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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Woods e suas calúnias contra a Doutrina Social da Igreja: refutando a heresia austríaca!

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Um canalha disfarçado de católico: ei-lo! Sr. Thomas Woods, o herege defensor de Mises.




Nos últimos anos temos visto idéias liberais e anarcapitalistas sendo espalhadas na seara católica por certos pensadores e escritores cujo objetivo é claro: capitanear a fidelidade dos cristãos para projetos ideológicos/políticos que se afastam do verdadeiro espírito do evangelho.

Entre tais pensadores se destaca a figura de Thomas Woods, um escritor estadunidense compromissado com a defesa do modelo de civilização americana onde a liberdade – no seu sentido moderno - é tida em grande conta e vista como fim supremo. Woods teve, recentemente, um artigo publicado pelo site do Mises Brasil, organismo dedicado a defensa da escola austríaca de economia de caráter ultraliberal. O artigo se encontra aqui: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1548

O texto em questão é uma suma de erros e de acusações contra a Doutrina Social da Igreja. Cumpre, portanto, refutá-lo.

Para isto faz-se necessário entender sobre que premissas o sr. Woods se assenta para defender a escola austríaca contra a Doutrina Social da Igreja. Segundo o sr. Woods

o pensamento católico enfatiza a razão e sua capacidade de descortinar uma ordem no universo que seria obra do Criador”

Ainda segundo Woods alguns escolásticos viam o livre mercado como uma expressão desta harmonia natural criada por Deus e capaz de ser verificada na ordem natural e física. Logo, segundo Woods, seria perfeitamente viável uma conciliação de livre mercado e pensamento católico. Partindo do pressuposto de que as coisas tem propósitos que foram estipulados por Deus, não caberia ao homem mudar, por exemplo o propósito reprodutório do sexo, para usá-lo apenas como meio de prazer. Não cabe ao homem mudar o propósito das coisas segundo sua vontade arbitrária. Daí Woods concebe que o livre mercado tenha suas leis próprias – a velha lenga lenga liberal, que vem de Adam Smith, de que a economia seria regida por leis naturais e eternas, - e que não cabe ao homem ou ao Estado, ou mesmo a Igreja interferir em seu funcionamento, pois isso redundaria numa quebra da ordem natural estabelecida por Deus.

Este é o cerne da tese de Woods. A premissa e a conclusão são perfeitamente harmônicas mas o problema e que elas partem de falsos princípios e cabe mostrar por que.

É falso dizer que a economia é regida por leis naturais como a física é regida pela lei da gravidade; as leis econômicas não são leis físicas. Ora, era exatamente deste modo que os economistas clássicos – Quesnay, Smith, Ricardo – a enxergavam: como um conjunto de “leis” férreas impostas pela natureza da atividade econômica; partindo daí todos eles naturalizavam a lei de oferta e procura, a idéia de preço natural, entre outras, como verdades eternas da economia.

Todavia, trabalhos como o de Karl Polanyi provaram que tais leis não se achavam em outras sociedades humanas. Para Polanyi, embora mercados sempre tenham existido, foi só no século XIX que se transformaram no princípio organizador da sociedade, emergindo das relações sociais onde, anteriormente, estavam submersos. Logo, antes do século 19, o mercado autoregulável inexistia. Inexistia a lei de oferta e procura como “regra eterna” da economia. Para que a lei de oferta e procura passasse a vigorar foi preciso destruir a ordem social tradicional. Até o período feudal, a ordem na produção e distribuição era garantida por três princípios:

- Reciprocidade ( as trocas devem se basear na comutação, quer dizer, na igualdade de valor; a idéia da busca do lucro, como fim último da atividade econômica, era inexistente)
- redistribuição ( o excedente é redistribuído pelo poder político feudal aos servos; a produção visa amealhar para atender ao bem comum)
- domesticidade ( a produção não visa um mercado mas as necessidades familiares ou comunitárias)

Esses princípios vinham ao encontro de três padrões correspondentes: simetria, centralização e autarquia (autosubsistência).

No medievo o comércio local sempre foi uma instituição cercada de salvaguardas para proteger seus limites. Nessa época, as relações de troca eram apenas uma das muitas relações sociais e obedeciam as mesmas regras morais impostas a todas. Ora, as cidades medievais eram cercadas por medidas auto-protetoras e regulamentações que atingiam, também, o mercado de bens locais. Esta instituição só se liberou dos laços protetores, não através de uma evolução natural, mas sob a ação direta e deliberada do Estado que, nos séculos XV e XVI, impôs às cidades o sistema mercantil, eliminando a separação entre os dois comércios ( o local e o interno, portanto nacional). Estas instituições perderam, então, seu aspecto complementar e se tornaram competitivas dentro de um mercado agora nacional.

Logo o mercado livre não é uma lei natural mas uma invenção política da modernidade gestada por grupos ligados à realeza e às burguesias. O mercado foi uma ruptura com a história econômica da humanidade pois inventou a noção de que o trabalho, a terra e a moeda eram “mercadorias”, idéia esta estranha a todas as economias até então existentes na história humana. Ora para se falar de lei eterna e natural da economia seria preciso que fosse possível generalizar normas como oferta e procura ou preço natural, a partir das experiências econômicas particulares de cada época. Porém jamais uma “lei de oferta e procura” existiu para a terra ou o trabalho em qualquer civilização tradicional, antiga ou medieval. Por cerca de seis mil anos, terra, trabalho e moeda fugiam a considerações de mercado. Foi só com o capitalismo liberal do século 18-19 que ela emergiu, fruto de políticas, ou seja da vontade arbitrária de agentes econômicos/políticos. Mas Woods não alega que mudar a ordem das coisas atenta contra o propósito divino? Quem fez isso foram exatamente os economistas liberais e clássicos que ele admira, pois com suas teorias jogaram por terra uma ordem econômica de seis mil anos.

Percebam que as definições de mercadoria, que é algo produzido para a venda, mudaram com o advento do capitalismo liberal; e nenhum desses três fatores ( terra, trabalho e moeda não são produtos pois não visam o consumo; moeda não se consome mas se usa como meio de troca) o são, logo eles não podem ser mercadoria reais pelo simples fato de que isso é impossível. Essa impossibilidade se torna evidente, para Polanyi quando ele lembra que

... o trabalho e a terra nada mais são do que os próprios seres humanos dos quais se constituem todas as sociedades, e o ambiente natural no qual elas existem. Incluí-los no mecanismo de mercado significa subordinar a substância da própria sociedade às leis de mercado”.

Logo fica demonstrado que:

1- Não existem leis físicas da economia, ou seja, regras que emanariam da própria imanência natural da atividade econômica como normas das quais o homem não pode escapar.

2- A idéia de livre mercado é uma utopia liberal na medida em que rompe com as práticas tradicionais e suas considerações sobre justiça comutativa, regateio, terra, trabalho como não vendáveis em termos de mercadoria, sobre moeda como mero meio de troca, etc. Uma utopia que quer romper com a ordem moral que sempre regulou a economia.

3- O mercado é uma invenção do estado moderno e não fruto de evolução espontânea. Sem que o estado moderno tivesse derrubado as barreiras tradicionais das cidades medievais quanto à concorrência e produção não haveria surgido o mercado nacional nem o internacional.

4-As únicas “leis” da economia não são leis físicas, mas regras morais apropriadas a regular a atividade humana; a economia como atividade de troca entre pessoas deve ter como base uma ética que estabeleça a justiça no âmbito destas relações.

Woods segue sua imensa lista de falácias alegando que Juan de Lugo, um escolástico, considerou que

o equilíbrio do preço” era impossível de ser conhecido ou determinado por um poder qualquer dado que isto envolveria tantas circunstâncias que só Deus poderia conhecer todas elas”.

Lugo, percebam, já raciocina no contexto da era do mercantilismo moderno onde as barreiras protetivas das cidades quanto ao comércio já haviam caído. O “equilíbrio do preço”, aquilo que os liberais e austríacos chamam de preço natural, seria o perfeito espelhamento da oferta e da procura no valor do produto; para Lugo como eram muitas as instâncias envolvidas na determinação do preço era incognoscível estipulá-lo por uma medida estatal ou eclesiástica; assim a noção aristotélica e católica de “preço justo” devia ser abandonada. O justo preço seria o preço de mercado e mais nada. A noção de Lugo preparou a via para a teoria do preço natural de Smith, segundo o qual, o “deus mercado” - único capaz de conhecer este preço justo – o estabeleceria espontaneamente, desde que o Estado não interferisse na determinação do mesmo, ou que a Igreja não sentenciasse um preço justo para as mercadorias. Woods vai asseverar que este “deus mercado” nada mais seria que a Providência Divina! Woods vai mais longe em sua loucura e alega que “os iluministas” como Smith e demais economistas liberais viam os fenômenos naturais como “decretos da providência”. O erro de Woods consiste no seguinte:

1- A idéia de que o preço natural é impossível de determinar a não ser pelo “mercado providência”, abre caminho para aquilo que é a essência do liberalismo: o lucro desmedido através da especulação. Como o preço natural é incognoscível ao vendedor ou comprador tomado em particular, abre-se a via para a aposta na superestimação do valor. Um valor superestimado garante à burguesia industrial nascente, uma fonte de lucro desmesurado e um acúmulo excessivo de capital. Ademais a tese de Smith e Woods de que o mercado regularia, espontaneamente, o valor, é falsa. A práxis do capitalismo real o prova. Smith e seus discípulos liberais consideram a natureza humana desde uma visão otimista onde não tem lugar a noção de pecado original. Neste sentido as naturais maquinações humanas para auferir vantagens e ganhos majorados são desconsideradas no plano econômico. A tendência natural do capitalismo a formar cartéis para aumentar preços e dividir o mercado não são levados em conta. O mercado de carros no Brasil é um bom exemplo: por mais baixas que a demanda por carro sofra, os preços se mantém estáveis. Nesta crise que o país atravessa desde 2014 o preço do carro 1.0 é o mesmo em toda concessionária: em torno dos 40 mil reais; mesmo com menos compradores dispostos a enveredar num carro zero km desde 2014, o preço se mantém, estranhamente, estável.


2- Os iluministas não consideravam providência alguma: a maioria deles era deísta, ou seja, acreditava em um “deus-natureza” onde as forças materiais em sua imanência eram vistas como expressão da divindade; os deístas concebem Deus como mero princípio intelectual que teria ordenado o mundo mas deixado o mesmo caminhar a sua própria sorte (Providência, em sentido católico significa que Deus é um ser pessoal que cuida da sua obra conduzindo-a para um fim); nesta concepção os instintos naturais são encarados como bons em si mesmo. Por exemplo, a vontade de lucrar não deve, dentro desta cosmovisão, ser regulada pois, dada sua espontaneidade natural, precisa ter livre curso.

3-Considerar que a mão do mercado equivaleria a de Deus, dentro do pensamento liberal, é um erro grotesco de Woods. Quesnay e Smith entendiam a “mão invisível” como somatório dos interesses individuais. A “ordem” econômica nasce espontânea da imanência e do cálculo racional de ganhos e perdas, nasce da vontade dos indivíduos. Não nasce de um decreto da providência. A mão invisível é a harmonia natural dos interesses opostos. Da contradição nasce a unidade. O mercado é uma soma de meras vontades humanas. Nenhum economista clássico ou austríaco considerou a providência divina na formulação da tese da mão invisível. Os liberais políticos vão dizer que o Estado e o poder do rei não vem de um direito divino; daí dirão que o poder vem de baixo, do homem, de sua vontade e do pacto social: a lei vem da maioria. Os liberais econômicos alegarão que a economia não se pauta em leis morais vindas de Deus mas sim no cálculo meramente natural e humano: as leis econômicas não podem ser leis morais mas apenas leis materiais.

Para defender seu ponto de vista Woods mente descaradamente sobre a Doutrina Social da Igreja. Primeiro ele negativa a DSI ao dizer que, se ela exige intervenções no campo econômico, ela impede que a mão de Deus – a mão invisível do mercado – ordene as coisas. O pecado máximo da DSI, segundo Woods, é não aceitar que o mercado seja livre de qualquer intervenção. Os papas teriam errado pois quiseram opor a ordem natural colocada por Deus na economia, a uma lista de recomendações morais regulando a ação econômica.

Woods entende que a Rerum Novarum concebe que a “vontade humana” é suficiente para resolver questões econômicas. O maquiavelismo de Woods fica notório aqui. Quem sempre considerou a vontade humana como base da economia foram os liberais e austríacos – a estimação livre da vontade dos indivíduos em torno do valor dos bens, a soma dos interesses voluntários de cada pessoa é a “mão invisível do mercado – e não a Igreja. Ela, ao inverso, concebe que a vontade de ganho deve ser regulada por razões e leis morais que vem de Deus. A economia tem suas leis mas elas são morais e não “físicas”. Entre estas leis temos:

-Justiça comutativa
-Regateio
-Preço Justo
-Bem comum


Logo a DSI não nega a existência de “leis econômicas”: ela nega que tais leis sejam as que nascem da vontade imanente dos sujeitos; as “leis econômicas” são as leis morais eternas aplicadas ao campo da produção das riquezas; a riqueza, na escala de valores, é um bem inferior a virtude. Sua produção e circulação deve ser vigiada de forma a estabelecer a justiça; ocorre que, no mundo moderno, a produção de bens está ordenada, apenas, a atender a tríplice concupiscência, fruto do pecado original.

Woods afirma que

a tradição intelectual católica consiste em adequar as ações à realidade”
Mas o que é a realidade? Mais uma vez Woods insiste na superstição de que as tendências da economia liberal sejam leis da realidade e não convenções úteis para atender a vontade de ganho desmesurado do homem moderno. Na mesma linha Woods faz a assertiva de que os seguidores da DSI pretendem “obrigar a realidade ser o que não pode ser”. Não sr. Woods: a DSI se funda na moral que decorre do Evangelho de Cristo e nos mandamentos. Os seguidores da DSI é que, na verdade, repudiam o desejo como fonte da ordem da realidade, colocando o acento na lei moral: esta lei é que consiste na realidade da vida econômica pois as ações humanas tem um caráter moral. Se a economia não opera, agora, dentro destas leis morais é só por que a natureza humana se tornou desordenada por causa do pecado. E a noção católica de desordem consiste em considerar toda realidade humana sob o prisma dos mandamentos; ora a economia é uma realidade humana, também ela sujeita a vigência dos mandamentos.

Woods para tentar se sair da acusação de que estaria quebrando as tábuas da lei divina, ao advogar um puro liberalismo, vai alegar que “A DSI é contestável pois insere princípios morais nem sempre possíveis”. O senhor Woods tem certa razão: os postulados da DSI só são possíveis se a sociedade se converter. A DSI insta patrões e empregados a observarem a moral cristã para que se dê um ajustamento das relações econômicas. Todavia é exatamente por isso que a DSI não é contestável pois ela nasce da percepção dos papas de que havia uma questão social, nascida de desequilíbrios injustos provocados pela aplicação dos princípios liberais na sociedade e na economia, questão esta explorada pelos socialistas. Os princípios morais elencados pela DSI nem sempre são aplicáveis por conta da corrupção dos costumes provocada pelo contágio do pecado da avareza no mundo da economia; sendo a ação econômica um fenômeno moral, cabe a Igreja dar os antídotos a desordem provocada pela presença do erro e do mal no campo da produção. Tomar o fato econômico como algo neutro em termos morais é o cerne dos erros de Woods.

Partindo destas alegações espúrias, Woods considera que a DSI legitima a intervenção estatal na linha de leis antiTruste ( Ora o que é um Truste senão uma forma de monopólio? É sério que o sr. Woods defende monopólio? Mas isso não iria contra a teoria liberal de que, quanto mais livre o mercado, menos monopólio? Não é o estado que cria os monopólios segundo alguns austríacos? Woods, no entanto, parece dizer que o mercado os gera e que, caso os gere, o estado não poderá dissolvê-los, para bem da economia), aumento do salário mínimo, impostos, regulamentos, etc, o que seria ilegítimo pois impediria o aumento da prosperidade (com salários mais altos o patrão empregaria menos pessoas, segundo Woods). Como o fito da economia é o incremento da prosperidade isto seria um pecado inominável da DSI. Ao mesmo tempo Woods cita artigos do Instituto Mises que supostamente provariam que, mesmo sem um salário mínimo imposto pelo estado regulador, o mercado trabalharia com um mínimo salarial abaixo do qual seria impossível contratar. Toda a argumentação é montada para demonstrar que os adeptos da escola austríaca estão certos enquanto que os defensores da DSI não passariam de idiotas completos. Nada mais falso. Explicamos:

1- Primeiro, é necessário compreender que os austríacos alegam que o trabalho não gera valor mas somente o mercado;

2- Segundo, cabe lembrar que todos os austríacos defendem medidas de enxugamento salarial o que passa por eliminação das leis do trabalho e do salário mínimo, permitindo assim a queda do valor que se paga a um empregado. Para tais economistas esta panacéia traria mais empregos.

Quanto ao ponto 1 se é verdade que o trabalho não gera valor, por que reduzir salários? Se eles não afetam o valor do produto, encarecendo-o, por que defender medidas de austeridade em termos de legislação trabalhista, ou mesmo sua eliminação? Logo admite-se, implicitamente, que trabalho gera valor.

Quanto ao ponto 2 o fato é que, neste contexto nada poderia impedir que o mercado pagasse um salário muito baixo a ponto de forçar as pessoas a rebaixarem, drasticamente, o nível de vida. A tese de que o mercado jamais pagaria menos do que o “necessário” para a subsistência do empregado é problemática por duas razões:

- A primeira, que o nível de subsistência pode ser levado ao extremo. Os fatos ocorridos durante a primeira fase da revolução industrial provam isso. O “necessário” sempre pode ser menos amanhã do que é hoje a fim de atender os ditames da produção e do capital desvinculado de leis morais.

-A segunda que, em tempos de crise, a pressão pela sobrevivência levará os desempregados a se sujeitarem a quaisquer condições de salário e trabalho. Num tempo de prosperidade seria possível admitir que o mercado, deixado livre, pagasse um salário razoável ao trabalhador dada a possibilidade do mesmo de recusar uma oferta absurdamente baixa, coisa impossível em tempos de crise. Para isso servem medida como salário mínimo.

Outrossim um regime de ausência de salários mínimos já existiu: no século 19 a economia capitalista ocidental viveu várias crises cíclicas por conta da falta de expansão do mercado consumidor no mesmo ritmo em que a produção crescia, justamente por falta de políticas de renda mínima que poderiam incrementar um aumento do poder de compra, ampliando o mercado de consumo que poderia, aí, absorver a produção. O efeito disso foi que os países capitalistas europeus tiveram que realocar seu capital excedente na África e Ásia, no que ficou conhecido como neocolonialismo, a fim de manter a engrenagem capitalista funcionando. Enquanto o século 19 assistiu uma crise a cada dez anos, o século 20 – que viu a implementação do salário mínimo - teve apenas duas crises do capitalismo, das quais sobreviveu sem precisar de novos processos colonizadores. O salário mínimo assegurou o aumento do mercado de consumo, puxando a produção e a prosperidade; uma politica de austeridade e redução salarial pode ser algo adotado como emergência, em casos específicos, mas não é uma solução consequente para fazer a economia crescer pois isso exige capitalização o que só pode acontecer se os patrões aceitarem lucrar menos a fim de que o trabalhador forme poupança e assim possa consumir. A concentração excessiva de capital, no pólo empresarial, seria o efeito da não existência do salário mínimo o que nos faria voltar ao contexto do século 19 o que traria um bloqueio ao crescimento do poder de consumo. Mesmo levando em conta somente o aspecto econômico, Woods e os austríacos erram neste aspecto como fica claro acima.

Por fim Woods lamenta que a DSI tenha orientado Paulo VI a estimular os países ricos a financiar desenvolvimento na África da década de 60/70; para Woods a iniciativa resultou num grande fracasso pois acabou financiando regimes despóticos, o que seria a prova cabal de que a Populorum Progressio de Paulo VI e seu apelo político estava errada. Woods então, compara os países africanos com Chile, Coréia do Sul, Hong Kong – que cresceram depois de terem a ajuda internacional cortada - para mostrar que a Doutrina Social não pode conduzir a resultados econômicos. O que Woods não considera é que a Coréia do Sul cresceu aceleradamente graças ao modelo dos Chaebols, monopólios criados e conduzidos pelo estado interventor, quer dizer, mega empresas protegidas pelo estado coreano que deram ao país condições de competir no mercado internacional; a Coréia adotou o modelo do protecionismo. Em suma: a Coréia se desenvolveu aplicando os pressupostos opostos aos da escola austríaca e de Mises, pressupostos defendidos por Woods!

Já Hong Kong está longe de ser um paraíso como quer fazer parecer Woods e seus colegas do Instituto Mises. Hong Kong tem o mercado imobiliário mais caro do mundo. Um cidadão comum não tem meios de viver em Hong Kong pagando aluguel. A maior parte deles compartilha casas de 50 metros quadrados com vários familiares, as chamadas “casas jaulas”. Eis o modelo defendido por Woods.

O patife ainda tem o descaramento de dizer que

baseando-se nessa tese errônea que Paulo VI condenou o livre comércio, negando que este fosse um caminho para a prosperidade do mundo em desenvolvimento”.

Ora os EUA, Alemanha, Inglaterra, França, tornaram-se países ricos no século 19 fazendo protecionismo ao invés de abrir fronteiras – Os EUA no século 19, por exemplo, forçou a abertura do Japão usando sua marinha de guerra enquanto manteve seu mercado fechado a influxos estrangeiros. A tese de Paulo VI não estava errada: a história prova que não. Se livre comércio trouxesse progresso econômico contínuo e fim da pobreza, depois de mais de 20 anos de mundo globalizado, desde a queda do Muro de Berlim, teríamos visto um boom econômico nos países mais pobres o que, evidentemente, não aconteceu.

Para finalizar vejamos duas assertivas de Woods e como elas não podem ser levadas a sério; primeiro ele diz que:

infalibilidade papal é válida para questões de moral e fé, e não para questões econômicas. Um católico não deve negar a autoridade moral do Papa, mas ele também não tem de levar a ferro e fogo toda e qualquer recomendação econômica da Santa Sé.”

Os liberais fazem uso frequente deste sofisma: a DSI é doutrina econômica; a Igreja não é infalível em matéria de ciência econômica, logo a DSI não exige assentimento da razão. O sofisma é velho: vem da renascença e do iluminismo e consiste em dizer que a Igreja não pode se meter em discussões científicas mas apenas se ater ao plano da “salvação da alma”.

Porém é preciso dizer que a teologia católica tem por objeto Deus e Deus revelado. Ora, a teologia é a ciência mater, aquela que estuda os mais altos princípios do ser, pois lida com o Ser Em Si (Deus, fonte de todo o ser) em cima do qual se funda a realidade – dado que ela foi criada por este Deus revelado. Logo é natural que a Igreja pontifique também em matéria científica quando isso afeta a questão da relação entre Deus e os homens ou entre os homens e seus semelhantes, ou quando uma doutrina diga respeito a uma cosmovisão geral do mundo que possa comprometer a fé no Deus criador (O caso Galileu é bem significativo a este respeito). A Doutrina Social da Igreja não é doutrina econômica mas doutrina teológica que deduz, das verdades de fé e moral, postulados de ação econômica dado que economia é ação humana e ação humana deve estar plantada em leis morais. A alegação de Woods é uma falsidade que visa desnortear os católicos e lançar desconfiança e confusão sobre ensinos papais sérios e fundados na revelação e que exigem assentimento. Não existe liberdade quanto aos princípios da DSI. Um “católico” que defenda isto não passa de um liberal, de um negador do poder do magistério de pontificar sobre os mais diversos assuntos que tenham relação direta ou indireta com salvação eterna e com a melhor ordem social possível para favorecer a redenção dos homens. E isso também envolve aspectos econômicos.

Woods continua sua patifaria alegando que

Ninguém que conheça a evolução do pensamento econômico dos membros da igreja ao longo dos séculos ousaria afirmar que há apenas uma visão que constitui a "visão católica da economia"

Woods confunde, deliberadamente a opinião de teólogos escolásticos com encíclicas papais. A posição de teólogos escolásticos sobre quaisquer assuntos não são o parecer da Igreja. O teólogo pode propor vias e auxiliar o Magistério mas não o substitui nem se coloca no mesmo patamar dele. Variedade de opiniões na teologia escolástica sobre economia não autoriza que um católico admita que o trabalho humano – como bem mostrou João Paulo II na Laborens Exercens – seja pago com base apenas na lei de oferta e procura, como defendem os austríacos. Em certos temas não há liberdade de discussão.

Woods continua sua lista de loucura e blasfêmias dizendo que

Contra aqueles que sugerem que um católico deve abordar assuntos econômicos de apenas uma maneira, o professor Daniel Villey nos lembra que "a teologia católica não exclui o pluralismo de opiniões a respeito de assuntos profanos"

De facto: pode haver pluralismo quando o Magistério não se pronuncia. Não é o caso de certos assuntos econômicos já abordados pela DSI.

Woods ainda diz que

Católicos austríacos não dizem que "a nossa ciência econômica é a única católica"; apenas dizemos que aquilo que defendemos e ensinamos não apenas não vai contra o catolicismo tradicional, como na verdade é profundamente compatível com ele”.

Como a escola austríaca poderia estar em consonância com o catolicismo se Rothbard defendia o direito de pais venderem seus filhos (Para quem duvida de que Murray Rothbard, membro da escola austríaca, defendia isso, aí vai - http://rothbardbrasil.com/a-etica-da-liberdade-18/)?

Se Mises dizia que o Evangelho de Jesus Cristo era um manual de socialismo?

Se austríacos não admitem controle governamental sobre juros abusivos ( nunca existem juros abusivos segundo os austríacos)? Se austríacos renegam a noção de preço justo, defendida por todos os papas?

Se austríacos acreditam numa ordem espontânea harmônica nascendo, unicamente, das relações de troca (se isso não é negação do pecado original e a doutrina iluminista do otimismo quanto a natureza humana o que falta para ser?)?

Enfim, o senhor Woods é uma farsa como o é o Instituto Mises. Os católicos devem manter guarda contra as idéias nefastas vindas dele.


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