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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Como o capitalismo e a burguesia destruíram a sociedade tradicional

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Sobre a relação entre capitalismo, liberalismo, burguesia e revolução há muito o que dizer sobretudo hoje em que toma força no Brasil uma linha política de cunho neo-direitista que acredita ser possível conciliar tradição religiosa com liberalismo, capitalismo com conservadorismo dos costumes. Neste sentido faz-se mister que se erga a voz para dizer em alto e bom som que o capitalismo em sua versão liberal - a única que existiu concretamente na história - é um dos maiores agentes - via burguesia liberal - da revolução que acomete o ocidente, revolução que é responsável pela destruição do que chamamos de cristandade. Pois vejamos: 


1- Uma coisa é um regime econômico estabelecido na distinção clara entre o pólo do capital e do trabalho o que, como sistema de produção, é legítimo na medida que assegura os meios de vida à classe industrial e a classe trabalhadora, envolvendo aí, inclusive, as condições para que a propriedade privada cresça na direção do bem comum. Isso implica em que o salário seja uma forma de assegurar não só o sustento do empregado mas facultar que ele também possa, com os meios financeiros proporcionados pelo patrão, garantir sua propriedade privada e uma poupança capaz de socorrê-lo num momento de crise. Evidentemente, observando o processo real do capitalismo, percebemos que não foi o que aconteceu historicamente. A distância entre as classes - distância financeira, social, política e cultural - só vem aumentando com o tempo. Embora o nível geral de vida tenha melhorado, o processo de concentração de riqueza na mão de uma super classe - como bem observa David Rothkopf em sua obra sobre o novo fenômeno dos super ricos - é comprovada por dados mui sólidos. Num contexto deste é claro que tais classes terão um poder ampliado - pois o dinheiro faculta mais meios de ação - o que, além de gerar um brutal processo de distanciamento entre os corpos sociais - que produz problemas de coesão social - produz uma desigualdade monstruosa de poder. A poupança, num quadro de extremo consumismo, onde os poderes do capital estimulam a vida a prazo, associado a arrochos salariais a fim de garantir sempre maiores margens de lucro, se torna difícil e, consequentemente a formação de patrimônio por parte das famílias de trabalhadores é quase inviável ( pense-se no tempo de financiamento de uma casa própria e nos juros envolvidos na operação para perceberem como obter o patrimônio mais basilar para uma família - a casa - se tornou deveres complicado; na maioria dos casos as famílias só consegue quitar a casa própria na velhice!). Isso tudo evidencia a grave imoralidade em que se assenta a economia capitalista de livre mercado atual. Como é possível conciliar as exigências de justiça, estipuladas pela lei divina, com um quadro econômico como esse? Como conciliar isto com conservadorismo religioso? 

2- Isso quer dizer que um regime de capitalismo seja sempre incompatível com o bem comum e o justo salário? Não, é claro.  Mas, num regime em que o capital monetário assume o papel de motor do desenvolvimento econômico a tentação por um liberalismo amplo e total em matéria econômica é tão grande que se torna bastante difícil impedir que o capitalismo não se valha de medidas que absolutizem o livre mercado, já que tais medidas favorecem a concentração mais rápida de capital, seu reinvestimento e sua reprodução.  

3- Também é preciso que se diga que o processo de industrialização na Inglaterra - o mesmo que trouxe a tona o sistema capitalista atual - foi calcado em rapinagem sobre as terras que tradicionalmente pertenceram aos campônios. Os cercamentos se revestiram de caráter imoral. A gentry - nobreza aburguesada que investia em pirataria e comércio naval - aplicou seus ganhos na compra de terras ancestrais e feudais, terras que sustentaram famílias por séculos. Num processo injusto bastava que pagassem uma taxa de registro fundiário no cartório real garantindo a propriedade privada sobre terras onde antes os criadores podiam levar seus rebanhos para pastar. Ora, o trabalho gera direito. Aquelas terras foram trabalhadas durante séculos por famílias de camponeses que, de um dia para o outro, ficaram sem seus meios de produção tendo que se sujeitar a vida nas fábricas inglesas, em troca de salários irrisórios. A nova classe de capitalistas ingleses nascida no século 18 era completamente imoral e foi neste ambiente que as teses de livre mercado de Adam Smith encontraram eco. A classe capitalista inglesa destruiu a propriedade privada tradicional e criou uma nova, baseada no direito absoluto sobre a propriedade como consta da teoria de John Locke. 

4- Esta burguesia liberal e capitalista ao mesmo tempo, foi a maior força revolucionária da história. A medida que o mercado mundial foi sendo criado pela expansão das locomotivas e dos navios a vapor, integrando cidade e campo, continentes e países, a burguesia calcou aos pés as antigas classes legadas pela era medieval e destruiu a antiga divisão social consagrada pela Igreja - as três ordens - assim como o poder político que emanava dessa ordem - a monarquia católica. A democracia liberal-igualitária, mais conforme aos interesses da burguesia que buscava se livrar dos padrões aristocráticos de sangue a determinar posições sociais, e dos limites tradicionais a expansão de seu poder financeiro, a fim de poder ascender na política e nos negócios, foi sendo imposta a ferro e fogo aos povos por obra e ação desta nova classe, organizada politicamente dentro das lojas maçônicas para derrubar o poder dos reis cristãos e do clero católico. A burguesia liberal capitalista destruiu, por onde passou, os laços de autoridade e as relações tradicionais. Derrubou o poder do patriarca, do senhor feudal, do rei e da Igreja. Todos os laços que prendiam o homem feudal a seu superior natural foram destruídos. No lugar ficou o frio interesse por dinheiro como único vínculo entre os homens. A relação patrão - empregado no regime burguês é algo revogável, algo que pode ser desfeito desde que haja interesse de uma das partes. Não há mais laços definitivos nem solidariedade social permanente o que, evidentemente aplainou o terreno para a luta de classes marxista, que é tem como efeito a inimizade entre estas classes, produto de um pacto fundado apenas na esperança de ganho. No lugar das liberdades concretas, das boas liberdades, a burguesia liberal exaltou a abstrata liberdade de comércio como base das relações humanas, o que não passa de relação de troca e não verdadeiro laço social orgânico e estável em que se possa construir uma convivência civilizada e duradoura. De modo que a forma de atuação histórica da burguesia liberal é a constante revolução dos costumes sempre no sentido de demoli-los quando não estão mais a altura das novas transformações econômicas que ela precisa empreender. A burguesia sujeitou o campo a cidade, aglomerou a população e concentrou a propriedade. A consequência disso foi a centralização política: os antigos direitos feudais, as leis municipais, as corporações de ofício, os direitos da Igreja, tudo foi eliminado. Os corpos intermédios foram destroçados, o homem virou um átomo solto no universo social. Marx postula que a concentração do capital e dos meios de produção nas mãos de poucos capitalistas é o passo inicial para o socialismo que é a concentração total destes meios na mão do Estado. Antes da ação da burguesia liberal estes meios estavam dispersos e o socialismo era impossível. Mas agora, dada sua concentração, ele se tornou possível, socialismo que é nada mais que o império do ateísmo sobre a terra. 

5-Outrossim Karl Polanyi, historiador da economia, mostra como a revolução industrial, prenhe de tendências liberais que só depois vão ser teorizadas por Smith, transformou três elementos acessórios da economia em mercadorias: a terra, o trabalho e a moeda. Para todos os economistas anteriores ao século 18, portanto ao fenômeno da revolução industrial, tratar a terra e o trabalho humano pela lógica de mercado - como se pudessem ser vendidos com base em lei de oferta e procura - era impensável por uma razão básica: o homem que trabalha é um sujeito, uma pessoa, não é mercadoria, e a terra é a condição sine qua nom para a subsistência de uma pessoa; a terra não é fruto do trabalho; o que se produz na terra é mercadoria mas não a terra; transformar a terra em mercadoria foi um passo decisivo para concentrar a propriedade. Na era feudal a terra é voltada ao bem comum e ao uso comum. O camponês em tempo de fome podia lavrar a reserva do senhor para se socorrer. A revolução industrial acaba com isso: perante o desemprego e a fome só resta mendigar nas ruas pois não há mais terras comunais para lavrar. Por outro lado a moeda, ao virar uma mercadoria, passa a ser a meta final do sistema econômico. Acumular dinheiro vira o fim em si da atividade bancária que vai deixando de ser mero serviço de depósito para impor níveis jamais vistos de usura a todo o sistema econômico; só a limitação ao crescimento exponencial da demanda por moeda, como ensina Aristóteles em sua doutrina do regateio, é o que permite o preço justo e o limite ao império da ganância. Esse processo todo, ao invés de generalizar a propriedade privada a torna uma exceção, um luxo auferido por poucos. 

Deste modo a revolução industrial e por tabela o capitalismo, que nasceu de seu ventre, feito nos moldes do liberalismo e continuado dentro de um processo ultra usurário e de destruição de laços tradicionais de sociedade é mais uma entre tantas outras forças revolucionárias. Logo, a aposta da nova direita em termos de conciliação entre tradição, religião cristã, costumes conservadores e liberal capitalismo não passa de ilusão, crendice, superstição que não resiste a cinco minutos de análise histórica.