do culto judaico. Para os imperadores era necessário uma política pró judia: ter os judeus ao lado era algo premente já que nos dois primeiros séculos da era cristã houve um forte crescimento do judaísmo, o que provocou o aumento do número de prosélitos entre gregos: sua ligação com a tradição de Israel os tornava menos permeáveis a cultura greco-romana. É preciso entender que os judeus constituíam uma religião permitida e tolerada no Império (religio licita), pois já existiam antes da conquista romana. Os romanos eram muito legalistas e desta forma as religiões pré-existentes, não eram perseguidas ou discriminadas. Fazia parte da política de conquista de Roma - desde os tempos da República - tolerar as religiões dos povos conquistados e aliançar-se às elites políticas e religiosas dos mesmos que, em troca de manutenção de seu status quo, garantiam a pacificação e a obediência dos demais grupos sociais. Para Roma era importantíssimo garantir a aliança com as elites judias sem a qual o controle sobre a vasta nação de Israel espalhada pelo território do império - aumentada pelo crescente número de prosélitos - se tornaria impossível.  No tempo em que os professores farisaicos/rabínicos se reagruparam depois da destruição do Templo, era-lhes claro que a Cristandade representava uma ameaça ideológica e religiosa. Portanto, a benção contra os minim, heréticos judaicos, foi logo adaptada para impedir cristãos racialmente judeus  de servirem como preceptores na sinagoga, uma prática mencionada no Novo Testamento e nas fontes cristãs primitivas. Várias leis judias foram adaptadas para separar judeus dos seus vizinhos cristãos de raça judia e das emergentes escrituras da nascente Cristandade. Essas ações pretendiam deixar claro que os primitivos rabis consideravam a Cristandade como heresia, e que a prática desta era, do seu ponto de vista, proibida para judeus. 

Por outro lado a Cristandade chegava a ser mais e mais gentílica: depois das decisões formais da Igreja de Jerusalém e dos resultados práticos da missão de Paulo no mundo de fala grega, os rabis começaram a ver os Cristãos claramente como não-judeus, não mais como judeus heréticos. Aos olhos de Roma os adoradores de Cristo nem mesmo tinham a escusa de pertencer a uma religião absurda e exasperante mas que, ao menos, possuía os títulos de nobreza constituídos por uma tradição nacional que se perde na noite dos tempos. Cabe compreender que Roma e seu direito asseguravam garantias a costumes imemoriais: sendo o cristianismo uma novidade absoluta o mesmo não teria direito a tal garantia. Para piorar, a visão que a elite romana tinha dos cristãos era o de uma massa gentílica anárquica: eles são inquietantes, recém vindos, o genus tertium; "usque quo genus tertium" grita a multidão no circo. Não havia uma elite cristã a quem Roma pudesse se referir e aliançar-se: cristãos não eram membros de uma nação identificável nem tinham uma estrutura sociológica definida pois não eram uma nação; os Papas da época - autoridades máximas da Igreja - eram em geral de origem escrava. A estrutura de funcionamento da Igreja que concedia o episcopado a pessoas sem nobreza era "subversivo" em face da estrutura aristocrática romana. O critério de poder na Igreja não era nobiliárquico mas relativo a ordem da graça. O cristianismo era perigosamente universalista: nele não havia grego ou judeu. As classificações nacionais no interior da Igreja perdiam sentido e as sociais também. As duas distinções sociais básicas da Roma de então - entre o homem livre e o escravo e entre o patrício e a plebe- não valiam no interior da Igreja. 

Isso lançava a Igreja num limbo político-jurídico. O cristianismo - entendido como seita de origem israelita que tinha se separado da grande tradição judaica -  era vista como uma ameaça social e política a ser combatida. 

Mas que papel os judeus teriam nas perseguições que o Império iria perpetrar contra os cristãos a partir daí? Cabe lembrar que a memória cristã do século IV se refere ao auxílio dos judeus aos romanos na época das grandes perseguições. 

Segundo alguns autores é plausível a hipótese de uma colaboração senão direta ao menos indireta dos judeus; a necessidade dos judeus de conseguirem a boa vontade dos Imperadores vai levá-los a colaborar com os mesmos na luta contra a Igreja nascente. Marcel Simon assevera que judeus se enfileiraram no campo pagão para promoverem perseguições sistemáticas aos cristãos. A relativa liberdade conferida aos judeus por Roma aferrou o proselitismo judeu a expensas do cristianismo: o que se deu no século II e III DC foi uma luta intestina entre judaísmo e cristianismo pela penetração entre os gentios. Roma evidentemente preferia ficar do lado judeu já que com sua elite era possível fazer acordos e, bem ou mal, controlar o número de conversos ao judaísmo proibindo por outro lado a circuncisão de não judeus fazendo concessões aqui e ali em troca de um proselitismo restrito( líderes judeus recebiam doações de terras imperiais e se lhes permitia exercer amplos poderes judiciários em suas comunidades). O rabino Judah Ha-Nasi, o príncipe, que viveu na segunda metade do século II e no início do III era um potentado que vivia cercado de guardas e governava comunidades da Galileia e do sul sob proteção de Roma. Essa íntima relação entre o poder de Roma e a elite judia criou dinastias de eruditos. Em troca disso davam ajuda no combate a “apostasia cristã”. Dentro dessa estratégia talvez se explica a releitura das fábulas de Maneton e de Ápio sobre a ignomínia do culto judaico, aplicadas doravante ao culto cristão. Isso tornará possível o que diz Lietzmann em Histoire de L’Eglise ancienne: “ Cada vez que acontece uma desgraça pública, uma peste, uma fome, a multidão furiosa clama a grandes brados a morte dos cristãos: que sejam jogados aos leões”. 
Essa operação de transferência de animosidade (dos judeus para os cristãos) foi uma operação política bem montada graças, bem provavelmente, a associação entre elite imperial e sinagoga: cabe lembrar que já no tempo de Jesus os judeus criaram fábulas sobre as pretensões de Cristo quanto ao desejo de ser rei em oposição ao domínio de Tibério César. Foi essa acusação – falsa – que usaram para convencer Pilatos que Jesus devia ser julgado conforme as leis romanas. 

Paul Veyne, em um artigo denominado Culto, piedade e moral no paganismo greco-romano (2009) diz que a atitude de crítica dos romanos frente às comunidades cristãs se baseava na repulsa “ao que era “híbrido, impuro e ambíguo” (2009: 245). Sob este ponto de vista, que nos remete às questões de identidade cultural, podem-se inserir as perseguições no quadro dos conflitos culturais com algo que não se conhece, contra um grupo que não se sabe bem ao certo o que seja. Nesse sentido, Veyne propôs que os cristãos eram vistos como híbridos pelos pagãos romanos, uma vez que, possuíam as mesmas categorias de pensamentos dos demais cidadãos do Império Romano: “Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus...esse Deus pretendia superar os deuses nacionais”.  

As perseguições aos cristãos iniciadas na época de Nero, tornaram-se mais sistemáticas no século II -III

As perseguições eram causadas pela rejeição a algo inclassificável, anormal. Quem produziu essa imagem do cristão como o inclassificável se entre os séculos I e II, as comunidades cristãs embora mal vistas pela população pagã, só eram objeto de ações persecutórias assistemáticas, localizadas, mobilizadas pela população local ante problemas circunscritos – pestes, inundações, secas –, ou pela vontade pessoal de um imperador? Ela teria surgido de dentro do sistema cultural romano ou teria sido fruto de uma importação? 

É bem verdade que os cristãos eram por "natureza" cidadãos do um reino que não é deste mundo. O romano para classificar culturalmente o cristão como o apátrida tinha que se referir necessariamente ao judaísmo de onde a “seita” tinha se destacado e separado radicalmente? Entra aqui a questão da identidade. O cristianismo pode ser definido enquanto ruptura e negação do judaísmo. Jesus rompeu com as noções de pureza judia interiorizando o conceito de puro-impuro, rompeu com o sábado, etc. O cristão é por essência o antijudeu, o não judeu. Para o judeu o cristianismo também era tido como “subversão” social(assim como passaram a ser vistos, progressivamente, pelas autoridades romanas dos séculos II e III) em face da lei e do Templo e das autoridades que a representavam. Um romano poderia encarar os cristãos em termos cristãos - como o apátrida por excelência - se eles não tivessem antes desenvolvido uma identidade apátrida opondo-se ao judaísmo? Evidente que não. A fórmula a partir do qual o cristão era definido como apátrida só era possível de ser aplicada na medida em que tal qualidade existia no cristianismo como oposição radical a judiaria. 

Havia aí uma inter-relação entre perspectivas culturais que atendiam a interesses parecidos: o judeu que procurava livrar-se da apostasia cristã e o imperial desnorteado ante uma malta de homens “inclassificáveis”, impossíveis de incorporar no sistema romano. Neste sentido, podemos observar o desenvolvimento do seguinte fenômeno: os cristãos se converteram no decorrer do século III, nos principais inimigos internos do Império Romano e dos valores romanos, perturbavam a paz dos deuses, e punham em risco a manutenção da própria “res publica”.Embora os judeus tivessem um monoteísmo intransigente e fossem um contingente populacional considerável, organizado e proselitista, eram apenas os cristãos os vistos como inimigos da "pax deorum". O sentimento anticristão foi recrudescido pelo aumento das pressões germânicas sobre o Império e, em 250, o imperador Décio emitiu um decreto no qual obrigava a todos os cidadãos do Império Romano a efetuar sacrifício aos deuses tradicionais perante uma autoridade imperial, da qual receberia um certificado, o libellus. 

Claro que as perseguições não podem ser explicadas apenas com referência a uma relação entre poderes romanos e judeus. Roma tinha seus motivos próprios para perseguir os cristãos: Neste contexto, o fator fundamental que levou às ondas persecutórias foi a manutenção da pax deorum, que não podia ser rompida por este grupo “diferente”. Por conseguinte, os cristãos foram perseguidos por suas diferentes formas de culto, que se contrapunham às características gerais da religiosidade greco-romana, e que, por sua vez, colocavam em risco a relação entre o Império Romano e os deuses. Para a população imperial e, posteriormente, para os imperadores apresentava-se a necessidade de expurgar este grupo de pessoas que punham em risco a segurança da coletividade. 

4- Entre o fim do século III e o século IV-V:  a ascensão do cristianismo e a nova condição dos judeus em face da Igreja depois de Constantino.

O conflito tornou-se, durante o século III, a praxe normal da relação entre as religiões cristã e judaica. Uns e outros viam-se como o "outro", o pólo contrário a partir o qual ambas as identidades religiosas eram constituídas. 

Nesse contexto, a tese da punição divina dos judeus é explicitamente formulada por Orígenes: " podemos concluir com toda a confiança que os judeus não recuperarão sua situação de então, pois cometeram a mais abominável das perversidades, tramando este conluio contra o salvador do gênero humano...era preciso, por conseguinte, que a cidade onde Jesus sofreu assim fosse destruída de alto a baixo, que o povo judeu fosse expulso de lá e que outros fossem chamados a Deus à bem aventurada eleição"( Contra Celso, 4, 23. Patrologie Grecque de Migne, 11,1060).

Durante os anos de 200 DC era comum os judeus lançarem a seguinte acusação aos cristãos:"Não há pois, entre vós, um único homem cujas preces sejam acolhidas por Deus e façam cessar vossas desgraças?". Não era de se estranhar que a reação cristã viesse: a evolução da liturgia pascal em seu "anti-judaísmo teológico"  principia a se desenvolver nessa época. Segundo a Didascália, um dos documentos mais antigos que chegaram até nós, o motivo principal da solenização da páscoa parece ser, tanto quanto a comemoração da paixão de Cristo, a obtenção do perdão pelos judeus:"Saibam pois, meus irmãos, a respeito do jejum que jejuamos na Páscoa, vós jejuareis por nossos irmãos que não obedeceram mesmo que eles vos odeiem...Precisamos jejuar e nos afligir por eles, pelo julgamento e pela destruição do país...pois quando nosso Senhor veio ao povo judeu, não lhe deram crédito quando Ele lhes instruía" (V, 14,23).

O resultado disso será o que virá a se consolidar na liturgia durante o século IX onde alguns sacramentos da liturgia romana indicarão expressamente:"pro judaeis no flectante"(pelos judeus não há genuflexão). 

Nestas condições durante o século IV sobretudo no Oriente, onde os judeus eram mais numerosos, começam a se ouvir pregadores a lançar contra eles diatribes como estas: "Homicidas do Senhor, assassinos dos profetas, rebeldes e odientos para com Deus, ultrajam a lei, resistem à graça, repudiam a fé de seus pais. Comparsas do Diabo, raça de víboras, delatores, caluniadores, toldados de cérebro, fermento farisaico, sinédrio dos demônios, malditos, execráveis, lapidadores, inimigos de tudo que é belo...( In: Gregório de Nissa.Patrologia Grega de Migne, 46, 685)"; e como estas:"Lupanar e teatro, a sinagoga é também antro de salteadores e covil de bestas...vivendo para o ventre, a boca sempre escancarada, os judeus não se conduzem melhor que os porcos e os bodes, na sua lúbrica grosseria e no excesso de sua glutoneria. Só sabem fazer uma coisa empanturrar-se e embriagar-se...( In: São João Crisóstomo. Patrologia Latina de Migne, 25,830.)

Com a liberdade de culto dada a Igreja em 313 por Constantino - que tornara-se então um catecúmeno cristão - as relações entre Roma e judeus irão se alterar aos poucos. Com isso o cristianismo irá se tornar uma religião de massa. A provável influência judia na heresia ariana( Criada por Ario, Bispo de Alexandria) que negava a divindade de Cristo motivou a reação de populações cristãs dentro do Império; na época, sobretudo durante os Concílios da Igreja, grupos populares gritavam palavras de ordem como "para a forca com o Iscariote", "Abaixo o filo-judeu", etc. Cabe lembrar que Alexandria há séculos era um ponto de encontro entre a sabedoria judia e a grega: essa mistura deu origem a uma espécie de racionalismo que se opunha ao dogma cristão. E foi essa mistura que permitiu o nascimento do Arianismo. Filosoficamente, Ario foi um descendente dos proponentes gregos da racionalidade, buscando compreender o universo exclusivamente pela razão, incluindo a natureza de Jesus e de Deus Pai. A ortodoxia e a doutrina da Trindade promoviam a noção baseada na fé de que a crença cristã tinha origem revelada: embora pudesse ser inteligida a posteriori pela razão, não dependia dela para afirmar sua autoridade. Logo, a solução  ortodoxa foi um sinal de que a Igreja atribuíra à razão um posto subordinado no esquema das coisas.

A vitória do trinitarismo durante o Concílio de Nicéia - que teve a participação de Constantino -fará que judeus sejam incluídos lado a lado com os hereges. O pacto entre o Imperador e a Igreja trará para a comunidade judaica uma mudança de status civil. Ocorrem  proibições de conversão ao Judaísmo tanto de cristãos quanto de pagãos; tributos especiais são exigidos dos judeus. Numa lei datada de 18 de outubro de 315 - bem antes de Nicéia -  Constantino determina que se impeça e se punam os judeus, sua liderança, etnarcas e patriarcas (maiouribus eorum et patriarchis), se depois de a lei ser promulgada ousarem apedrejar ou empregar qualquer forma de “loucura” (saxis aut aulio furoris genere) contra qualquer pessoa que escape de sua seita e se dirija a servir a Deus (qui eorum feralem fugerit sectam et ad dei cultum respexerit). Quem o fizer será queimado, junto com seus ajudantes (mox flammis dedendus est et cum omnibus suis  participibus concremandus). E acrescenta que, se alguma pessoa do povo se converter a esta seita corrompida (nefariam sectam), sofrerá junto com eles as penas correspondentes. A separação dos judeus e das mulheres não judias, forçando a endogamia e impedindo os casamentos mistos e a provável conversão de mulheres não judias ao Judaísmo, foi decretada por Constâncio, filho de Constantino, em lei de 13 de agosto de 339. O texto fala das mulheres, que trabalham nas tecelagens/fábricas imperiais (in gynaeceo nostro ante versatas) e manda os judeus as restituírem às fábricas (restitui gynaeceo), caso, em sua loucura (in turpitudinis suae), as tenham desposado/tomado (duxere consortium). O desrespeito pela ordem imperial (si hoc fecerint) seria punido com a pena capital (capitali  periculo subiugentur ).

Constâncio legislará, também, sobre a posse de escravos por judeus. Caso os judeus tivessem escravos, poderiam influenciá-los e convertê-los ao seu credo. O ponto central desta lei e de muitas outras similares seria impedir o proselitismo  judaico. Há uma lei no Pentateuco pela qual um judeu não  podia manter outro judeu na escravidão por mais de seis anos,no denominado ano sabático. Portanto para um escravo de um judeu se converter à crença do senhor era bastante atraente. Tratava-se de um perigo para a expansão do Cristianismo. Constâncio legisla que “se alguém entre os judeus adquirir um escravo de outra seita ou nação (mancipium sectae alterius seu nationis crediderit conparandum), deverá ser confiscado  pelo tesouro imperial/fisco (mancipium fisco protinus vindicetur ).

Tudo isso mostra que, aos poucos, os judeus se tornarão um problema a ser resolvido: eram uma minoria organizada e rica que rejeitava o cristianismo não por ignorância mas por obstinação. Cada vez mais se tornavam impopulares diante das massas cristãs que acreditava na sua colaboração com os imperadores que tinham perseguido os cristãos. Por isso judeus receberam com alegria o reflorescimento pagão sob o Imperador Juliano que é conhecido na tradição judia não como "Juliano, o apóstata" mas como "Juliano, o heleno".

Durante a década de 380, com a ascensão do Imperador Teodósio que torna a fé católica religião oficial do Império, a política oficial do império passa a ser a conformidade religiosa: com isso surgem inúmeros estatutos legais para conformar a fé pagãos, heréticos e minorias não-conformistas como os judeus. Ataques de populares a sinagogas se tornam comuns embora fossem proibidas pelo estado imperial pois judeus ainda eram vistos como elementos valiosos na sociedade já que davam apoio à autoridade constituída. Em 388 populares, instigados pelo bispo local, incendiará uma sinagoga no Callinicum, no Eufrates. Teodósio mandou reconstruí-la as custas dos cristãos. Santo Ambrósio opôs-se firmemente a Teodósio e ordenou numa carta que a ordem fosse retirada já que mais importante era a causa da religião católica que o direito civil. A atitude de Ambrósio - um santo - vale para os que hoje acusam - falsamente -  diversos católicos de "anti-semitismo" pela ousadia de levantarem suas vozes para denunciar os esquemas conspiratórios judaicos : a estes cabe dizer que a causa da fé católica está muito acima do respeito a qualquer outra coisa.

Santo Ambrósio confronta Teodósio. 


A posição de Ambrósio foi a base para a retirada dos direitos comunais e de todos os privilégios de quem gozava a judiaria. Foram excluídos do serviço ao estado e do exército. Apesar disso não era o objetivo da Igreja extirpar o judaísmo pela força: Santo Agostinho alegava que a existência dos judeus faziam parte do plano de salvação já que eram, indiretamente, testemunhas da verdade do cristianismo, simbolizando seu fracasso e humilhação o triunfo da Igreja sobre a sinagoga. A política da Igreja era permitir que comunidades judias subsistissem mas em condições de impotência. Entre os gregos a hostilidade aos judeus eram mais intensa que entre os latinos. No século V São João Crisóstomo fez oito "Sermões contra os judeus" em Antioquia: eles tornaram-se o padrão da retórica anti-judia que se baseava amplamente nas passagens dos evangelhos de Mateus e João, onde o judeu era apresentado como assassino de Cristo. 

A cruzada antijudaica levou, no Oriente, a cristianização de Jerusalém: outros sítios relacionados a vida de Cristo foram igualmente cristianizados com o estabelecimento de mosteiros e igrejas, sobrevivendo ali pequenas comunidades judias empobrecidas. A cristianização desses sítios foi efetivada por pogrons contra a Palestina judaica, liderados por Barsauma e seus monges sírios que incendiaram sinagogas e aldeias. 
Aproveitando-se disso os samaritanos refloresceram: as autoridades de Bizâncio agiram rápido. Teodósio II aplicou-lhe os estatutos antijudaicos. Quatro décadas depois os samaritanos montaram um rebelião contra Bizâncio massacrando comunidades cristãs e incendiando Igrejas. O exército bizantino os derrotou e destruiu seu santuário em Garizim mudado em basílica dedicada a Virgem. Na época de Justiniano, imperador de ortodoxia estrita( ele só dava cidadania a batizados e perseguiu cristãos que não se adequaram as decisões do Concílio de Calcedônia) os samaritanos realizaram outra revolta: foi então que Bizâncio os exterminou como uma nação e fé. 

Assim percebemos que os primeiros imperadores cristãos, sabiamente advertidos pelo exemplo de homens como Santo Ambrósio, não pouparam os judeus, naturais adversários da cristandade, procurando a todo custo cercear a liberdade do povo deicida a fim de que não ameaçasse a expansão da fé cristã. A atitude destes imperadores e dos bispos e papas da época contrasta radicalmente com a política favorável aos judeus praticada hoje pelas autoridades eclesiásticas e por católicos de cariz modernista. Em quem devemos nos espelhar? Nesses varões cheios de fé do passado ou nos gestos das autoridades atuais que se dobram, com docilidade, às demandas perversas dos judeus, cujo projeto é destruir o que ainda resta de pé em termos de cristianismo? Que o bom senso cristão seja o farol que nos oriente nessa decisão.     

Bergoglio, então cardeal arcebispo de Buenos Aires, celebrando a páscoa judaica - abolida definitivamente por Jesus. 


Bibliografia 

DANIÉLOU, Jean. MARROU, Henri-Irenée. Nova História da Igreja Vol. I: dos 
Primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1966.
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Johnson, Paul. História dos Judeus. Rio de Janeiro, Imago, 1995. 
___________  . História do cristianismo. Rio de Janeiro, Imago, 2001. 
Lietzmann,H. Histoire de L'Église ancienne. Paris, 1950. 
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Poliakov, Léon. De Cristo aos Judeus de Corte. São Paulo, Perspectiva, 2007. 
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SILVA, Diogo P. da. MENDES, Norma M. As representações do poder imperial na 
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Repensando o Império Romano. Rio de Janeiro/Vitória, 2006.
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SUETÔNIO. Os doze Césares. Tr. Gilson César Cardoso de Sousa. Guarulhos, SP: 
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TACITE. Annales. Tr. Pierre Wuilleumier. Paris: Les Belles Lettres, 1976. 
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select library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian 
Church. Tome I-3. Edinburgh: T&T Clark, 1887.

domingo, 18 de maio de 2014

Dom Castro Mayer responde ao Sr. Rafael Vitola sobre apologética!

Recentemente o sr Rafael Vitola Brodbeck - apologeta afamado, que promoveu anos atrás o "selo de ortodoxia"-  afirmou que "apologética não é UFC", querendo dizer que ações como o do Caiafarsa são duras demais e que devemos, portanto, ser mais dóceis na defesa da doutrina. É como se ele dissesse a soldados em uma guerra que diminuíssem os tiros. Levando em conta que os inimigos não diminuem os ataques, reduzir os tiros seria nada mais que suicídio. 

Mas eu não irei responder a alegação do sr Vitola. Deixarei que Dom Castro Mayer citando exemplos da escritura, tradição e magistério esclareça tudo isso. Evidente que excessos devem ser corrigidos: mas entre os excessos de zelo e a amenização dele o segundo caso é bem mais grave. Num tempo de debandada geral ficar preocupado com os "novos zelotas" é dar prova de alienação. O que menos precisamos, nestes tempos de dialoguismos e traições desde o alto, são de apelos a moderação na defesa da fé. 







Resposta católica ao herege Júlio Severo




Júlio Severo, o herege protestante, soltou recentemente essa pérola que exemplifica até onde a doença moral do protestantismo pode levar a mente de um homem:

"Quanto à acusação de que a Reforma foi uma espécie de movimento revolucionário, façam a comparação: você é um homem ou mulher que está buscando a verdade, ou pensa que a achou, mas o sistema não aceita sua liberdade de buscar fora de seu próprio padrão, que é ditatorial. Aliás, por sua adesão a uma verdade fora do sistema você é julgado, torturado e até morto. Pensou que eu falei da União Soviética? Não, embora na União Soviética você sofreria as mesmas coisas. Estou falando da Igreja Católica antes da Reforma. Muitos que, como Martinho Lutero, denunciaram o sistema corrupto e aceitaram Jesus foram mortos. Era um sistema tão ditatorial quanto a União Soviética. Agora, me respondam: quem está mais próximo do movimento revolucionário? Se o protestantismo trouxe o movimento revolucionário, conforme alegam esses tais conservadores do catolicismo moderno, por que todos eles sem exceção adoram ir para os EUA, uma nação fundada não com princípios católicos, mas protestantes? Eles estão se fazendo de bobos ou querendo nos fazer de bobos. Claro que se você apontar tudo isso a eles, vão lhe cobrir de palavrões. A verdade dói."


 



Júlio Severo consegue unir, em si mesmo, dois vícios: é mal intencionado e burro ao mesmo tempo.Primeiro que falar de ditadura em relação a influência da Igreja no século 16 - século da "reforma" de Lutero- é ignorância histórica total. Ditadura é termo que só se aplica a política jamais a religião. 

Em segundo lugar ainda que o termo fosse usado em sentido análogo a Igreja no século 16 já não tinha mais o poder do século 12-13 - e mesmo nessa época já existiam contestações a sua autoridade, cabendo lembrar aqui do caso de Frederico Barba Ruiva da Alemanha-  quando os reis a obedeciam sem titubear. O século 16 - é o tempo de teóricos do poder do estado como Maquiavel -  vê tomar forma a razão de estado sem a qual a "reforma" seria impossível. Foi graças a ela que Lutero pode fugir de ser preso ou morto como ele diz. Foi graças a proteção dos príncipes alemães que Lutero pode estabelecer a "reforma". Com isso a religião passou a estar dependente do Estado. 

Vide o Anglicanismo que, rompendo com a tradição de divisão dos poderes políticos e religiosos une na mesma mão - do rei - o poder espiritual e o gládio político-militar. Ora as revoluções operam concentrando todo o poder na mão do Estado e eliminando as funções sociais dos poderes intermédios. Quem iniciou esse processo senão Lutero? Quem realmente servia ao sistema era Lutero que não foi capaz de opor resistência a laicização da política, muito pelo contrário deu um contributo decisivo a isso. A "reforma" não seria possível sem a relação direta de Lutero com os interesses da nobreza alemã e de Calvino com a burguesia, ambas desejosas de se verem livres dos limites morais impostos pela moral católica. Para a nobreza alemã falida era preciso se livrar da tutela do Papa e açambarcar as terras da Igreja para recuperar seu status feudal. Sobre a burguesia pesava a proibição da usura e as invectivas católicas contra a ganância. Ambas se orientaram para o protestantismo por conta da necessidade de uma religião que atendesse seus impulsos vitais. Quanto a biografia de Lutero, ela não permite afirmar essa visão heróica que o Severo - burramente - propaga. As recentes pesquisas historiográficas mostram um Lutero complexo, contraditório, entrecortado por culpa sexual, dificuldades vocacionais, influências do gnosticismo, alucinações diabólicas, fixações apocalípticas, verborragia doentia, repúdio a relação entre fé e razão( o que faz de Lutero um moderno em todos os sentidos. Não foi a toa que nos países protestantes prosperaram as filosofias que tentaram fundamentar a total separação entre a reflexão teológica e a ciência, contribuindo para a exclusão do cristianismo da esfera pública, meta de todas as revoluções) relativismo moral - cabe lembrar sua relação com Felipe de Hesse a quem autorizou a bigamia - recorrência mental  dos temores do século 14-15,etc. Lutero a bem dizer teve todo o direito de expor e defender suas teses.A Lutero de 1517 a 1521 lhe foram dadas todas as chances de se defender das acusações de heresia. O Papa só o condenou depois de 4 anos de paciente diálogo. Essa acusação do Júlio não resiste a meia hora de análise dos fatos. 

Ao Júlio Severo recomendamos a leitura de obras essenciais da historiografia sobre a Reforma como a de Jean Delumeau que é, de tantas existentes, a mais completa por trazer todo o debate historiográfico sobre o assunto. A visão de Júlio Severo faz parte da mitologia protestante usada para justificar a "reforma" embelezando os fatos ou os distorcendo radicalmente a fim de que se encaixem num apriori. Querer historiografar o sentido da "reforma" partindo da visão que os "reformadores" tinham de si mesmos como apóstolos da verdade é piada. Ler a história acreditando piamente no depoimento de seus atores é típico de crianças ingênuas ou de ignorantes incapazes de abordar a realidade com espírito analítico. A dispensa apriorística do exame das fontes e das visões sobre a reforma por parte do Júlio não se enquadra no caso de ingenuidade - a malícia dele deixa claro isso- mas de ignorância somada a falta de vontade de estudar a fundo o assunto para continuar no mundo da fantasia protestante onde vive. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Evangélicos a serviço do dinheiro!

POLÍCIA FEDERAL NA COLA DE PARLAMENTARES PROTESTANTES

História que se repete todo dia. Mas o rebanho protestante não consegue enxergar os fatos, preferindo alienar-se com os "louvores" enquanto a liderança tira até o tutano de seus ossos. 


Mais uma vez fica claro qual o "deus' a que a canalha protestante no congresso serve. E não é ao Deus da Bíblia mas sim ao ídolo chamado Mamon, o "deus" do dinheiro.

Nomes como Eduardo Cunha (PMDB-RJ, Filho do Dono da Rádio Melodia-RJ)

Marcelo Aguiar (DEM-SP), Benedita da Silva (PT-RJ),

Magno Malta (PR-ES),

Marcelo Crivella (PRB-RJ CANDIDATO A GOVERNADOR NO RIO),

Walter Pinheiro (PT-BA), entre outros.

Parlamentares da bancada evangélica integram uma lista de beneficiados por empresas fornecedoras da petroleira que estão sendo investigadas pela Polícia Federal.

De acordo com a revista Veja, a Polícia Federal descobriu que os “grupos empresariais ambicionavam estabelecer relações com um espectro amplo de partidos e políticos” e que “um em cada cinco deputados e um em cada três senadores eleitos receberam alguma doação oficialmente das empresas” ligadas de alguma forma ao esquema de corrupção do doleiro Alberto Yousef ou ao ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.

O deputado evangélico Eduardo Cunha aparece como recebedor de R$ 500 mil em doações do grupo de empresas.

Já o cantor gospel Marcelo Aguiar recebeu R$ 100 mil, enquanto Benedita da Silva, R$ 3 mil.

A deputada Bruna Furlan (PSDB-SP), ligada à Congregação Cristã no Brasil e filha do ex-prefeito de Barueri, aparece como beneficiada das empresas em R$ 400 mil.

O senador Magno Malta, postulante à presidência da República, teria recebido R$ 200 mil em doações, assim como seu colega Walter Pinheiro.

O pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, bispo Marcelo Crivella, teria recebido R$ 100 mil.

O Congresso tem dado andamento à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os fatos em torno do esquema, mas há quem se preocupe com a eficácia das investigações, uma vez que boa parte dos membros da Câmara e do Senado estão envolvidos de alguma forma.

Dom Rifan explica os limites da obediência às autoridades!

                                                              Verdade X Autoridade




Nosso Senhor fundou uma Igreja hierárquica, com Papa e Bispos 
a quem se deve obedecer. Esses hierarcas não são donos ou 
proprietários da Igreja. São administradores; e o que deles a Igreja 
exige é que sejam fiéis transmissores (Concílio Vaticano I – Denz. 
3070). Seu poder é grande, mas não absoluto ou sem limites. E o 
fiel pode muito bem usar do direito – e da obrigação – de 
comparação entre o que se lhe ensina hoje e o que foi sempre 
ensinado; conforme proclama o Apóstolo São Paulo: “Mas, ainda 
que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho 
diferente daquele que vos tenho anunciado, seja anátema” (Gal. 1, 
8). A Igreja quando manda obedecer não o faz incondicionalmente, 
mas dá ao fiel o direito de analisar, comparar e resistir, se for 
preciso, como o disse e fez São Paulo com relação a São Pedro, 
primeiro Papa (Cfr. Gal. 2, 11-14 e Suma Teológica II-II, q. 33, a. 
IV). 

Quando os tempos são normais e as autoridades nos transmitem a 
verdadeira doutrina tradicional, não há porque não obedecer, como 
o fizeram os santos de tais épocas. Mas se não, eles sabiam resistir e 
arrostar todas as pressões, arbitrariedades e abusos de poder. 
O célebre hagiógrafo católico Dom Guéranger assim resume esta 
posição, comentando a resistência oposta pelos fiéis às autoridades 
que patrocinaram o erro, no tempo da heresia do Bispo Nestório: 
“Quando o pastor se transforma em lobo, é ao rebanho que, em 
primeiro lugar, cabe defender-se. Normalmente, sem dúvida, a 
doutrina desce dos Bispos para o povo fiel, e os súditos, no domínio 
da Fé, não devem julgar seus chefes. Mas há, no tesouro da 
revelação, pontos essenciais, que todo cristão, em vista de seu 
próprio título de cristão, necessariamente conhece e 
obrigatoriamente há de defender. O princípio não muda, quer se 
trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma. (...) Os 
verdadeiros fiéis são os homens que extraem de seu Batismo, em  
tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os 
pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes 
estabelecidos, esperam, para afugentar o inimigo, ou para se opor 
a suas empresas, um programa, que não é necessário, que não lhes 
deve ser dado” (L’Année Liturgique, p. 340 ss). 

Evidentemente, viver em tempos de crise, como os que nós 
vivemos, é muito penoso e exige-se então, de cada um, verdadeiro 
heroísmo. É muito fácil defender causas já vitoriosas. O difícil é 
trabalhar arduamente pela vitória de uma causa justa. É muito fácil 
ser o corajoso adepto de uma verdade já vencedora. O difícil é 
aderir à vontade quando ela está perseguida e humilhada. É mais 
cômodo juntar-se às fileiras do exército vencedor. É mais agradável 
seguir a maioria, estar bem com quem está no poder. Mas é 
tremendamente incômodo lutar pela verdade quando até as 
autoridades patrocinam a causa contrária e favorecem o erro. 
Hoje, quando a história já deu ganho de causa a Jesus Cristo, 
contra Anás e Caifás, não há quem julgue que, se vivesse naquele 
tempo, teria sido um fiel discípulo do Salvador e jamais teria 
tomado o partido de Caifás. Mas, teriam esses mesmos coragem de 
enfrentar as autoridades oficiais da religião verdadeira de então? 
Caifás era o Sumo Pontífice, cercado de outros representantes 
oficiais do poder de Deus. E nós vemos pelo Evangelho a "pressão" 
que essas autoridades faziam sobre os que queriam seguir a Jesus. 
São João no seu Evangelho (9, 22) narra aquela passagem dos pais 
do cego curado por Cristo negando-se a confessar o milagre porque 
os judeus tinham decidido expulsar quem aderisse a Jesus. É difícil 
ficar com a verdade até contra a autoridade. Por isso Jesus ficou 
com bem poucos amigos, porque a maioria não suportou a pressão e 
o peso da autoridade religiosa e preferiu ficar do lado do Sumo 
Pontífice Caifás e condenar a Jesus como impostor, ladrão e 
agitador do povo. 

Hoje, séculos depois, quando vemos na História da Igreja (Cfr. 
Denz.-Sch. 561 e 563) que o Papa Honório I favoreceu a heresia e 
por isso foi condenado pelo seu sucessor Papa São Leão II e pelo VI 
Concílio Ecumênico por estar em desacordo com a tradição da  
Igreja, fica fácil dizer que nós, naquele tempo, também estaríamos 
do lado de São Máximo e São Sofrônio, que resistiram ao Papa e 
foram canonizados, isto é, colocados pela Igreja como modelo de 
fidelidade para todos os cristãos. Mas se defendêssemos o "dogma" 
da obediência incondicional ao Papa, como muitos hoje o fazem, 
estaríamos sim do lado dos hereges. 

Assim também no confronto entre o Papa Libério e Santo 
Atanásio, este, defensor da ortodoxia e por isso expulso de sua 
igreja, e aquele, o Papa, que assinou uma fórmula ambígua e 
heretizante, ao sabor dos hereges e excomungou Atanásio porque 
este se recusava acompanhá-lo na sua defecção. O Papa Libério 
então, em nome da paz e da concórdia, declarou-se em união com 
todos os Bispos, inclusive os semi-arianos, menos com Atanásio, ao 
qual proclamou alheio à sua comunhão e à comunhão da Igreja 
Romana (Cfr. Denz.-Sch. 138). Santo Atanásio, por defender a sã 
doutrina, foi condenado como perturbador da comunhão eclesial! 
Hoje, depois que a Igreja canonizou Santo Atanásio como ínclito 
defensor da Fé e da Tradição, fica fácil dizer que estavam certos 
aqueles poucos que ficaram ao lado do Santo e foram expulsos das 
igrejas oficiais, sendo obrigados a se reunirem nos desertos debaixo 
de sol e chuva, mas conservando a fé intacta e respondendo aos 
hereges: vocês têm os templos, nós temos a Fé! (Cfr. São Basílio, 
ep. 242, apud Cardeal Newman - Arians of the Fourth Century, 
apêndice V). Mas, como ficariam, se vivessem naquele tempo, 
aqueles que põem na obediência o seu universo mental? 

Evidentemente do lado mais fácil e cômodo da autoridade, e da 
heresia por ela favorecida. 

Hoje, a história da Revolução Francesa nos ensina quão covardes 
foram aqueles padres e bispos que, para conservarem as suas igrejas 
e seus cargos, aceitaram um compromisso com os dominantes e 
fizeram o juramento revolucionário, e quão heróicos foram aqueles 
sacerdotes que a isso se recusaram e foram expulsos, tendo que 
atender ao povo fiel nos paióis, escondidos e perseguidos. 
De nossa parte, temos a plena convicção de que o melhor serviço 
que podemos prestar à Igreja, ao Papa, ao Bispo e ao povo cristão é  
defendermos a tradição, a doutrina que a Igreja sempre ensinou, 
mesmo à custa de sermos perseguidos, injuriados e até expulsos das 
igrejas. Podem nos tirar os templos, mas jamais a nossa Fé! Assim o 
dizemos, confiados unicamente na Graça de Deus. 
A história nos dará razão! E, mais do que o tribunal da história, o 
tribunal de Deus, para o qual apelamos! Que Nossa Senhora nos dê coragem e perseverança.

Fonte: Rifan, Pe Fernando Arêas. Quer agrade, quer desagrade. Páginas 46 a 49.